Monthly Archives: November 2007
às vezes, uma vida inteira de mãos algo trémulas resume-se a isto: as 9 palavras e o ponto final, parágrafo, que se querem ver surgir no fim de um relatório de uma biópsia.
Não se observam alterações de metaplasia, displasia nem malignidade.
como uma redenção.
estava atrasada e triste, aborrecida e algo apática, era um dia em que simplesmente não me apetecia existir. entre os restos da chuva que mergulhavam em mim, atravessei o pátio em direcção ao portão verde que conheço há 25 anos. num gesto mecânico, abri a portinha engraçada que dá acesso a um mundo atafulhado de facturas e extractos bancários, agora que as cartas e postais são coisas semi-esquecidas na gaveta das recordações atrasadas. entre os envelopes dobrados, forçados a fazerem-se mais pequenos entre a pala e a mão do carteiro, o meu nome. completo, como eu raramente o escrevo. olhei para o remetente e pensei. pensei que a chuva sabia tão bem, ali a entranhar-se no cabelo, ali a escapar-se pela camisola, ali a escorregar devagarinho pelas costas. abri a carta assim mesmo, de pé. nos dias anteriores tinha pensado como iria ser quando tivesse aquela carta nas mãos. se a ia conseguir abrir imediatamente, se ia olhar para ela durante muito tempo, se ia conduzir até à praia para me sentir imensamente sozinha e capaz. mas abri a carta assim mesmo, de pé. procurei, apressada, as 9 palavras e o ponto final, parágrafo, que haviam de devolver à chuva a minha alma. a atrapalhação foi tanta que elas me fugiram nos primeiros instantes. até pousar sobre elas, levemente, o meu cansaço.
Não se observam alterações de metaplasia, displasia nem malignidade.
a vida é suficientemente cruel para nos fazer amar a chuva. e para se resumir a 9 palavras e um ponto final, parágrafo, numa manhã mal nascida.
[ainda me apetece chorar um bocadinho porque me lembro de cada momento como se ele não se tivesse ainda esgotado em nós. lembro-me daquela quinta-feira de manhã, lembro-me que tínhamos aulas às 10:30 nos Leões, lembro-me que quando acordei tinha uma mensagem tua no telemóvel: escrevi-te um mail, vai ver quando puderes. e eu soube, naquele preciso momento, que alguma coisa estava estranhamente errada na ordem universal das Coisas, porque tu sabias que eu via o mail com regularidade, e só enviarias aquela mensagem se de repente estivesses com medo ou sei lá, se de repente tivesse acontecido alguma coisa ou sei lá, se de repente estivesses doente. ou sei lá. por isso eu corri para o computador e abri o mail e li a tua mensagem com fome de pobre. e cada palavra tua enterrava-se devagarinho cá dentro, amarfanhava, magoava. no fim, no teu abraço, não te preocupes de despedida, eu era uma poça de sangue triste. nada mais. lembras-te daquela tendinite que eu tinha na perna e que me fazia mancar? é que afinal não é bem uma tendinite. minha amiga, minha querida, minha pessoa tão linda e tão especial. não fui à aula das 10:30 nos Leões. lembro-me de ter chorado aquilo que não te sabia dizer. a tua coragem, a tua coragem, criatura, a forma como tentavas desconstruir o drama, a forma como repetias constantemente não te preocupes, como se eu fosse a ferida aberta naquela história, e eu sangrava, sangrava, porque me fazias tanta falta e ainda agora tinhas ficado doente, e ainda agora nem sabias se tinhas ficado doente, mas já me fazias uma falta tramada quem sobe do lado esquerdo, e eu sentia-me perdida como nunca antes, o eco das tuas palavras escritas mas não ditas e ainda assim o eco das tuas palavras na minha cabeça, é do tamanho de uma laranja grande, dias depois as tuas duas mãos em arco a exemplificar, é assim, do tamanho de uma laranja grande, uma laranja grande, e eu abismada, eu a pensar como é que a coisa podia ser tão grande, eu com medo, eu a sangrar inteira por dentro e a admirar a intensidade da tua coragem e a não saber o que te dizer. à noite eu telefonava-te, contava-te as coscuvilhices da faculdade, e tu contavas-me os resultados da biópsia que mais uma vez tinham dado inconclusivos, e depois rias-te e pedias-me mais pormenores, e chegavas a consolar-me a mim, que ridículo meu Deus eras tu que me consolavas a mim porque eu morria de medo da coisa que tu tinhas a crescer dentro de ti, tanto medo, amiga, tanto medo, sentia-me tão pequena e tão impotente, quando tudo o que eu queria fazer era arrancar-te a coisa a ferros, tirar-te esse sal de lágrimas que tinhas entranhado em ti, a laranja grande, rasgar a laranja grande do teu osso, da tua vida, e se ela tivesse mesmo que ir para algum lado, se ela não pudesse desaparecer de uma vez e morrer no esquecimento eterno, se ela tivesse mesmo que ir para algum lado, olha, eu punha-a em mim, porque eu faço muito menos falta ao Mundo do que tu, não digas que não, é verdade, os Leões, os Leões são tão grandes e majestosos, e pareciam tão pequeninos quando não estavas lá connosco, tudo parecia tão pequeno e tão deslocado, tudo parecia tão mesquinho e ruim, e eu pensava que não podia ser, que uma laranja grande era simplesmente grande demais. e no hospital, quando eu te fui ver no hospital, ai amiga, ai que estavas tão pequenina, ai que não parecias tu, ai que te afundavas naqueles lençóis brancos e eu que não te conseguia puxar, que não te sabia puxar, que não te sabia salvar. e finalmente, depois de o extraírem, o resultado final da análise: era benigno. minha amiga, era benigno, minha coragem, minha Mulher, minha força da natureza, era benigno. e tu, deitada na cama do hospital, com muitas flores na mesinha de cabeceira, tu com os olhinhos a fecharem-se, estavas tão cansada, tu ainda a contares que acordaste durante a operação, que a anestesia não tinha sido suficiente, que ouviste os médicos a falarem, que sentiste o osso, que engraçado, sentir o osso, e depois alguém te deu mais anestesia e voltaste a adormecer, e depois houve aquela confusão toda porque não havia enxerto de osso suficiente, não, isso foi antes, e foi por causa disso que a anestesia não chegou, porque a operação se alongou muito. mas era benigno, a laranja grande era benigna. e tu, muito cansada, os olhinhos a fecharem-se, a agradeceres a visita, como se, como se eu não estivesse ali por mim, como se o tu estares bem não fosse uma imposição da minha alma, como se eu não precisasse definitivamente de ti de pé, a caminhares, tiveste que reaprender a caminhar, tiraram-te uma laranja grande do osso, e tinhas dores, tiveste tantas dores, mas já não fazia (tanto) mal porque era benigno, e tu na cama do hospital, tão pequenina, tão cansada, os teus pais, também cansados, a tua irmã, tão preocupada contigo, a fazer-nos sinal, ela precisa de descansar, claro que precisa, é verdade, como está a tua irmã, e o teu sobrinho, deve estar enorme, a tua irmã que eu nunca tinha visto antes era aquela pessoa bonita e extremamente parecida contigo que parecia sofrer no corpo dela as tuas dores. e depois fui-me embora do hospital, porque a laranja grande afinal não era má, e tu reaprendeste a caminhar, porque não há nada que tu não consigas fazer, e no meio disto tudo acho que me esqueci de te dizer que és uma das pessoas mais Lindas que eu conheço. e que a tua Coragem não tem nome nem sítio. e que a tua Força é meiga como a primavera mas intensa como o mar. e não morre. não, nunca morre.]
9 palavras e o ponto final, parágrafo.
Não se observam alterações de metaplasia, displasia nem malignidade.
e se se observassem, catarina? e se?
não sei se o mais assustador é o eu não saber responder a esta pergunta.
ou se é o eu saber.
em itálico, um dos meus poemas preferidos de Eugénio de Andrade.
[nunca, Eugénio, nunca. nunca o-meu-o-teu-o-nosso portugal que cheira a amoras bravas no verão conheceu quem cantasse o amor com semelhante magia e arrebatamento de alma. desenhaste a eternidade em palavras.]
Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é mais perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.
chegaste num sopro levezinho de vida. os teus passos têm tanto de único como de extraordinário: caminhas como se a Vida te pertencesse. como se o teu canto no mundo tivesse a perfeição das eternidades a caminho [continuamente a caminho, meu amor]. chegaste e um vento manso de alegria meiga sacudiu-te o sorriso. e pegaste-me na mão, vem. quero-te mostrar uma coisa. [mas que outra coisa para além de ti, que outro horizonte para além do fundo dos teus olhos, que outro sorriso para além da tua existência, que outro espanto para além da tua mão na minha, vem.] e eu segui-te, interminável no espanto de cada gesto teu.
Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.
levaste-me pela mão por entre aqueles caminhos que eu conheço de cor mas que entretanto fui abandonando, aos bocadinhos, ao mesmo tempo que a minha inocência se foi rasgando em pedaços incertos de um pano branco. [e flutuaram ao vento até morrerem num horizonte que nunca foi o meu.] olha um segredo, lê os meus lábios: às vezes, ainda gosto de lançar bocados de mim por esses caminhos. mas os meus olhos já perderam essa graça funda do primeiro parto que brilha nos teus. tudo o que me mostras é intensamente novo em ti. partilhas comigo um baton de cieiro cor-de-rosa, não, dois, olha mad’inha!, e nas tuas mãos pequeninas aqueles dois tubinhos rosados são um milagre de ternura que prende a tua atenção até ao infinito da surpresa. tudo o que me mostras é intensamente novo em ti. um dó isolado no meio do piano, olha mad’inha!, muito bem, criatura, muito bem!, e tu baixas os olhos transbordantes de orgulho, tu foste capaz, tu aprendeste o dó, aliás, aprendeste todos os dós, olha mad’inha, os dós a subirem a montanha!, e lá iam eles, encarreirados, teclado acima, quase que os imagino de gorro verde [có-rosa, corriges tu, num ar subitamente preocupado] e mãos dadas, a cantar, de sétima em sétima, até chegar ao primeiro, que imagino alto e estranhamente magro, o primeiro da fila que puxa os dós montanha-acima e é puxado montanha-abaixo. olha um segredo, lê os meus lábios: até hoje, eu acreditava que tinha uma certa cultura musical, essencialmente baseada na necessidade que tenho de uma constante banda sonora em mim. isto até descobrir o teu mundo de dós alpinistas: agora sei que não percebo nada disto, e tu é que guardas em ti a dimensão da magia de uma pauta musical. só com uma nota, um dó. [uma não, muitas!, corriges-me outra vez, e eu acho desnecessário explicar-te a teoria da coisa.]
Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.
e depois, já a caminho da porta, mas não, faltava uma coisa, voltas para trás, voltas para mim, abres a mochila pequenina, abres um bolso ainda mais pequenino dentro da mochila pequenina, tiras um papel dobrado em vários, desdobras com a paciência das tuas eternidades todas, entregas-mo olha mad’inha pa’ ti!, que lindo desenho, criatura. quem é?, e tu muito rapidamente és tu!, e depois corres para a porta porque a tua mãe já te chama e o teu irmão já te chama e tu és uma menina responsável.
sou eu. desenhaste-me a mim. e eu fico parada a olhar o que de mim tu percebes.
é assim que eu sou, aos teus olhos. as perninhas são curtas, porque as pernas não interessam muito e se fossem muito compridas eu ficava muito longe de ti para te pegar ao colo quando os meus gatos se aproximam com ar matreiro e tu te entregas aos teus medos e ao meu abrigo. as perninhas são curtas porque assim dá mais jeito e pernas compridas não servem para nada, pronto. o tronco é longo, para tu poderes trepar ao longo de mim e adormecer inteirinha no meu colo. os braços – ah, os braços. os braços chegam para dar a volta ao mundo! que braços compridos me deste, criatura, quantos abraços eu não podia criar com estes braços mágicos que me confiaste. e o sorriso. rasgado na cara, a peça decisiva no rosto. não se vê mais nada, perde-se o nariz, as orelhas, o queixo, os olhos. sobreTudo, o sorriso. em cima do meu ombro, a minha mãe desenhou-te feliz, olha como ela te desenhou feliz. é porque quando estás com ela, estás sempre a sorrir. aos teus olhos, eu sou feliz. meu amor, minha esperança: aos teus olhos, eu tenho o sorriso largo de felicidade.
ainda corro atrás de ti porque de repente não percebo ó criatura, estas coisas aqui no cabelo são o quê? são t’anças mad’inha!, claro que são tranças, são as minha tranças, as duas tranças que faço quando me apetece ter a tua idade e brincar às escondidinhas com o resto do mundo. dei-me conta, de repente, que não faço tranças há algum tempo. [desculpa: t’anças.] vou tratar disso.
outro dia perguntaram-te o que querias ser quando fosses grande. tu, do alto dos teus dois cromossomas XX que não enganam ninguém, respondeste com a certeza das grandes decisões: cabele’leia!
a mim, já ninguém me pergunta o que eu quero ser quando for grande. nem mesmo quando eu faço duas tranças, uma de cada lado. mas se me perguntassem, juro. se me perguntassem [olha um segredo, lê os meus lábios] eu dizia que queria ser exactamente [bocadinho por bocadinho] aquilo que tu vês em mim.
tudo aquilo que só tu vês em mim.
[e eu estou tão longe, criatura. tão longe.]
… que páginas tantas, o mamífero nem é assim tão desprovido de miolos como parece?
[mas ouve, querido: porque é que não aproveitas a deixa e dás às de vila-diogo?]
a frase da semana (e ainda hoje é terça… ‘tá mau, senhores, isto ‘tá mau!):
“Não façam de mim um animal.”
Binya (in O Jogo, 19 de Nov 2007)
não, não, quem faria uma barbaridade dessas? por mim, podes continuar a ser uma plantinha.
ó-anda-cá, minha couvinha-nabiça delicada.
[mais à frente, sobre o mesmo assunto...]
Em entrevista a O JOGO, o médio defende-se, afirmando que não quis “matar ninguém” (…)
ah, bom.
[esperem, isto não saiu com a musicalidade certa. vamos lá tentar outra vez.]
AHHHHHHH, bom…
[assim é que é.]
[vá lá, agora todos juntos.]
AHHHHHHH, bom…
então ‘tá, a couvinha tem toda a razão.
mas alguém informou a UEFA disto? este excesso de zelo é uma pouca vergonha, até aposto que é obra do Pinto da Costa. alguma vez se viu isto?! a couvinha nem sequer tentou matar o rapaz nem nada e tungas: 6 joguinhos de suspensão. e porquê? por causa de uma agressão sem intenção de matar!!! claramente exagerados…
pronto.
SE a couvinha tivesse tentado matar o adversário, aí sim, TALVEZ 6 jogos fossem apropriados.
[isto se o adversário não o tivesse provocado antes dizendo qualquer coisa do género "ahah, olha para ti, és mesmo um animal, nem és capaz de fazer a fotossíntese nem nada".]
mas assim não, assim não. quer-se dizer: se esta moda da UEFA pega cá nas brincadeiras internas, um dia destes o katsouranis ainda vê um amarelo (um amarelo, gente! um amarelo!) por partir a perna a um adversário. e sem qualquer intenção de o matar, só mesmo numa tentativa de arrumar a carreira dele de uma vez por todas.
parece impossível.
vamos lá ver, vamos lá ver.
[ai-ai dai-me paciência.]
[aliás: ai-ai dai-me paciência e quem a tenha por mim, porque eu definitivamente não tenho pachorra para isto.]
[ai-ai-ai]
estou sentada à secretária do meu quarto a trabalhar. a voz surreal e doce do JP Simões vai-me acompanhando em mais um serão, enquanto a parte esquerda do meu cérebro vai resmungando entredentes qualquer coisa como devias arranjar uma vida, tu. de repente lembro-me que amanhã tenho lab meeting bem cedinho, pelo que não há tolerância de cama para ninguém.
[nãããããããããããããããããããããooo]
preciso de um intervalo.
sem nenhuma razão aparente, lembro-me de algo que ouvi a semana passada na rádio. rio-me. era tão ridícula, aquela história. rio-me outra vez. é claro que era invenção dos tipos. ninguém faz algo assim. é demasiado delicioso para ser verdade. passo a mão pelo pescoço, como faço quando suspeito de alguma coisa. é claro que era treta. mas deixa só verificar…
[é tão leve e invasor como a primavera. aquele olhar de um estranho que pousa no nosso e de repente percebemos. de repente faz sentido e só podia ser assim. e forçamos uma telepatia desesperada, acreditamos por momentos na beleza das coincidências, percebemos a enorme imensidão de ses em que desliza a nossa vida. sorrimos. e recebemos de volta aquele que acreditamos ser um sorriso dos deuses. é uma palavra, é só uma palavra. avança. fala, diz qualquer coisa. ele vai embora, não deixes. ele olhou para trás, chama-o. corre antes que ele passe aquela esquina e tu o percas para o mundo. olha, olha, se o próximo carro a passar for verde, tu vais falar com ele. se aquele passarinho levantar vôo dentro de 5 segundos, tu vais falar com ele. se aquela fulana que vai a correr ainda conseguir apanhar o autocarro, tu vais falar com ele. se aquela folha seca que anda ali a rodopiar no passeio não for calcada por aquele grupo de miúdos que ali vem, tu vais falar com ele. é evidente que tu nunca vais falar com ele. dois sorrisos mais e perde-se o olhar. e mais qualquer coisa que ninguém sabe exactamente o que podia ter sido.]
viu-a no metro. hesitou. quando realmente avançou para falar com ela, perdeu-a na multidão. fez um rascunho dela e postou na net, à espera que algures na imensidão da rede os seus passos se cruzassem.

pronto, amuei.
também quero.
não, também quero mesmo. e quero que ele tenha um cartaz no fim e tudo. e que dê pulinhos de alegria. e que tenha um sorriso daquele tamanhão. e este jeito absolutamente único de ser.
e querem saber qual é a pièce de résistance?
o tipo é lindo, gente. lindo. e tem assim um jeitinho meio-palerma-meio-tímido de falar.
e puxa o cabelo quando não sabe o que dizer.
e põe as mãos nos bolsos.
e fala com o corpo.
e é deliciosamente trapalhão.
e é um pateta.
também quero.
2:16 am.
seriously: tenho mesmo que arranjar uma vida.
num movimento rápido, sacudo o cabelo e gozo aquelas coceguinhas meigas nas costas. fiz 25 anos: é hora de me sentir viva.
para isso, o danadinho do 2º cromossoma x exigiu uma mudança de visual. apetece-me descascar uma gargalhada no silêncio parado da noite: ser mulher é tramado.
I’m aware I’m alive
‘bora lá: tenho 25 anos. é hora de plantar um bidoeiro. e ter uma filha chamada Sofia e outro chamado Miguel, como os meus poetas (os outros serão adoptados e já trazem nome no pedigree). e escrever um livro chamado eu, catarina.
as a child of 25.
[obrigada por me teres relembrado esta música. cai que nem uma luva, sabes?]
PS: pai, mãe, aquela coisa dos filhos não é assim para-já-imediatamente-que-se-faz-tarde. é que diz que os bancos de esperma estão fechados a esta hora. chato, eu sei.
ele aproximou-se silenciosamente, sentou-se num dos sofás, e ficou a olhar-me. quando o seu olhar começou a fazer-me comichão nas costas eu voltei-me.
- estás aí?
- estou aqui. estás a olhar a neve?
- estou a olhar a neve.
- explica-me.
- é linda.
- não é isso. gostas mais deste sítio do que qualquer outro estrangeiro que eu conheço. no que os outros vêem pequenez, tu vês aconchego. no que os outros vêem extremos climatéricos insuportáveis, tu vês estações divertidas. no que os outros vêem uma cidade pequenina e bonita, tu ves-te a ti. gostas de estar à janela só para ver a neve. podias passar aí horas só a ver a neve. aliás, até parece que não tens nada que fazer…
- EI! estou a centrifugar uns tubos no 5º piso, demora 30 min a sedimentar as bichas, e eu…
- cala-te, deixa-me falar. e no entanto, apesar de tudo isso, quando alguém te fala no Porto, os teus olhos parecem diferentes. ganhas brilho, rapariga. explica-me. explica-me porque eu não entendo esse amor.
eu ri-me. voltei-me de costas e pousei novamente o olhar sobre a neve. e, por um instante, vi o Douro à minha frente. o meu rio, a minha cidade. a minha única e especial dimensão do silêncio. pensei, muito devagarinho, na dureza do granito que constrói as minhas paredes. nos gritos calados e na revolta humilde que se esconde naquela fórmula de entrega: quartzo, feldspato e mica. o suor que escorre pelas pedras, a simplicidade mascarada num sorriso acolhedor. o jeito tão portuense de se ser desajeitado
[como nós somos desajeitados, Senhor, como nos fizeste desajeitados... abrimos as vogais, trocamos os bs pelos vs, entregámos a alma num discurso tão sincero como bruto. somos desajeitados. mas trazemos nas mãos essa força tão bonita que é sermos nós. só nós. somos Inteiramente Nós.]
e esforçado. e depois, aquela luz. aquela luz intensamente melancólica a morrer nos vértices dos caminhos. aquela luz mágica que se esconde e ilumina na mesma. aquela luz que é tão suave que me podia vestir. podia enrolar-se à volta do meu corpo e proteger-me de qualquer chuva, qualquer vento, qualquer coisa. o Porto. não me lembro, mas devo ter sorrido muito na altura. devo ter enrolado o cabelo na ponta dos dedos, olhado para baixo, e sorrido muito. provavelmente, devo-me ter esquecido do chocolate. sei só o que já sabia na altura e cada dia sei melhor: o Porto é a única cidade capaz de morrer de amor todos os dias. e ressuscitar no dia seguinte.
virei-me para ele para lhe explicar.
- sabes…
- cala-te. não, não digas nada, a sério. olha para ti! tu não te dás conta, pois não? lá estás tu a brilhar novamente! linda, a brilhar! não digas nada.
foi mais ou menos há um ano. e hoje dei-me conta que tenho imensas saudades dele. mas imensas. mesmo imensas.
quando se despediu de mim antes de partir para a Alemanha, a sua terra natal, onde lhe tinham oferecido uma posição, ele piscou-me um olho:
- vens comigo?
eu desatei-me a rir.
- não posso. as hospedeiras da lufthansa não me curtem.
ele riu-se. abraçou-me e foi-se embora. e eu tenho saudades dele. e hoje, só hoje, deu-me para pensar se aquele convite não teria sido mesmo a sério.
foi mais ou menos há um ano. também há um ano, no dia dos meus anos, caiu o primeiro grande nevão da estação. eu embrulhei-me no casaco, enfiei o gorro, o cachecol, as luvas. e dei a volta completa ao meu laguinho. e senti-me estupidamente feliz. só porque eu fazia 24 anos e nevava desalmadamente. e eu sentia aquele frio bom na cara e ria-me para toda a gente.
I’m a thousand miles away
but girl, tonight you look so pretty.
[o calimero é que a sabia toda, life's unfair, it is: passei pouco menos de um ano e meio da minha vida encostadinha ao círculo polar. porque é que ninguém compôs uma destas para mim? chuiff...]
[sim, eu sou sensível ao facto de que a palavra catarina tem 4 sílabas e é bastante tramada para se encaixar num refrão.]
[mas o Jorge Palma conseguiu.]
[ah pois.]
[de resto, escusam de me vir com essa treta do aposto-que-essa-tal-de-delilah-tem-melhor-feitio-do-que-tu. eu tenho um excelente feitio.]
[quando me apetece.]
[e habitualmente, tenho coisas mais importantes para fazer.]
[over and out.]



