foi na semana passada. saí do laboratório muito lentamente. atravessei o parque de estacionamento com o frio na ponta dos dedos. entrei no carro, cansada. pousei ambas as mãos sobre o volante e esperei que passasse [aquela sensação que não sei bem como te dizer explicar-te apenas que dói um pouco ou rasga um pouco tem dias agora não me apetece falar disso]. deslizei pela estrada até chegar às luzes sempre iguais da A1. fui-me deixando ir. luz após luz após luz após luz. dentro de mim, os meus medos. os meus muros. o falhar, sempre tão presente. o estrangular. o que queria fazer e não faço. o que faço e não queria fazer. o que ainda não disse e não sei como dizer. o tempo que não tenho. para estar contigo, porque sei que às vezes precisas de mim e não sabes como me dizer. e contigo, para te mostrar que tens tanta coisa maravilhosa dentro de ti. e contigo, para te mostrar as últimas músicas que descobri e que acho fantásticas. e contigo, porque percebes coisas de mim que mais ninguém percebe. e contigo, porque gostava de te conhecer melhor. e contigo, nem eu sei bem porquê. e contigo, sei bem porquê mas não me apetece dizê-lo. e de repente, enquanto pensava em ti, em ti, em ti e em ti, um gato atravessou-se à frente do meu carro. o pé forte no travão, um chiar de pneus, uma sombra negra a esgueirar-se entre os rails. o meu carro parado no meio da A1, as luzes de repente quietas, e uma lágrima tremida a espreitar o mundo pelo canto do meu olho. primeiro pensei que fosse por tua causa, ou por tua, ou por tua, ou por tua. mas depois percebi que estava a ouvir o Like a Jesus to a Child. e o Like a Jesus to a Child dá-me sempre vontade de chorar. é incrível como a A1 pode parecer tão desesperadamente solitária às 2 da manhã.
foi no sábado passado. na estação de campanhã, cedo, ainda a manhã se espreguiçava de todo o frio que tinha sentido durante a noite. enquanto descolava as pestanugas uma a uma, caminhei até ao bar, em perseguição do cheiro quente de café que me ia aos poucos aconchegando. e enquanto ali estava, semi-encostada a uma mesa alta, eles começaram a caminhar na minha direcção. eram 4, numa espécie de cadeia de confiança: o segundo de mão dada ao primeiro, o terceiro de mão dada ao segundo, o quarto de mão dada ao terceiro. e à frente, o cão. e a voz do primeiro, perdida no espaço: leva-nos à saída, à saída, à saída, queremos a saída, a saída, a saída. quando o cão passou junto de mim, eu pousei-lhe uma mão carinhosa no pescoço. então o primeiro parou, e depois o cão parou, e depois todo o grupo parou. e o primeiro voltou o rosto na minha direcção e procurou-me através da sua cegueira. e sorriu. like a jesus to a child.
sadness in my eyes
no one guessed
[well, no one tried]
and you smiled at me
like jesus to a child


