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mas… tu queres lá ver… parece… é que parece mesmo… que engraçado… é que é mesmo…


e fiquei parada, olhar absorto pousado sobre a minha mão direita. que, de resto, e por cima da luva de latéx

[pequeno parênteses porque de repente lembrei-me de uma história engraçada que merece ver a luz do dia. ou dos LCDs. ou dos pirilampozinhos que existem dentro dos monitores dos computadores e que dão ao rabo activamente para produzir essa mesma exacta luz que banha os vossos rostos aparvalhados neste mesmo exacto momento.]


PEQUENA PAUSA PARA PERMITIR AO CONTADOR DE VISITAS ADAPTAR-SE À QUEBRA ABRUPTA DE LEITORES QUE O BLOG ACABOU DE SOFRER.

estávamos em 2004, eu era estagiária, e pela primeira vez na vida experimentava a intensa sensação de manter as mãos estranguladas num bocado de latéx durante todo o dia. falo, e convém esclarecer já que as únicas mentes que sobreviveram à piada triste e escusada dos pirilampos muito provavelmente são ainda mais retorcidas do que a minha, das luvas de laboratório. eu sou muito cheirinhas, alguma vez vos tinha dito? sou muito cheirinhas. estão a imaginar uma coelhinha                   

ALTO – ANIMAL MAL ESCOLHIDO – REBOOT

uma hamsterzinha (para não dizer uma ratinha, que ficava mal) com aquele narizinho sempre a dar a dar? sou eu. cheiro tudo. cheiro carinhosamente todo e qualquer alimento que leve à boca, cheiro os caminhos que não conheço, antes de vestir qualquer peça de roupa cheiro-a por todos os lados, e acima de tudo drogo-me com aquele cheiro absolutamente maravilhoso que brota do interior dos livros novos. adiante. naquele tempo, eu andava obcecada com o cheiro a latéx que, teimava eu, não me saía das mãos. hoje em dia não noto – deve ter alguma coisa a ver com aquela história do monge que faz o hábito ou o diabo a quatro. enfim. em 2004, num belo serão, entro com o meu namorado numa sala de cinema e, enquanto nos acomodávamos, comento distraidamente “eu lavo e lavo e esfrego e lavo outra vez, mas cheira-me sempre a latéx”. ao que o casal de idade respeitável (ele próprio de aspecto muito respeitável também) do banco da frente se vira para trás (em sintonia – cuidado que os casais de hoje em dia já não conseguem fazer isto) e abana a cabeça, desolado. agora parece um bocado ridículo, mas na altura foi uma história engraçada que valeu uma noite inteira de gargalhadas. ou o meu sentido de humor andava pelas ruas da amargura, ou o raio do filme não valia mesmo nada. adiante.]

 

perdi-me.
ah, já sei: estava parada a olhar para a mão direita que, por cima da luva de latéx, ostentava uma calorosa e colorida gigantesca luva cor-de-laranja berrante. assim toda fofinha, daquelas que não têm pelinho mas parece.

[pequeno parênteses porque de repente achei melhor explicar o que faz uma calorosa e colorida gigantesca luva cor-de-laranja berrante num laboratório de gente séria. ou então no nosso laboratório. é a luvinha que usamos para pegar em material muito quente. já está, siga.]

e eu olhava para aquilo, e pensava, e voltava a olhar… tinha a certeza que aquilo me fazia lembrar uma personagem da rua sésamo. só não sabia qual.

mas… tu queres lá ver… parece… é que parece mesmo… que engraçado… é que é mesmo…


finalmente desisti, até porque não é para a resolução destes dilemas pessoais barra filosófico-humanísticos que o senhor contribuinte paga religiosamente os seus impostos. aceno, veemente, para o outro lado da bancada:
- olha, olha: que animal da rua sésamo é que eu sou?!
ele olha-me, com aquele ar sério e compenetrado que parece dizer isso-que-tu-tens-é-contagioso-ou-a-minha-saúde-mental-está-segura?, e responde:
- és o Poupas!
claro, o Poupas!, penso eu. e caminho feliz da vida para a minha bancada a acenar com a luva e a balançar com o corpo de um lado para o outro, daquela forma absolutamente brutal que só o Poupas sabe fazer e que deu origem ao Poupastyle. mas, e a meio do caminho, faz-se luz:
- ó criatura, o Poupas é amarelo!!
- é laranja, miúda!
- amarelo!
- laranja!
- amarelo!
- laranja!
- amarelo-mil-vezes!
- teimosa!
- amarelo-três-mil-quinhentas-e-sessenta-e-sete-vezes!
- olha lá para a tua mão outra vez… o que te faz lembrar?!
- … o Poupas. mas é estranho, porque eu sei que o Poupas é amarelo. e no entanto, parece que tenho a mão do Poupas. e a luva é laranja. não percebo. o Poupas usava luvas?
foi mais ou menos aqui que eu fui arrastada à força para a sala dos computadores e obrigada a visionar um sketch do Poupas a roer o juízo ao Raul Solnado. pronto, é laranja. mas se há 36 horas atrás eu tivesse que jurar, eu dizia que o Poupas é amarelo. apesar da minha mão laranja me fazer pensar no Poupas. mas eu sabia que o Poupas é amarelo. mas a minha mão parecia a mão do Poupas. mas…pois. a minha mente é estranha. eu própria me perco nos seus intrincados e sombrios caminhos.

de resto, e agora que penso nisso, o Poupas era um bocado parvo demais para ser verdade. ainda prefiro o gualter que, para além de ser de um azul muito esclarecido que não deixa lugar a qualquer dúvida, ainda gosta muito de GINASTICAR!

 

 

[ui, que eu deliro com isto de uma forma tão absolutamente suspeita.]

não tenho sono. não é que me sinta agitada ou ansiosa. um pouco triste, talvez. mas a verdade é que não tenho sono. já testei todas as posições possíveis que a almofada pode assumir sob a minha cabeça, já olhei para o tecto, já fechei os olhos, já desci e subi as escadas três vezes, já fui beber água [e lembrei-me daquele músico de olhos tristes d’As intermitências da morte que todas as noites se levantava e ia à cozinha para beber água mas nunca – nunca – levava água para o quarto agora que penso nisso sei lá eu se o músico tinha os olhos tristes ou não eu gosto de o imaginar assim com um sorriso tímido no canto dos lábios e uma voz meiga e uns olhos tristes] já espreitei para o jardim e vi os meus cães enrolados no sono, já encostei a testa à janela e fiz desenhinhos no vidro embaciado, já me deitei outra vez, já fechei os olhos outra vez, não tenho sono.

faltam poucas horas para a passagem de ano. não que a passagem de ano me entusiasme particularmente: fomos nós que criamos o calendário, logo é uma viragem de página puramente artificial. não sou pessoa de fazer promessas de ano novo. provavelmente, porque não sou pessoa de fazer promessas de todo. mas mastigo as passas devagar e peço os meus desejos: acredito mais em desejos do que em promessas. quando eu era pequenininha, aquele desejo que eu queria mesmo que se realizasse repetia-o várias vezes. acreditava sinceramente que o sacrificar muitas passas no mesmo desejo aumentava a probabilidade dele acontecer. uma mãozinha de criança a agarrar as passas com muita força, não fossem elas cair, e uma vozinha infantil dentro da minha cabeça: quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 1ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 2ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 3ª passa goela abaixo] e por aí fora, até quase esgotar as passas. depois alargava o desejo ao resto da família e amigos, salvaguardando sempre a passa-da-paz-no-mundo, pois claro! de qualquer forma, tenho um carinho especial por essa catarina pequenininha: gosto do jeitinho inocente e simples com que ela pedia as coisas. provavelmente por isso é que volvidos tantos anos e já crescida, a catarina grande continua a pedir o mesmo desejo inicial. e continua a repeti-lo muitas vezes, just in case.

hoje de manhã a minha mãe sentou-se na bordinha da minha cama e acordou-me. disse-me que tinha uma notícia muito triste para mim. disse-me que uma pessoa que nos era muito querida tinha morrido ontem. e eu escondi a cabeça debaixo do lençol e esperei que passasse o sonho estranho, porque é claro que ele não tinha morrido. mas afinal parece que sim. e afinal, parece que toda a gente previa. eu, racionalmente, sabia-o. racionalmente, tinha que o saber. mas o resto de mim, o tanto que não é razão, ia-lhe dedicar 4 ou 5 passas daqui a uns dias, ia pedir que ele mandasse o cancro às malvas porque afinal ele é um homem tão bom que até se escapuliu do consultório para o jardim uma vez com a sala de espera cheia de doentes só para me ir mostrar a sua ninhada de cãezinhos nascida há poucas semanas, só porque ele percebeu que eu estava triste e conhecia a minha paixão por Serras da Estrela. como é que eu choro a morte de alguém que durante 21 anos encostou o estetoscópio ao meu peito e ouviu o meu coraçãozinho bater?

se calhar foi por isto. porque estes raptos da morte à vida nos fazem pensar em clichés estúpidos. na importância de pequenas coisas. de pessoas. dos outros. ou por isso, ou porque eu realmente não tenho sono. lembrei-me do tom ciumento [és impossível, tu!] com que desfiavas as tuas palermices: falas de todos, falas dos teus outros amigos, dedicas posts a todos, e a nós, nada. és fixe, tu, és mesmo fixe. com amigos assim!… vamos lá ver se nos entendemos de uma vez por todas: eu não preciso de nos dedicar nenhum post, porque nós somos inevitáveis. nós existimos e somos assim. às vezes passa mais tempo, às vezes corre mais distância, mas acabamos sempre por regressar. por nos regressar. por isso, não preciso de nos dedicar nenhum post. mas como estou mesmo farta de te aturar, e porque sei que te agradam estas mariquices, o último post de 2007, o fecho do ano, o balanço para contas, isso tudo – é vosso. ou melhor: nosso.

faço as contas pelos dedos das mãos: eu e uma de vocês conhecemo-nos há 16 anos [auch... é por estas e por outras que eu prefiro não saber as datas]; há 10 anos atrás, as outras duas malucas juntaram-se à parelha [ficou uma bi-parelha]. e estávamos formadas: Nós. tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. passaram 7 anos: estamos iguais.

tem piada, não tem? há uma altura na nossa vida em que acreditamos piamente que todas as amizades que fazemos têm o selo do para-sempre. e depois há essa outra altura na vida em que percebemos que para-sempre é mesmo uma porrada de tempo e que as coisas não são bem assim. e percebemos que a vida, essa danadinha, vai divergindo. e um dia esbarrámos na pessoa que se sentou ao nosso lado durante os quatro infindáveis anos da escola primária, e percebemos com uma nitidez trágica que não falamos a mesma língua. que não passa mensagem, porque não existe estrada. que somos diferentes: demasiado diferentes para nos podermos compreender. e quando não há compreensão, tudo o que pode existir entre duas pessoas é cordialidade. nessa altura, pensamos que os amigos se perdem. hoje, portadora de um cabelo branco que nasce ali quem sobe da orelha esquerda, percebo que os amigos não se perdem. não verdadeiramente: fomos amigos de alguém em determinada altura, porque em determinada altura nós e essa pessoa fazíamos sentido. se o deixamos de ser hoje, é por causa do cabelo branco e das coisas em que ele nos faz pensar: é que aquilo que nós eramos cresceu. mas aquilo que nós eramos e aquilo que a outra pessoa era continuam a fazer sentido. não é que os amigos se percam: é só que as amizades, às vezes, têm barreiras temporais. não se perdem, realmente: vão existir sempre, mas dentro dessas barreiras.

e às vezes, existem mesmo fora de todas essas barreiras. 16 anos, 10 anos: ainda estamos aqui. ainda estamos juntas. ainda dizemos disparates [aliás, vocês dizem disparates: a vossa sorte é que têm a minha cabecinha sensata por perto para tomar conta de vocês]. o tempo foi e voltou – estivemos mais próximas, estivemos mais afastadas, passámos noites inteiras a trocar confissões e semanas a fio sem nos vermos. já tivemos vontade de desistir, porque às vezes existir para outra pessoa dá um trabalhão infinito. já estivemos mesmo próximas de desistir, porque eu tenho mau-feitio e sou anti-social, e tu és impaciente e exigente, e tu estás sempre com o teu namorado, e tu tens uma vida complicada e mais do que fazer do que nos aturar. mas não desistimos: insultámo-nos, odiámo-nos por alguns segundos, e depois voltamos. porque nós somos Amigas, e se a amizade não fosse uma grande trapalhada também não tinha piada nenhuma.

tu. sempre foste a mais disponível de nós todas. aquela que mais vezes desafia para um café, aquela que nunca nos deixa morrer: nos momentos de maior afastamento, foste o nosso kit de reanimação – é impressionante a forma como estás sempre lá. de uma forma muito intrínseca, sabes mais sobre cada uma de nós do que nós sabemos umas das outras. e quando alguém está triste, tu estás lá. quando eu achei que tinha encontrado o meu princípe encantado e acabei com o coraçãozinho partido em bocadinho pequenininhos espalhados por um chão enorme, tu apareceste para os apanhar. quando a mãe dela estava internada, quando ela se sentiu desanimada com a vida, tu estavas lá. estás sempre lá. o tempo passa, e tu estás lá. e às vezes chateias-te e mandas vir e amuas como uma criancinha [quase que juro que bates com o pé no chão] e dizes que só tu é que te esforças, que só tu é que lanças desafios, que nós nos acomodámos. que te dizer? – a verdade é que tens razão. é fácil deixarmo-nos dormir quando a sombra do coração que nos abriga é tão Grande, tão Enorme, tão Infinita.

tu. foste sempre a mais decidida de nós todas. enquanto eu tinha medo, e ela não sabia bem o que queria, e ela lutava mas sem grande tempo para sonhar, tu sabias o que querias da vida. aterrava-me a forma como dizias, sem hesitar, que não querias casar: que eras uma mulher de carreira. essencialmente, aterrava-me porque eu tinha os meus sonhos – os meus castelos de nuvens – mas era tudo muito romântico e aéreo. nunca tive a tua visão sensata, racional e decidida da vida. eventualmente, essa parte do não casar amoleceu. ainda bem. e para além disso, a vida decidiu ensinar-te o Medo e a Dúvida: vi-te um dia, e os teus olhos estavam distantes. tive medo: nunca os teus olhos foram distantes. tristes ou alegres, nunca distantes. mas sabes, agora que a tempestade passou… acho que cresceste. estás Maior, sabes? é o que acontece a quem cai e se levanta: nada mais neste mundo é capaz de te derrubar. abalar talvez, mas derrubar nunca: guardas o mundo inteiro no teu peito, é teu.

e tu. foste sempre a mais forte de nós todas. e por muito que eu pense, por muito que eu tente deslindar de onde te nasce essa força tão dorida, tão incapaz de fraquejar, tão inevitável, não consigo perceber. ultrapassas-me largamente: vejo-te ao longe, como uma espécie de super-herói no cume de uma montanha com a capa ao vento. ao teu lado, eu sou pequenina. e mimada. e incapaz. convenhamos: a vida fez-te algumas filhas da putice imperdoáveis. rais me parta se eu hei-de perceber como sobreviveste a tudo sem perderes esse jeitinho especial de dizer uma série imbatível de disparates seguidos sem sequer parares para respirar. tenho-te inveja: nunca vou ter a tua força, a tua serenidade. há uns anos atrás, numa noite de novembro, entrei na mesma capela onde entrei hoje à tarde, só para te ver estrangulada por uma dor insuportável que te rasgava toda. nesse dia, cheguei a casa e escrevi isto:

a noite pousou devagar
sobre o universo apagado das coisas já mortas
[eternamente adormecidas]
e, por um instante,
a Terra cessou o seu contínuo movimento
suspensa no terror do teu pânico
[absurda na tua dor revoltada].

o quanto de ti anoiteceu eternamente naquele instante singular,
denso de mágoa e de amor.
o quanto de ti se rasgou em espasmos de água e sal e dor infinita.
[o quanto de ti.]

mas não me morras
[os teus silêncios calados berram a angústia das dores insustentáveis]
mas não me morras, fica comigo
[eu sempre estive contigo.]


o meu luto é todo pela serenidade Branca e Inteira
[aquela que respirava na luz dos teus olhos.]

Porto, 2004-nov-11

és linda. e és grande. e espero que já te tenham passado os ciúmes todos, porque macacos me mordam [com meiguice, faxabor] se eu tenho paciência para te aturar. ah pois é.

tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. espreito a nossa fotografia de há uns dias atrás, juntinho ao Douro, no nosso jantar de Natal. passaram 7 anos: estamos iguais. tirando o facto de vocês estarem quase-vai-não-vai casadas e mães de filhos e eu ser proprietária de um apartamento e ter um estupor de um cabelo branco ali quem sobe da orelha esquerda, estamos iguais.

 

e este foi o último post de 2007.

 

de certa forma, o primeiro de 2008 também.

 

 

PS: a expressão passa-da-paz-no-mundo tem o seu quê de poético. às vezes surpreendo-me a mim própria.

as renas [o rudolfo e a outra]
e os seus valorosos, vermelhuscos e mui charmosos narizes
desejam a toda a comunidade blogueira

um feliz natal!

[a minha paixão por esta música ultrapassa todos os limites do razoável e roça-se perigosamente nos limites da doença mental... vá lá, agora todos comigo: rudolph, the red-nosed reindeeeeeeeer, you'll go down in histooooory!]


a princípio é simples,
anda-se sozinho.

eu ia escrever um post engraçado, juro que ia. uma daquelas histórias inconsequentes que nos embalam o dia em sorrisos distraídos. ia falar-vos, sei lá, da minha extraordinariamente gigantesca colecção de músicas de Natal com a qual chateio o juízo a toda a gente que me rodeia. ou das magníficas sete versões de Rufoldo, a rena com a penca vermelha, a minha música de eleição que faço questão de cantarolar [repetidamente...] em público. ou da minha paixão-não-consumada por aqueles globos mágicos com cidadezinhas pequeninas lá dentro onde neva muito quando a gente os vira ao contrário, paixão-não-consumada essa que aumenta exponencialmente a cada Natal que passa. ou da hilariante saída do segurança lá do instituto enquanto andava a fazer a ronda e me encontrou sozinha a horas impróprias a trabalhar no laboratório. sei lá, ia escrever qualquer coisa engraçada, juro que ia. mas depois não tive tempo. e depois não tive tempo outra vez. e depois foi na semana passada, já era tarde, estava eu e mais dois resistentes no laboratório, e o telefone tocou. e eu levantei-me para atender.

- estou sim, boa tarde.
- estou sim? seria possível falar com o professor (…)?
- ele já saiu. deseja deixar mensagem?
- ele já saiu? mas eu precisava mesmo de falar com ele!…
- pois, mas ele já saiu. se quiser deixar mensagem, eu…
- mas era mesmo urgente!
- eu compreendo, mas eu não posso fazer nada.
- é que… sabe, eu precisava mesmo de falar com ele. é que eu tinha exame amanhã e queria pedir-lhe para adiar para a próxima semana…
- ahhhhhhh!… então pronto, eu deixo-lhe um recado a dizer que…
- sim, por favor. ele está ao corrente da minha situação. é que eu tive uma sessão de quimioterapia hoje e fiquei cheia de febre, o meu médico aconselhou-me a não me expôr ao exterior.

[e o que é que se faz? naquele momento, quando se ouve aquilo, o que é que se faz? apetece pedir desculpa, mas não se sabe bem de quê. apetece limpar uma lágrima, mas não se sabe bem porquê.]

- eu deixo-lhe uma mensagem escrita no gabinete. e tento falar com ele amanhã logo quando ele chegar, está bem?
- muito obrigada. então boa noite.
- boa noite.

[e apetece acrescentar as melhoras, mas a gente sabe lá. páginas tantas não há melhoras para se desejar, e pousa-se o telefone no descanso com um aperto estranho no olhar.]

[começa-se a arrumar as coisas lentamente, porque já não apetece trabalhar. ouve-se uma voz, parece que a km de distância. mas essencialmente, ouve-se silêncio.
- ...ouve lá, mas tu estás a ouvir sequer o que eu te estou a dizer?!
- não. quer dizer, estou. acho que sim, acho que podes fazer isso assim.
- pronto... o que é que tu tens?
- nada.
- ah, bom. e para além do nada, o que é que tu tens?
- nada, pá! vou-me embora, até amanhã.
sai-se para a noite, experimenta-se o frio o rosto, entra-se no carro, dá-se à chave, desliga-se o rádio, e, num instante de paragem, percebe-se: a minha vida é tão minúscula e mesquinha que se podia passar por ela sem a ver.]

enfim de uma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio

já em casa, a seguir ao jantar, liguei distraídamente a tv. a imagem parou na RTP1, no centro da tua cara. e eu medi a dimensão do teu sorriso, a impossível ternura dos teus olhos vivos e sedutores. oh coisinha-boa, quem és tu afinal? e então a câmara afastou-se para me deixar ver o resto do teu Ser. o resto, feito de metal e de fios eléctricos, a enorme cadeira que te transportava a esperança. percebi-te devagarinho: o teu tronco parado, as tuas pernas imóveis, os movimentos algo desajustados dos teus braços que morriam nas tuas mãos cegas para o mundo, o teu pescoço às vezes quase desequilibrado, e o teu rosto. lindo. e claro que sim, claro que eras feliz. claro que tiveste culpa, claro que tiveste 16 anos e claro que tiveste culpa de beber e sair a conduzir uma mota. claro que foi duro, claro que tens medos. mas claro que és feliz, e claro que adoras fazer mergulho, porque a força da gravidade é atenuada pela água e tu sentes-te livre. claro que adoras fazer mergulho, porque a força da gravidade é atenuada pela água. claro que adoras fazer mergulho. e claro que és Feliz. claro que és Livre.

e eu aperto-te entre os meus dedos cansados. e gasto a revolta em lágrimas estéreis: pudera eu, por um instante que fosse, ser Feliz como tu. Bonita como tu. mas tu és muito Maior que eu – tu és muito maior que a Vida – e o teu sorriso é apanágio dos deuses.

e entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa

para a próxima eu escrevo um post engraçado, juro que sim. uma daquelas histórias inconsequentes que nos embalam o dia em sorrisos distraídos.

mas assim para já, vou regressar ao silêncio dos postais de natal.

isso.

há momentos tão instantâneos como dolorosos. há espaços que, mesmo no centro da cidade, são só meus. há beleza em contar os passos. e os silêncios. e em ficar subitamente sozinha no meio da multidão barulhenta.

há beleza nas coisas pequenininhas. nas coisas pequenininhas dentro das coisas pequenininhas. nas coisas que se seguram numa mão fechada.

right now
it’s feels like forever can’t wait
right now
it’s looks like tomorrow too late
to meet those expectations
ones that have never unknown

right now
it’s high not to fall out of place
you make me wrong
have I fallen from grace
what you do for yourself
you expect to someone else

I heard that love is a verb

right now
it seems quite cold hearted
but how did my grieving
before we parted
the ground where we lay
and hope to my heart you could stay


senti-te sempre perto. tão perto como se a tua melancolia, ao respirar, arrancasse bocadinhos meigos da minha pele. mesmo eu longe, tu estavas lá. mesmo eu perdida, a tua mão sobre a minha.

a tua intensidade, a tua beleza, os teus soluços violentos arrancados do fundo de um qualquer sonho de amor.

[e eu estive longe – tão longe de ti.]

conheço-te de cor as linhas e os horizontes, as pequenas rugas e tudo o que extravasa do teu sorriso triste e meigo.

sei-te a enorme melancolia dos abraços inacabados, do amor que dás e não recebes, do brilho duro da pedra em que renasces.

e morres.

reconheço-te meu, como me reconheço tua.

vejo-te às vezes de longe, às vezes de perto, e de longe ou de perto sei-te irremediavelmente intrínseco em mim.

olho-te uma vez mais, como se não acabasses nunca.

e no fundo calado da tua alma, grande como a tua noite, agita-se suavemente o terrível Orgulho de se Ser Português.

Porto, Património Mundial da Humanidade (por declaração da UNESCO a 4 de Dezembro de 1996).

[1, 2, 3, já cá 'tamos outra vez!]



… se oye hablar de un canto de mujer…

Sou a SOMBRA de mim mesmo,
à procura daquilo de que é
sombra.

Paro às vezes à beira de mim próprio
e pergunto-me se sou um doido
ou um mistério muito misterioso.

Fernando Pessoa

…luna canta para el
amanece y cuentan que
en los dias de calor
el sol muere de pasion
el mar son lagrimas que hizo llover
la voz de la tristeza es deray…


[trabalho, gente. guardem lá as caretas para outra altura porque é em trabalho.]

[e a avaliar pelo horário do dito cujo trabalho - um belíssimo e estonteante das 9am às 8pm - isto é o máximo de luminosidade que eu vou conhecer da cidade. rima e é verdade.]

às vezes, uma vida inteira de mãos algo trémulas resume-se a isto: as 9 palavras e o ponto final, parágrafo, que se querem ver surgir no fim de um relatório de uma biópsia.

Não se observam alterações de metaplasia, displasia nem malignidade.

como uma redenção.

estava atrasada e triste, aborrecida e algo apática, era um dia em que simplesmente não me apetecia existir. entre os restos da chuva que mergulhavam em mim, atravessei o pátio em direcção ao portão verde que conheço há 25 anos. num gesto mecânico, abri a portinha engraçada que dá acesso a um mundo atafulhado de facturas e extractos bancários, agora que as cartas e postais são coisas semi-esquecidas na gaveta das recordações atrasadas. entre os envelopes dobrados, forçados a fazerem-se mais pequenos entre a pala e a mão do carteiro, o meu nome. completo, como eu raramente o escrevo. olhei para o remetente e pensei. pensei que a chuva sabia tão bem, ali a entranhar-se no cabelo, ali a escapar-se pela camisola, ali a escorregar devagarinho pelas costas. abri a carta assim mesmo, de pé. nos dias anteriores tinha pensado como iria ser quando tivesse aquela carta nas mãos. se a ia conseguir abrir imediatamente, se ia olhar para ela durante muito tempo, se ia conduzir até à praia para me sentir imensamente sozinha e capaz. mas abri a carta assim mesmo, de pé. procurei, apressada, as 9 palavras e o ponto final, parágrafo, que haviam de devolver à chuva a minha alma. a atrapalhação foi tanta que elas me fugiram nos primeiros instantes. até pousar sobre elas, levemente, o meu cansaço.

Não se observam alterações de metaplasia, displasia nem malignidade.

a vida é suficientemente cruel para nos fazer amar a chuva. e para se resumir a 9 palavras e um ponto final, parágrafo, numa manhã mal nascida.

[ainda me apetece chorar um bocadinho porque me lembro de cada momento como se ele não se tivesse ainda esgotado em nós. lembro-me daquela quinta-feira de manhã, lembro-me que tínhamos aulas às 10:30 nos Leões, lembro-me que quando acordei tinha uma mensagem tua no telemóvel: escrevi-te um mail, vai ver quando puderes. e eu soube, naquele preciso momento, que alguma coisa estava estranhamente errada na ordem universal das Coisas, porque tu sabias que eu via o mail com regularidade, e só enviarias aquela mensagem se de repente estivesses com medo ou sei lá, se de repente tivesse acontecido alguma coisa ou sei lá, se de repente estivesses doente. ou sei lá. por isso eu corri para o computador e abri o mail e li a tua mensagem com fome de pobre. e cada palavra tua enterrava-se devagarinho cá dentro, amarfanhava, magoava. no fim, no teu abraço, não te preocupes de despedida, eu era uma poça de sangue triste. nada mais. lembras-te daquela tendinite que eu tinha na perna e que me fazia mancar? é que afinal não é bem uma tendinite. minha amiga, minha querida, minha pessoa tão linda e tão especial. não fui à aula das 10:30 nos Leões. lembro-me de ter chorado aquilo que não te sabia dizer. a tua coragem, a tua coragem, criatura, a forma como tentavas desconstruir o drama, a forma como repetias constantemente não te preocupes, como se eu fosse a ferida aberta naquela história, e eu sangrava, sangrava, porque me fazias tanta falta e ainda agora tinhas ficado doente, e ainda agora nem sabias se tinhas ficado doente, mas já me fazias uma falta tramada quem sobe do lado esquerdo, e eu sentia-me perdida como nunca antes, o eco das tuas palavras escritas mas não ditas e ainda assim o eco das tuas palavras na minha cabeça, é do tamanho de uma laranja grande, dias depois as tuas duas mãos em arco a exemplificar, é assim, do tamanho de uma laranja grande, uma laranja grande, e eu abismada, eu a pensar como é que a coisa podia ser tão grande, eu com medo, eu a sangrar inteira por dentro e a admirar a intensidade da tua coragem e a não saber o que te dizer. à noite eu telefonava-te, contava-te as coscuvilhices da faculdade, e tu contavas-me os resultados da biópsia que mais uma vez tinham dado inconclusivos, e depois rias-te e pedias-me mais pormenores, e chegavas a consolar-me a mim, que ridículo meu Deus eras tu que me consolavas a mim porque eu morria de medo da coisa que tu tinhas a crescer dentro de ti, tanto medo, amiga, tanto medo, sentia-me tão pequena e tão impotente, quando tudo o que eu queria fazer era arrancar-te a coisa a ferros, tirar-te esse sal de lágrimas que tinhas entranhado em ti, a laranja grande, rasgar a laranja grande do teu osso, da tua vida, e se ela tivesse mesmo que ir para algum lado, se ela não pudesse desaparecer de uma vez e morrer no esquecimento eterno, se ela tivesse mesmo que ir para algum lado, olha, eu punha-a em mim, porque eu faço muito menos falta ao Mundo do que tu, não digas que não, é verdade, os Leões, os Leões são tão grandes e majestosos, e pareciam tão pequeninos quando não estavas lá connosco, tudo parecia tão pequeno e tão deslocado, tudo parecia tão mesquinho e ruim, e eu pensava que não podia ser, que uma laranja grande era simplesmente grande demais. e no hospital, quando eu te fui ver no hospital, ai amiga, ai que estavas tão pequenina, ai que não parecias tu, ai que te afundavas naqueles lençóis brancos e eu que não te conseguia puxar, que não te sabia puxar, que não te sabia salvar. e finalmente, depois de o extraírem, o resultado final da análise: era benigno. minha amiga, era benigno, minha coragem, minha Mulher, minha força da natureza, era benigno. e tu, deitada na cama do hospital, com muitas flores na mesinha de cabeceira, tu com os olhinhos a fecharem-se, estavas tão cansada, tu ainda a contares que acordaste durante a operação, que a anestesia não tinha sido suficiente, que ouviste os médicos a falarem, que sentiste o osso, que engraçado, sentir o osso, e depois alguém te deu mais anestesia e voltaste a adormecer, e depois houve aquela confusão toda porque não havia enxerto de osso suficiente, não, isso foi antes, e foi por causa disso que a anestesia não chegou, porque a operação se alongou muito. mas era benigno, a laranja grande era benigna. e tu, muito cansada, os olhinhos a fecharem-se, a agradeceres a visita, como se, como se eu não estivesse ali por mim, como se o tu estares bem não fosse uma imposição da minha alma, como se eu não precisasse definitivamente de ti de pé, a caminhares, tiveste que reaprender a caminhar, tiraram-te uma laranja grande do osso, e tinhas dores, tiveste tantas dores, mas já não fazia (tanto) mal porque era benigno, e tu na cama do hospital, tão pequenina, tão cansada, os teus pais, também cansados, a tua irmã, tão preocupada contigo, a fazer-nos sinal, ela precisa de descansar, claro que precisa, é verdade, como está a tua irmã, e o teu sobrinho, deve estar enorme, a tua irmã que eu nunca tinha visto antes era aquela pessoa bonita e extremamente parecida contigo que parecia sofrer no corpo dela as tuas dores. e depois fui-me embora do hospital, porque a laranja grande afinal não era má, e tu reaprendeste a caminhar, porque não há nada que tu não consigas fazer, e no meio disto tudo acho que me esqueci de te dizer que és uma das pessoas mais Lindas que eu conheço. e que a tua Coragem não tem nome nem sítio. e que a tua Força é meiga como a primavera mas intensa como o mar. e não morre. não, nunca morre.]

9 palavras e o ponto final, parágrafo.
Não se observam alterações de metaplasia, displasia nem malignidade.
e se se observassem, catarina? e se?

não sei se o mais assustador é o eu não saber responder a esta pergunta.
ou se é o eu saber.




em itálico, um dos meus poemas preferidos de Eugénio de Andrade.

[nunca, Eugénio, nunca. nunca o-meu-o-teu-o-nosso portugal que cheira a amoras bravas no verão conheceu quem cantasse o amor com semelhante magia e arrebatamento de alma. desenhaste a eternidade em palavras.]

Tu és a esperança, a madrugada.

Nasceste nas tardes de setembro,

quando a luz é mais perfeita e mais doirada,

e há uma fonte crescendo no silêncio

da boca mais sombria e mais fechada.

chegaste num sopro levezinho de vida. os teus passos têm tanto de único como de extraordinário: caminhas como se a Vida te pertencesse. como se o teu canto no mundo tivesse a perfeição das eternidades a caminho [continuamente a caminho, meu amor]. chegaste e um vento manso de alegria meiga sacudiu-te o sorriso. e pegaste-me na mão, vem. quero-te mostrar uma coisa. [mas que outra coisa para além de ti, que outro horizonte para além do fundo dos teus olhos, que outro sorriso para além da tua existência, que outro espanto para além da tua mão na minha, vem.] e eu segui-te, interminável no espanto de cada gesto teu.

Para ti criei palavras sem sentido,

inventei brumas, lagos densos,

e deixei no ar braços suspensos

ao encontro da luz que anda contigo.

levaste-me pela mão por entre aqueles caminhos que eu conheço de cor mas que entretanto fui abandonando, aos bocadinhos, ao mesmo tempo que a minha inocência se foi rasgando em pedaços incertos de um pano branco. [e flutuaram ao vento até morrerem num horizonte que nunca foi o meu.] olha um segredo, lê os meus lábios: às vezes, ainda gosto de lançar bocados de mim por esses caminhos. mas os meus olhos já perderam essa graça funda do primeiro parto que brilha nos teus. tudo o que me mostras é intensamente novo em ti. partilhas comigo um baton de cieiro cor-de-rosa, não, dois, olha mad’inha!, e nas tuas mãos pequeninas aqueles dois tubinhos rosados são um milagre de ternura que prende a tua atenção até ao infinito da surpresa. tudo o que me mostras é intensamente novo em ti. um dó isolado no meio do piano, olha mad’inha!, muito bem, criatura, muito bem!, e tu baixas os olhos transbordantes de orgulho, tu foste capaz, tu aprendeste o dó, aliás, aprendeste todos os dós, olha mad’inha, os dós a subirem a montanha!, e lá iam eles, encarreirados, teclado acima, quase que os imagino de gorro verde [có-rosa, corriges tu, num ar subitamente preocupado] e mãos dadas, a cantar, de sétima em sétima, até chegar ao primeiro, que imagino alto e estranhamente magro, o primeiro da fila que puxa os dós montanha-acima e é puxado montanha-abaixo. olha um segredo, lê os meus lábios: até hoje, eu acreditava que tinha uma certa cultura musical, essencialmente baseada na necessidade que tenho de uma constante banda sonora em mim. isto até descobrir o teu mundo de dós alpinistas: agora sei que não percebo nada disto, e tu é que guardas em ti a dimensão da magia de uma pauta musical. só com uma nota, um dó. [uma não, muitas!, corriges-me outra vez, e eu acho desnecessário explicar-te a teoria da coisa.]

Tu és a esperança onde deponho

meus versos que não podem ser mais nada.

Esperança minha, onde meus olhos bebem,

fundo, como quem bebe a madrugada.

e depois, já a caminho da porta, mas não, faltava uma coisa, voltas para trás, voltas para mim, abres a mochila pequenina, abres um bolso ainda mais pequenino dentro da mochila pequenina, tiras um papel dobrado em vários, desdobras com a paciência das tuas eternidades todas, entregas-mo olha mad’inha pa’ ti!, que lindo desenho, criatura. quem é?, e tu muito rapidamente és tu!, e depois corres para a porta porque a tua mãe já te chama e o teu irmão já te chama e tu és uma menina responsável.

sou eu. desenhaste-me a mim. e eu fico parada a olhar o que de mim tu percebes.


é assim que eu sou, aos teus olhos. as perninhas são curtas, porque as pernas não interessam muito e se fossem muito compridas eu ficava muito longe de ti para te pegar ao colo quando os meus gatos se aproximam com ar matreiro e tu te entregas aos teus medos e ao meu abrigo. as perninhas são curtas porque assim dá mais jeito e pernas compridas não servem para nada, pronto. o tronco é longo, para tu poderes trepar ao longo de mim e adormecer inteirinha no meu colo. os braços – ah, os braços. os braços chegam para dar a volta ao mundo! que braços compridos me deste, criatura, quantos abraços eu não podia criar com estes braços mágicos que me confiaste. e o sorriso. rasgado na cara, a peça decisiva no rosto. não se vê mais nada, perde-se o nariz, as orelhas, o queixo, os olhos. sobreTudo, o sorriso. em cima do meu ombro, a minha mãe desenhou-te feliz, olha como ela te desenhou feliz. é porque quando estás com ela, estás sempre a sorrir. aos teus olhos, eu sou feliz. meu amor, minha esperança: aos teus olhos, eu tenho o sorriso largo de felicidade.
ainda corro atrás de ti porque de repente não percebo ó criatura, estas coisas
aqui no cabelo são o quê? são t’anças mad’inha!, claro que são tranças, são as minha tranças, as duas tranças que faço quando me apetece ter a tua idade e brincar às escondidinhas com o resto do mundo. dei-me conta, de repente, que não faço tranças há algum tempo. [desculpa: t’anças.] vou tratar disso.

outro dia perguntaram-te o que querias ser quando fosses grande. tu, do alto dos teus dois cromossomas XX que não enganam ninguém, respondeste com a certeza das grandes decisões: cabele’leia!

a mim, já ninguém me pergunta o que eu quero ser quando for grande. nem mesmo quando eu faço duas tranças, uma de cada lado. mas se me perguntassem, juro. se me perguntassem [olha um segredo, lê os meus lábios] eu dizia que queria ser exactamente [bocadinho por bocadinho] aquilo que tu vês em mim.

tudo aquilo que só tu vês em mim.

[e eu estou tão longe, criatura. tão longe.]