caminhar descalça. encostar a cara à barriga de um gato. enfiar-me na cama numa noite de chuva a ler um bom livro e a roer uma maçã, bocadinho a bocadinho. enfiar um gorro de malha muito quentinho e enrolar um cachecol de 3 metros à volta do pescoço. sair do mar, sacudir a cabeça, e sentir o cabelo molhado a escorrer gotinhas meigas de água&sal costas abaixo.

são aqueles pequeninos prazeres que me fazem sentir como se alguém me estivesse a fazer festinhas do lado de dentro de mim. aquelas coceguinhas meigas algures entre os joelhos e a raiz dos cabelos. eu gosto.

ouvir música. sem dúvida, um dos meus grandes [enormes] pequeninhos prazeres. a música acompanha-me: muito. em miúda andei num conservatório, mas, e porque a natureza é cruel, nunca tive grande jeito para a coisa: o meu irmão, nascido dois anos, seis meses e um dia antes de mim, arrastou consigo todos os genes do talento musical. ficou-me a paixão. ‘tá bem, pode ser, eu sobrevivo com isso. em todos os momentos da minha vida, existe algures num cantinho do meu cérebro um gerador de bandas sonoras que vai desfiando uma após outra as músicas adequadas a determinado momento.

quando penso nisto, acho que somos o que respiramos. e eu sempre respirei muita música em casa dos meus pais. talvez este jeitinho tão intrínseco de gostar de música não seja mais do que uma continuação do jeitinho tão intrínseco do meu pai gostar de música. agora que penso nisso, somos muitos parecidos. não só no extremo mau feitio e na forma pouco delicada com que comunicamos com os senhores condutores que fazem asneira/engonham o trânsito [riscar o que não interessa] perto de nós, mas também na forma como fixamos o olhar num impossível horizonte de uma parede branca, fechamos os olhos, e ouvimos a música de que gostamos trepar-nos devagarinho até cá acima. haverá, assim que me lembre, duas diferenças brutais nesta última semelhança. a primeira é que, por muito que o tempo passe, o meu bigode recusa-se a crescer e o bigode do meu pai recusa-se a desaparecer. a outra é que eu gosto de covers e o meu pai tem uma certa tendência para não-está-mal-mas-não-sei-perdeu-qualquer-coisa-a-versão-original-era-melhor.

eu reconheço: há mais arte no compôr uma música desde o seu nascimento, embalá-la nos momentos de falta de sono, abraçá-la quando ela tem medo, lançá-la ao mundo quando está preparada. mas eu não consigo deixar de pensar que também há muita magia em pegar numa música, despi-la peça a peça [nota a nota, palavra a palavra] e fazê-la renascer tal como sempre acreditamos nela. talvez o que o autor tenha querido dizer se tenha perdido entretanto, mas não faz mal: a versão do autor existirá sempre, e a outra é tão só exactamente aquilo que nós queremos dizer com as palavras do autor. que se lixe: gosto de covers. gosto de ouvir músicas que aprendi a conhecer de cor em roupagens completamente diferentes. gosto, até, de ficar chocada com um tratamento um pouco mais estranho. gosto de redescobrir, e que diabo: as covers são a mais perfeita forma de redescoberta de música.

aqui há tempos, numa manhã em que chovia desalmadamente, o markl [essa grande personagem que tem o condão de não me deixar adormecer nas intermináveis filas de trânsito matinais] apresentou-me o novo cd dos The Bird & The Bee, atravês de um verdadeiramente impressionante Polite Dance Song [o que me causou um extremo arrependimento relativamente àquela que havia elegido como melhor música de 2007 num inquérito feito pela rádio da minha preferência]. antes [ou talvez depois, não me lembro] de passar a música, o markl passou também uns segundos de uma cover que estava no mesmo cd. o original em causa era o que habitualmente eu classifico como uma GCC [Grande ChaChada], o How Deep is Your Love, um ícone do final dos anos setenta e possivelmente o maior sucesso do trio de manos de voz fininha também conhecidos como Bee Gees. confesso que, para minha admiração, fiquei admiravelmente surpreendida. corri a arranjar o cd e nesse mesmo dia à noite deixei-me maravilhar [eu e o maravilhoso botão repeat] com a candura, a meiguice e o aconchego desta versão. adoro o jogo de vozes, a respiração, o minimalismo, a suavidade arrasadora de tudo: mais do que um pequeno prazer, são três minutos e vinte e cinco segundos de Pleno Prazer…

… para mim. para vocês são 30 segundos de amostra porque enfim, já se sabe: cada um tem o que merece.

[esta música sabe a nuvens branquinhas muito doces num céu delicadamente azul. gosto.]

5 Comments

  1. Essa dos genes terem ficado todos no teu mano não é verdade, tu é que eras preguiçosa para aprender aqueles solfejos de seca!! Além disso escolheste um instrumento um bocado apaineleirado… :P

    • Sandrinha
    • Posted January 16, 2008 at 10:32 pm
    • Permalink

    Ai as saudades que eu tenho de dar uma valente dentada numa maça!!!E comer pastilhas elasticas!!??
    Malditos arames que nunca mais se vao embora!!

  2. Para quem gosta muito de música é difícil dizer se é melhor covers ou original, mas eu sou mais a favor do teu pai, nem que seja por razões profissionais :) . Por exemplo, por muitas versões que se façam,nada é melhor do que a versão original da ” Garota de Ipanema”.

    Um autor sente a obra diferente, sempre foi ele que a criou, só ele saberá porque ela nasceu, agora poderá não ser um bom interprete da mesma, isso é diferente. Digamos que estou 60 % a favor do teu pai, e 40% a teu favor.

    Como gostas de versões aconselho-te 3: a música ” Wonderwall” dos Oasis mas pelo Ryan Adams, ou até pela Cat Power. ” Life in Mars” música do David Bowie, mas interpretada pelo Neil Hannon e Yan Tiersen e a música ” One” dos U2 pelo J. Cash, que também tem uma versão fabulosa de ” Personal Jesus” dos Depeche Mode.É assim, perco-me a falar de música depois vem comentários grandes, disse-te 3 músicas e aconselho-te 5 :)

  3. Encontrei isto, não sei se é bem a mesma coisa que tu ouviste. Certamente não em qualidade…

    Seja como for, gosto de covers. Gosto de novas interpretações. Gosto de descobrir uma música outra vez, do princípio. E assim vê-la com outros olhos.

    • Tiago
    • Posted January 23, 2008 at 1:08 pm
    • Permalink

    Acho que uma cover pode ficar melhor que um original…depende muito do teu gosto, do que te move…
    e o contrário também pode muito bem acontecer:)

    Já que estás numa de covers,deixa-me sugerir uma!
    (não sei se conheces:s)

    Sparklehorse + Thom Yorke (pelo telefone de um quarto de hotel!!) – Wish You Were Here (sabes bem de quem é o original de certeza:p)

    vale a pena.
    Beijos


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