1. sou mai macho qui muito homi!
um destes dias, uma daquelas conversas.
gaja (que por acaso era eu): então mas… se tu não sabes ver o nível do óleo do teu carro, como é que sabes quando precisas de o mudar? ou então se houver um problema, tipo, se estiveres a perder óleo?…
gajo: oh… enquanto não houver nenhuma luzinha acesa no painel, não me preocupo.
gaja (que por acaso era eu): pffffffff!… é que sinceramente… não há pachorra, amigo! ouve lá, nunca te passou pela cabeça que há efectivamente um motivo para a natureza vos ter dotado com um cromossoma X perneta, para além daquele que é normal? olhar para o painel é o que EU faço! é suposto tu perceberes um bocadinho mais de mecânica de automóveis do que eu!!
gajo: poupa-me! estás-me a acusar a MIM de desrespeitar os cromossomas sexuais? olha bem para ti: quem te vê de fora põe as mãos no fogo como tens os dois cromossomas Xs com as perninhas todas no sítio… e no entanto, sabes o nome de todos os jogadores de futebol que actuam na primeira liga!!
[que exagero malvado. todos todos assim-mesmo-todos também não sei. só sei o nome dos que são giros porque são giros. e o nome daqueles que são muito bons porque são muito bons e é um regalo vê-los jogar. e o nome daqueles que são muito maus porque são muito maus e chamam a atenção. e o nome dos que são médios porque eu cá não discrimino ninguém ainda outro dia me chamaram xenófoba por querer partir o rádio na cabeça da colega recém chegada do brasil que num belo fim de tarde se lembrou de pôr ivete sangalo aos berros no laboratório mas eu não eu cá não descrimino ninguém desde já afianço com toda a honestidade que partia de bom grado o rádio na cabeça de qualquer português espanhol russo italiano sueco americano tailandês ou angolano que tivesse o despropósito de me enfiar uma quantidade absurda de decibéis rançosos a gritar poeiraaaaaaaa, poeiraaaaaaaa, poeiraaaaaaaa, le-van-tou poeira pela cabeça dentro enquanto eu estou a tentar trabalhar pronto confesso que talvez aplicasse um pouquito mais de força no espanhol mas de resto não senhor eu cá não descrimino ninguém.]
2. e por falar em gaja.
no instituto onde eu trabalho existe um bar, e atrás do balcão desse bar existe uma senhora com quem, de resto, me dou muito bem. certo dia estavámos a lanchar calmamente na esplanada quando o neto da senhora-do-bar, que tem os seus 7/8 anos e que portanto está de férias, se juntou a nós numa mesinha ao lado. imediatamente fizemos um esforço desumano por controlar o teor da conversa e restringir o tópico ao estado actual da ciência no nosso país. a certa altura, envolvidos que estavámos na calorosa discussão política, alguém comentou: “que treta! se ele é jeitoso, porque é que eu não hei-de olhar?! se fosse uma gaja boa vocês já estavam ali a salivar feitos parvos!”. nisto, o neto da senhora-do-bar (com os seus 7/8 anos) levanta-se num repente, comenta “eu vou fazer de conta que não ouvi” e recolhe-se para o interior. quando, já cansados da discussão que entretanto tinha descambado para a filosofia e para os ideiais do iluminismo, recolhemos então nós ao interior, interrogamos a senhora-do-bar. ela, perdida de riso, confessou que o neto lhe tinha ido dizer que nós estávamos a dizer asneiras. ao que nós ripostámos: “mas ó dona senhora-do-bar, nós só falámos em gaja boa”. e ela, já a desfazer-se: “é que eu ensinei-lhe que os srs drs não dizem asneiras nem coisas dessas”.
coisas dessas. ora aí está: é por estas e por outras que eu não deixo ninguém tratar-me por dra. é muita pressão.
3. e por falar em pressão.
há duas semanas atrás fui a um casamento. na igreja, ao dar início à homília, o padre sai-se com: “aquilo que eu mais gosto de celebrar nesta igreja são… as bodas de ouro”. é que não se faz. quer-se dizer: está uma pessoa ainda naquela situação de ah-e-tal-esta-coisa-no-dedo-faz-comichão-comó-carago e logo o padre tungas, tens que aguentar 50 anos para fazeres de mim um homem feliz. é tramado. de resto, a dita cuja homília atingiu o seu ponto alto quando o mesmo padre, minutos depois, relatou: “eu achei que ele tinha feito uma coisa tão feia que fui falar com ele. e até disse asneiras, que nem costumo dizer. disse-lhe: ó seu malandro”. tss, tss… então isso faz-se, senhor padre? coitado do senhorzinho… ao menos se lhe tivesse dito ó meu grande filho da puta ainda estou como o outro, ainda passava, agora chamar ao homem malandro, isso não se faz, está mal. aposto que ainda hoje o fulano tem pesadelos com sotainas esvoaçantes que lhe berram ao ouvido asneiras feias. enfim, coisas dessas. como por exemplo, malandro.