Monthly Archives: February 2008

as palavras escorregavam serenas e naturais, e era como se eu te conhecesse há muito tempo [ou tu me conhecesses há mais ainda]. deve ter sido por isso que deixei que as horas se encostassem às margens do relógio e fui ficando. mas tu apontaste-me o telemóvel com o queixo e lembraste-me o motivo daquela noite. e eu, que há tanto tempo ansiava por aquele pedaço absurdo de música estendida ao longo do espaço, acenei. vamos.

estranhamente, e apesar de termos chegado a bater os 3 minutos de atraso, conseguimos excelentes lugares: quase centrados e na segunda fila. [sabes, gosto muito de me sentar assim pertinho do palco. ou de estar assim pertinho do palco. gosto de perceber as expressões de quem lá está, os pequenos trejeitos, as pequenas imperfeições, quase todas as hesitações. e o sentido dos olhares.] tinhas razão: o espaço era envelhecido. de repente pareceu-me demasiado abandonado para receber uma música que deveria ser tão envolvente. o chão em madeira, a cortina que não arde, as letras luminosas a nomearem as filas, tudo [me] parecia olhar[-me] com um certo desprezo. como se aquela música que íamos ouvir – aquele estilo de vida que transportávamos – fosse uma espécie de profanação de um local tão clássico. tão sério. tão obediente. encostei-me para trás e pousei as mãos na barriga, naquela posição de espera tão tipicamente minha. mas já vocês entravam em palco.

 

Sean Riley & The Slowriders

uma música e uma ou outra referência à vossa banda na antena 3, era tudo quanto vos conhecia. sinceramente: nem vos sabia portugueses. se podia ter pesquisado uns dias antes? efectivamente. mas confesso que às vezes gosto de fazer isto: ir a um concerto completamente às cegas – ou às surdas, neste caso – e descobrir pedacinho a pedacinho uma qualquer sonoridade. ao vivo. com as ditas expressões e olhares ali tão perto de mim. aquela magia cúmplice que só existe quando o espaço que nos separa parece quase inexistente. e pareceu. porque já vocês entravam em palco [era uma guitarra, uma harmónica, uma voz] e eu senti-me deslizar suavemente para um qualquer outro espaço. um espaço de um ritmo melódico, intenso como a noite, sofrido como o encanto. recolhi-me em mim para melhor vos ouvir. e, diacho: gostei-vos.

[não me lembrava já – e como é que a gente se pode esquecer de semelhantes paixões?! – do fascínio que sempre nutri pelos bateristas. lembrei-me quando vi o slowrider que ocupava essa posição. não se se foi da forma absolutamente graciosa com que coordenava teclas, percussão, e um fio de voz escondido na melodia. ou se foi pela harmónica, que segurava com o cuidado de quem segura o mundo de uma criança. ou se foi simplesmente pelos olhos cerrados (por vezes apenas semi-) e pelos traços de absoluta concentração e sonho com que enfrentava cada música. na Arte, o que mais me toca é a fluidez com que certas pessoas se submergem nela. como ele.]

 

 

Terry Lee Hale

o Carlos Paredes havia de ter gostado da dedicatória. o homem que não-conseguia-afinar-a-sua-própria-guitarra entrou em palco com uma traquinice que me desarmou. logo à partida, não há resistências que suportem semelhante semblante trágico-brincalhão. nem semelhante Excelência a tocar guitarra. e dizer mal do Bush é passe garantido para o coração de todos quantos têm um mínimo de sensibilidade no hemisfério cerebral esquerdo. e já agora, no direito também.

entre uma música e outra, comentavas ter um homem destes em casa deve ser uma maravilha, ao que eu concordei, dobrando o riso: estou apaixonada!!!

 

Nina Nastasia

e agora? como descrever a perfeição de cada toque, cada sussurro, o barulho indiscreto dos dedos a escorregarem pelas cordas da guitarra como se um e o outro fossem o mesmo e único instrumento singular? como descrever as palavras, ora desgarradas ora quentes, a quase perfeita simbiose com o público, os silêncios rasgados pela voz, ora suave ora sofrida? à saída, comentavas era como escorregar para outra dimensão. foi escorregar que disseste? não me lembro. mas gosto da ideia de escorregar devagarinho, como as gotinhas de água a passear pelas costas de um pato. e se calhar, essa é mesmo a única forma de a descrever. à Nina e à sua música encantada.

 

PS: a acústica da sala é bem mazinha, graças ao senhor. beeeeeeeeeeeeeeeeem mazinha.

PS2: acabei de perceber que sou uma das Principais ouvintes na Last.fm [da Nina Nastasia]. ena ena.

OST obrigatória 

ela inquietou-se. mexeu-se um pouco na cadeira, como que a tentar abafar o silêncio incómodo que sobrevivia às conversas, às gargalhadas, aos ruídos da pista de bowling lá mais adiante. ele notou o desconforto dela e tentou sorrir. mas o sorriso saiu-lhe apagado e perdeu-se no meio de todos os ruídos que agitavam aquele ambiente. os empregados circulavam rápido, prometiam a próxima mesa a sair é a vossa, anotavam pedidos, distribuíam menus, às vezes paravam um pouco para espreitar o nuremberga-benfica pelo canto do olho. ele pousou as mãos sobre o colo, numa espécie de abandono consciente. ela bebeu um gole de ice tea pela palhinha preta e fixou um qualquer ponto no chão.

 

Maybe I didn’t love you
Quite as often as I could have

If I made you feel second best
Girl I’m sorry I was blind

 

foi a vez de ele se inquietar. sentiu o olhar dela subitamente posto no rosto dele e assustou-se: olhou para a televisão. pensou que, assim como assim, se estivesse a ver o jogo tinha uma desculpa para não dizer nada. pelo canto do olho, sentiu o olhar dela pousar no chão novamente. melhor. mais confortável. reparou que ela observava a mesa do lado, onde um grupo de amigos ia deixando cair gargalhadas umas atrás das outras. olhou também ele para a mesa do lado, e o seu olhar encontrou o olhar castanho de uma rapariga que tinha o cabelo preso no alto da cabeça, um pouco em desalinho. sentiu que a rapariga se atrapalhava, olhou para o chão muito rapidamente e corou um pouco. espreitou-o ainda pelo rabo do olho mas depois retomou a conversa na mesa dela. ele teve vontade de ir falar com a rapariga que tinha o cabelo preso no alto da cabeça, um pouco em desalinho. de lhe dizer que não, que não tinha sido sempre assim, que tempos houve em que as palavras fluíam com a facilidade da ternura entre ele e a namorada. tempos em que os silêncios eram espaçosos como o conforto. e não como agora, em que os silêncios eram simplesmente as ausências partilhadas de cada um deles.

Maybe I didn’t hold you
All those lonely, lonely times


And I guess I never told you
I’m so happy that you’re mine

o benfica marcou um golo. na mesa do lado, uma das raparigas festejou com os braços no ar. ele encolheu os ombros: nem gostava tanto assim de futebol, a não ser quando lhe servia de desculpa para se ausentar de si. olhou para ela, na sua frente. parecia perdida. parecia sozinha. parecia profundamente triste. e ele quis chamá-la. quis dizer-lhe não fiques triste. mas as palavras não surgiam, não brotavam, sei lá, parecia que o silêncio o abafava. debruçou-se para a frente para ela o poder ouvir, e comentou a demora do serviço: afinal de contas, tinham pedido há mais de meia-hora. ela acenou afirmativamente e deixou-se cair sobre as costas e os braços do sofá pequenino que lhe servia de cadeira. da mesa do lado, o rapaz de olhos azuis levantou-se para ir fumar. de repente, sem querer, ele cruzou mais uma vez o olhar com a rapariga que tinha o cabelo preso no alto da cabeça, um pouco em desalinho. ela atrapalhou-se novamente, como que apanhada em falta a beber da vida dos outros. mas depois ergueu um bocadinho os olhos, num relance, cruzou-se com os dele, e ele quase que jurou que ela lhe tinha dito qualquer coisa através do espaço que os separava. baixinho, um consolo, talvez uma promessa, ele não sabia dizer.

Little things I should have said and done
I just never took the time

ele levantou-se e vestiu o casaco. não iam aproveitar a promoção para casais, prato+café+sobremesa+bebida+1 jogo de bowling por 23€. em vez disso, iam caminhar juntos até ao parque de estacionament0 subterrâneo, separar-se com um beijo mudo, e seguir para um para o seu carro. depois, ela ia para casa, ia-se deitar e ia chorar muito. se alguém lhe perguntasse porquê, ela não saberia responder. ele ia ligar a música muito alto e conduzir até ao mar, e ia vaguear horas e horas entre o escuro da noite e o barulho da água. se alguém lhe perguntasse porquê, ele não saberia responder. mas saberia talvez dizer aquela frase do Damien Rice que ultimamente lhe preenchia o pensamento dia e noite: does he drives you wild, or just mildly free?

And I guess I never told you
I’m so happy that you’re mine

era dia 14 de Fevereiro. de S. Valentim, se preferirem. e eu era a rapariga da mesa ao lado que tinha o cabelo preso no alto da cabeça, um pouco em desalinho.

img_1761.jpg

[e agora, perguntam vocês, que raio tem o bendito quadro de classificação a ver com o casal calado da mesa do lado? nada, respondo eu. o quadro é só para chatear uma certa e determinada pessoa, que a esta hora deve estar a espumar-se pelas orelhas. mas convém acrescentar, a bem da verdade e da justiça desportiva, que o quadro não tinha espaço para mostrar simultaneamente todos os jogadores, pelo que dois deles ficaram ocultos nesta fotografia. um dos quais (ah, grande mulher!) terminou com 82 pontos o jogo, ficando então com o primeiro lugar do podium. eu não. eu limitei-me a fazer os mínimos para pequim.]

 

 

sou uma mulher. ouve-me: mulher. sou perfeita no que toca à absoluta incapacidade de tomar decisões importantes, falo demais e depois de alguns minutos até a mim se me torna irritante a montanha russa da minha voz interrompida por não menos irritantes gargalhadas inesperadas, não consigo estacionar o katemobile em menos de 3 chega-atrás-chega-à-frente [isto quando o consigo estacionar de todo...] e se ganhasse o euromilhões a primeira coisa que fazia – antes ainda de liquidar a minha dívida ao banco e comprar o bilhete de avião para África – era comprar a secção de mulher da Massimo Dutti IN-TEI-RI-NHA! [agora que penso nisso, há alguma coisa que não joga bem entre os vestidinhos delicados anos 70 e as túnicas esvoaçantes com folhinhos ternurentos e o voluntariado em plena selva. adiante.] o meu vigésimo terceiro par de cromossomas berra X-X por todos os poros. e digo mais: salvo raras excepções, a saber – quando estou no balneário feminino e quando vejo uma congénere a conduzir – até sinto orgulho em ser mulher. até aí, estamos conversados.

agora.

se há coisa.

que realmente me tira.

do sério.

é alguém achar que.

por ser mulher.

sou incapaz de abrir uma porta [estas coisas que eu tenho penduradas a sair dos ombros são braços, ok?].

não me é permitido pagar a conta em bares/restaurantes [já agora, paguem-me também a prestação ao banco...].

quando a caminhar no passeio, não posso assumir a posição “lado-da-rua” [o meu rabo até pode ser grande, mas nem por isso corre o risco de estragar o espelho a um ou outro carro que se lembre de me passar ao lado].

meter gasóleo no katemobile [sei lá, podia enganar-me e enfiar a mangueira num pneu, e aí tinha dois problemas...].

PACHORRA!

a propósito do último ponto, estava este último domingo a gozar os seus últimos raios de sol quando aqui a miudita parou numa bomba para abastecer o dito cujo katemobile. assim que saí do carro e me aproximei da mangueira, ouvi atrás de mim um comentário trocista seguido de várias risadas abafadas. rezava então o senhor que falou: “uma menina tão delicada a meter gasolina? não quer ajuda aqui do tio, quer?”. antes mesmo de voltar a cabeça e fazer o meu olhar altamente sinistro do estilo a-menina-delicada-já-t’as-conta-já-já, sabia o que ia encontrar: um monte de camiões estacionados com o respectivo braço felpudo [=peludo em abundância] a espreitar pela janela, deixando antever uma camisola caviada branca com nódoas de gordura na pança e caspa nos ombros. enchi-me de brios: ora vamos cá a ver quantas meninas-delicadas são necessárias para atestar um carro! sacudi os caracóis, endireitei as costas, agarrei a mangueira. primeiro erro: era tal o entusiamo, que me esqueci de pegar nas folhinhas azuis que servem para estabelecer uma mui saudável barreira entre a pele e os restos de gasóleo que o último artista deixou na pega. respirei fundo e pensei: ok, agora só tens que conseguir não tocar em absolutamente nada com a mão que cheira mal até te afastares o suficiente para poderes ter um ataque de fraqueza e limpar a mão. meti gasóleo até encher. fechei aquele buraquinho por onde o gasóleo entra à chave. rodeei o carro, de olhar triunfante. olhei de soslaio para os camiões. já esquecida do primeiro erro, e entusiasmada com o andar da carruagem, decidi dar mais um ar da minha independência. nada melhor que um daqueles pontapézinhos secos e altivos num pneu, assim em jeito de eu-sou-tão-bom-que-meço-a-pressão-assim. 2º erro. mal dou o pontapezinho seco e altivo, lembro-me que tenho calçadas as minhas sapatilhas cinzentas muito clarinhas com formas brancas e cor-de-rosa. PÂNICO. imediatamente assumo posição fetal e tento limpar a ponta da sapatilha, que é tão lindinha.

pois. lá se me foi a pose.

nunca sei quando devo parar.

perdido por 100, perdido por 1000. mal por mal, lá fui sacar umas folhinhas azuis para limpar a mão-que-cheirava-mal.

 

ainda a propósito, uma conversa via e-mail com um colega e amigo, datada de ontem de manhã:

eu: blablabla [é trabalho, não vos interessa] blablablablablabla [a sério, não vos interessa] blablablablablabla [e mesmo que interesse, não me apetece estar a explicar tudo agora]

desculpa não te ter dado atenção ao bocado, estava na parte mais stressante das células competentes e o meu cérebro é bastante masculino: uma coisa de cada vez, por favor (-;

ele: Quanto ao teu cérebro, eu já tinha reparado pois ele está muitas vezes sintonizado em bola e sexo…

palavra de honra: depois de ouvir estas e outras, pergunto-me porque raio é que tenho que usar o balneário feminino e aturar conversas interessantes como a tia queixar-se à vizinha que perdeu a fita roxa que dava bem com as sapatilhas cor-de-rosa que iam bem com o top que tinha ambas as cores entrelaçadas…

[mãe, pai, só para vos descansar: é essencialmente bola. quase só bola.]

[agora que penso nisso, não sei se vos descansei. mas não se preocupem, eu nunca vos envergonho em público: digo sempre que houve uma grande tempestade no ano de 82 e que eu vim na enxurrada.]

os domingos à tarde têm esta espécie de sobriedade espessa que se entranha no respirar. como se o nosso olhar se pudesse prolongar pela ausência de tempo, ou simplemente a terra girasse mais devagar. são lentos, os domingos à tarde. lentos e enevoados, como se os nossos olhos repousassem serenos no absurdo e pudessem escolher silenciosamente a dimensão do sol. como se.

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Eu nem sei o que procuro. O que sei é que procuro.

Eu, normalmente, não gosto de certezas.

Não posso.

Tanto que um dia destes fui ao oftalmologista e disse-lhe:

Olhe, sou pintor e preciso de ver bem.

Mas não me ponha a ver bem demais.

(…)

Eu gosto muito das coisas que não se vêem todas,

que não são totalmente perceptíveis.

Júlio Resende, entrevista à Pública, 10.02.08

pois. eu também.

este tinha que vir para aqui. mesmo que a má qualidade fotográfica berre de dor por todos os pixeis. mesmo que mais ninguém para além de nós consiga perceber o que lá está escrito. mesmo que sim. porque afinal, são estes pequenos momentos de cumplicidade conseguida que valem a pena. que ficam. mesmo que os demoníacos anticorpos teimem em nos trocar as voltas. whatever. cola e descola.

e um dia [prometo] deixo-te um post-it com toda a minha interminável e esquizofrénica lista de smileys-ao-contrário. uma boa cábula para teres sempre à mão, quando o teu telemóvel apitar [nunca vibrar] e aparecer no pequenito LCD nova SMS de miudita MCA.

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[a propósito: belo post-it. cor do Poupas, pois claro.]