em itálico, um dos meus poemas preferidos de Eugénio de Andrade.
[nunca, Eugénio, nunca. nunca o-meu-o-teu-o-nosso portugal que cheira a amoras bravas no verão conheceu quem cantasse o amor com semelhante magia e arrebatamento de alma. desenhaste a eternidade em palavras.]
Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é mais perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.
chegaste num sopro levezinho de vida. os teus passos têm tanto de único como de extraordinário: caminhas como se a Vida te pertencesse. como se o teu canto no mundo tivesse a perfeição das eternidades a caminho [continuamente a caminho, meu amor]. chegaste e um vento manso de alegria meiga sacudiu-te o sorriso. e pegaste-me na mão, vem. quero-te mostrar uma coisa. [mas que outra coisa para além de ti, que outro horizonte para além do fundo dos teus olhos, que outro sorriso para além da tua existência, que outro espanto para além da tua mão na minha, vem.] e eu segui-te, interminável no espanto de cada gesto teu.
Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.
levaste-me pela mão por entre aqueles caminhos que eu conheço de cor mas que entretanto fui abandonando, aos bocadinhos, ao mesmo tempo que a minha inocência se foi rasgando em pedaços incertos de um pano branco. [e flutuaram ao vento até morrerem num horizonte que nunca foi o meu.] olha um segredo, lê os meus lábios: às vezes, ainda gosto de lançar bocados de mim por esses caminhos. mas os meus olhos já perderam essa graça funda do primeiro parto que brilha nos teus. tudo o que me mostras é intensamente novo em ti. partilhas comigo um baton de cieiro cor-de-rosa, não, dois, olha mad’inha!, e nas tuas mãos pequeninas aqueles dois tubinhos rosados são um milagre de ternura que prende a tua atenção até ao infinito da surpresa. tudo o que me mostras é intensamente novo em ti. um dó isolado no meio do piano, olha mad’inha!, muito bem, criatura, muito bem!, e tu baixas os olhos transbordantes de orgulho, tu foste capaz, tu aprendeste o dó, aliás, aprendeste todos os dós, olha mad’inha, os dós a subirem a montanha!, e lá iam eles, encarreirados, teclado acima, quase que os imagino de gorro verde [có-rosa, corriges tu, num ar subitamente preocupado] e mãos dadas, a cantar, de sétima em sétima, até chegar ao primeiro, que imagino alto e estranhamente magro, o primeiro da fila que puxa os dós montanha-acima e é puxado montanha-abaixo. olha um segredo, lê os meus lábios: até hoje, eu acreditava que tinha uma certa cultura musical, essencialmente baseada na necessidade que tenho de uma constante banda sonora em mim. isto até descobrir o teu mundo de dós alpinistas: agora sei que não percebo nada disto, e tu é que guardas em ti a dimensão da magia de uma pauta musical. só com uma nota, um dó. [uma não, muitas!, corriges-me outra vez, e eu acho desnecessário explicar-te a teoria da coisa.]
Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.
e depois, já a caminho da porta, mas não, faltava uma coisa, voltas para trás, voltas para mim, abres a mochila pequenina, abres um bolso ainda mais pequenino dentro da mochila pequenina, tiras um papel dobrado em vários, desdobras com a paciência das tuas eternidades todas, entregas-mo olha mad’inha pa’ ti!, que lindo desenho, criatura. quem é?, e tu muito rapidamente és tu!, e depois corres para a porta porque a tua mãe já te chama e o teu irmão já te chama e tu és uma menina responsável.
sou eu. desenhaste-me a mim. e eu fico parada a olhar o que de mim tu percebes.
é assim que eu sou, aos teus olhos. as perninhas são curtas, porque as pernas não interessam muito e se fossem muito compridas eu ficava muito longe de ti para te pegar ao colo quando os meus gatos se aproximam com ar matreiro e tu te entregas aos teus medos e ao meu abrigo. as perninhas são curtas porque assim dá mais jeito e pernas compridas não servem para nada, pronto. o tronco é longo, para tu poderes trepar ao longo de mim e adormecer inteirinha no meu colo. os braços – ah, os braços. os braços chegam para dar a volta ao mundo! que braços compridos me deste, criatura, quantos abraços eu não podia criar com estes braços mágicos que me confiaste. e o sorriso. rasgado na cara, a peça decisiva no rosto. não se vê mais nada, perde-se o nariz, as orelhas, o queixo, os olhos. sobreTudo, o sorriso. em cima do meu ombro, a minha mãe desenhou-te feliz, olha como ela te desenhou feliz. é porque quando estás com ela, estás sempre a sorrir. aos teus olhos, eu sou feliz. meu amor, minha esperança: aos teus olhos, eu tenho o sorriso largo de felicidade.
ainda corro atrás de ti porque de repente não percebo ó criatura, estas coisas aqui no cabelo são o quê? são t’anças mad’inha!, claro que são tranças, são as minha tranças, as duas tranças que faço quando me apetece ter a tua idade e brincar às escondidinhas com o resto do mundo. dei-me conta, de repente, que não faço tranças há algum tempo. [desculpa: t’anças.] vou tratar disso.
outro dia perguntaram-te o que querias ser quando fosses grande. tu, do alto dos teus dois cromossomas XX que não enganam ninguém, respondeste com a certeza das grandes decisões: cabele’leia!
a mim, já ninguém me pergunta o que eu quero ser quando for grande. nem mesmo quando eu faço duas tranças, uma de cada lado. mas se me perguntassem, juro. se me perguntassem [olha um segredo, lê os meus lábios] eu dizia que queria ser exactamente [bocadinho por bocadinho] aquilo que tu vês em mim.
tudo aquilo que só tu vês em mim.
[e eu estou tão longe, criatura. tão longe.]


11 Comments
uau…
Eu vi logo que eram tranças, ou melhor t’anças, Catarina!
Estás perto. Os olhos das crianças vêem verdade.
Ora vamos lá.
A segunda mostra um narizito arrebitado. Aposto que não és tu
Antes de mais, parabéns por mais um texto que roca (com cedilha)a perfeicão(com cedilha). É viciante ler as tuas descricões. Fico na dúvida sobre qual das imagens te descreve melhor. Quicá a primeira
Mudando o flanco ao jogo.
Aqui há atrasado, como vocês dizem, teceste consideracões desagradáveis sobre o nosso camaronês. Ora, o rapaz não é um talento por aí além. Um pouco bruto diria mesmo, mas quando andavas de fraldas, os dois Jaimes (pacheco e magalhães) dominavam o meio campo do Porto com igual “talento”. Na altura chamavam a isso “raca” (com cedilha). Outros tempos. Repara que o nosso camaronês, tem uma particularidade rara nesta malta da bola dos nossos dias. Ele corre. Dirás que não acerta muito na bola. É verdade. Mas lá chegará.
O castigo é justíssimo, se bem que eu acho que a crucificacão é exagerada. Ele até chorou no balneário e isso mostra o lado sentimental do moco (com cedilha). Está ali uma flor em potência. E de flores eu sei que percebes, pelo que evitarei comentários jocosos com fotos e sínteses. Até porque de horta percebo muito pouco. Embora já tenha mudado as flores aqui do prédios com os outros suecos. Rosas e cenas com espinhos. Bolas…já estou a divagar.
Acontece-me muito.
(Ps – Queres um saquinho com neve? Passo no Porto em Dezembro…)
Confesso que quando o bloglines me avisa de um post novo eu venho-o aqui espreitar mas só o leio na totalidade quando a banda sonora e a minha cabeça o pedem e dizem: “Estou preparado, venha ele!”. Textos assim não os desperdiço com leituras rápidas. Textos destes não merecem leituras desatentas.
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Listening: Jewel – Little Sister
Tiago:
eu já te disse que gosto muito de ti? eu gosto muuuuuito de ti;D
agora traz-me:
- um GRANDE saco de neve, que dê para cobrir a minha rua inteirinha e encher o horizonte e ainda para espalhar alguma pelos ramos baixinhos dos pinheiros, para eu poder fazer aquela brincadeirinha catita que deixa a pessoa que vai a caminhar atrás de mim a parecer um boneco de neve;)
- biscoitos de gengibre, biscoitos de gengibre, biscoitos de gengibre, biscoitos de gengibre, MUITOS biscoitos de gengibre!!!! daqueles que têm forma de coração e dos outros também! gosto taaaaaaanto de biscoitinhos de gengibre, hmmmmmmmmmmm!!!!! nham, nham, yami!!
à troca, ofereço os meus serviços de tradutora… é que, embora seja incapaz de falar, eu consigo perceber alguma coisa de lisboeta! e se ensinei uma mesa inteira de suecos a dizer “carago!” (com ponto de exclamação no fim e tudo!), também devo conseguir fazer alguma coisinha de ti;)
PS: a palavra chave aí na tua argumentação é “outros”, meu caro: OUTROS tempos. tempos em que os jogadores eram efectivamente homens que se vissem, com cheiro a cavalo, pêlos no corpo, e todos os outros extras incluídos. hoje em dia os jogadores vestem cor-de-rosa e gastam metade do ordenado em pantene-pontas-sedosas.
por outro lado, quanto mais vejo o lance do teu camaronês, mais me convenço que pronto, enfim, não fosse ele jurar que não é um animal, e eu punha as mãozinhas no fogo como aquilo foi o que se chama um belo de um coice. repara na inclinação da patita para trás, na dobra do joelho, no pescoço semi-inclinado e no olhar lateral: se aquilo não faz lembrar um cavalo, não sei mesmo o que será.
PS2: o que tu querias era que a mariana tivesse um nariz arrebitado assim tão lindinho, não era? ah pois era!;)
Fico assim, depois de ler estas tuas coisas (pena k isto não tem imagem, senão vias-me de boca aberta, siderado, tentando entaramelar algo coerente). Porra, tu arrasas. O texto está divinal. Assim mesmo, D-I-V-I-N-A-L!
Para ler, reler e degustar. Next!
bem, o teu texto tá muito muito bom. Eu escreveria melhor mas isso são pormenores…
Gosto especialmente das tuas tranças
(a tua afilhada é uma querida. Eu não tenho afilhados, embora tenha perfil para padrinho, mais do tipo “godfather”, mas tenho a certeza que tb teria direito a um desenho lool)
Continuando a nossa conversa (podiamos criar um blog so com uma conversa estruturada, evitava estar a ver todos os posts lool):
1. “como é que se fazem bébés?” loool (muito previsível, eu sei) mas primeiro diz-me qual a tua área e depois eu revelo a minha curiosidade
2. Eu até me oferecia mas ice tea fresquinho com este frio não dá muito jeito. e massagens nos pés só limpinhos, lavadinhos e sem calosidades
3. Eu já te disse que tenho o DVD dos ABBA??? The best of???? ah pois é…
4. Esses dois senhores dão glamour à selecção, não digo nossa, porque a minha é composta por jogadores do FCP.
5. Começas tu???
6. Este ponto tem que ser adicionado uma vez que o Leixões marcou
( é aos lagartos mas pronto dá sempre para rir lol)
PS: A tua afilhada ainda vive no mundo da inocencia. Não te preocupes que não tarda nada te ve como es
Ahhh e gostei de ver as tuas próprias descriçoes ali dos “tascos” que visitas…
faltou dizer foi what i’m i to you ahahahahahah
a minha menina também quer ser cabeleireira, mas não pode fazer-me tranças, nem sequer pentear-me
)))
a tua menina é tão querida e bonita como a madinha
que bonito
bonito
bonito…..