Monthly Archives: October 2007


nível de health hazard actual – 4

[suspiro]

vou para a caminha antes que comece a babar o teclado do putáti.
[modo VOR on]

há muito quem (me) diga que os olhos são o espelho da alma. normalmente eu corrijo: os meus não. nada disso. os meus são portas de correr envidraçadas.

eventualmente, habituei-me à ideia de que os meus sorrisos ou as minhas lágrimas são antecipados pelo meu olhar. durante anos acreditei que conseguia disfarçar: que os sentimentos que eu transmitia a quem me olhava eram inteiramente controlados por mim. recentemente descobri, assustada, que a questão do brilhozinho dos olhos é tudo menos metáfora em mim.
[e eu gosto tanto de metáforas. tanto.]
não nego que às vezes gostava de ser quem não sou. ou fazê-lo acreditar a quem se aproxima de mim nos dias longos em que a noite parece nunca mais chegar. às vezes, toda esta nudez que carrego é quase um fardo. é quase cansativo ser sempre eu, quase cansativo não poder fugir de mim. quase cansativo todos os dias me ver ao espelho: sou sempre eu. sempre eu. e no entanto. por muito que me esforce, os meus olhos berram a quantos ventos soprarem o estado da minha alma. digamos que sou tipo impressora da HP: what you see is what you get.
mas, e dizia, habituei-me. habituei-me a não controlar a luminosidade que sinto: habituei-me a que, antes que eu tenha sequer tempo de abrir a boca, a pessoa do outro lado já tenha adivinhado se eu estou contente ou triste. ou aborrecida. tudo bem. habituei-me. aceitei e integrei. siga.

e no entanto, continua a parecer-me absolutamente extraordinário que perfeitos desconhecidos se achem capazes de intuir determinados pormenores ditos oficiais da minha vida, só por olharem para mim. falo daquelas fichas que é necessário preencher quando se vai pela primeira vez a qualquer lado ou se quer aderir a uma treta qualquer: aquelas perguntas típica(mente chata)s nome, data de nascimento, patati patata. é inevitável: sempre que eu tenho que fornecer os dados para uma dessas coisas, a pessoa do outro lado é subitamente acometida por um ataque de profecia e começa a dar ela própria as respostas às suas perguntas. o estado civil é um dos clássicos: o estado civil, é solteirinha, não é?
[existem as solteiras. as divorciadas. as casadas. as viúvas. as unidas de facto. e depois existo eu: a solteirinha. nunca percebi o que é que em mim é mercedor de uma categoria inteiramente nova e muito inovadora. também nunca perguntei. o estado civil, é solteirinha, não é? pois., repondo eu. e ficamos por ali.]
a outra que nunca escapa é a profissão. mas aí, confesso, dá-me um gozo tramado ouvir aquela certeza toda e profissão? estudante, não é?. tenho sempre uma vontade irresistível de sorrir com todas as letras do não. mas, e desfeito o engano, passa-se à parte difícil: o esclarecimento. profissão?… err… então, é… pois… sabe… escreva aí… olhe… pois… durante muito tempo respondi bióloga. e sentia um orgulho pequenino a fazer cócegas no estômago sempre que o dizia. e depois chamaram-me à razão: isso não é a tua profissão, é a tua formação.
[senti-me como uma criança a quem desvendaram que pais-natal, só os de chocolate que se vendem em doses industriais em hipermercados a que toda a gente tem acesso.]
então, mas… o que é que eu devo dizer?
[a dúvida era sincera como o meu desgosto.]
pateta. diz a tua profissão: investigadora. ou investigadora científica. é isso que fazes, é isso que deves responder.
é verdade, mas. não sei. soa-me algo pretensioso. ou não, não é bem isso. soa-me a nome de profissão. daquelas a sério. e de pessoa adulta, ainda por cima. a palavra bióloga sabe a sonho e a sorrisos pelo caminho. a palavra investigadora pesa em cada uma das letras. como se uma voz estranha se sentasse ao meu ombro e gritasse ao meu ouvido a minha adultez inteira.
enfim. muito esforço bem trabalhado, e lá comecei a habituar-me. e profissão, é estudante, não é? não… err… então, é… pois… investigadora.
e de repente, como se o arco-íris se pudesse quebrar, deixo de ser a menina e transformo-me na senhora-dra-se-fizer-o-favor.

[há muito, muito tempo, era eu uma criança... estava a começar o quinto ano de escolaridade, estava maravilhada com a diversidade do meu horário, adorava aquela assimetria encantadora de entrar e sair a horas diferentes todos os dias, pasmava perante aqueles livros todos com tanta coisa diferente e tudo muito bem encaixadinho para ser dado em determinadas horas de determinados dias da semana, como se tudo estivesse muito-embaladinho-muito-direitinho e tudo-tudo à minha espera. na primeira aula de ciências naturais, a professora quis saber o que nós queríamos ser quando fôssemos grandes. (e eu já me achava tão grande por estar ali, naquela escola importante onde estudavam os meninos grandes todos... ) quando chegou a minha vez, disse baixinho eu queria ser escritora mas também gosto muito dos animais e das plantas e de perceber assim a natureza disse assim tal e qual sem vírgulas nem pontos finais e depois calei-me no maior silêncio que consegui criar e olhei para o chão cheia daquela esperança infantil se-eu-não-vir-os-outros-eles-também-não-me-vêem. eu era tão tímida e tão pequenina e 30 pares de olhos instalados em mim escaldavam-me a pele como óleo a ferver e estavam muito acima do meu limite de dor. a ronda continuou com a menina que estava sentada ao meu lado e eu respirei todos os alívios que consegui de uma só vez. mais tarde, depois de muitos meninos terem já falado, a palavra chegou a um menino lá da frente que tinha olhos azuis e usava óculos. ele não hesitou: quero ser cientista. e eu olhei para ele com um espanto absurdo, do exacto tamanho dos meus 9 anos. e pensei que ele devia ser uma pessoa muito especial e muito bonita, porque só pessoas muito especiais e muito bonitas conseguiam querer ser uma coisa que me parecia tão especial e tão bonita. e distante. aqui há tempos atrás (há já alguns meses), encontrei esse rapaz na rua. os olhos dele ainda são azuis, mas entretanto foi operado à miopia e deixou de usar óculos. depois da surpresa, do abraço a medo, da continuação da surpresa, das tantas e tantas perguntas, subitamente, ele então e o que é que estás a fazer? em que é que trabalhas? e eu, sem sequer me dar tempo para pensar no tempo que entretanto tinha passado, soltei uma gargalhada daquelas que se usam para partilhar segredos sou cientista, acreditas? sou cientista. claro que ele acreditou. e nem sequer percebeu porque é que poderia eventualmente não acreditar. ele é engenheiro civil. os homens percebem muito pouco e os engenheiros percebem menos. por isso decidi não lhe explicar e perguntei-lhe pela operação.]

não sei porque é que me lembrei disto tudo agora. provavelmente porque hoje de manhã fui a uma consulta médica numa clínica onde nunca tinha ido antes. e de repente era eu de um lado, uma das recepcionista do outro, e um enorme balcão entre nós. e eu estava ali mas não estava ali e estava a pensar noutras coisas e noutras pessoas.
estado civil, é solteirinha, não é?
pois.
e profissão, é estudante, não é?
pois.
assim de repente não me apeteceu explicar. de resto, o mundo percebe muito pouco de mim e as mulheres percebem menos.

[mais do que tudo, encantam-me as pessoas que me vêem para além de títulos e, dentro do meu nome, descobrem um nome só delas e só meu e que faz uma espécie de sentido estranho simplesmente porque é nosso. e único. depois de acabar o curso, dei umas aulas na faculdade onde tinha estudado. já conhecia bem os cantos à casa e os figurantes daquele espaço que ainda sinto tão meu. a prestar apoio aos laboratórios, estava uma senhora com idade para ser minha mãe e ternura para ser mãe de muita gente. 5 minutos antes da hora, aquela cabecita espreitava pela porta já chegaram os seus meninos, deixo-os entrar?, eu respondia com um aceno e um sorriso e de repente a sala estava cheia de batas brancas e eu começava a falar de muitas coisas. se por acaso precisava dela por algum motivo durante as aulas, ou se ela precisava de me entregar alguma mensagem, entrava sem fazer barulho nenhum. falava baixinho e dizia claro, sra dra, vou já tratar disso, já-já. quando os meus meninos estavam presentes, eu era a sra dra. mas mais tarde, quando eles se iam embora, ela entrava no laboratório, perguntava-me se tinha corrido tudo bem, penteava-me uma madeixa de cabelo teimosa atrás da orelha com os seus dedos e depois dizia, como quem partilha um segredo malandro sabe o que os seus meninos iam a comentar ali à saída, catarininha? iam a dizer que a catarinina é a professora mais bonita que eles já tiveram, ah pois iam. eu ria-me está sempre a brincar comigo. ela fingia um amuo quase sentido eu não minto, catarininha, olhe que eu não minto nunca. alunos fora e eu era a catarininha. ficávamos a arrumar o laboratório e ela falava-me do namoro da filha, do novo emprego do filho, da última diabrura do neto, do meu-falecido-se-ele-aqui-estivesse-agora. por muito que eu insistisse, nunca foi capaz de deixar cair a terceira pessoa naquela forma única de me tratar que misturava doses incomportáveis de carinho e respeito. sabe, catarininha. e eu fiquei a saber muita coisa com ela. nunca ninguém me tinha tratado antes por catarininha, e nunca ninguém o fez depois dela. é o meu-nome dela. é assim que eu gosto dele. de repente, senti umas saudades tramadas dela. uma vontade esganada de ir à faculdade, abraçá-la com força e dizer-lhe com toda a sinceridade do mundo a dona gisela é a assistente de laboratório mais Bonita com quem eu já trabalhei.]

ainda bem que vieste. senta-te aqui, comigo. queria falar-te de tantas coisas.

[ela enfiou os dedos pelo lado de dentro do cabelo e deixou-os escorregar, lentos. a primavera e o verão tinham sido difíceis (doridos, intensos, eternos), mas o outono caminhava já sobre as folhas das árvores e parecia trazer consigo alguma paz. quem sabe, algum espaço de felicidade (algum silêncio perene). ela abriu um bocadinho a portada de madeira para receber os contornos da noite no rosto lavado. sim, tinha sido difícil: ela tinha-se deixado arrastar por toda uma dor que rasgava, gemia, rompia. dentro dela, as vozes: tu não consegues, não és capaz, és uma fraude. anula-te, desaparece, foge, foge, foge. não fales, foge. ela havia-se quebrado, aos poucos, cada lugar dela espalhado pelo chão frio do abandono. ela tinha perdido a fé, amarrotado os sonhos, quebrado o olhar, escondido o sorriso. fugido: de tantas pessoas, de tantos espaços, de tantos silêncios. todo o seu interior se rasgava compulsivamente e ela sangrava, sangrava, sangrava. e ninguém percebia aquele sangue, aquela dor que a consumia em espasmos de alma. ela tinha deixado de olhar a noite. e ela gostava tanto de olhar a noite.]

I wish that I could cry, fall upon my knees.

[num gesto muito leve, ela acariciou o outono com a ponta dos dedos. percorreu de novo, na ponta dos pés, os meses anteriores: sem perceber, ela percebia. o acumular de medos (tantos medos) e o desabar enfim ao vento do seu ser. ela fundiu as mãos numa rede de dedos zangados, como fazia quando estava nervosa: ela não queria voltar a cair assim. não queria novamente aquela sensação de. não tinha sido a primeira vez na sua vida que ela se tinha sentido realmente incapaz. foi só a primeira vez que ela havia acreditado, com uma sinceridade dolorosa, que nunca iria regressar a si. os seus olhos, castanhos, não iriam voltar a ser os seus olhos. o seu sorriso, solto, não iria voltar a ser o seu sorriso. ela não iria voltar a ser ela. e por isso, com tanta força, ela tinha esperado que o vento a desfizesse, como às dunas numa praia deserta. ela havia-se rompido no Tempo. e o sangue era tanto.]

even heroes have the right to bleed.

[ela respirou o outono com fome de pobre: nunca mais queria voltar a sentir-se assim. estendeu a esperança no regaço e olhou para ela, longamente: ela era mais do que aquilo que julgava ter sido durante tanto tempo. mais do que aquele monstro que ela criara dentro de si própria durante aqueles meses. ela era a sua música. o seu silêncio. o murmurar da água. a rapidez do asfalto. as tardes de chuva. o cheiro a relva cortada. o caminhar de um felino. as vozes trocadas das crianças quando brincavam ao sol. as noites de muitas estrelas. as noites de muitas horas. a ternura atrapalhada dos passos de dança da sua afilhada. o granito da sua Cidade. o espanto de cada parto. ela era isso tudo. e ela não queria voltar a esquecer-se. não durante tanto tempo. não durante tanta vida.]

I’m more than some pretty face beside a train.

[ela sorriu, sozinha. ou terá talvez sorrido para a noite. lembrou-se da primeira vez que desembarcou no cimo da escandinávia, lá naquele cantinho do mundo que ficava tão perto do umbigo da terra. ela tinha assomado à porta do avião: nem manga, nem autocarro. era um aeroporto pequenininho, assim como o avião que a tinha trazido de estocolmo até ali: saía-se directamente para a pista. ela agarrou o computador com força e desceu as escadas uma a uma. estava escuro: mais escuro do que alguma vez ela tinha visto. o vento era agressivo e rasgava a alma em pedaços disformes, que depois se uniam novamente, só para serem fustigados por uma neve dura e zangada. ela tinha-se encolhido. no meio da pista de um aeroporto que lhe era ainda tão estranho, ela tinha-se encolhido até à dor. os outros passageiros tinham-se afastado e ela tinha ficado ali, parada e encolhida. e tinha-se sentido tão só, tão abandonada, tão sozinha, tão incapaz. tão minúscula. tão assustadoramente minúscula. tão aterrada. tinha chorado sozinha, até ao desespero desistir dela. ela lembrou-se disto tudo e voltou a sorrir: pensou nas vezes seguintes que tinha estado naquele aeroporto. da dor de partir de lá, do sentir que deixava muito dela naquela cidade tão doce, tão inteira, tão íntegra. o que aquela cidade lhe tinha feito, o que lhe tinha ensinado: de todas as vezes que ela de lá saíra, saíra Maior. mais cientista, claro. mas, e essencialmente, mais Pessoa. mais mulher. mais capaz. mais... feliz. ela pensou na palavra “feliz” e sorriu novamente. recriou-se nas estradas estreitinhas, nos bidoeiros calados, na serenidade da neve quando era rasgada por três raios de sol.]

I’m just out to find the better part of me.

[ela pensou. nas. pessoas. que. lhe. queriam. (tanto). bem. e no meio da noite, sob o espanto das estrelas de outono, quis abraçá-las. prometer que. pousar o rosto cansado na curva do pescoço de quem construía o seu mundo e chorar. chorar muito. e depois prometer que. baixinho, só entre ela e o vento.]

I may be disturbed, but won’t you concede, even heroes have the right to dream.

[uma vez, numa aula da faculdade, ela tinha aprendido que as árvores não cicatrizam: tapam os ferimentos com tecido indiferenciado. mas eles ficam lá: os ferimentos. como se o Tempo das árvores fosse uma sucessão sobreposta de dores. escondidas mas nunca serenas. às vezes, ela sentia-se uma árvore: um bidoeiro longo de inverno. acumulava dentro de si o sangue de cada parto, que nunca parava de correr: não de dentro para fora, mas de fora para dentro. ela olhou para o rasgão mais recente da sua vida. com ternura, lambeu os vértices da pele e fechou-a sobre o vazio. passeou as mãos pelo pescoço, como quem se aprende a si próprio: por uma vez, ela queria cicatrizar. e por uma vez, ela sentiu-se quase capaz de o fazer.]

men weren’t meant to ride with clouds between their knees.

[ela voltou a olhar a noite e voltou a sorrir. e por momentos, sentiu o vento de outono a rascunhar-lhe promessas suaves pelo lado de dentro da sua pele.]

and it’s not easy to be me.



ainda bem que vieste. conta-me um segredo.

sempre votei à esquerda. sempre, isto é: desde que o estado português me reconheceu como adulta com capacidade de discernimento. por favor, não desfaçam o engano: até que eu gosto de me ajeitar atrás daquelas casotinhas de madeira com canetas BIC muito roídas e sem tampas, presas por um cordel muito velho e meio enrolado, arranjado à pressa numa das gavetas da sala de aula que acolhe o acto eleitoral. não fossem os eleitores andar com falta de tinta azul em casa, pois claro. enfim: gosto de entrar na sala, de estender o meu BI e o meu cartão de eleitora, de ouvir o meu nome ser anunciado, da procura rápida pelos cadernos eleitorais e eu a tentar ajudar “está ali” e o senhor do outro lado “já vi, já vi” com o indicador direito a correr 30 linhas acima do meu nome.

adiante: dizia eu que sempre votei à esquerda. verdade seja dita, nunca isso custou grandes reflexões ao meu neuronito de serviço que, coitadito, tem uma hérnia discal e perdeu 90% da visão do olho direito e 3 dedos da mão esquerda num acidente de trabalho: o pobre reclama diariamente a melhoria das condições de aposentação por invalidez. à esquerda, pois. é-me instintivo. sai-me cá de dentro. leio os princípios pelos quais se regem cada uma das asas políticas e a resposta surge-me clara e sem dor. confesso que, quando era ainda uma adolescente de olhos grandes e sonhos ao vento e nutria a secreta esperança de salvar o mundo, nem sequer conseguia compreender a opção de votar à direita. hoje, já sem acne juvenil, os meus olhos são um pouquito mais pequenos. guardo os sonhos com muito cuidado para que se não quebrem e nutro a secreta esperança de que os meus filhos salvem o mundo. [aliás, tenho a certeza que eles o farão. e se não forem eles, será o markl.] e aprendi a aceitar o voto à direita sem cuspir a palavra “facista” três segundos depois. agora, limito-me a pensá-la baixinho – dizem que é mais bem educado.

às vezes perguntam-me qual é o meu partido político. eu coço o terminal da sobrancelha esquerda e começo a enrolar uma madeixa esquecida de cabelo. quando me farto de procurar uma resposta fácil, respondo: “sou marxista-leninista”. e aí, é certo que o outro lado me responderá “ah: és bloquista?”. ao que eu me lanço na difícil batalha de explicar que o facto de se ter os mesmos ideais que um determinado partido, não significa que se seja efectivamente daquele partido. que há uma grande distância entre os ideais e, primariamente, a forma de os defender, a longo prazo, a forma dos aplicar. e termino com “não, não sou bloquista. mas já votei no bloco meia dúzia de vezes”. e aí as pessoas chegam à brilhante conclusão de que eu sou uma foragida do magalhães lemos e interessam-se subitamente pela percentagem de humidade no ar naquele dia: “e o tempo? parece que vai virar, ah?”.

voto à esquerda, pois claro. e de que outra forma poderia ser, dado que tenho em casa um comunista russo com muito pêlo no peito e um historial suspeito com picaretas? alternando aqui e ali com o voto em branco para clarear a consciência, a esquerda tem sido a minha opção ao longo dos últimos… (19, 20, 21, 22, 23, 24… AHHHHHHHH)… 6… anos… [6 anos a votar: estou velha e acabada!]

hoje ao final da tarde, depois de sair do laboratório e enquanto me tentava lembrar onde é que tinha estacionado o katemobile naquela mesma manhã, tive um pensamento preverso. fechei os olhos e vi um quarto grande, virado a poente, quase integralmente rasgado a todo o comprimento por um rectângulo de vidro horizontal. ao fundo, muito mar: muito mais do que o que os meus olhos conseguem abranger, assim tudo ao mesmo tempo. era o meu quarto. dei-me conta que estou a algumas semanas de escriturar um apartamento. sou uma proprietária. e não propriamente de uma construção camarária. senti um rasgo de tristeza lento ali quem desce pelo peito do lado esquerdo: revi-me adolescente de olhos grandes e ideais intocáveis – e agora? olhei para o chão, longamente: com que dignidade moral posso eu defender princípios políticos de esquerda? quem sou eu para o fazer? lembrei-me de ti, outra vez. e se um dia te encontrar, que te direi? e se ainda dormires na rua… vais entender a minha vontade ardente de ter um pedacinho do mundo meu-só-meu onde eu possa cheirar o mar? uma vozinha egoísta dentro de mim quis-me fazer crer que o meu esforço merecia uma recompensa. eu calei-a: e o esforço dos outros? eu acredito na esquerda: continuo a acreditar. mas vi-me de repente atrapalhada para a conciliar com o conceito de crédito habitação. eu quero ser de esquerda. quero continuar a votar à esquerda, sem me sentir como um camarão a tentar passar por um carapau com bigodes compridos seriamente comprometido na defesa da igualdade do peixe miúdo. sei que quero continuar a defender o que sempre defendi até agora. só preciso de algum tempo para encaixar algumas coisas no meu novo sistema. opção tomada, decidi de vez avançar para o carro e ir-me embora. até porque os construtores civis do edifício ao lado já estavam a ficar preocupados, indecisos entre achar que eu era uma foragida do magalhães lemos ou que efectivamente tinha perdido o katemobile, não obstante os seus meritórios esforços acompanhados de um esbracejar comovente “está ali, sôtora, aliiiiiiiii!”.

[páginas tantas, chego à conclusão que os dilemas morais eram bem mais simples de resolver quando eu era uma parasita da sociedade e vivia única e exclusivamente à custa dos meus pais. o que me faz regressar à Pergunta Original: temos mesmo que crescer? mesmo-mesmo?]

honey?!…


I’m hoooooooooooooooooooome!!!

[e mais uma vez me encontro na fuga do céu que eu sei de cor. mergulho na cidade, passo-a-passo e o tempo varre-me o rosto, reencontro-me em dignidade no anonimato da minha caminhada à deriva. e mais uma vez me encontro na fuga contra o céu que desconheço.]

primeiras impressões, assim à laia de foge-que-te-aleijas:
- Lyon é deslumbrante.
- os avecs são tinhosos.

[pelas ruas estreitinhas, pedra sobre pedra, entendo a pressão do infinito sobre os meus ombros. escuto os sons, não mergulho nas palavras. sorvo o desconhecido devagarinho, em golos de paixão arrancada a ferros.]

- a água sabe maaaaaaal.
- o café é água (que sabe maaaaaaal) de lavar as chávenas.
- é tramado recuperar do jet lag.
- as chocolatarias artesanais são o paraíso na terra.
- os avecs não tomam banho.

[o meu cheiro. mistura-se na rua, integra-se nas pedras, desenrola-se pela cidade. tenho uma noção clara e íntima de que estou ali. de que existo. de que caminho sozinha e que tudo à minha volta tem o delicado equilíbrio das descobertas virgens. sorrio sozinha. para o vento. sorrio mais ainda.]

Lyon faz-me lembrar o Porto: as ruas são estreitas mas a alma que nelas respira é enorme. os edíficios erguem-se contra o vento de mil histórias. a pedra promete eternidade. os rios entregam-se com serenidade. a luz é lenta e inteira. apetece um chocolate quente e uma mão no ombro. apetece uma grande angular e um cachecol colorido. apetece um principezinho e uma ternura calada. apetece. Lyon sussurra segredos a cada metro de pedra. encanto. Lyon transpira encanto.

os avecs tranpiram mas, e de forma geral, não é encanto. (aliás, transpirados ou não, os avecs não tomam banho… mas isso são outros 500 paus.) transpiram, simplesmente. esforçam-se todos os dias por encalhar o seu grande, enorme e empertigado narigão na Lua. (ainda não conseguiram.) os empregados do café odeiam que eu lhes interrompa o fazer-nada para pedir um café. os transeuntes na rua atravessam-se em frente à minha camâra sem tentar um segundo de paciência para que eu possa fotografar a sua cidade. os viajantes do metro maldizem a minha existência e o pedaço de oxigénio que eu gasto por existir. os empregados das lojas impacientam-se com o meu francês embrionário (não fossem eles tão chauvinistas e fizessem algum esforço no sentido de aprender uma outra língua…) e dão-me vontade de lhes espetar a porcaria da souvenir no meio da pinha e de cuspir um au revoir seguido de uma gargalhada diabólica. (felizmente, a malta da ciência nunca me deixa ficar mal: no laboratório fui recebida com a cumplicidade e a simpatia de quem está entre os seus…)

Lyon é, de facto, de uma beleza enternecedora.

pena estar cheio de avecs.

mesmo pena.


[reconheço as luzes da minha Cidade pelo ovinho pequenino que é a janela do avião. saio para o exterior e respiro fundo. uma nortada percorre-me o rosto: sabe a sangue e a paixão e a luta e a suor e a morrer-de-amor todos os dias e a ser Maior e a continuar a procurar e. sorrio. estou em casa. gosto de partir e gosto de regressar. essencialmente, gosto de andar à deriva.]

… mas escusam de fazer essa cara de nojo, viajo por motivos estritamente profissionais.

[e não, não terei tempo de rumar a sul e partir as pernas a um certo valbuena que eu cá sei...]

[de resto, o katsouranis também não estava disponível para fornecer os seus serviços altamente profissionais nessa missão arriscada: diz que está no hospital, a recuperar de um traumatismo ucra... ok, eu paro com a piadinha.]

[eu já parava de engonhar e ia fazer a mala... é que tenho abion daqui a um par de horas e ainda não tratei de nada.]

[pois... já parava de engonhar mesmo...]

[alguém sabe como se diz "engonhar" em francuguês?]

que justificam o SEXO!

[e não, isto não é uma manobra desesperada para aumentar para 101 o número visitas diárias ao meu blog, apanhando os pobres desgraçados que vagueiam no google com propósitos auto-didactas e meramente pedagógicos. nada disso. é efectivamente verdade que a mente humana consegue engendrar 237 (porra: duzentas e trinta e sete!) desculpas para endrominar o parceiro(a) e conseguir convencê-lo(a) a sacrificar o corpo a rituais satânicos, mais ou menos condenados por todas as religiões que eu conheço.]

[e por falar em religiões-que-eu-conheço, eu contei-vos daquela vez na suécia em que recebi dois éldinhos na minha toca? quando ouvi a campainha (às 9h da manhã de um sábado... haja paciência e quem a tenha por mim, que eu não estou para isto) e eles me disseram ao que vinham, eu fechei a fronha, calcei os chinelos de quarto, amarrei o cabelo no alto da pinha, e saí para o corredor com cara de má, protegida pelo meu pijama fofinho que tem uma boneca na camisola condenada a dizer eternamente "sleep with me!". e eis senão que me surgem dois belos moçoilos, muito lavadinhos e a cheirar a sabonete (daquele que vem embrulhado num papel que tem uns ranquinhos de trigo a agitar num campo). mas, e reparo agora, estou a afastar-me do assunto deste post. vou deixar a vossa imaginação discorrer à vontade sobre a continuação da história dos rapazinhos-a-cheirar-a-sabonete e retomo o sexo.]

[ou antes fosse.]

adiante: diz que dois psicólogos norte-americanos (porque que é que isto não me surpreende?) fizeram um estudo extensivo sobre as razões que levam as pessoas a fazer o amor.

[bonito, hã?]

[e aqui apetece-me abrir outro parênteses e perguntar: mas porquê? eles não sabiam? imagino dois homens de meia idade com calças de fazenda e camisa de flanela ao quadrados, intrigadíssimos, a fumar cigarro atrás de cigarro agastados com a dúvida que lhes assola a alma desde que passaram a ter que fazer a barba sob pena da avó não lhes dar biscoitinhos de manteiga ao lanche: diz que anda tudo maluco com fazer essa coisa, fazer esse o-amor... ó manele, mas tu percebes porquê, home? já estou a imaginar as impossíveis facturas de telefone carregadas de chamadas de custo acrescentado, bem como as noitadas e a contratação de acompanhantes, tudo a bem da ciência pois claro que o conhecimento é a luz que ilumina o nosso caminho.]

quando eu li o título do dito cujo estudo, pousei os queixos sobre a mão esquerda e fiz meia-dúzia de contas de cabeça: conheço uma… não, duas razões para tal-e-coisa.

qual não foi o meu choque quando descobri que estava a perder por 275 razões. arre. caneco. é muita razão junta para uma coisa que até-os-animaizinhos-fazem.

embrenhei-me um pouco mais no problema: bem vistas as coisas, e embora a nacionalidade das cobaias não esteja descrita em lado nenhum, por exclusão de partes cheguei à brilhante conclusão que todas elas seriam norte-americanas. pois bem. cocei o hemisfério cerebral esquerdo, intrigada: toda a vida acreditei que os americanos eram essencialmente constituídos por hambúrguers e coca-cola, miolos nada. sempre imaginei o cerebrozito deles como dois poiozitos de massa cinzenta, unidos a meio por uma casca de banana podre (assim parecido com o meu, mas um pouco maior nos dias pares). estava tragicamente errada: na verdade, o cérebro deles é um misterioso emaranhado de circunvolações e cruzamentos sem sinalização luminosa. multiplica-se em inúmeros sulcos e lobos, palco constante de sinapses saltitantes (como as papoilas). a sua capacidade cerebral é, de facto, inexcedível. o problema é que a esgotam toda no engate barato.

[proponho, até, a criação de uma nova subespécie: Homo sapiens sexus.]

o meu chefe costuma comentar, algures naquela zona do estou-a-falar-a-sério-a-brincar, que a psicologia faz parte das ciências ocultas.
[um dia destes começo a acreditar nele.]