as palavras escorregavam serenas e naturais, e era como se eu te conhecesse há muito tempo [ou tu me conhecesses há mais ainda]. deve ter sido por isso que deixei que as horas se encostassem às margens do relógio e fui ficando. mas tu apontaste-me o telemóvel com o queixo e lembraste-me o motivo daquela noite. e eu, que há tanto tempo ansiava por aquele pedaço absurdo de música estendida ao longo do espaço, acenei. vamos.
estranhamente, e apesar de termos chegado a bater os 3 minutos de atraso, conseguimos excelentes lugares: quase centrados e na segunda fila. [sabes, gosto muito de me sentar assim pertinho do palco. ou de estar assim pertinho do palco. gosto de perceber as expressões de quem lá está, os pequenos trejeitos, as pequenas imperfeições, quase todas as hesitações. e o sentido dos olhares.] tinhas razão: o espaço era envelhecido. de repente pareceu-me demasiado abandonado para receber uma música que deveria ser tão envolvente. o chão em madeira, a cortina que não arde, as letras luminosas a nomearem as filas, tudo [me] parecia olhar[-me] com um certo desprezo. como se aquela música que íamos ouvir – aquele estilo de vida que transportávamos – fosse uma espécie de profanação de um local tão clássico. tão sério. tão obediente. encostei-me para trás e pousei as mãos na barriga, naquela posição de espera tão tipicamente minha. mas já vocês entravam em palco.
Sean Riley & The Slowriders
uma música e uma ou outra referência à vossa banda na antena 3, era tudo quanto vos conhecia. sinceramente: nem vos sabia portugueses. se podia ter pesquisado uns dias antes? efectivamente. mas confesso que às vezes gosto de fazer isto: ir a um concerto completamente às cegas – ou às surdas, neste caso – e descobrir pedacinho a pedacinho uma qualquer sonoridade. ao vivo. com as ditas expressões e olhares ali tão perto de mim. aquela magia cúmplice que só existe quando o espaço que nos separa parece quase inexistente. e pareceu. porque já vocês entravam em palco [era uma guitarra, uma harmónica, uma voz] e eu senti-me deslizar suavemente para um qualquer outro espaço. um espaço de um ritmo melódico, intenso como a noite, sofrido como o encanto. recolhi-me em mim para melhor vos ouvir. e, diacho: gostei-vos.
[não me lembrava já – e como é que a gente se pode esquecer de semelhantes paixões?! – do fascínio que sempre nutri pelos bateristas. lembrei-me quando vi o slowrider que ocupava essa posição. não se se foi da forma absolutamente graciosa com que coordenava teclas, percussão, e um fio de voz escondido na melodia. ou se foi pela harmónica, que segurava com o cuidado de quem segura o mundo de uma criança. ou se foi simplesmente pelos olhos cerrados (por vezes apenas semi-) e pelos traços de absoluta concentração e sonho com que enfrentava cada música. na Arte, o que mais me toca é a fluidez com que certas pessoas se submergem nela. como ele.]
Terry Lee Hale
o Carlos Paredes havia de ter gostado da dedicatória. o homem que não-conseguia-afinar-a-sua-própria-guitarra entrou em palco com uma traquinice que me desarmou. logo à partida, não há resistências que suportem semelhante semblante trágico-brincalhão. nem semelhante Excelência a tocar guitarra. e dizer mal do Bush é passe garantido para o coração de todos quantos têm um mínimo de sensibilidade no hemisfério cerebral esquerdo. e já agora, no direito também.
entre uma música e outra, comentavas ter um homem destes em casa deve ser uma maravilha, ao que eu concordei, dobrando o riso: estou apaixonada!!!
Nina Nastasia
e agora? como descrever a perfeição de cada toque, cada sussurro, o barulho indiscreto dos dedos a escorregarem pelas cordas da guitarra como se um e o outro fossem o mesmo e único instrumento singular? como descrever as palavras, ora desgarradas ora quentes, a quase perfeita simbiose com o público, os silêncios rasgados pela voz, ora suave ora sofrida? à saída, comentavas era como escorregar para outra dimensão. foi escorregar que disseste? não me lembro. mas gosto da ideia de escorregar devagarinho, como as gotinhas de água a passear pelas costas de um pato. e se calhar, essa é mesmo a única forma de a descrever. à Nina e à sua música encantada.
PS: a acústica da sala é bem mazinha, graças ao senhor. beeeeeeeeeeeeeeeeem mazinha.
PS2: acabei de perceber que sou uma das Principais ouvintes na Last.fm [da Nina Nastasia]. ena ena.


