comenta-se por aí, nas esquinas dos corredores atarefados, que o post-it foi inventado por acaso. que o senhor Spencer, homem dotado de espírito criativo e jeitinho de mãos, ansiava pelo Santo Graal do cola-para-sempre-e-nunca-mais-descola. e a meio do caminho, esbarrou com esta cola que, como não quer a coisa, até descola. mas depois, e com jeitinho, volta a colar. e volta a descolar. e volta a colar. e vive neste eterno ciclo de nunca se apegar verdadeiramente às coisas, mas de conseguir existir em todo o lado [quase] ao mesmo tempo. o senhor Spencer olhou para o que tinha criado e viu que aquilo era bom. e passou 3 anos a percorrer seminários e eventos promocionais, a tentar que os supérfluos descrentes aderissem à sua descoberta-por-acaso e fizessem dele um homem estupidamente rico. mas a raça humana é dura de ouvido e recusa-se a entrar em novas ondas assim sem mais nem porquê. até que certo dia o senhor Fry [que se apresenta nesta história como amigo do senhor Spencer], que era o que actualmente nós chamamos de GT [grande totó], pensou que se colasse um post-it na parte de trás do seu marcador do livro de Hinos não precisava efectivamente de o deixar cair de cada vez que abria o dito cujo. está bem que isso lhe dava oportunidade para espreitar o decote da virtuosa viúva que ocupava o lugar ao lado do seu no coro da igreja, mas o senhor Fry, não obstante ser GT, também era um homem sério, e preferia manter-se afastado das danosas tentações demoníacas. como é que desta utilização divina e respeitosa o post-it passou do seu triste anonimato para os mais elevados círculos da fama, aí é que a história me falha. a mim e ao wikipédia. ou se calhar não falta ao rapaz-wiki, eu é que não estive para ler o artigo todo.

adiante. eu gosto de post-its. gosto de colorir as coisas-que-eu-tenho-que-fazer-sem -falta-nas-próximas-horas em papéis animados, quase sempre vai-não-vai para descolar, espetadas nos mais estranhos sítios. uso-as muito no trabalho: “faz ampicilina”, “recolha de céls às 15h”, “seminário 12h”, “preparar app deadline ontem” etc e tal.

e depois, existem aquelas coisas que nos deixam com um sorriso suspenso logo pela manhã e que nos fazem acreditar que, não tomemos nós cuidado, e vamos viver um dia daqueles que efectivamente valeu a pena viver – e não é só porque à noite passa o último episódio do House. pequeninos post-its enfiados no meio dos outros, na confusão da minha secretária, com mensagens perfeitamente inúteis e dispensáveis: daquelas que nos fazem ter a certeza que, diacho, existe gente bonita. e maluca. e nos fazem ter vontade de ter para sempre 25 anos, e para sempre mandar e-mails aparvalhados assinados a fundadora original e tirana absoluta da associação não governamental o-poupas-é-amarelo-e-eu-não-quero-mais-conversa-carago!. e que, diacho, vale a pena acordar nem que seja só para ver um post-it animado a desejar-nos bom dia. e responder com um berro sorridente para o outro lado do laboratório. cola-descola.postas.jpg

2 Comments

  1. O verdadeiro post-it deveria dizer algo assim: Helton fecha as pernas :)

    • Rita
    • Posted February 3, 2008 at 10:56 am
    • Permalink

    Se eu soubesse que simples post-it’s te iriam fazer sorrir mais de manha, com certeza terias a parede cheia de frases e desenhos primitivos que resultam de muito esforço mental às 9h da manha sem cafe ou às 19h de um domingo pachorrento. Viva os post-it’s. Gosto do cola descola. E gosto da capacidade que têm de estar sempre tão presentes.


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