sou uma mulher. ouve-me: mulher. sou perfeita no que toca à absoluta incapacidade de tomar decisões importantes, falo demais e depois de alguns minutos até a mim se me torna irritante a montanha russa da minha voz interrompida por não menos irritantes gargalhadas inesperadas, não consigo estacionar o katemobile em menos de 3 chega-atrás-chega-à-frente [isto quando o consigo estacionar de todo...] e se ganhasse o euromilhões a primeira coisa que fazia – antes ainda de liquidar a minha dívida ao banco e comprar o bilhete de avião para África – era comprar a secção de mulher da Massimo Dutti IN-TEI-RI-NHA! [agora que penso nisso, há alguma coisa que não joga bem entre os vestidinhos delicados anos 70 e as túnicas esvoaçantes com folhinhos ternurentos e o voluntariado em plena selva. adiante.] o meu vigésimo terceiro par de cromossomas berra X-X por todos os poros. e digo mais: salvo raras excepções, a saber – quando estou no balneário feminino e quando vejo uma congénere a conduzir – até sinto orgulho em ser mulher. até aí, estamos conversados.
agora.
se há coisa.
que realmente me tira.
do sério.
é alguém achar que.
por ser mulher.
sou incapaz de abrir uma porta [estas coisas que eu tenho penduradas a sair dos ombros são braços, ok?].
não me é permitido pagar a conta em bares/restaurantes [já agora, paguem-me também a prestação ao banco...].
quando a caminhar no passeio, não posso assumir a posição “lado-da-rua” [o meu rabo até pode ser grande, mas nem por isso corre o risco de estragar o espelho a um ou outro carro que se lembre de me passar ao lado].
meter gasóleo no katemobile [sei lá, podia enganar-me e enfiar a mangueira num pneu, e aí tinha dois problemas...].
PACHORRA!
a propósito do último ponto, estava este último domingo a gozar os seus últimos raios de sol quando aqui a miudita parou numa bomba para abastecer o dito cujo katemobile. assim que saí do carro e me aproximei da mangueira, ouvi atrás de mim um comentário trocista seguido de várias risadas abafadas. rezava então o senhor que falou: “uma menina tão delicada a meter gasolina? não quer ajuda aqui do tio, quer?”. antes mesmo de voltar a cabeça e fazer o meu olhar altamente sinistro do estilo a-menina-delicada-já-t’as-conta-já-já, sabia o que ia encontrar: um monte de camiões estacionados com o respectivo braço felpudo [=peludo em abundância] a espreitar pela janela, deixando antever uma camisola caviada branca com nódoas de gordura na pança e caspa nos ombros. enchi-me de brios: ora vamos cá a ver quantas meninas-delicadas são necessárias para atestar um carro! sacudi os caracóis, endireitei as costas, agarrei a mangueira. primeiro erro: era tal o entusiamo, que me esqueci de pegar nas folhinhas azuis que servem para estabelecer uma mui saudável barreira entre a pele e os restos de gasóleo que o último artista deixou na pega. respirei fundo e pensei: ok, agora só tens que conseguir não tocar em absolutamente nada com a mão que cheira mal até te afastares o suficiente para poderes ter um ataque de fraqueza e limpar a mão. meti gasóleo até encher. fechei aquele buraquinho por onde o gasóleo entra à chave. rodeei o carro, de olhar triunfante. olhei de soslaio para os camiões. já esquecida do primeiro erro, e entusiasmada com o andar da carruagem, decidi dar mais um ar da minha independência. nada melhor que um daqueles pontapézinhos secos e altivos num pneu, assim em jeito de eu-sou-tão-bom-que-meço-a-pressão-assim. 2º erro. mal dou o pontapezinho seco e altivo, lembro-me que tenho calçadas as minhas sapatilhas cinzentas muito clarinhas com formas brancas e cor-de-rosa. PÂNICO. imediatamente assumo posição fetal e tento limpar a ponta da sapatilha, que é tão lindinha.
pois. lá se me foi a pose.
nunca sei quando devo parar.
perdido por 100, perdido por 1000. mal por mal, lá fui sacar umas folhinhas azuis para limpar a mão-que-cheirava-mal.
ainda a propósito, uma conversa via e-mail com um colega e amigo, datada de ontem de manhã:
eu: blablabla [é trabalho, não vos interessa] blablablablablabla [a sério, não vos interessa] blablablablablabla [e mesmo que interesse, não me apetece estar a explicar tudo agora]
desculpa não te ter dado atenção ao bocado, estava na parte mais stressante das células competentes e o meu cérebro é bastante masculino: uma coisa de cada vez, por favor (-;
ele: Quanto ao teu cérebro, eu já tinha reparado pois ele está muitas vezes sintonizado em bola e sexo…
palavra de honra: depois de ouvir estas e outras, pergunto-me porque raio é que tenho que usar o balneário feminino e aturar conversas interessantes como a tia queixar-se à vizinha que perdeu a fita roxa que dava bem com as sapatilhas cor-de-rosa que iam bem com o top que tinha ambas as cores entrelaçadas…
[mãe, pai, só para vos descansar: é essencialmente bola. quase só bola.]
[agora que penso nisso, não sei se vos descansei. mas não se preocupem, eu nunca vos envergonho em público: digo sempre que houve uma grande tempestade no ano de 82 e que eu vim na enxurrada.]

3 Comments
nao sabia que “uma coisa de cada vez” permitia agrupar duas coisas… mas tá bem… é a loura que há em mim…
ó querida, mais valia dizer logo que em 82 choveram sapos não?
ah, e prá próxima vai a uma daquelas estações de serviço com senhor incluído, ok? gaja que é gaja… reclama porque as folhinhas são azuis e não às bolinhas amarelas…
Sinto muita hostilidade na referencia aos senhores que, profissional e felpudamente, operam no longo curso… ainda hoje de manhã cedo dei uma volta num jeitoso camião e o condutor me assegurou que ia arrancando a porta do carro estacionado do lado direito não para evitar o ciclista que tentava ultrapassar a fila de transito no sentido contrário mas sim porque empatizou espontaneamente com a jovem de porte altivo que percorria o passeio, sendo que se empenhou profissionalmente (aqui asseguro eu) no elogio respeitoso que lhe dirigiu a diversos aspectos morfológicos… e todos sabemos que a empatia deve prevalecer sobre a integridade…nomeadamente da dos ciclistas …e dos espelhos retrovisores dos automoveis estacionados…