Monthly Archives: December 2007

não tenho sono. não é que me sinta agitada ou ansiosa. um pouco triste, talvez. mas a verdade é que não tenho sono. já testei todas as posições possíveis que a almofada pode assumir sob a minha cabeça, já olhei para o tecto, já fechei os olhos, já desci e subi as escadas três vezes, já fui beber água [e lembrei-me daquele músico de olhos tristes d’As intermitências da morte que todas as noites se levantava e ia à cozinha para beber água mas nunca – nunca – levava água para o quarto agora que penso nisso sei lá eu se o músico tinha os olhos tristes ou não eu gosto de o imaginar assim com um sorriso tímido no canto dos lábios e uma voz meiga e uns olhos tristes] já espreitei para o jardim e vi os meus cães enrolados no sono, já encostei a testa à janela e fiz desenhinhos no vidro embaciado, já me deitei outra vez, já fechei os olhos outra vez, não tenho sono.

faltam poucas horas para a passagem de ano. não que a passagem de ano me entusiasme particularmente: fomos nós que criamos o calendário, logo é uma viragem de página puramente artificial. não sou pessoa de fazer promessas de ano novo. provavelmente, porque não sou pessoa de fazer promessas de todo. mas mastigo as passas devagar e peço os meus desejos: acredito mais em desejos do que em promessas. quando eu era pequenininha, aquele desejo que eu queria mesmo que se realizasse repetia-o várias vezes. acreditava sinceramente que o sacrificar muitas passas no mesmo desejo aumentava a probabilidade dele acontecer. uma mãozinha de criança a agarrar as passas com muita força, não fossem elas cair, e uma vozinha infantil dentro da minha cabeça: quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 1ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 2ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 3ª passa goela abaixo] e por aí fora, até quase esgotar as passas. depois alargava o desejo ao resto da família e amigos, salvaguardando sempre a passa-da-paz-no-mundo, pois claro! de qualquer forma, tenho um carinho especial por essa catarina pequenininha: gosto do jeitinho inocente e simples com que ela pedia as coisas. provavelmente por isso é que volvidos tantos anos e já crescida, a catarina grande continua a pedir o mesmo desejo inicial. e continua a repeti-lo muitas vezes, just in case.

hoje de manhã a minha mãe sentou-se na bordinha da minha cama e acordou-me. disse-me que tinha uma notícia muito triste para mim. disse-me que uma pessoa que nos era muito querida tinha morrido ontem. e eu escondi a cabeça debaixo do lençol e esperei que passasse o sonho estranho, porque é claro que ele não tinha morrido. mas afinal parece que sim. e afinal, parece que toda a gente previa. eu, racionalmente, sabia-o. racionalmente, tinha que o saber. mas o resto de mim, o tanto que não é razão, ia-lhe dedicar 4 ou 5 passas daqui a uns dias, ia pedir que ele mandasse o cancro às malvas porque afinal ele é um homem tão bom que até se escapuliu do consultório para o jardim uma vez com a sala de espera cheia de doentes só para me ir mostrar a sua ninhada de cãezinhos nascida há poucas semanas, só porque ele percebeu que eu estava triste e conhecia a minha paixão por Serras da Estrela. como é que eu choro a morte de alguém que durante 21 anos encostou o estetoscópio ao meu peito e ouviu o meu coraçãozinho bater?

se calhar foi por isto. porque estes raptos da morte à vida nos fazem pensar em clichés estúpidos. na importância de pequenas coisas. de pessoas. dos outros. ou por isso, ou porque eu realmente não tenho sono. lembrei-me do tom ciumento [és impossível, tu!] com que desfiavas as tuas palermices: falas de todos, falas dos teus outros amigos, dedicas posts a todos, e a nós, nada. és fixe, tu, és mesmo fixe. com amigos assim!… vamos lá ver se nos entendemos de uma vez por todas: eu não preciso de nos dedicar nenhum post, porque nós somos inevitáveis. nós existimos e somos assim. às vezes passa mais tempo, às vezes corre mais distância, mas acabamos sempre por regressar. por nos regressar. por isso, não preciso de nos dedicar nenhum post. mas como estou mesmo farta de te aturar, e porque sei que te agradam estas mariquices, o último post de 2007, o fecho do ano, o balanço para contas, isso tudo – é vosso. ou melhor: nosso.

faço as contas pelos dedos das mãos: eu e uma de vocês conhecemo-nos há 16 anos [auch... é por estas e por outras que eu prefiro não saber as datas]; há 10 anos atrás, as outras duas malucas juntaram-se à parelha [ficou uma bi-parelha]. e estávamos formadas: Nós. tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. passaram 7 anos: estamos iguais.

tem piada, não tem? há uma altura na nossa vida em que acreditamos piamente que todas as amizades que fazemos têm o selo do para-sempre. e depois há essa outra altura na vida em que percebemos que para-sempre é mesmo uma porrada de tempo e que as coisas não são bem assim. e percebemos que a vida, essa danadinha, vai divergindo. e um dia esbarrámos na pessoa que se sentou ao nosso lado durante os quatro infindáveis anos da escola primária, e percebemos com uma nitidez trágica que não falamos a mesma língua. que não passa mensagem, porque não existe estrada. que somos diferentes: demasiado diferentes para nos podermos compreender. e quando não há compreensão, tudo o que pode existir entre duas pessoas é cordialidade. nessa altura, pensamos que os amigos se perdem. hoje, portadora de um cabelo branco que nasce ali quem sobe da orelha esquerda, percebo que os amigos não se perdem. não verdadeiramente: fomos amigos de alguém em determinada altura, porque em determinada altura nós e essa pessoa fazíamos sentido. se o deixamos de ser hoje, é por causa do cabelo branco e das coisas em que ele nos faz pensar: é que aquilo que nós eramos cresceu. mas aquilo que nós eramos e aquilo que a outra pessoa era continuam a fazer sentido. não é que os amigos se percam: é só que as amizades, às vezes, têm barreiras temporais. não se perdem, realmente: vão existir sempre, mas dentro dessas barreiras.

e às vezes, existem mesmo fora de todas essas barreiras. 16 anos, 10 anos: ainda estamos aqui. ainda estamos juntas. ainda dizemos disparates [aliás, vocês dizem disparates: a vossa sorte é que têm a minha cabecinha sensata por perto para tomar conta de vocês]. o tempo foi e voltou – estivemos mais próximas, estivemos mais afastadas, passámos noites inteiras a trocar confissões e semanas a fio sem nos vermos. já tivemos vontade de desistir, porque às vezes existir para outra pessoa dá um trabalhão infinito. já estivemos mesmo próximas de desistir, porque eu tenho mau-feitio e sou anti-social, e tu és impaciente e exigente, e tu estás sempre com o teu namorado, e tu tens uma vida complicada e mais do que fazer do que nos aturar. mas não desistimos: insultámo-nos, odiámo-nos por alguns segundos, e depois voltamos. porque nós somos Amigas, e se a amizade não fosse uma grande trapalhada também não tinha piada nenhuma.

tu. sempre foste a mais disponível de nós todas. aquela que mais vezes desafia para um café, aquela que nunca nos deixa morrer: nos momentos de maior afastamento, foste o nosso kit de reanimação – é impressionante a forma como estás sempre lá. de uma forma muito intrínseca, sabes mais sobre cada uma de nós do que nós sabemos umas das outras. e quando alguém está triste, tu estás lá. quando eu achei que tinha encontrado o meu princípe encantado e acabei com o coraçãozinho partido em bocadinho pequenininhos espalhados por um chão enorme, tu apareceste para os apanhar. quando a mãe dela estava internada, quando ela se sentiu desanimada com a vida, tu estavas lá. estás sempre lá. o tempo passa, e tu estás lá. e às vezes chateias-te e mandas vir e amuas como uma criancinha [quase que juro que bates com o pé no chão] e dizes que só tu é que te esforças, que só tu é que lanças desafios, que nós nos acomodámos. que te dizer? – a verdade é que tens razão. é fácil deixarmo-nos dormir quando a sombra do coração que nos abriga é tão Grande, tão Enorme, tão Infinita.

tu. foste sempre a mais decidida de nós todas. enquanto eu tinha medo, e ela não sabia bem o que queria, e ela lutava mas sem grande tempo para sonhar, tu sabias o que querias da vida. aterrava-me a forma como dizias, sem hesitar, que não querias casar: que eras uma mulher de carreira. essencialmente, aterrava-me porque eu tinha os meus sonhos – os meus castelos de nuvens – mas era tudo muito romântico e aéreo. nunca tive a tua visão sensata, racional e decidida da vida. eventualmente, essa parte do não casar amoleceu. ainda bem. e para além disso, a vida decidiu ensinar-te o Medo e a Dúvida: vi-te um dia, e os teus olhos estavam distantes. tive medo: nunca os teus olhos foram distantes. tristes ou alegres, nunca distantes. mas sabes, agora que a tempestade passou… acho que cresceste. estás Maior, sabes? é o que acontece a quem cai e se levanta: nada mais neste mundo é capaz de te derrubar. abalar talvez, mas derrubar nunca: guardas o mundo inteiro no teu peito, é teu.

e tu. foste sempre a mais forte de nós todas. e por muito que eu pense, por muito que eu tente deslindar de onde te nasce essa força tão dorida, tão incapaz de fraquejar, tão inevitável, não consigo perceber. ultrapassas-me largamente: vejo-te ao longe, como uma espécie de super-herói no cume de uma montanha com a capa ao vento. ao teu lado, eu sou pequenina. e mimada. e incapaz. convenhamos: a vida fez-te algumas filhas da putice imperdoáveis. rais me parta se eu hei-de perceber como sobreviveste a tudo sem perderes esse jeitinho especial de dizer uma série imbatível de disparates seguidos sem sequer parares para respirar. tenho-te inveja: nunca vou ter a tua força, a tua serenidade. há uns anos atrás, numa noite de novembro, entrei na mesma capela onde entrei hoje à tarde, só para te ver estrangulada por uma dor insuportável que te rasgava toda. nesse dia, cheguei a casa e escrevi isto:

a noite pousou devagar
sobre o universo apagado das coisas já mortas
[eternamente adormecidas]
e, por um instante,
a Terra cessou o seu contínuo movimento
suspensa no terror do teu pânico
[absurda na tua dor revoltada].

o quanto de ti anoiteceu eternamente naquele instante singular,
denso de mágoa e de amor.
o quanto de ti se rasgou em espasmos de água e sal e dor infinita.
[o quanto de ti.]

mas não me morras
[os teus silêncios calados berram a angústia das dores insustentáveis]
mas não me morras, fica comigo
[eu sempre estive contigo.]


o meu luto é todo pela serenidade Branca e Inteira
[aquela que respirava na luz dos teus olhos.]

Porto, 2004-nov-11

és linda. e és grande. e espero que já te tenham passado os ciúmes todos, porque macacos me mordam [com meiguice, faxabor] se eu tenho paciência para te aturar. ah pois é.

tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. espreito a nossa fotografia de há uns dias atrás, juntinho ao Douro, no nosso jantar de Natal. passaram 7 anos: estamos iguais. tirando o facto de vocês estarem quase-vai-não-vai casadas e mães de filhos e eu ser proprietária de um apartamento e ter um estupor de um cabelo branco ali quem sobe da orelha esquerda, estamos iguais.

 

e este foi o último post de 2007.

 

de certa forma, o primeiro de 2008 também.

 

 

PS: a expressão passa-da-paz-no-mundo tem o seu quê de poético. às vezes surpreendo-me a mim própria.

as renas [o rudolfo e a outra]
e os seus valorosos, vermelhuscos e mui charmosos narizes
desejam a toda a comunidade blogueira

um feliz natal!

[a minha paixão por esta música ultrapassa todos os limites do razoável e roça-se perigosamente nos limites da doença mental... vá lá, agora todos comigo: rudolph, the red-nosed reindeeeeeeeer, you'll go down in histooooory!]

 

de há umas semanas para cá que ando seriamente preocupada com a pressão dos meus pneus. daqueles que estão debaixo do katemobile, entenda-se. passa-se que tenho cá comigo que os ditos cujos estão com pouca pressão. e que eu devia verificá-la. e corrigi-la. asap. mas, e a par desta preocupação, uma outra de carácter mais profundo e definitivo impede-me de o fazer. falo, claro está, da integridade das 4 patinhas do meu par de cromossomas XX. é que, convenhamos: isto de reparar na pressão dos pneus e tal-e-coiso é coisa de gajo. gaja-qué-gaja, para começar, nem sequer diz pneus: diz rodas. as rodas, às vezes, fazem um barulho esquisito. e o coiso, às vezes, escorrega de uma maneira esquisita. mas gaja-qué-gaja tende a não gastar muito do seu escasso tempo a preocupar-se com pneus. não com os desta natureza, pelo menos.

não que o quebrar de um dos paradigmas associados ao famoso XX me fosse diminuir os níveis de estrogénio: nada disso, a pílula existe já para tapar esses buracos! o que realmente me apoquenta e me faz desafiar as leis da física e acelerar asfalto fora com pouca pressão nos pneus [eu estou a pedi-las, oh se estou!] é que este não é, nem de perto nem de longe, o único paradigma feminino que eu tenho tendência a quebrar de forma rotineira. na verdade, e fazendo uma análise desapaixonada das minhas atitudes, é com tristeza que constato: eu sou um gajo. pois é, senhores: um gajo. não fosse eu ter todas aquelas típicas e irritantes características habitualmente provocadas pela presença de um X perneta, também conhecido como cromossoma Y. ora percorram lá comigo a infindável lista de taras, jeitos & manias tipicamente masculinas que fazem parte da minha personalidade:

- respeito o universo em toda a sua grandiosidade: dizem as teorias da física que o dito cujo tende para o caos? pois seja: para não o magoar de forma alguma, recuso-me a fazer arrumações;

- conduzo com braços e pernas beeeeeem esticados: é puxar o banco atrás e dar espaço aos membros, faxabor, que para andar apertada já basta quando tenho que ir a um centro comercial;

- não faço ideia quem desenhou o último decote [digo: vestido] que a catarina furtado usou para ir às compras no supermercado do bairro, mas sei perfeitamente quem foi responsável pelo novo design dos equipamentos do FCP;

- estou plenamente convencida que sou melhor condutora do que 99% dos patêgos que se cruzam comigo na VCI;

- enquanto caminho pela rua, tenho o hábito de classificar os membros do sexo oposto que por mim passam numa criteriosa escala que começa em 0 e acaba em 20;

- quando vou a conduzir, posso perder-me; posso até perder-me frequentemente; mas sei, com uma daquelas certezas infindáveis que começa na planta dos pés e acaba na ponta dos cabelos, que vou reconhecer onde estou já-ali-adiante-na-próxima-curva; sendo que o conceito de próxima, empregado neste contexto, é bastante vasto e não limitado àquela-que-é-imediatamente-a-seguir; assim sendo, sinto-me perfeitamente justificada para recusar terminantemente pedir indicações na berma da estrada [desculpa, mãezinha!];

- no meu local de trabalho, utilizo muitas mais vezes o wc masculino do que o feminino [não façam essa cara!! são quase inteiramente iguais, a única diferença é que o das fêmeas está constantemente ocupado e o outro não...];

- de uma forma geral, penso que as mulheres são complicadas; em jeito de confissão vos digo: já desisti de as perceber, limito-me a repetir aquilo que elas dizem umas às outras – parecendo que não, funciona;

- tenho uma incapacidade absolutamente limitante que me impede de fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo, a não ser que as coisas em causa sejam conduzir e insultar – essas duas, coordeno-as maravilhosamente;

agora digam lá se semelhante lista não é motivo para eu ficar preocupada e começar a desconfiar seriamente que tenho um X, senão pior, pelo menos manquinho das ideias. diacho: é mau!

nestes casos, nada como um bom amigo para surgir em nosso socorro e nos salvar de semelhante tortura mental. aqui há dias, pergunta-me o Q&F:
- qual é o modelo do carro do teu pai, mesmo?
ao que eu olho para o chão, passo a mão esquerda pelo pescoço, apanho o cabelo no alto da cabeça e deixo-o cair novamente, volto a olhar para o chão e finalmente digo:
- então, é… o chamado modelo azul-escuro…
[para ser sincera, creio que disse qualquer coisa como zulixkuru, para ver se o convencia. mas o rapaz, não obstante ser muito fofinho, tem esperto no cabeço e não caiu nessa.]

convenhamos que foi a resposta mais à gaja-qué-gaja que eu poderia ter dado. e – atenção – foi inteiramente sincera. senti-me feliz. e mais relaxada. isso, e os senhores simpáticos da construção civil que hoje de manhã fizeram o favor de elogiar o volume, a profundidade e a intensidade das minhas curbas, fizeram-me ficar descansada durante uns tempos. c’os diabos: até posso ser um gajo, mas pelo menos sou um gajo com um rabo jeitoso. jeitosinho, vá.

portanto, e páginas tantas, até que estava na hora de ir ver a pressão dos pneus. isso, ou pedir a um daqueles senhores de fato-de-macaco cheio de manchas de óleo para o fazerem por mim, enquanto eu me encosto no poste mais próximo a falar ao telemóvel com uma amiga e a dar risadinhas parvas de 37 em 37 segundos. só para manter as aparências. isso.

 

[e agora perguntam vocês, ainda incrédulos com a minha revelação sobre o formato do meu rabo: então, mas... a banda sonora... o que é que tem a ver com...?]

[e respondo eu, com ar vitorioso: nada! mas o raio da música dá-me sempre vontade de rir. outra característica masculina: sou incoerente, e isso não me chateia assim por aí adiante!...]

 

think of all the fun I’ve missed
think of all the fellas that I haven’t kissed
next year I could be just as good
if you’d check off my Christmas list

boo-doo-bee-dooooo


a princípio é simples,
anda-se sozinho.

eu ia escrever um post engraçado, juro que ia. uma daquelas histórias inconsequentes que nos embalam o dia em sorrisos distraídos. ia falar-vos, sei lá, da minha extraordinariamente gigantesca colecção de músicas de Natal com a qual chateio o juízo a toda a gente que me rodeia. ou das magníficas sete versões de Rufoldo, a rena com a penca vermelha, a minha música de eleição que faço questão de cantarolar [repetidamente...] em público. ou da minha paixão-não-consumada por aqueles globos mágicos com cidadezinhas pequeninas lá dentro onde neva muito quando a gente os vira ao contrário, paixão-não-consumada essa que aumenta exponencialmente a cada Natal que passa. ou da hilariante saída do segurança lá do instituto enquanto andava a fazer a ronda e me encontrou sozinha a horas impróprias a trabalhar no laboratório. sei lá, ia escrever qualquer coisa engraçada, juro que ia. mas depois não tive tempo. e depois não tive tempo outra vez. e depois foi na semana passada, já era tarde, estava eu e mais dois resistentes no laboratório, e o telefone tocou. e eu levantei-me para atender.

- estou sim, boa tarde.
- estou sim? seria possível falar com o professor (…)?
- ele já saiu. deseja deixar mensagem?
- ele já saiu? mas eu precisava mesmo de falar com ele!…
- pois, mas ele já saiu. se quiser deixar mensagem, eu…
- mas era mesmo urgente!
- eu compreendo, mas eu não posso fazer nada.
- é que… sabe, eu precisava mesmo de falar com ele. é que eu tinha exame amanhã e queria pedir-lhe para adiar para a próxima semana…
- ahhhhhhh!… então pronto, eu deixo-lhe um recado a dizer que…
- sim, por favor. ele está ao corrente da minha situação. é que eu tive uma sessão de quimioterapia hoje e fiquei cheia de febre, o meu médico aconselhou-me a não me expôr ao exterior.

[e o que é que se faz? naquele momento, quando se ouve aquilo, o que é que se faz? apetece pedir desculpa, mas não se sabe bem de quê. apetece limpar uma lágrima, mas não se sabe bem porquê.]

- eu deixo-lhe uma mensagem escrita no gabinete. e tento falar com ele amanhã logo quando ele chegar, está bem?
- muito obrigada. então boa noite.
- boa noite.

[e apetece acrescentar as melhoras, mas a gente sabe lá. páginas tantas não há melhoras para se desejar, e pousa-se o telefone no descanso com um aperto estranho no olhar.]

[começa-se a arrumar as coisas lentamente, porque já não apetece trabalhar. ouve-se uma voz, parece que a km de distância. mas essencialmente, ouve-se silêncio.
- ...ouve lá, mas tu estás a ouvir sequer o que eu te estou a dizer?!
- não. quer dizer, estou. acho que sim, acho que podes fazer isso assim.
- pronto... o que é que tu tens?
- nada.
- ah, bom. e para além do nada, o que é que tu tens?
- nada, pá! vou-me embora, até amanhã.
sai-se para a noite, experimenta-se o frio o rosto, entra-se no carro, dá-se à chave, desliga-se o rádio, e, num instante de paragem, percebe-se: a minha vida é tão minúscula e mesquinha que se podia passar por ela sem a ver.]

enfim de uma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio

já em casa, a seguir ao jantar, liguei distraídamente a tv. a imagem parou na RTP1, no centro da tua cara. e eu medi a dimensão do teu sorriso, a impossível ternura dos teus olhos vivos e sedutores. oh coisinha-boa, quem és tu afinal? e então a câmara afastou-se para me deixar ver o resto do teu Ser. o resto, feito de metal e de fios eléctricos, a enorme cadeira que te transportava a esperança. percebi-te devagarinho: o teu tronco parado, as tuas pernas imóveis, os movimentos algo desajustados dos teus braços que morriam nas tuas mãos cegas para o mundo, o teu pescoço às vezes quase desequilibrado, e o teu rosto. lindo. e claro que sim, claro que eras feliz. claro que tiveste culpa, claro que tiveste 16 anos e claro que tiveste culpa de beber e sair a conduzir uma mota. claro que foi duro, claro que tens medos. mas claro que és feliz, e claro que adoras fazer mergulho, porque a força da gravidade é atenuada pela água e tu sentes-te livre. claro que adoras fazer mergulho, porque a força da gravidade é atenuada pela água. claro que adoras fazer mergulho. e claro que és Feliz. claro que és Livre.

e eu aperto-te entre os meus dedos cansados. e gasto a revolta em lágrimas estéreis: pudera eu, por um instante que fosse, ser Feliz como tu. Bonita como tu. mas tu és muito Maior que eu – tu és muito maior que a Vida – e o teu sorriso é apanágio dos deuses.

e entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa

para a próxima eu escrevo um post engraçado, juro que sim. uma daquelas histórias inconsequentes que nos embalam o dia em sorrisos distraídos.

mas assim para já, vou regressar ao silêncio dos postais de natal.

isso.

há momentos tão instantâneos como dolorosos. há espaços que, mesmo no centro da cidade, são só meus. há beleza em contar os passos. e os silêncios. e em ficar subitamente sozinha no meio da multidão barulhenta.

há beleza nas coisas pequenininhas. nas coisas pequenininhas dentro das coisas pequenininhas. nas coisas que se seguram numa mão fechada.

right now
it’s feels like forever can’t wait
right now
it’s looks like tomorrow too late
to meet those expectations
ones that have never unknown

right now
it’s high not to fall out of place
you make me wrong
have I fallen from grace
what you do for yourself
you expect to someone else

I heard that love is a verb

right now
it seems quite cold hearted
but how did my grieving
before we parted
the ground where we lay
and hope to my heart you could stay


senti-te sempre perto. tão perto como se a tua melancolia, ao respirar, arrancasse bocadinhos meigos da minha pele. mesmo eu longe, tu estavas lá. mesmo eu perdida, a tua mão sobre a minha.

a tua intensidade, a tua beleza, os teus soluços violentos arrancados do fundo de um qualquer sonho de amor.

[e eu estive longe – tão longe de ti.]

conheço-te de cor as linhas e os horizontes, as pequenas rugas e tudo o que extravasa do teu sorriso triste e meigo.

sei-te a enorme melancolia dos abraços inacabados, do amor que dás e não recebes, do brilho duro da pedra em que renasces.

e morres.

reconheço-te meu, como me reconheço tua.

vejo-te às vezes de longe, às vezes de perto, e de longe ou de perto sei-te irremediavelmente intrínseco em mim.

olho-te uma vez mais, como se não acabasses nunca.

e no fundo calado da tua alma, grande como a tua noite, agita-se suavemente o terrível Orgulho de se Ser Português.

Porto, Património Mundial da Humanidade (por declaração da UNESCO a 4 de Dezembro de 1996).

[1, 2, 3, já cá 'tamos outra vez!]



… se oye hablar de un canto de mujer…

Sou a SOMBRA de mim mesmo,
à procura daquilo de que é
sombra.

Paro às vezes à beira de mim próprio
e pergunto-me se sou um doido
ou um mistério muito misterioso.

Fernando Pessoa

…luna canta para el
amanece y cuentan que
en los dias de calor
el sol muere de pasion
el mar son lagrimas que hizo llover
la voz de la tristeza es deray…