Monthly Archives: August 2007

5 am: sacudi as pestanugas uma a uma (para não doer tudo ao mesmo tempo) e insultei-os baixinho. chapinhei rapidamente na banheira, enfiei uns jeans e uma t-shirt, e desci para tomar o pequeno almoço.

5:30 am: agarrei-me desesperadamente à máquina de café e insultei-os em volume audível. tirei o carro da garagem e parei-o à frente do portão. a bagagem saltou para a mala e seguimos para norte.

6:15 am: aeroporto Francisco Sá Carneiro.

[volto a olhar, volto a maravilhar-me. já passei por muito aeroportos, já lhes aprendi os cantos e os recantos, já lhes conheço de cor as dores e os anseios. mas nenhum - nenhum - é tão bonito e libertador como o da minha cidade. nenhum é tão intenso e tão completo. nenhum é tão meu.]

- what was that word?
- what word?
- the word.
- what word?
– the word.
- what word?
– the word.
- what word?
– the word.
- what word?
– the word.

[e eu a pensar que nunca lhes tinha falado dos felinos fedorentos.]

- ok, now I remember. we will have chôdadezes.

aqui é que a porca torceu seriamente o rabo. que é como quem diz, a glândula lacrimal teve um momento de fraqueza e esteve assim quase mais coisa menos ooisa para anunciar água-vai e me saltear a pele da face.

cerrei os dentes.

6:45 am: vi-os desaparecer na porta de embarque. caminhei devagar até ao carro, contei os passos no sol que despontava. espreguicei-me. fiz-me à IC24, e não obstante as 4 horas de sono mal dormidas, senti-me estranhamente desperta.

7:05 am: parei à porta de casa. olhei para o meu lado: não tinha ninguém. olhei para o banco de trás: não tinha ninguém. demorei-me na cadeirinha de bébé: não tinha ninguém. senti-me sozinha. e, não obstante as 4 horas de sono mal dormidas, não me apeteceu regressar à cama: apeteceu-me fugir para a praia.

9 dias passam a correr.

- então foi aqui.
- aqui?
- aqui.

- o berço da nação?

- o berço dela.

[shhh...]

- conta-me lá como foi.
- olha: este é o afonso. um belo dia ele acordou e [patatipatatapatatipatata] e foi assim. tinha nascido Portugal.
- deixa ver se eu percebi bem: o teu país nasceu quando um puto ranhoso decidiu que não gostava do padrasto e como tal achou que era uma excelente ideia correr a mãe aos pontapés?
- isso. mais coisa menos coisa. e já agora, já que estamos numa de história, relembra-me: os teus antepassados tinham todos um belíssimo par de cornos, não era?

- ena, ena, acusas logo o toque!… pelo menos já percebi de quem é que herdaste o mau feitio…

[então, mas... qual mau-feitio?]

de repente, sem aviso prévio ou hora marcada, uma voz surpreendida espreguiça-se no banco de trás:
- ouve lá… é de mim, ou o pessoal aqui é completamente louco a conduzir?
- não é só de ti, acredita… ainda por cima a esta hora e já com uns canecos bem entornados…
(e nisto a dita cuja voz corta-me a palavra brutalmente)
- o quê? estás a dizer que aqui o pessoal bebe e depois vai conduzir?!
- errrr…. nãããããããããããããã. nada disso, então! brincadeirinha. ah… ah… ah… já sabes, eu sou tolinha! brincadeirinha minha!

[sim, mãe. eu sei que tu me ensinaste a nunca mentir. mas que diabo, também não queria que eles se fossem embora 5 minutos depois de terem saído do aeroporto.]

[enquanto tentava desapertar o avental com a mão esquerda e atender o telemóvel com a mão direita, indiquei-lhe com o queixo a estante dos cds: escolhe. ele escolheu isto.


assim de repente, lembrei-me de uma frase que li uma vez numa crónica do Lobo Antunes. não sei se foi no primeiro livro de crónicas ou no segundo, não faço ideia do título da crónica, e definitivamente não me recordo do assunto que abordava. ficou-me na retina do coração uma única frase:
será que se
pode
soltar
um grito

devagar?]


I’ll be perfect in my own way

when you cry I will be there
I’ll sing to you and comb your hair
all your troubles I will share

[assim de repente. foi.]

andava eu perdida entre pilhas gigantescas de papéis acumulados ao longo dos séculos, cd’s a monte espalhados nos mais inacreditáveis cantos, montanhas de livros cobertos por uma aconchegante camada de pó com 2 cm de espessura…

[sim, eu estive a arrumar o meu quarto.]

… quando o encontrei. um recado escrito num papelucho amarrotado. tão simples quanto isto:

ó jeitosa:
amanhã venho um pouco mais tarde, mas venho almoçar. espera por mim, óbistes? quando chegares tira-me por favor as placas que eu tenho na estufa a 37ºC e deixa-as na minha bancada.
beijinhos,
L.

PS: foste maravilhosa!

eu fiz o neuronito dar 4 ou 5 voltas sobre si mesmo a tentar descobrir quando é que eu fui maravilhosa. escusado será dizer que não cheguei lá. por via das dúvidas, voltei a amarrotar o papelucho e atirei-o novamente para a caixa-preta-com-tampa-cor-de-cereja onde eu guardo parvoíces com memória

[e.g., bilhetes de cinema, bilhetes de metro, bilhetes de concertos, cartões de restaurante, panfletos vários e outras idiotices que me relembram sítios/locais/pessoas (riscar o que não interessa) onde/com quem (idem idem aspas aspas) fui feliz].

fica para a viagem. nunca se sabe quando é que me vai dar jeito recordar que algures-um-dia fui maravilhosa.


Oh, I get by with a little help from my friends

Mm, I get high with a little help from my friends
Mm, gonna try with a little help from my friends

NOTA: de volta mas pouco. vou andar armada em guia turístico a mostrar o belo do Portugal a uns amigos suecos, pelo que terei pouco tempo para vir aqui insultar a vossa inteligência com os meus disparates. de resto, é chato: logo agora que eu estava a recuperar do eterno torcicolo que ganhei em terras de vikings, consequência de andar sempre com o pescocinho numa rotação de 90º para cima…
“desculpa, o que é que disseste? é que cá em cima não se ouve bem aí de baixo, deve ser por causa das diferenças de pressão atmosférica…”
“ah ah ah. vê lá é se manténs a boquinha fechada, não vá um boeing rebelde aterrar-te na língua!”

vou-ali-já-venho. espernear com força a alma num pedaço de paraíso que só eu sei. perder-me de mim sem pressas de me encontrar. voltarei daqui a alguns dias, quando o sabor a sal e a liberdade se tiver entranhado o suficiente do lado de dentro da pele para durar (enquanto eu durar). até ao meu regresso.

well I don’t know where I’ll go now

and I don’t really care who follows me there

but I’ll burn every bridge that I cross

and find some beautiful place to get lost.

[sim, eu tenho uma máquina fotográfica nova. sim, é LINDA! LINDA! LINDA!]

[sim, eu já me calei.]

1. sou mai macho qui muito homi!

um destes dias, uma daquelas conversas.

gaja (que por acaso era eu): então mas… se tu não sabes ver o nível do óleo do teu carro, como é que sabes quando precisas de o mudar? ou então se houver um problema, tipo, se estiveres a perder óleo?…
gajo: oh… enquanto não houver nenhuma luzinha acesa no painel, não me preocupo.
gaja (que por acaso era eu): pffffffff!… é que sinceramente… não há pachorra, amigo! ouve lá, nunca te passou pela cabeça que há efectivamente um motivo para a natureza vos ter dotado com um cromossoma X perneta, para além daquele que é normal? olhar para o painel é o que EU faço! é suposto tu perceberes um bocadinho mais de mecânica de automóveis do que eu!!
gajo: poupa-me! estás-me a acusar a MIM de desrespeitar os cromossomas sexuais? olha bem para ti: quem te vê de fora põe as mãos no fogo como tens os dois cromossomas Xs com as perninhas todas no sítio… e no entanto, sabes o nome de todos os jogadores de futebol que actuam na primeira liga!!



[que exagero malvado. todos todos assim-mesmo-todos também não sei. só sei o nome dos que são giros porque são giros. e o nome daqueles que são muito bons porque são muito bons e é um regalo vê-los jogar. e o nome daqueles que são muito maus porque são muito maus e chamam a atenção. e o nome dos que são médios porque eu cá não discrimino ninguém ainda outro dia me chamaram xenófoba por querer partir o rádio na cabeça da colega recém chegada do brasil que num belo fim de tarde se lembrou de pôr ivete sangalo aos berros no laboratório mas eu não eu cá não descrimino ninguém desde já afianço com toda a honestidade que partia de bom grado o rádio na cabeça de qualquer português espanhol russo italiano sueco americano tailandês ou angolano que tivesse o despropósito de me enfiar uma quantidade absurda de decibéis rançosos a gritar poeiraaaaaaaa, poeiraaaaaaaa, poeiraaaaaaaa, le-van-tou poeira pela cabeça dentro enquanto eu estou a tentar trabalhar pronto confesso que talvez aplicasse um pouquito mais de força no espanhol mas de resto não senhor eu cá não descrimino ninguém.]

2. e por falar em gaja.

no instituto onde eu trabalho existe um bar, e atrás do balcão desse bar existe uma senhora com quem, de resto, me dou muito bem. certo dia estavámos a lanchar calmamente na esplanada quando o neto da senhora-do-bar, que tem os seus 7/8 anos e que portanto está de férias, se juntou a nós numa mesinha ao lado. imediatamente fizemos um esforço desumano por controlar o teor da conversa e restringir o tópico ao estado actual da ciência no nosso país. a certa altura, envolvidos que estavámos na calorosa discussão política, alguém comentou: “que treta! se ele é jeitoso, porque é que eu não hei-de olhar?! se fosse uma gaja boa vocês já estavam ali a salivar feitos parvos!”. nisto, o neto da senhora-do-bar (com os seus 7/8 anos) levanta-se num repente, comenta “eu vou fazer de conta que não ouvi” e recolhe-se para o interior. quando, já cansados da discussão que entretanto tinha descambado para a filosofia e para os ideiais do iluminismo, recolhemos então nós ao interior, interrogamos a senhora-do-bar. ela, perdida de riso, confessou que o neto lhe tinha ido dizer que nós estávamos a dizer asneiras. ao que nós ripostámos: “mas ó dona senhora-do-bar, nós só falámos em gaja boa”. e ela, já a desfazer-se: “é que eu ensinei-lhe que os srs drs não dizem asneiras nem coisas dessas”.

coisas dessas. ora aí está: é por estas e por outras que eu não deixo ninguém tratar-me por dra. é muita pressão.

3. e por falar em pressão.

há duas semanas atrás fui a um casamento. na igreja, ao dar início à homília, o padre sai-se com: “aquilo que eu mais gosto de celebrar nesta igreja são… as bodas de ouro”. é que não se faz. quer-se dizer: está uma pessoa ainda naquela situação de ah-e-tal-esta-coisa-no-dedo-faz-comichão-comó-carago e logo o padre tungas, tens que aguentar 50 anos para fazeres de mim um homem feliz. é tramado. de resto, a dita cuja homília atingiu o seu ponto alto quando o mesmo padre, minutos depois, relatou: “eu achei que ele tinha feito uma coisa tão feia que fui falar com ele. e até disse asneiras, que nem costumo dizer. disse-lhe: ó seu malandro”. tss, tss… então isso faz-se, senhor padre? coitado do senhorzinho… ao menos se lhe tivesse dito ó meu grande filho da puta ainda estou como o outro, ainda passava, agora chamar ao homem malandro, isso não se faz, está mal. aposto que ainda hoje o fulano tem pesadelos com sotainas esvoaçantes que lhe berram ao ouvido asneiras feias. enfim, coisas dessas. como por exemplo, malandro.

caminhar sobre memórias que o tempo se esqueceu de perdoar. morder a luz com fome de pobre nos dentes. entrançar o cabelo, devagar. deixar escorrer o que a vida não rasgou. falar ao ouvido da ternura. queimar aos poucos a saudade que ainda resta. sossegar. pousar a cabeça nos joelhos e ficar à espera.