Monthly Archives: July 2007

… diz que se eu me chamasse catarina simpson, seria (mais-coisa-menos-coisa) assim:

hmm… tentando fazer uma avaliação independente da mais-coisa-menos-coisa:
1. tenho que confessar que as orelhinhas e o narizinho, dumbo size na versão original, ficaram francamente favorecidos na minha versão amarela. nada mau, não senhora… será que eu conseguia aquilo com uma rinoplastia?
2. os meus músculos abdominais são bem mais bem definidos do que os dessa fulana que querem fazer passar por mim… não consigo perceber a confusão, é que topa-se a léguas! life’s unfair, it is.
3. o meu cabelo não é preto (é castanho, animais! castanho! é assim tão difícil de distinguir?)

atrevam-se a submeter a vossa foto aqui.

I’m normally not a praying man, but if you’re up there, please save me Superman.
Homer Simpson

PS: o filme? ainda não, mas vou amanhã.


estava eu em organização de documentos e arrumação de pastas [dentro-de-pastas-dentro-de-pastas-dentro-de-pastas] quando descobri um escrito antigo, destinado a um outro blog no qual participei, blog esse que é tão antigo [ele próprio] como foi efémero. o texto datava de 2 de junho de 2005 e rezava assim:

“O tic-tac do coração calara-se de repente. A agulha que desenhava uma linha quebrada no papel do electrocardiograma suspendera-se, quieta. Um borrão no papel assinalava o instante exacto em que o coração parara de bater. (…)
Estava morto há uns 5 minutos quando chegou a médica. Mesmo de olhos fechados, ele via tudo, mesmo morto, ouvia as vozes e sentia tudo. Viu que a médica era nova, tinha uns olhos azuis, meigos e lindos, olheiras fundas, um pescoço comprido e magro. Ela pousou-lhe as mãos no peito e pressionou-o levemente. (…)
Encostou-lhe os eléctrodos ao peito, e deu-lhe uma descarga contínua e profunda. Pareceu-lhe o peito tinha rebentado, a dor foi atroz e ele gritou por dentro, sem abrir a boca. (…) Ela tinha-lhe interrompido a morte, tinha-o chamado de volta, como só os deuses podem. Havia um destino traçado e ela trocara-lhe as voltas. (…)
Ao fim de um mês (…) decidiu-se por mandar um ramo de flores à médica dos olhos azuis, com um cartão onde escreveu: «Trazer-me de volta à vida foi um trabalho bonito, mas incompleto. Não quererá você completá-lo?». (…)
Eram onze da noite, ela despiu a bata, caminhou pelo longo corredor do hospital até à saída, imaginou a casa vazia à sua espera, o jantar frio para ser aquecido, o silêncio à sua volta e uma almofada para pousar a cabeça. Pensou que as coisas deveriam fazer mais sentido do que isso e foi então que lhe telefonou, porque, quem sabe, talvez ela tivesse uma resposta para ele, ou ele uma resposta para ela. Foi um processo longo e difícil, como sempre o são as aproximações entre duas pessoas habituadas a estarem sozinhas. Primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que parece instalar-se onde dantes estava a intimidade. É preciso saber passar isso tudo para chegar mais além, onde a cumplicidade – de tudo, o mais difícil de atingir – os torna verdadeiramente amantes.
Mas eles conseguiram-no, por vezes pisando os destroços do que parecia definitivamente perdido, mas seguindo em frente, quase com o desespero dos náufragos. Estão juntos há 8 anos, para a vida, dizem eles, e eu acredito. Há 8 anos que ela descansa o seu cansaço no ombro dele, que ele alisa o seu pescoço comprido, lhe apaga as olheiras e adormece com uns olhos azuis e ternos vigiando o seu sono.”

Miguel Sousa Tavares in não te deixarei morrer, David Crocket

(é sempre assim: primeiro nasce sempre a paixão, meiga e irrequieta. só depois o amor, e, com ele, os traços de racionalidade que sustentam uma relação a dois. há qualquer coisa de inevitavelmente ontogénico na ordem destes factores. durante o desenvolvimento do feto, aconchegado na placenta materna, é exactamente ao vigésimo segundo dia que o pequenino coração palpita pela primeira vez. nesta fase, o sistema nervoso central é apenas um esboço, uma vaga promessa. sim: primeiro nasce sempre a paixão, o vermelho do sangue, as noites em claro, um arrebatamento surdo da alma, a fragilidade. só depois vem a razão: pacífica, séria, terna e eterna. como em qualquer simbiose: só após a violência carregada de beleza de uma primeira reacção intuitiva se começa a formar a cumplicidade dos corpos trocados. e eu também acredito.)


fim de citação.

depois de ler isto, a minha memória viajou até setembro de 2006 e aterrou em 4 palavras e um ponto final que ouvi em certa tarde de calor. era a desfolhada, estávamos em aveiro, e o ar tinha aquele cheiro doce característico das rosas murchas e dos fins anunciados: eram os restos do verão. o meu primito alexandre, na altura com os seus sérios 4 anos, passeava-se pelo jardim de estetoscópio ao pescoço, escutando o ritmo dos diversos corações que por ali conversavam. depois de muita insistência da parte dele, lá lhe abri o meu: “vá criatura, ouve lá isso… mas despacha-te que eu quero almoçar”. vitorioso, mas sem nunca perder aquela compustura séria de quem cumpre uma missão arriscada a bem da humanidade, encostou a [ó mano, como é que se chama aquela parte fria-muito-fria do estetoscópio?] ao meu peito. uma, outra e outra vez. e depois baixou a cabeça, enrolou os olhos na relva, e ficou assim calado uns segundos, tal qual médico que mastiga um diagnóstico de lágrimas. lentamente, retirou [ó mano, como é que se chama aquela parte que se enfia nas orelhas do estetoscópio?] dos ouvidos, e olhou para mim com uma doçura súbita e prolongada. pousou-me a mãozita nos joelhos, como se estivesse prestes a dizer-me algo muito triste e muito grave e quisesse afagar o meu desânimo. numa voz sumida pela pena e por uma surda compreensão, murmurou então: “o teu não bate.”.

adoro-te, puto. mas tu não percebes nada disto. tem dias. dias em que bate mais do que outros, dias em que se apaga como uma chama ao vento. quando fores mais velho faço-te um desenho e explico-te umas coisas.

“Talvez fôssemos felizes nesse tempo. Fomos de certeza felizes porque as paredes do coração eram tão finas que se podia escutar do outro lado.”
António Lobo Antunes

(…)

it all seems strange
my whole life has changed
in a heartbeat


love is shining through
in everything you do
honey, in a heartbeat


and something in your eyes
has got me hypnotized
in a heartbeat


and near or far
I try to be where you are
in a heartbeat

[pelos absolutamente estonteantes koop. digam-me lá se este ritmo cardíaco não roça a perfeição? estes tipos matam-me!]

ontem amanheceu assim. com um suspiro de Tejo ao fundo da janela que me era desconhecida.
e eu pensei que tinha valido a pena. perder o jogo de apresentação dos meus rapazes. ficar com lesões permanentes nos pés por causa das 18h em cima de 7cm de salto. o total de 6 horas que tinha dormido nas duas noites anteriores.
tinha valido a pena. porque vocês fazem sentido. e durante o dia, a noite, a madrugada… também eu fiz sentido.

[sim, eu sei que a foto está ranhosa qb, mas tenham dó: foi tirada com o telemóvel.]

Vincent Van Gogh, 1889


há pouco olhei lá para fora: o céu estava encoberto de estrelas. e então lembrei-me dele. [há muito tempo que não pensava nele.] não sei bem porquê, talvez pela sensação estranha de que todas aquelas estrelas não cabiam num mesmo céu. ou talvez por ter lido isto. sim, isso: relembrei-me dos meus tempos de voluntariado, aos quais a vontade insiste em voltar. por um momento, as saudades fizeram mais ruído do lado esquerdo do peito e tudo ficou imensamente desarrumado dentro de mim. lembro-me deles. lembro-me deles todos. lembro-me dos percursos, lembro-me das noites frias, lembro-me de como as ruas da minha cidade se enchiam de esconderijos sujos e cheios de vida quando a noite pousava sobre elas. lembro-me. lembro-me da minha descoberta, do meu espanto arregalado: os sem-abrigo. não sei o que esperava encontrar quando me juntei àquele grupo: talvez prostitutas e toxicodependentes. a realidade deslumbrou-me como chicote em carne nua: esses têm tecto. as histórias dos que se enrolam na escuridão para dormir são bem mais simples. trágicas. quase cómicas, às vezes. escorreitas, sempre. duras como o granito do qual nasce e renasce a minha cidade. e lembro-me deles. todos.

o sr. J, que transpirava uma dignidade avassaladora. dorida, mas bela. intensa. cumprimentava-me com um aperto de mão, tratava-me por “a menina bonita”, perguntava-me “então e o nosso porto?”. o tempo passava sem darmos conta no que parecia uma amena cavaqueira entre velhos amigos. aqueles que conhecem os espaços exactos uns dos outros e a dimensão do seu respirar. política, novas descobertas da ciência, últimos rumores do jet set, desporto. não havia nada que aquele homem não lesse avidamente no jornal do dia e não soubesse comentar. culto, imenso, quase sábio no seu jeito estranho de viver do outro lado da vida. às vezes, a voz tremia-lhe. a revolta enchia-lhe os olhos castanhos, cor de terra [cor de chão]. relembrava o acidente de trabalho, o despedimento, os amigos que não souberam ajudar, a família que não existia, o processo de tribunal que ainda começou mas nunca acabou porque o dinheiro para pagar ao advogado não existia, a renda da casa que não foi paga, o despejamento, o despojamento. o resto. a vida na rua. a rua da vida. depois serenava. e sorria. regressava a si, comentava o último golo do porto, cruzava os braços e olhava em frente. e eu deslumbrava-me com aquela forma enorme de ser Alguém. com aquela coragem. com aquela força de existir [subsistir, insistir]. e sentia-me pequenina, esmagada, despida, perdida. “então até para a semana, menina bonita”. “até para a semana, sr. J”.

lembro-me deles. todos. o sr. A, que bebia para acalmar a “maluqueira, sabem, às vezes dá-me assim uma maluqueira que eu não sei explicar”. a “maluqueira” era uma epilesia não medicada. a sr. M, que nunca conseguiu olhar para nós enquanto falava. vergonha, tanta vergonha. nunca soube de quê. o sr. D, que estacionava carros durante o dia e gastava quase todo o dinheiro em comida para os dois cãezitos que o acompanham e lhe velavam o sono [os sonhos?]. tenho a certeza que aqueles cães são escovados mais vezes do que os meus. um dia levamos-lhe biscoitos de cão: foi assim que lhe conquistámos a confiança. e, mais tarde, a simpatia. o sr T, homem alto de meia idade e ar respeitável. os pais viviam em França. uma vez por ano vinham passar uma semana ao Porto. ele metia-os num hotel e instalava-se com eles. durante uma semana fazia turismo. acabada a semana, começava a juntar dinheiro para o próximo ano. nunca disse aos pais que vivia na rua: inventava desculpas mirabolantes para não os receber na sua casa que nunca existiu. já lá iam 3 anos. eu perguntava-me até quando é que os pais iam fechar os olhos. pergunto-me se já os abriram. o sr. Z, extraditado dos estados unidos por ter sido considerado culpado de um homicídio. em legítima defesa, é certo. cumpriu pena lá e depois foi mandado para cá. era de outra cidade, mas o filho que lá tinha não o queria ver. afeiçoou-se às ruas do porto. eu olhava para ele, para aqueles olhos trocistas e para o cabelo ruivo oleoso e muito despenteado. olhava para ele, olhava para as mãos dele, via-lhe os calos, a sujidade em camadas sobrepostas, o lixo a acumular-se debaixo das unhas. eu olhava para aquelas mãos e sabia que elas tinham tirado a vida uma pessoa. e no entanto. ficava ali, ao pé dele como dos outros. nunca senti medo ou desprezo. se calhar devia ter sentido. mas depois existiam aqueles olhos infantis e uma gargalhada que cheirava a vinho barato e a um encolher de ombros. devia ter-lhe desprezo. mas tinha-lhe carinho. rais ma parta, tinha-lhe carinho.

lembro-me deles. todos. e lembro-me dele. bem, tão bem, como se a noite mo tivesse trazido hoje mesmo. ainda há pouco, só há um bocadinho. parecia de leste. e parecia ter a minha idade. mais coisa menos coisa. e tinha uns olhos azuis. escuros, imensos, grandes. Inteiros, como só a morte o sabe ser. durante o tempo todo em que tentámos estabelecer contacto, ele não disse uma palavra. enterrou os olhos dele nos meus e deixou-se ficar. [with eyes that know the darkness of my soul.] eu tentei. em português, primeiro. em inglês, depois. em francês, em espanhol. nada. nem um som, nem um gemido, nem um sorriso. só aquele olhar. feito de pó das viagens, feito de ruas sem nome, feito de amor. desesperada, eu queria uma palavra: uma só que fosse. e ele, muito mais que palavras, transpirava um universo inteiro de dor e paixão e passos trocados e feridas profundas e sangue quente e morte e braços estendidos. tudo naquele olhar, mudo e Enorme. mas o grupo já se afastava. eu, confusa, quebrei uma das regras mais básicas das nossas rondas e enfiei-lhe 3 notas muito enroladinhas no bolso do blusão. ele não desviou o olhar, nem um milímetro, nem por um segundo. eu afastei-me, virei costas, e apressei o passo na direcção do grupo. a noite estava fria e húmida [seria janeiro? talvez fevereiro...] e os ossos tremiam num concerto desarticulado. mas até ao virar da esquina, senti os olhos dele a escaldarem-me a pele das costas. ainda sinto, de vez em quando. hoje, 4 anos depois, finalmente percebi. percebi que me apaixonei naquela noite, naquele instante. percebi que me apaixonei perdidamente por aqueles olhos. imensos como o meu abandono. intensos como o meu amor. sozinhos. como eu. [eyes that know the darkness of my soul. eyes that watch the world and can't forget.]

nunca mais o vi. nenhum dos nossos grupos o viu. hoje, quando caminho por aquelas ruas, vou olhando para um lado e para o outro. reconheço alguns rostos, eles não me reconhecem a mim. não sei se pela ausência do enorme colete azul que nos tornava, aos olhos deles, mais acessíveis. não sei se porque eu estou diferente. a ele, nunca mais o vi.

há pouco olhei lá para fora: o céu estava encoberto de estrelas. e então lembrei-me dele. há muito tempo que não pensava nele. e depois lembrei-me daquela música do Don McLean, que tantas vezes ouvi quando era miúda, nas viagens de carro com os meus pais. e lembrei-me de quando o meu pai me explicou aquela música, a quem era dedicada e porquê. e lembrei-me de quando ele me traduziu a letra. e lembrei-me de ter gostado especialmente daquela parte que dizia this world was never meant for one as beautiful as you. e lembrei-me de ter pensado que aquilo era uma coisa muito linda e muito triste para se dizer a alguém. e muito linda outra vez.

há pouco olhei lá para fora: o céu estava encoberto de estrelas. e então lembrei-me dele. há muito tempo que não pensava nele. e depois lembrei-me daquela música do Don McLean. e ainda me lembrei dos meus tempos na suécia, quando andava pelas ruas minutos a fio de nariz empinado no ar, a tentar descobrir as estrelas certas na latitude errada. ou as estrelas erradas na latitude certa.

às vezes nem sei bem.


now I think I know what you’ve tried to say to me,

how you suffered for your sanity,
how you tried to set them free.
they would not listen, they’re not listening still.

perhaps they never will.

da mesinha de cabeceira:
[ou melhor: da arca-de-madeira-clarinha-que-faz-as-vezes-de-mesinha-de- -cabeceira e ainda me permite sentar-me sobre ela com as pernas cruzadas e empoleirar-me na janela quase-quase a tocar nos ramos da japoneira que quase-quase se espreguiçam até mim.]

A certa altura, apesar da chuva e da pressa, da violência da escuridão a desdobrar-se sem fim e da confusão do percurso, apeteceu-me sair da auto-estrada, meter por uma via secundária, percorrer sítios onde fosse forçado a abrandar e a olhar, sem a hipnose forçada das faixas brancas no alcatrão, mesmo sabendo que, de noite, pouco ou nada poderia avistar, mas precisava de ter a consciência de que havia árvores nas bermas, de que atravessava povoações adormecidas, de que ladeava, aqui e ali, a fachada comprida de algum solar de cantarias e sacadas geometricamente distribuídas ao longo da parede, de pressentir clarões e zonas menos escuras para depois me engolfar na noite outra vez, para depois ainda, voltar a sentir-me completamente só nessa luta contra os elementos como num corpo-a-corpo contra o tempo e o espaço e o próprio destino.
(…)
Um lindo enterro. As viagens têm destas coincidências implacáveis, como se o tempo e o espaço, contraindo-se pela nossa deslocação através deles, se organizassem deliberadamente contra nós, abrindo trincheiras, erguendo abatises intransponíveis. Escuta-se o que não se esperava e não se chega a ouvir o que mais se deseja. Ou então escuta-se o que faria mais sentido escutar-se e a nossa fustração só aumenta com isso.

in Meu amor, era de noite – Vasco Graça Moura

das colunas de som:

[encaixa direitinho. em mim. and it doesn't come as a surprise.]

[final da tarde pousada em todas as coisas e eu vinha a sair, lá atrás-dos-prédios-junto-ao-mar punha-se o sol. atravessar o parque de estacionamento. computador e 1397 artigos dobravam-me o ombro esquerdo, bolsa preta a tiracolo, saquinha verde da farmácia na mão direita, casaco azul bebé amarrado à cintura quase-quase a escorregar
(por favor aguenta lá até ao carro que a terceira mão está ocupada a coçar o que resta do hemisfério cerebral direito. faz comichão como o caraças, o que resta.)
e dei pela minha voz ao relento. baixinha. cantava assim: so, so you think you can tell...]

so you think you can tell heaven from Hell,
blue skies from pain?
can you tell a green field from a cold steel rail?
a smile from a veil?

do you think you can tell?

and did they get you to trade your heroes for ghosts?
hot ashes for trees?
hot air for a cool breeze?
cold comfort for change?

and did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?

how I wish you were here.
we’re just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year,
running over the same old ground.

what have we found?
the same old fears.

wish you were here.

tough
you think you’ve got the stuff
you’re telling me and anyone
you’re hard enough

[quando perceber quando deixar entrar quando receber quando estender a mão. ajuda. às vezes é demasiado pesado. quando detesto não ser capaz de Ser sozinha. quando mas às vezes. I can't make it on my own. quando pousar as armas e pedir. alguém que permaneça a meu lado e me diga you don't have to put up a fight.]


you don’t have to always be right
let me take some of the punches
for you tonight

listen to me now
I need to let you know
you don’t have to go it alone

and it’s you when I look in the mirror

and it’s you that makes it hard to let go

sometimes you can’t make it on your own
sometimes you can’t make it
(the best you can do is to fake it)

sometimes you can’t make it on your own

NOTA: a itálico, poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen.


Reconheci-te logo destruída
Sem te poder olhar porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas

[inteiros. 3 anos inteiros sobre ti. e eu ainda te penso. ainda te procuro. ainda te desvendo na fragilidade imensa dos castelos de espuma que o mar deixa para trás quando se recolhe tímido do mundo a que se havia dado. ainda te sofro. ainda te sofro. ainda te pressinto no desassossego da minha alma, as tuas mãos sob os meus olhos, o meu mundo pelas tuas mãos, as tuas palavras a rasgar a doer a permanecer. ainda te sinto.]

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

[3 anos. depois de todas as palavras de caminhos que percorri ao teu lado, 3 anos e mais nada. rasguei a revolta da tua ida neste amor estranho que trago colado a mim. entranhado em mim. falo contigo, ainda. sabias? falo contigo, não sei se me ouves, mas falo contigo como a um qualquer deus distante que me pudesse sorrir complacente do alto de uma paz adiada. falo contigo, baixinho, quando perco em mim os meus passos. quando me desencontro de quem eu me julgava ser. quando falho. e eu falho demasiado. falo contigo, baixinho, peço-te ajuda, encosto a testa à janela e embacio a dimensão que nos separa. leio-te até me sangrarem os olhos. e, ainda assim, não sei ser como tu. tu, que ousaste odiar o que era fácil.]

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

[eu quebrei o meu rosto contra mim, perdi-me nas procuras vazias em que não me encontro, começo a perder-me de mim, em ti. e quase me apetece pedir-te que voltes (que injustiça, que egoísmo, mas que) voltes, uma só vez. que me abraçes numa palavra nova, que me devolvas a mim na tua única voz, que me passes a mão pelo cabelo e me ensines essa tua grandiosidade do desprendimento do Sonho. 3 anos sobre ti. e ainda te sofro, ainda me dóis, ainda te procuro, ainda preciso de ti, ainda me perco, ensinaste-me a caminhar durante 21 anos (eu sei) mas ainda tropeço, ainda te quero, e mesmo com tudo o que me deixaste (eu sei), mas ainda preciso de mais, ainda te rogo que voltes, uma só vez (que injustiça, que egoísmo, mas que) voltes e me ensines essa tua beleza que ainda me pasma, ainda me enternece, ainda me resgata.]

Passam os carros e fazem tremer a casa
A casa em que estou só.
As coisas há muito já foram vividas:
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.
E as minhas mãos já não podem prender nada.

Porém eu olho para a noite
E preciso de cada folha.

Rola, gira no ar a tua vida,
Longe de mim…
Mesmo para sofrer este tormento de não ser
Preciso de estar só.

Antes a solidão de eternas partidas
De planos e perguntas,
De combates com o inextinguível
Peso de mortes e lamentações
Antes a solidão porque é completa.

Creio na nudez da minha vida.
Tudo quanto me acontece é dispensável.
Só tenho o sentimento suspenso de tudo
Com a eternidade a boiar sobre as montanhas.

Jardim, jardim perdido
Os nossos membros cercando a tua ausência…
As folhas dizem uma à outra o teu segredo,
E o meu amor é oculto como o medo.

[como o medo. 3 anos sobre ti. olho para a estante, os teus livros (todos) alinhados uns atrás dos outros até à eternidade do que me deixaste. lombadas brancas, reunião de luz, a tua Luz. ainda te procuro. 3 anos. será que se vão lembrar de ti, será que os Outros se vão lembrar de ti? eu lembro-me. conheci-te na voz dos meus pais quando as letras ainda me eram território estranho, cresci a folhear-te. aprendi-te na delicadeza dos traços alvos e simples e Imensos e verticais. e agora...]


E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida.

[e agora já não é agora já são 3 anos. e eu ainda te procuro. e nenhum horizonte me basta.]

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[Porto, 1919.nov.6 – Lisboa, 2004.julho.2]