quando eu era miúda, estar doent[inha] era sinónimo de perdão à sopa. mais do que isso, estar doente significava que eu podia passar o dia em pijama e pantufas, a arrastar a minha pessoa e um monte de mantas&queixumes entre a cama e o sofá. e destilar horas a fio de tv, nos intervalos em que não estava a dormitar e a babar o monte de almofadas dispersas à minha volta. até tinha licença para requisitar mais mimos, fazer-me pegajosa e ainda responder a toda a gente por grunhidos tortos e mimados.
na quarta acordei a sentir-me estranha. passei o dia todo a sentir-me estranha. ao final da tarde sentia-me, definitivamente, estranhíssima. ainda tentaram que pegasse comigo a história dos “happy thoughts”, mas eu não sou peter pan que chegue para isso: na quinta feira acordei doente. dirigi-me, portanto, a um dos serviços de atendimento permanentes que o sapo socras ainda não fechou (deve ser porque faz parte de um hospital privado e ele não pode…) e fui atendida por uma médica que partilhou comigo as “intensas escorrências purulentas” que nasciam nos meus seios nasais e desaguavam alegremente na minha faringe. eu tinha ficado satisfeita apenas com o diagnóstico – uma única palavra, muito simples e limpinha: rinofaringite – mas a mulher estava empenhada em dar cabo do pouco apetite que ainda me restava e eu deixei. afinal de contas, falar de “intensas escorrências purulentas” de uma forma tão entusiasmada é uma arte. adiante: depois de me receitar, entre outras coisas, umas deliciosas 2g de penicilina diárias (desgraçada da minha frota intestinal, coitadinha: isto é um tiro em cheio no porta-aviões*), a senhora mandou-me embora e foi espreitar as escorrências purulentas de outra pessoa qualquer.
estou, portanto, oficialmente doent[inha]. nos últimos dois dias passei o dia em pijama e pantufas, a arrastar a minha pessoa, um monte de mantas&queixumes, o pc, uma torre de artigos, os óculos, o telemóvel, o meu caderno, uma porrada de folhas importantes, o estojo dos lápis e os 5 marcadores de sublinhar com cores diferentes entre a mesa da sala e a secretária do escritório. ah pois: que as dédlaines não se compadecem cá de escorrências purulentas ou de microbicheza que estava tão-bem-tão-sugadita e de repente decide armar uma rave no meu narigão. basicamente, só existem duas diferenças entre estes dois últimos dias e uns quaisquer dois dias normais de trabalho: a primeira é que estive limitada a trabalho de computador; a segunda é que tenho a engraçada sensação que andei a fazer limpeza à minha garganta com lâminas de barbear descartáveis.
não sei bem o que foi, mas alguma coisa sinistra aconteceu nos últimos 10 anos: estar doent[inha] costumava ter bem mais piada.

[mas lá que as gajas são sexys, são... lá isso são!]
*piada típica de rata-de-laboratório que passa demasiado tempo sem ver a luz do dia, dotada de um bio-humor dolorosamente lancinante. auch.

4 Comments
Hummm as melhoras então! E se precisares de quantidades industriais de lenços avisa
As melhoras. Realmente, estar doentinha só na infância tem esse sabor a mimo…
Tu também babas as almofadas?Li bem??!! Thank God, I’m not alone in this world
lol.. Ve se te poes boa rápido..e controla as piadinhas de mau feitio :S ***
Penincilina…ah…essa bela palavra que fez parte da minha infância. Ainda hoje quando passo naquela zona da Boavista, numa coisa que se chama ” Enfermeiros Reunidos” dá-me assim a volta ao estômago de tantas vezes fui lá. Até tenho um trauma de ver aquelas garrafas de oxigénio à porta, ainda hoje são motivo para as minhas pernas tremerem e engolir em seco. Que boas recordações me fizeste ter agora
Mais a sério, eu a provocar-te com os premiados, não dos Óscars os dos outros daquela festa realizada na Póvoa ( tinha de ser na Póvoa, que diabo…) tu a dizeres-me que estavas tristinha e afinal estavas doentinha, vê se arrumas lá com as escorrências que 4ª precisamos de ti para gritar por aqueles teus dois amigos