não tenho sono. não é que me sinta agitada ou ansiosa. um pouco triste, talvez. mas a verdade é que não tenho sono. já testei todas as posições possíveis que a almofada pode assumir sob a minha cabeça, já olhei para o tecto, já fechei os olhos, já desci e subi as escadas três vezes, já fui beber água [e lembrei-me daquele músico de olhos tristes d’As intermitências da morte que todas as noites se levantava e ia à cozinha para beber água mas nunca – nunca – levava água para o quarto agora que penso nisso sei lá eu se o músico tinha os olhos tristes ou não eu gosto de o imaginar assim com um sorriso tímido no canto dos lábios e uma voz meiga e uns olhos tristes] já espreitei para o jardim e vi os meus cães enrolados no sono, já encostei a testa à janela e fiz desenhinhos no vidro embaciado, já me deitei outra vez, já fechei os olhos outra vez, não tenho sono.
faltam poucas horas para a passagem de ano. não que a passagem de ano me entusiasme particularmente: fomos nós que criamos o calendário, logo é uma viragem de página puramente artificial. não sou pessoa de fazer promessas de ano novo. provavelmente, porque não sou pessoa de fazer promessas de todo. mas mastigo as passas devagar e peço os meus desejos: acredito mais em desejos do que em promessas. quando eu era pequenininha, aquele desejo que eu queria mesmo que se realizasse repetia-o várias vezes. acreditava sinceramente que o sacrificar muitas passas no mesmo desejo aumentava a probabilidade dele acontecer. uma mãozinha de criança a agarrar as passas com muita força, não fossem elas cair, e uma vozinha infantil dentro da minha cabeça: quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 1ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 2ª passa goela abaixo], quero que a mãe, o pai e o tiago sejam muito felizes [tungas: 3ª passa goela abaixo] e por aí fora, até quase esgotar as passas. depois alargava o desejo ao resto da família e amigos, salvaguardando sempre a passa-da-paz-no-mundo, pois claro! de qualquer forma, tenho um carinho especial por essa catarina pequenininha: gosto do jeitinho inocente e simples com que ela pedia as coisas. provavelmente por isso é que volvidos tantos anos e já crescida, a catarina grande continua a pedir o mesmo desejo inicial. e continua a repeti-lo muitas vezes, just in case.
hoje de manhã a minha mãe sentou-se na bordinha da minha cama e acordou-me. disse-me que tinha uma notícia muito triste para mim. disse-me que uma pessoa que nos era muito querida tinha morrido ontem. e eu escondi a cabeça debaixo do lençol e esperei que passasse o sonho estranho, porque é claro que ele não tinha morrido. mas afinal parece que sim. e afinal, parece que toda a gente previa. eu, racionalmente, sabia-o. racionalmente, tinha que o saber. mas o resto de mim, o tanto que não é razão, ia-lhe dedicar 4 ou 5 passas daqui a uns dias, ia pedir que ele mandasse o cancro às malvas porque afinal ele é um homem tão bom que até se escapuliu do consultório para o jardim uma vez com a sala de espera cheia de doentes só para me ir mostrar a sua ninhada de cãezinhos nascida há poucas semanas, só porque ele percebeu que eu estava triste e conhecia a minha paixão por Serras da Estrela. como é que eu choro a morte de alguém que durante 21 anos encostou o estetoscópio ao meu peito e ouviu o meu coraçãozinho bater?
se calhar foi por isto. porque estes raptos da morte à vida nos fazem pensar em clichés estúpidos. na importância de pequenas coisas. de pessoas. dos outros. ou por isso, ou porque eu realmente não tenho sono. lembrei-me do tom ciumento [és impossível, tu!] com que desfiavas as tuas palermices: falas de todos, falas dos teus outros amigos, dedicas posts a todos, e a nós, nada. és fixe, tu, és mesmo fixe. com amigos assim!… vamos lá ver se nos entendemos de uma vez por todas: eu não preciso de nos dedicar nenhum post, porque nós somos inevitáveis. nós existimos e somos assim. às vezes passa mais tempo, às vezes corre mais distância, mas acabamos sempre por regressar. por nos regressar. por isso, não preciso de nos dedicar nenhum post. mas como estou mesmo farta de te aturar, e porque sei que te agradam estas mariquices, o último post de 2007, o fecho do ano, o balanço para contas, isso tudo – é vosso. ou melhor: nosso.
faço as contas pelos dedos das mãos: eu e uma de vocês conhecemo-nos há 16 anos [auch... é por estas e por outras que eu prefiro não saber as datas]; há 10 anos atrás, as outras duas malucas juntaram-se à parelha [ficou uma bi-parelha]. e estávamos formadas: Nós. tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. passaram 7 anos: estamos iguais.
tem piada, não tem? há uma altura na nossa vida em que acreditamos piamente que todas as amizades que fazemos têm o selo do para-sempre. e depois há essa outra altura na vida em que percebemos que para-sempre é mesmo uma porrada de tempo e que as coisas não são bem assim. e percebemos que a vida, essa danadinha, vai divergindo. e um dia esbarrámos na pessoa que se sentou ao nosso lado durante os quatro infindáveis anos da escola primária, e percebemos com uma nitidez trágica que não falamos a mesma língua. que não passa mensagem, porque não existe estrada. que somos diferentes: demasiado diferentes para nos podermos compreender. e quando não há compreensão, tudo o que pode existir entre duas pessoas é cordialidade. nessa altura, pensamos que os amigos se perdem. hoje, portadora de um cabelo branco que nasce ali quem sobe da orelha esquerda, percebo que os amigos não se perdem. não verdadeiramente: fomos amigos de alguém em determinada altura, porque em determinada altura nós e essa pessoa fazíamos sentido. se o deixamos de ser hoje, é por causa do cabelo branco e das coisas em que ele nos faz pensar: é que aquilo que nós eramos cresceu. mas aquilo que nós eramos e aquilo que a outra pessoa era continuam a fazer sentido. não é que os amigos se percam: é só que as amizades, às vezes, têm barreiras temporais. não se perdem, realmente: vão existir sempre, mas dentro dessas barreiras.
e às vezes, existem mesmo fora de todas essas barreiras. 16 anos, 10 anos: ainda estamos aqui. ainda estamos juntas. ainda dizemos disparates [aliás, vocês dizem disparates: a vossa sorte é que têm a minha cabecinha sensata por perto para tomar conta de vocês]. o tempo foi e voltou – estivemos mais próximas, estivemos mais afastadas, passámos noites inteiras a trocar confissões e semanas a fio sem nos vermos. já tivemos vontade de desistir, porque às vezes existir para outra pessoa dá um trabalhão infinito. já estivemos mesmo próximas de desistir, porque eu tenho mau-feitio e sou anti-social, e tu és impaciente e exigente, e tu estás sempre com o teu namorado, e tu tens uma vida complicada e mais do que fazer do que nos aturar. mas não desistimos: insultámo-nos, odiámo-nos por alguns segundos, e depois voltamos. porque nós somos Amigas, e se a amizade não fosse uma grande trapalhada também não tinha piada nenhuma.
tu. sempre foste a mais disponível de nós todas. aquela que mais vezes desafia para um café, aquela que nunca nos deixa morrer: nos momentos de maior afastamento, foste o nosso kit de reanimação – é impressionante a forma como estás sempre lá. de uma forma muito intrínseca, sabes mais sobre cada uma de nós do que nós sabemos umas das outras. e quando alguém está triste, tu estás lá. quando eu achei que tinha encontrado o meu princípe encantado e acabei com o coraçãozinho partido em bocadinho pequenininhos espalhados por um chão enorme, tu apareceste para os apanhar. quando a mãe dela estava internada, quando ela se sentiu desanimada com a vida, tu estavas lá. estás sempre lá. o tempo passa, e tu estás lá. e às vezes chateias-te e mandas vir e amuas como uma criancinha [quase que juro que bates com o pé no chão] e dizes que só tu é que te esforças, que só tu é que lanças desafios, que nós nos acomodámos. que te dizer? – a verdade é que tens razão. é fácil deixarmo-nos dormir quando a sombra do coração que nos abriga é tão Grande, tão Enorme, tão Infinita.
tu. foste sempre a mais decidida de nós todas. enquanto eu tinha medo, e ela não sabia bem o que queria, e ela lutava mas sem grande tempo para sonhar, tu sabias o que querias da vida. aterrava-me a forma como dizias, sem hesitar, que não querias casar: que eras uma mulher de carreira. essencialmente, aterrava-me porque eu tinha os meus sonhos – os meus castelos de nuvens – mas era tudo muito romântico e aéreo. nunca tive a tua visão sensata, racional e decidida da vida. eventualmente, essa parte do não casar amoleceu. ainda bem. e para além disso, a vida decidiu ensinar-te o Medo e a Dúvida: vi-te um dia, e os teus olhos estavam distantes. tive medo: nunca os teus olhos foram distantes. tristes ou alegres, nunca distantes. mas sabes, agora que a tempestade passou… acho que cresceste. estás Maior, sabes? é o que acontece a quem cai e se levanta: nada mais neste mundo é capaz de te derrubar. abalar talvez, mas derrubar nunca: guardas o mundo inteiro no teu peito, é teu.
e tu. foste sempre a mais forte de nós todas. e por muito que eu pense, por muito que eu tente deslindar de onde te nasce essa força tão dorida, tão incapaz de fraquejar, tão inevitável, não consigo perceber. ultrapassas-me largamente: vejo-te ao longe, como uma espécie de super-herói no cume de uma montanha com a capa ao vento. ao teu lado, eu sou pequenina. e mimada. e incapaz. convenhamos: a vida fez-te algumas filhas da putice imperdoáveis. rais me parta se eu hei-de perceber como sobreviveste a tudo sem perderes esse jeitinho especial de dizer uma série imbatível de disparates seguidos sem sequer parares para respirar. tenho-te inveja: nunca vou ter a tua força, a tua serenidade. há uns anos atrás, numa noite de novembro, entrei na mesma capela onde entrei hoje à tarde, só para te ver estrangulada por uma dor insuportável que te rasgava toda. nesse dia, cheguei a casa e escrevi isto:
a noite pousou devagar
sobre o universo apagado das coisas já mortas
[eternamente adormecidas]
e, por um instante,
a Terra cessou o seu contínuo movimento
suspensa no terror do teu pânico
[absurda na tua dor revoltada].
o quanto de ti anoiteceu eternamente naquele instante singular,
denso de mágoa e de amor.
o quanto de ti se rasgou em espasmos de água e sal e dor infinita.
[o quanto de ti.]
mas não me morras
[os teus silêncios calados berram a angústia das dores insustentáveis]
mas não me morras, fica comigo
[eu sempre estive contigo.]
o meu luto é todo pela serenidade Branca e Inteira
[aquela que respirava na luz dos teus olhos.]
Porto, 2004-nov-11
és linda. e és grande. e espero que já te tenham passado os ciúmes todos, porque macacos me mordam [com meiguice, faxabor] se eu tenho paciência para te aturar. ah pois é.
tenho na mão aquela fotografia que está sobre uma estante no meu quarto, nós as quatro num restaurante qualquer em 2001. foram vocês que ma deram, na moldura de madeira. espreito a nossa fotografia de há uns dias atrás, juntinho ao Douro, no nosso jantar de Natal. passaram 7 anos: estamos iguais. tirando o facto de vocês estarem quase-vai-não-vai casadas e mães de filhos e eu ser proprietária de um apartamento e ter um estupor de um cabelo branco ali quem sobe da orelha esquerda, estamos iguais.
e este foi o último post de 2007.
de certa forma, o primeiro de 2008 também.
PS: a expressão passa-da-paz-no-mundo tem o seu quê de poético. às vezes surpreendo-me a mim própria.




