os domingos à tarde têm esta espécie de sobriedade espessa que se entranha no respirar. como se o nosso olhar se pudesse prolongar pela ausência de tempo, ou simplemente a terra girasse mais devagar. são lentos, os domingos à tarde. lentos e enevoados, como se os nossos olhos repousassem serenos no absurdo e pudessem escolher silenciosamente a dimensão do sol. como se.

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Eu nem sei o que procuro. O que sei é que procuro.

Eu, normalmente, não gosto de certezas.

Não posso.

Tanto que um dia destes fui ao oftalmologista e disse-lhe:

Olhe, sou pintor e preciso de ver bem.

Mas não me ponha a ver bem demais.

(…)

Eu gosto muito das coisas que não se vêem todas,

que não são totalmente perceptíveis.

Júlio Resende, entrevista à Pública, 10.02.08

pois. eu também.

este tinha que vir para aqui. mesmo que a má qualidade fotográfica berre de dor por todos os pixeis. mesmo que mais ninguém para além de nós consiga perceber o que lá está escrito. mesmo que sim. porque afinal, são estes pequenos momentos de cumplicidade conseguida que valem a pena. que ficam. mesmo que os demoníacos anticorpos teimem em nos trocar as voltas. whatever. cola e descola.

e um dia [prometo] deixo-te um post-it com toda a minha interminável e esquizofrénica lista de smileys-ao-contrário. uma boa cábula para teres sempre à mão, quando o teu telemóvel apitar [nunca vibrar] e aparecer no pequenito LCD nova SMS de miudita MCA.

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[a propósito: belo post-it. cor do Poupas, pois claro.]

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[era só para saber.]

modelo felino: ronaldo, o gato que acredita no poder da mente. 

comenta-se por aí, nas esquinas dos corredores atarefados, que o post-it foi inventado por acaso. que o senhor Spencer, homem dotado de espírito criativo e jeitinho de mãos, ansiava pelo Santo Graal do cola-para-sempre-e-nunca-mais-descola. e a meio do caminho, esbarrou com esta cola que, como não quer a coisa, até descola. mas depois, e com jeitinho, volta a colar. e volta a descolar. e volta a colar. e vive neste eterno ciclo de nunca se apegar verdadeiramente às coisas, mas de conseguir existir em todo o lado [quase] ao mesmo tempo. o senhor Spencer olhou para o que tinha criado e viu que aquilo era bom. e passou 3 anos a percorrer seminários e eventos promocionais, a tentar que os supérfluos descrentes aderissem à sua descoberta-por-acaso e fizessem dele um homem estupidamente rico. mas a raça humana é dura de ouvido e recusa-se a entrar em novas ondas assim sem mais nem porquê. até que certo dia o senhor Fry [que se apresenta nesta história como amigo do senhor Spencer], que era o que actualmente nós chamamos de GT [grande totó], pensou que se colasse um post-it na parte de trás do seu marcador do livro de Hinos não precisava efectivamente de o deixar cair de cada vez que abria o dito cujo. está bem que isso lhe dava oportunidade para espreitar o decote da virtuosa viúva que ocupava o lugar ao lado do seu no coro da igreja, mas o senhor Fry, não obstante ser GT, também era um homem sério, e preferia manter-se afastado das danosas tentações demoníacas. como é que desta utilização divina e respeitosa o post-it passou do seu triste anonimato para os mais elevados círculos da fama, aí é que a história me falha. a mim e ao wikipédia. ou se calhar não falta ao rapaz-wiki, eu é que não estive para ler o artigo todo.

adiante. eu gosto de post-its. gosto de colorir as coisas-que-eu-tenho-que-fazer-sem -falta-nas-próximas-horas em papéis animados, quase sempre vai-não-vai para descolar, espetadas nos mais estranhos sítios. uso-as muito no trabalho: “faz ampicilina”, “recolha de céls às 15h”, “seminário 12h”, “preparar app deadline ontem” etc e tal.

e depois, existem aquelas coisas que nos deixam com um sorriso suspenso logo pela manhã e que nos fazem acreditar que, não tomemos nós cuidado, e vamos viver um dia daqueles que efectivamente valeu a pena viver – e não é só porque à noite passa o último episódio do House. pequeninos post-its enfiados no meio dos outros, na confusão da minha secretária, com mensagens perfeitamente inúteis e dispensáveis: daquelas que nos fazem ter a certeza que, diacho, existe gente bonita. e maluca. e nos fazem ter vontade de ter para sempre 25 anos, e para sempre mandar e-mails aparvalhados assinados a fundadora original e tirana absoluta da associação não governamental o-poupas-é-amarelo-e-eu-não-quero-mais-conversa-carago!. e que, diacho, vale a pena acordar nem que seja só para ver um post-it animado a desejar-nos bom dia. e responder com um berro sorridente para o outro lado do laboratório. cola-descola.postas.jpg

no dia 30 de outubro de 2006, às 5:41am, quando este blog ainda se chamava incontinências de uma bióloga no umbigo da laranja, eu escrevi o seguinte:


[...]

ok, catarina, vamos lá rever – com MUITA calma – aquelas regras da vida que tanto te doem:
- não, o rolo do papel higiénico não tem perninhas e não se muda sozinho quando chega ao fim;

[...]

eram, na altura, quase 24 anos a imaginar que o dito cujo tinha a independência dos grandes amigos: ao sentir a última folha descolar-se suavemente do rolinho de cartão, imediatamente saltava fora do seu elegante suporte e corria para o lixo azul, mas não sem antes bater 3 vezes com os nós dos dedos na porta do armário da casa de banho para avisar um dos seus coleguinhas que era hora de se sacrificar a bem da higiene mundial. era, confesso, uma visão linda e inocente do mundo em que vivemos. um ano e picos volvidos, muitas experiências de sim-sou-uma-gaja-solteira-e-vivo-sozinha passadas, o regresso a Portugal e a casa dos pais, ainda não perdi a capacidade de me surpreender com as enormes lições que a vida me dá. a última metia 9 [eram 9?] pinos e umas bolas com 3 [eram 3, isso eram] buracos.

o que é que se pode aprender no serão de uma terça-feira aos saltos numa pista de bowling? fácil: quando fores jogar bowling, são aconselhadas calças compridas. SE eventualmente quiseres MESMO muito vestir corsários com botas de cano alto [tipo: se a tua vida depender disso], escolhe umas meias DISCRETAS e de cor NEUTRA. pronto, destino: aprendi a lição.

é que de resto, até o Obelix sabe que a ter que usar riscas [tipo: se a tua vida depender disso], o melhor são as verticais, porque emagrecem.

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e perguntam vocês, incrédulos: mas as tuas palhaçadas numa pista de bowling fazem-te pensar em papel higiénico. não, confesso eu. o que me fez pensar em papel higiénico foi um telefonema que recebi na quarta-feira ao final da tarde, que começou por estou sim, sra dra catarina? é para informar que já marcámos a data da escritura da sua casa. e é isto: uma dívida de mais anos do que aqueles que eu me imagino viver ao banco, uma janela de 5 metros de comprimento voltada sobre o mar, uma varanda a cheirar a água e cloreto de sódio, um pedaço inteirinho de chão que é só meu, o rapaz jeitoso que foi ao meu laboratório aprender a fazer westerns a 3 metros de distância, e tudo o que a minha mente consegue desenrolar é um enorme, macio, flexível e branquinho rolo de papel higiénico. sem Labradores bebés nem nada.

apoio o tornozelo direito no joelho esquerdo e espreito: hoje tenho umas meias azul-cueca, com umas vacas muito sorridentes que têm um balde de lata enfiado nos cascos a dizer mjölk. alguém quer vir jogar bowling?

caminhar descalça. encostar a cara à barriga de um gato. enfiar-me na cama numa noite de chuva a ler um bom livro e a roer uma maçã, bocadinho a bocadinho. enfiar um gorro de malha muito quentinho e enrolar um cachecol de 3 metros à volta do pescoço. sair do mar, sacudir a cabeça, e sentir o cabelo molhado a escorrer gotinhas meigas de água&sal costas abaixo.

são aqueles pequeninos prazeres que me fazem sentir como se alguém me estivesse a fazer festinhas do lado de dentro de mim. aquelas coceguinhas meigas algures entre os joelhos e a raiz dos cabelos. eu gosto.

ouvir música. sem dúvida, um dos meus grandes [enormes] pequeninhos prazeres. a música acompanha-me: muito. em miúda andei num conservatório, mas, e porque a natureza é cruel, nunca tive grande jeito para a coisa: o meu irmão, nascido dois anos, seis meses e um dia antes de mim, arrastou consigo todos os genes do talento musical. ficou-me a paixão. ‘tá bem, pode ser, eu sobrevivo com isso. em todos os momentos da minha vida, existe algures num cantinho do meu cérebro um gerador de bandas sonoras que vai desfiando uma após outra as músicas adequadas a determinado momento.

quando penso nisto, acho que somos o que respiramos. e eu sempre respirei muita música em casa dos meus pais. talvez este jeitinho tão intrínseco de gostar de música não seja mais do que uma continuação do jeitinho tão intrínseco do meu pai gostar de música. agora que penso nisso, somos muitos parecidos. não só no extremo mau feitio e na forma pouco delicada com que comunicamos com os senhores condutores que fazem asneira/engonham o trânsito [riscar o que não interessa] perto de nós, mas também na forma como fixamos o olhar num impossível horizonte de uma parede branca, fechamos os olhos, e ouvimos a música de que gostamos trepar-nos devagarinho até cá acima. haverá, assim que me lembre, duas diferenças brutais nesta última semelhança. a primeira é que, por muito que o tempo passe, o meu bigode recusa-se a crescer e o bigode do meu pai recusa-se a desaparecer. a outra é que eu gosto de covers e o meu pai tem uma certa tendência para não-está-mal-mas-não-sei-perdeu-qualquer-coisa-a-versão-original-era-melhor.

eu reconheço: há mais arte no compôr uma música desde o seu nascimento, embalá-la nos momentos de falta de sono, abraçá-la quando ela tem medo, lançá-la ao mundo quando está preparada. mas eu não consigo deixar de pensar que também há muita magia em pegar numa música, despi-la peça a peça [nota a nota, palavra a palavra] e fazê-la renascer tal como sempre acreditamos nela. talvez o que o autor tenha querido dizer se tenha perdido entretanto, mas não faz mal: a versão do autor existirá sempre, e a outra é tão só exactamente aquilo que nós queremos dizer com as palavras do autor. que se lixe: gosto de covers. gosto de ouvir músicas que aprendi a conhecer de cor em roupagens completamente diferentes. gosto, até, de ficar chocada com um tratamento um pouco mais estranho. gosto de redescobrir, e que diabo: as covers são a mais perfeita forma de redescoberta de música.

aqui há tempos, numa manhã em que chovia desalmadamente, o markl [essa grande personagem que tem o condão de não me deixar adormecer nas intermináveis filas de trânsito matinais] apresentou-me o novo cd dos The Bird & The Bee, atravês de um verdadeiramente impressionante Polite Dance Song [o que me causou um extremo arrependimento relativamente àquela que havia elegido como melhor música de 2007 num inquérito feito pela rádio da minha preferência]. antes [ou talvez depois, não me lembro] de passar a música, o markl passou também uns segundos de uma cover que estava no mesmo cd. o original em causa era o que habitualmente eu classifico como uma GCC [Grande ChaChada], o How Deep is Your Love, um ícone do final dos anos setenta e possivelmente o maior sucesso do trio de manos de voz fininha também conhecidos como Bee Gees. confesso que, para minha admiração, fiquei admiravelmente surpreendida. corri a arranjar o cd e nesse mesmo dia à noite deixei-me maravilhar [eu e o maravilhoso botão repeat] com a candura, a meiguice e o aconchego desta versão. adoro o jogo de vozes, a respiração, o minimalismo, a suavidade arrasadora de tudo: mais do que um pequeno prazer, são três minutos e vinte e cinco segundos de Pleno Prazer…

… para mim. para vocês são 30 segundos de amostra porque enfim, já se sabe: cada um tem o que merece.

[esta música sabe a nuvens branquinhas muito doces num céu delicadamente azul. gosto.]

1. [título alternativo: os intrincados caminhos da minha mente parte dois]

na noite de sexta para sábado, ou seja exactamente após o episódio-Poupas que marcou o final da minha semana anterior, sonhei que estava na minha casa nova. e que tinha um peixe dentro de um daqueles aquários muito redondos e muito monótonos. e que ia levar o peixe ao veterinário. e chegava ao veterinário e tinha que preencher uma fichinha. e o veterinário perguntava:

- então e o peixe, como se chama?
e eu respondia:
- Peixe.
e o veterinário perguntava:
- Peixe?
e eu respondia:
- sim, Peixe. mas é Peixe 9 vezes.
e o veterinário perguntava:
- Peixe 9 vezes?!
e eu respondia:
- pois. chama-se PEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIXE, peixe-peixe-peixe-peixe-peixe- peixe-peixe-peixe.

[lembram-se das euronews que costumavam passar na RTP2? lembram-se daquelas que eram no comment? pois.]

2. hoje acordei, olhei ao espelho, e pensei: lindas olheiras, sim senhor catarina, mais um bocadinho e chegavam-te ao umbigo. depois olhei de soslaio o cestinho azul onde tenho os chamados produtos de beleza. ainda peguei naquele rímel fantástico que acrescenta 3 metros de comprimento e 2 de espessura às minhas pestanas, o que pelo menos ajuda a realçar o “castanho da menina do olho” em vez do “castanho debaixo do olho”. mas depois pensei, entre dois bocejos: naaaaaaaaah… se ponho isto agora, logo à noite tenho que tirar.: trabalheeeeeeeira! e fui trabalhar de carinha lavada, olheiras e tudo.

eu de manhã penso devagar, mas penso!

[again: no comment.]

3. é engraçado como tem tanto jeito para lidar com crianças, catarina.

eu passei a mão pelo pescoço e fiquei a pensar que engraçado era aquele. se era um engraçado como em gracioso. ou se era um engraçado como realmente-tão-mau-feitio-mesmo-insuportável-nariz-arrebitado-fala-barato-e- lida-bem-com-crianças-engraçado-de-facto.

pelo sim, pelo não, joguei pelo seguro.
- é. crianças e animais, sabe? são os únicos seres vivos com quem consigo um convívio saudável.

[‘tá feito!]

mas… tu queres lá ver… parece… é que parece mesmo… que engraçado… é que é mesmo…


e fiquei parada, olhar absorto pousado sobre a minha mão direita. que, de resto, e por cima da luva de latéx

[pequeno parênteses porque de repente lembrei-me de uma história engraçada que merece ver a luz do dia. ou dos LCDs. ou dos pirilampozinhos que existem dentro dos monitores dos computadores e que dão ao rabo activamente para produzir essa mesma exacta luz que banha os vossos rostos aparvalhados neste mesmo exacto momento.]


PEQUENA PAUSA PARA PERMITIR AO CONTADOR DE VISITAS ADAPTAR-SE À QUEBRA ABRUPTA DE LEITORES QUE O BLOG ACABOU DE SOFRER.

estávamos em 2004, eu era estagiária, e pela primeira vez na vida experimentava a intensa sensação de manter as mãos estranguladas num bocado de latéx durante todo o dia. falo, e convém esclarecer já que as únicas mentes que sobreviveram à piada triste e escusada dos pirilampos muito provavelmente são ainda mais retorcidas do que a minha, das luvas de laboratório. eu sou muito cheirinhas, alguma vez vos tinha dito? sou muito cheirinhas. estão a imaginar uma coelhinha                   

ALTO – ANIMAL MAL ESCOLHIDO – REBOOT

uma hamsterzinha (para não dizer uma ratinha, que ficava mal) com aquele narizinho sempre a dar a dar? sou eu. cheiro tudo. cheiro carinhosamente todo e qualquer alimento que leve à boca, cheiro os caminhos que não conheço, antes de vestir qualquer peça de roupa cheiro-a por todos os lados, e acima de tudo drogo-me com aquele cheiro absolutamente maravilhoso que brota do interior dos livros novos. adiante. naquele tempo, eu andava obcecada com o cheiro a latéx que, teimava eu, não me saía das mãos. hoje em dia não noto – deve ter alguma coisa a ver com aquela história do monge que faz o hábito ou o diabo a quatro. enfim. em 2004, num belo serão, entro com o meu namorado numa sala de cinema e, enquanto nos acomodávamos, comento distraidamente “eu lavo e lavo e esfrego e lavo outra vez, mas cheira-me sempre a latéx”. ao que o casal de idade respeitável (ele próprio de aspecto muito respeitável também) do banco da frente se vira para trás (em sintonia – cuidado que os casais de hoje em dia já não conseguem fazer isto) e abana a cabeça, desolado. agora parece um bocado ridículo, mas na altura foi uma história engraçada que valeu uma noite inteira de gargalhadas. ou o meu sentido de humor andava pelas ruas da amargura, ou o raio do filme não valia mesmo nada. adiante.]

 

perdi-me.
ah, já sei: estava parada a olhar para a mão direita que, por cima da luva de latéx, ostentava uma calorosa e colorida gigantesca luva cor-de-laranja berrante. assim toda fofinha, daquelas que não têm pelinho mas parece.

[pequeno parênteses porque de repente achei melhor explicar o que faz uma calorosa e colorida gigantesca luva cor-de-laranja berrante num laboratório de gente séria. ou então no nosso laboratório. é a luvinha que usamos para pegar em material muito quente. já está, siga.]

e eu olhava para aquilo, e pensava, e voltava a olhar… tinha a certeza que aquilo me fazia lembrar uma personagem da rua sésamo. só não sabia qual.

mas… tu queres lá ver… parece… é que parece mesmo… que engraçado… é que é mesmo…


finalmente desisti, até porque não é para a resolução destes dilemas pessoais barra filosófico-humanísticos que o senhor contribuinte paga religiosamente os seus impostos. aceno, veemente, para o outro lado da bancada:
- olha, olha: que animal da rua sésamo é que eu sou?!
ele olha-me, com aquele ar sério e compenetrado que parece dizer isso-que-tu-tens-é-contagioso-ou-a-minha-saúde-mental-está-segura?, e responde:
- és o Poupas!
claro, o Poupas!, penso eu. e caminho feliz da vida para a minha bancada a acenar com a luva e a balançar com o corpo de um lado para o outro, daquela forma absolutamente brutal que só o Poupas sabe fazer e que deu origem ao Poupastyle. mas, e a meio do caminho, faz-se luz:
- ó criatura, o Poupas é amarelo!!
- é laranja, miúda!
- amarelo!
- laranja!
- amarelo!
- laranja!
- amarelo-mil-vezes!
- teimosa!
- amarelo-três-mil-quinhentas-e-sessenta-e-sete-vezes!
- olha lá para a tua mão outra vez… o que te faz lembrar?!
- … o Poupas. mas é estranho, porque eu sei que o Poupas é amarelo. e no entanto, parece que tenho a mão do Poupas. e a luva é laranja. não percebo. o Poupas usava luvas?
foi mais ou menos aqui que eu fui arrastada à força para a sala dos computadores e obrigada a visionar um sketch do Poupas a roer o juízo ao Raul Solnado. pronto, é laranja. mas se há 36 horas atrás eu tivesse que jurar, eu dizia que o Poupas é amarelo. apesar da minha mão laranja me fazer pensar no Poupas. mas eu sabia que o Poupas é amarelo. mas a minha mão parecia a mão do Poupas. mas…pois. a minha mente é estranha. eu própria me perco nos seus intrincados e sombrios caminhos.

de resto, e agora que penso nisso, o Poupas era um bocado parvo demais para ser verdade. ainda prefiro o gualter que, para além de ser de um azul muito esclarecido que não deixa lugar a qualquer dúvida, ainda gosta muito de GINASTICAR!

 

 

[ui, que eu deliro com isto de uma forma tão absolutamente suspeita.]

não tenho sono. não é que me sinta agitada ou ansiosa. um pouco triste, talvez. mas a verdade é que não tenho sono. já testei todas as posições possíveis que a almofada pode assumir sob a minha cabeça, já olhei para o tecto, já fechei os olhos, já desci e subi as escadas três vezes, já fui beber água [e lembrei-me daquele músico de olhos tristes d’As intermitências da morte que todas as noites se levantava e ia à cozinha para beber água mas nunca – nunca – levava água para o quarto agora que penso nisso sei lá eu se o músico tinha os olhos tristes ou não eu gosto de o imaginar assim com um sorriso tímido no canto dos lábios e uma voz meiga e uns olhos tristes] já espreitei para o jardim e vi os meus cães enrolados no sono, já encostei a testa à janela e fiz desenhinhos no vidro embaciado, já me deitei outra vez, já fechei os olhos outra vez, não tenho sono.

faltam poucas horas para a passagem de ano. não que a passagem de ano me entusiasme particularmente: fomos nós que criamos o calendário, logo é uma viragem de página puramente artificial. não sou pessoa de fazer promessas de ano novo. provavelmente, porque não sou pessoa de fazer promessas de todo. mas mastigo as passas devagar e peço os meus desejos: acredito mais em desejos do que em promessas. quando eu era pequenininha, aquele desejo que eu queria mesmo que se realizasse repetia-o várias vezes. acreditava sinceramente que o sacrificar muitas passas no mesmo desejo aumentava a probabilidade dele acontecer. uma mãozinha de criança a agarrar as passas com muita força, não fossem elas cair, e uma vozinha infantil dentro da minha cabeça: quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 1ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 2ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 3ª passa goela abaixo] e por aí fora, até quase esgotar as passas. depois alargava o desejo ao resto da família e amigos, salvaguardando sempre a passa-da-paz-no-mundo, pois claro! de qualquer forma, tenho um carinho especial por essa catarina pequenininha: gosto do jeitinho inocente e simples com que ela pedia as coisas. provavelmente por isso é que volvidos tantos anos e já crescida, a catarina grande continua a pedir o mesmo desejo inicial. e continua a repeti-lo muitas vezes, just in case.

hoje de manhã a minha mãe sentou-se na bordinha da minha cama e acordou-me. disse-me que tinha uma notícia muito triste para mim. disse-me que uma pessoa que nos era muito querida tinha morrido ontem. e eu escondi a cabeça debaixo do lençol e esperei que passasse o sonho estranho, porque é claro que ele não tinha morrido. mas afinal parece que sim. e afinal, parece que toda a gente previa. eu, racionalmente, sabia-o. racionalmente, tinha que o saber. mas o resto de mim, o tanto que não é razão, ia-lhe dedicar 4 ou 5 passas daqui a uns dias, ia pedir que ele mandasse o cancro às malvas porque afinal ele é um homem tão bom que até se escapuliu do consultório para o jardim uma vez com a sala de espera cheia de doentes só para me ir mostrar a sua ninhada de cãezinhos nascida há poucas semanas, só porque ele percebeu que eu estava triste e conhecia a minha paixão por Serras da Estrela. como é que eu choro a morte de alguém que durante 21 anos encostou o estetoscópio ao meu peito e ouviu o meu coraçãozinho bater?

se calhar foi por isto. porque estes raptos da morte à vida nos fazem pensar em clichés estúpidos. na importância de pequenas coisas. de pessoas. dos outros. ou por isso, ou porque eu realmente não tenho sono. lembrei-me do tom ciumento [és impossível, tu!] com que desfiavas as tuas palermices: falas de todos, falas dos teus outros amigos, dedicas posts a todos, e a nós, nada. és fixe, tu, és mesmo fixe. com amigos assim!… vamos lá ver se nos entendemos de uma vez por todas: eu não preciso de nos dedicar nenhum post, porque nós somos inevitáveis. nós existimos e somos assim. às vezes passa mais tempo, às vezes corre mais distância, mas acabamos sempre por regressar. por nos regressar. por isso, não preciso de nos dedicar nenhum post. mas como estou mesmo farta de te aturar, e porque sei que te agradam estas mariquices, o último post de 2007, o fecho do ano, o balanço para contas, isso tudo – é vosso. ou melhor: nosso.

faço as contas pelos dedos das mãos: eu e uma de vocês conhecemo-nos há 16 anos [auch... é por estas e por outras que eu prefiro não saber as datas]; há 10 anos atrás, as outras duas malucas juntaram-se à parelha [ficou uma bi-parelha]. e estávamos formadas: Nós. tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. passaram 7 anos: estamos iguais.

tem piada, não tem? há uma altura na nossa vida em que acreditamos piamente que todas as amizades que fazemos têm o selo do para-sempre. e depois há essa outra altura na vida em que percebemos que para-sempre é mesmo uma porrada de tempo e que as coisas não são bem assim. e percebemos que a vida, essa danadinha, vai divergindo. e um dia esbarrámos na pessoa que se sentou ao nosso lado durante os quatro infindáveis anos da escola primária, e percebemos com uma nitidez trágica que não falamos a mesma língua. que não passa mensagem, porque não existe estrada. que somos diferentes: demasiado diferentes para nos podermos compreender. e quando não há compreensão, tudo o que pode existir entre duas pessoas é cordialidade. nessa altura, pensamos que os amigos se perdem. hoje, portadora de um cabelo branco que nasce ali quem sobe da orelha esquerda, percebo que os amigos não se perdem. não verdadeiramente: fomos amigos de alguém em determinada altura, porque em determinada altura nós e essa pessoa fazíamos sentido. se o deixamos de ser hoje, é por causa do cabelo branco e das coisas em que ele nos faz pensar: é que aquilo que nós eramos cresceu. mas aquilo que nós eramos e aquilo que a outra pessoa era continuam a fazer sentido. não é que os amigos se percam: é só que as amizades, às vezes, têm barreiras temporais. não se perdem, realmente: vão existir sempre, mas dentro dessas barreiras.

e às vezes, existem mesmo fora de todas essas barreiras. 16 anos, 10 anos: ainda estamos aqui. ainda estamos juntas. ainda dizemos disparates [aliás, vocês dizem disparates: a vossa sorte é que têm a minha cabecinha sensata por perto para tomar conta de vocês]. o tempo foi e voltou – estivemos mais próximas, estivemos mais afastadas, passámos noites inteiras a trocar confissões e semanas a fio sem nos vermos. já tivemos vontade de desistir, porque às vezes existir para outra pessoa dá um trabalhão infinito. já estivemos mesmo próximas de desistir, porque eu tenho mau-feitio e sou anti-social, e tu és impaciente e exigente, e tu estás sempre com o teu namorado, e tu tens uma vida complicada e mais do que fazer do que nos aturar. mas não desistimos: insultámo-nos, odiámo-nos por alguns segundos, e depois voltamos. porque nós somos Amigas, e se a amizade não fosse uma grande trapalhada também não tinha piada nenhuma.

tu. sempre foste a mais disponível de nós todas. aquela que mais vezes desafia para um café, aquela que nunca nos deixa morrer: nos momentos de maior afastamento, foste o nosso kit de reanimação – é impressionante a forma como estás sempre lá. de uma forma muito intrínseca, sabes mais sobre cada uma de nós do que nós sabemos umas das outras. e quando alguém está triste, tu estás lá. quando eu achei que tinha encontrado o meu princípe encantado e acabei com o coraçãozinho partido em bocadinho pequenininhos espalhados por um chão enorme, tu apareceste para os apanhar. quando a mãe dela estava internada, quando ela se sentiu desanimada com a vida, tu estavas lá. estás sempre lá. o tempo passa, e tu estás lá. e às vezes chateias-te e mandas vir e amuas como uma criancinha [quase que juro que bates com o pé no chão] e dizes que só tu é que te esforças, que só tu é que lanças desafios, que nós nos acomodámos. que te dizer? – a verdade é que tens razão. é fácil deixarmo-nos dormir quando a sombra do coração que nos abriga é tão Grande, tão Enorme, tão Infinita.

tu. foste sempre a mais decidida de nós todas. enquanto eu tinha medo, e ela não sabia bem o que queria, e ela lutava mas sem grande tempo para sonhar, tu sabias o que querias da vida. aterrava-me a forma como dizias, sem hesitar, que não querias casar: que eras uma mulher de carreira. essencialmente, aterrava-me porque eu tinha os meus sonhos – os meus castelos de nuvens – mas era tudo muito romântico e aéreo. nunca tive a tua visão sensata, racional e decidida da vida. eventualmente, essa parte do não casar amoleceu. ainda bem. e para além disso, a vida decidiu ensinar-te o Medo e a Dúvida: vi-te um dia, e os teus olhos estavam distantes. tive medo: nunca os teus olhos foram distantes. tristes ou alegres, nunca distantes. mas sabes, agora que a tempestade passou… acho que cresceste. estás Maior, sabes? é o que acontece a quem cai e se levanta: nada mais neste mundo é capaz de te derrubar. abalar talvez, mas derrubar nunca: guardas o mundo inteiro no teu peito, é teu.

e tu. foste sempre a mais forte de nós todas. e por muito que eu pense, por muito que eu tente deslindar de onde te nasce essa força tão dorida, tão incapaz de fraquejar, tão inevitável, não consigo perceber. ultrapassas-me largamente: vejo-te ao longe, como uma espécie de super-herói no cume de uma montanha com a capa ao vento. ao teu lado, eu sou pequenina. e mimada. e incapaz. convenhamos: a vida fez-te algumas filhas da putice imperdoáveis. rais me parta se eu hei-de perceber como sobreviveste a tudo sem perderes esse jeitinho especial de dizer uma série imbatível de disparates seguidos sem sequer parares para respirar. tenho-te inveja: nunca vou ter a tua força, a tua serenidade. há uns anos atrás, numa noite de novembro, entrei na mesma capela onde entrei hoje à tarde, só para te ver estrangulada por uma dor insuportável que te rasgava toda. nesse dia, cheguei a casa e escrevi isto:

a noite pousou devagar
sobre o universo apagado das coisas já mortas
[eternamente adormecidas]
e, por um instante,
a Terra cessou o seu contínuo movimento
suspensa no terror do teu pânico
[absurda na tua dor revoltada].

o quanto de ti anoiteceu eternamente naquele instante singular,
denso de mágoa e de amor.
o quanto de ti se rasgou em espasmos de água e sal e dor infinita.
[o quanto de ti.]

mas não me morras
[os teus silêncios calados berram a angústia das dores insustentáveis]
mas não me morras, fica comigo
[eu sempre estive contigo.]


o meu luto é todo pela serenidade Branca e Inteira
[aquela que respirava na luz dos teus olhos.]

Porto, 2004-nov-11

és linda. e és grande. e espero que já te tenham passado os ciúmes todos, porque macacos me mordam [com meiguice, faxabor] se eu tenho paciência para te aturar. ah pois é.

tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. espreito a nossa fotografia de há uns dias atrás, juntinho ao Douro, no nosso jantar de Natal. passaram 7 anos: estamos iguais. tirando o facto de vocês estarem quase-vai-não-vai casadas e mães de filhos e eu ser proprietária de um apartamento e ter um estupor de um cabelo branco ali quem sobe da orelha esquerda, estamos iguais.

 

e este foi o último post de 2007.

 

de certa forma, o primeiro de 2008 também.

 

 

PS: a expressão passa-da-paz-no-mundo tem o seu quê de poético. às vezes surpreendo-me a mim própria.

as renas [o rudolfo e a outra]
e os seus valorosos, vermelhuscos e mui charmosos narizes
desejam a toda a comunidade blogueira

um feliz natal!

[a minha paixão por esta música ultrapassa todos os limites do razoável e roça-se perigosamente nos limites da doença mental... vá lá, agora todos comigo: rudolph, the red-nosed reindeeeeeeeer, you'll go down in histooooory!]