Monthly Archives: March 2008

 

foi na semana passada. saí do laboratório muito lentamente. atravessei o parque de estacionamento com o frio na ponta dos dedos. entrei no carro, cansada. pousei ambas as mãos sobre o volante e esperei que passasse [aquela sensação que não sei bem como te dizer explicar-te apenas que dói um pouco ou rasga um pouco tem dias agora não me apetece falar disso]. deslizei pela estrada até chegar às luzes sempre iguais da A1. fui-me deixando ir. luz após luz após luz após luz. dentro de mim, os meus medos. os meus muros. o falhar, sempre tão presente. o estrangular. o que queria fazer e não faço. o que faço e não queria fazer. o que ainda não disse e não sei como dizer. o tempo que não tenho. para estar contigo, porque sei que às vezes precisas de mim e não sabes como me dizer. e contigo, para te mostrar que tens tanta coisa maravilhosa dentro de ti. e contigo, para te mostrar as últimas músicas que descobri e que acho fantásticas. e contigo, porque percebes coisas de mim que mais ninguém percebe. e contigo, porque gostava de te conhecer melhor. e contigo, nem eu sei bem porquê. e contigo, sei bem porquê mas não me apetece dizê-lo. e de repente, enquanto pensava em ti, em ti, em ti e em ti, um gato atravessou-se à frente do meu carro. o pé forte no travão, um chiar de pneus, uma sombra negra a esgueirar-se entre os rails. o meu carro parado no meio da A1, as luzes de repente quietas, e uma lágrima tremida a espreitar o mundo pelo canto do meu olho. primeiro pensei que fosse por tua causa, ou por tua, ou por tua, ou por tua. mas depois percebi que estava a ouvir o Like a Jesus to a Child. e o Like a Jesus to a Child dá-me sempre vontade de chorar. é incrível como a A1 pode parecer tão desesperadamente solitária às 2 da manhã.

 

foi no sábado passado. na estação de campanhã, cedo, ainda a manhã se espreguiçava de todo o frio que tinha sentido durante a noite. enquanto descolava as pestanugas uma a uma, caminhei até ao bar, em perseguição do cheiro quente de café que me ia aos poucos aconchegando. e enquanto ali estava, semi-encostada a uma mesa alta, eles começaram a caminhar na minha direcção. eram 4, numa espécie de cadeia de confiança: o segundo de mão dada ao primeiro, o terceiro de mão dada ao segundo, o quarto de mão dada ao terceiro. e à frente, o cão. e a voz do primeiro, perdida no espaço: leva-nos à saída, à saída, à saída, queremos a saída, a saída, a saída. quando o cão passou junto de mim, eu pousei-lhe uma mão carinhosa no pescoço. então o primeiro parou, e depois o cão parou, e depois todo o grupo parou. e o primeiro voltou o rosto na minha direcção e procurou-me através da sua cegueira. e sorriu. like a jesus to a child.

sadness in my eyes

no one guessed

[well, no one tried]


and you smiled at me
like jesus to a child

[... nas suas mais variadas vertentes de comunicação].

SMS:

[elenco: ele, em viagem de trabalho; a miudita, que sou eu]

ele: [...patatipatatapatapi...] e então, estás melhor?
miudita: [...babibobubabibabo...] vou estando, obrigada.
ele: [...rarirorurorurariro...] então dorme bem! já estou cheio de saudades!
miudita: ei! eu estou melhor, mas ainda estou com uma produção de ranho capaz de alimentar metade do planeta durante 3 dias, portanto não invistas muito nessa parte da saudade!…
ele: bolas. quando queres, consegues mesmo ser sexy. boa noite, ranhosa :)


CONVERSA CARA-A-CARA:

[elenco: ela, amiga/colega de trabalho que tem dois aquários gigantes cheios de bicharocos com barbatanas e que foi a principal responsável pelo meu cognome no meu local de trabalho, que para quem nao sabe é a miudita; a miudita, que sou eu]

a miudita: olha, hoje sonhei que estava em minha casa e que tinha um aquário grande…
ela: ‘tás a ver? isso é uma premonição!
a miudita: ei, calma lá: deixa-me contar tudo! quando eu fui comprar o aquário à loja de animais estava um gato a dormir por cima, e o gato veio junto como promoção…
ela: errr… continua a ser uma premonição: o gato devia ser o teu Totas-O-Gato-Mijão!
[será assim tão difícil dizer “incontinente”?]
a miudita: mas a certa altura os peixes desatavam todos a morrer feitos malucos…
ela: vês, vês?!? isso é exactamente o que acontece! é uma premonição!
a miudita: … e o aquário tinha uns buracos circulares por cima, sabes? e um dos peixes era preto e tinha os olhos muito salientes e estava sempre a saltar para um dos buracos, mas depois as barbatanas não passavam e ele ficava assim meio de fora meio de dentro a fazer aquela cara montes de estúpida que os peixes fazem [a miudita tenta imitar a cara estúpida dos peixes]. e eu andava sempre a correr para lá e a enfiá-lo para baixo assim [a miudita simula marteladas com a mão aberta sobre uma superfície plana] porque senão o gato saltava-lhe em cima e mordia-lhe a cabeça.
ela: … ok. isso já é estupidez, mesmo.

MESSENGER:

[... e então atingimos aquele ponto fascinante, em que percebemos que independentemente da parvoíce que dissermos, a pessoa do outro lado vai agir como se fosse a coisa mais natural do mundo...]

capturar.jpg

[tungas, toma lá morangos: eu não só me estava a babar, como por acaso também estava mesmo a trabalhar. eu sou mulher, tenho multitask abilities!]

eu sei que a maior parte das pessoas gosta de sms com ursinhos e declarações de amizade perpétua com juras de sangue e votos de muitas eternidades. eu acumulo parvoíces non-sense como forma de vida. se fossemos todos normais, a vida tinha ainda menos piada do que o que já tem… não?

quando eu era miúda, estar doent[inha] era sinónimo de perdão à sopa. mais do que isso, estar doente significava que eu podia passar o dia em pijama e pantufas, a arrastar a minha pessoa e um monte de mantas&queixumes entre a cama e o sofá. e destilar horas a fio de tv, nos intervalos em que não estava a dormitar e a babar o monte de almofadas dispersas à minha volta. até tinha licença para requisitar mais mimos, fazer-me pegajosa e ainda responder a toda a gente por grunhidos tortos e mimados.

na quarta acordei a sentir-me estranha. passei o dia todo a sentir-me estranha. ao final da tarde sentia-me, definitivamente, estranhíssima. ainda tentaram que pegasse comigo a história dos “happy thoughts”, mas eu não sou peter pan que chegue para isso: na quinta feira acordei doente. dirigi-me, portanto, a um dos serviços de atendimento permanentes que o sapo socras ainda não fechou (deve ser porque faz parte de um hospital privado e ele não pode…) e fui atendida por uma médica que partilhou comigo as “intensas escorrências purulentas” que nasciam nos meus seios nasais e desaguavam alegremente na minha faringe. eu tinha ficado satisfeita apenas com o diagnóstico – uma única palavra, muito simples e limpinha: rinofaringite – mas a mulher estava empenhada em dar cabo do pouco apetite que ainda me restava e eu deixei. afinal de contas, falar de “intensas escorrências purulentas” de uma forma tão entusiasmada é uma arte. adiante: depois de me receitar, entre outras coisas, umas deliciosas 2g de penicilina diárias (desgraçada da minha frota intestinal, coitadinha: isto é um tiro em cheio no porta-aviões*), a senhora mandou-me embora e foi espreitar as escorrências purulentas de outra pessoa qualquer.

estou, portanto, oficialmente doent[inha]. nos últimos dois dias passei o dia em pijama e pantufas, a arrastar a minha pessoa, um monte de mantas&queixumes, o pc, uma torre de artigos, os óculos, o telemóvel, o meu caderno, uma porrada de folhas importantes, o estojo dos lápis e os 5 marcadores de sublinhar com cores diferentes entre a mesa da sala e a secretária do escritório. ah pois: que as dédlaines não se compadecem cá de escorrências purulentas ou de microbicheza que estava tão-bem-tão-sugadita e de repente decide armar uma rave no meu narigão. basicamente, só existem duas diferenças entre estes dois últimos dias e uns quaisquer dois dias normais de trabalho: a primeira é que estive limitada a trabalho de computador; a segunda é que tenho a engraçada sensação que andei a fazer limpeza à minha garganta com lâminas de barbear descartáveis.

não sei bem o que foi, mas alguma coisa sinistra aconteceu nos últimos 10 anos: estar doent[inha] costumava ter bem mais piada.


streptobicheza.gif

[mas lá que as gajas são sexys, são... lá isso são!]

*piada típica de rata-de-laboratório que passa demasiado tempo sem ver a luz do dia, dotada de um bio-humor dolorosamente lancinante. auch.