Vincent Van Gogh, 1889
há pouco olhei lá para fora: o céu estava encoberto de estrelas. e então lembrei-me dele. [há muito tempo que não pensava nele.] não sei bem porquê, talvez pela sensação estranha de que todas aquelas estrelas não cabiam num mesmo céu. ou talvez por ter lido isto. sim, isso: relembrei-me dos meus tempos de voluntariado, aos quais a vontade insiste em voltar. por um momento, as saudades fizeram mais ruído do lado esquerdo do peito e tudo ficou imensamente desarrumado dentro de mim. lembro-me deles. lembro-me deles todos. lembro-me dos percursos, lembro-me das noites frias, lembro-me de como as ruas da minha cidade se enchiam de esconderijos sujos e cheios de vida quando a noite pousava sobre elas. lembro-me. lembro-me da minha descoberta, do meu espanto arregalado: os sem-abrigo. não sei o que esperava encontrar quando me juntei àquele grupo: talvez prostitutas e toxicodependentes. a realidade deslumbrou-me como chicote em carne nua: esses têm tecto. as histórias dos que se enrolam na escuridão para dormir são bem mais simples. trágicas. quase cómicas, às vezes. escorreitas, sempre. duras como o granito do qual nasce e renasce a minha cidade. e lembro-me deles. todos.
o sr. J, que transpirava uma dignidade avassaladora. dorida, mas bela. intensa. cumprimentava-me com um aperto de mão, tratava-me por “a menina bonita”, perguntava-me “então e o nosso porto?”. o tempo passava sem darmos conta no que parecia uma amena cavaqueira entre velhos amigos. aqueles que conhecem os espaços exactos uns dos outros e a dimensão do seu respirar. política, novas descobertas da ciência, últimos rumores do jet set, desporto. não havia nada que aquele homem não lesse avidamente no jornal do dia e não soubesse comentar. culto, imenso, quase sábio no seu jeito estranho de viver do outro lado da vida. às vezes, a voz tremia-lhe. a revolta enchia-lhe os olhos castanhos, cor de terra [cor de chão]. relembrava o acidente de trabalho, o despedimento, os amigos que não souberam ajudar, a família que não existia, o processo de tribunal que ainda começou mas nunca acabou porque o dinheiro para pagar ao advogado não existia, a renda da casa que não foi paga, o despejamento, o despojamento. o resto. a vida na rua. a rua da vida. depois serenava. e sorria. regressava a si, comentava o último golo do porto, cruzava os braços e olhava em frente. e eu deslumbrava-me com aquela forma enorme de ser Alguém. com aquela coragem. com aquela força de existir [subsistir, insistir]. e sentia-me pequenina, esmagada, despida, perdida. “então até para a semana, menina bonita”. “até para a semana, sr. J”.
lembro-me deles. todos. o sr. A, que bebia para acalmar a “maluqueira, sabem, às vezes dá-me assim uma maluqueira que eu não sei explicar”. a “maluqueira” era uma epilesia não medicada. a sr. M, que nunca conseguiu olhar para nós enquanto falava. vergonha, tanta vergonha. nunca soube de quê. o sr. D, que estacionava carros durante o dia e gastava quase todo o dinheiro em comida para os dois cãezitos que o acompanham e lhe velavam o sono [os sonhos?]. tenho a certeza que aqueles cães são escovados mais vezes do que os meus. um dia levamos-lhe biscoitos de cão: foi assim que lhe conquistámos a confiança. e, mais tarde, a simpatia. o sr T, homem alto de meia idade e ar respeitável. os pais viviam em França. uma vez por ano vinham passar uma semana ao Porto. ele metia-os num hotel e instalava-se com eles. durante uma semana fazia turismo. acabada a semana, começava a juntar dinheiro para o próximo ano. nunca disse aos pais que vivia na rua: inventava desculpas mirabolantes para não os receber na sua casa que nunca existiu. já lá iam 3 anos. eu perguntava-me até quando é que os pais iam fechar os olhos. pergunto-me se já os abriram. o sr. Z, extraditado dos estados unidos por ter sido considerado culpado de um homicídio. em legítima defesa, é certo. cumpriu pena lá e depois foi mandado para cá. era de outra cidade, mas o filho que lá tinha não o queria ver. afeiçoou-se às ruas do porto. eu olhava para ele, para aqueles olhos trocistas e para o cabelo ruivo oleoso e muito despenteado. olhava para ele, olhava para as mãos dele, via-lhe os calos, a sujidade em camadas sobrepostas, o lixo a acumular-se debaixo das unhas. eu olhava para aquelas mãos e sabia que elas tinham tirado a vida uma pessoa. e no entanto. ficava ali, ao pé dele como dos outros. nunca senti medo ou desprezo. se calhar devia ter sentido. mas depois existiam aqueles olhos infantis e uma gargalhada que cheirava a vinho barato e a um encolher de ombros. devia ter-lhe desprezo. mas tinha-lhe carinho. rais ma parta, tinha-lhe carinho.
lembro-me deles. todos. e lembro-me dele. bem, tão bem, como se a noite mo tivesse trazido hoje mesmo. ainda há pouco, só há um bocadinho. parecia de leste. e parecia ter a minha idade. mais coisa menos coisa. e tinha uns olhos azuis. escuros, imensos, grandes. Inteiros, como só a morte o sabe ser. durante o tempo todo em que tentámos estabelecer contacto, ele não disse uma palavra. enterrou os olhos dele nos meus e deixou-se ficar. [with eyes that know the darkness of my soul.] eu tentei. em português, primeiro. em inglês, depois. em francês, em espanhol. nada. nem um som, nem um gemido, nem um sorriso. só aquele olhar. feito de pó das viagens, feito de ruas sem nome, feito de amor. desesperada, eu queria uma palavra: uma só que fosse. e ele, muito mais que palavras, transpirava um universo inteiro de dor e paixão e passos trocados e feridas profundas e sangue quente e morte e braços estendidos. tudo naquele olhar, mudo e Enorme. mas o grupo já se afastava. eu, confusa, quebrei uma das regras mais básicas das nossas rondas e enfiei-lhe 3 notas muito enroladinhas no bolso do blusão. ele não desviou o olhar, nem um milímetro, nem por um segundo. eu afastei-me, virei costas, e apressei o passo na direcção do grupo. a noite estava fria e húmida [seria janeiro? talvez fevereiro...] e os ossos tremiam num concerto desarticulado. mas até ao virar da esquina, senti os olhos dele a escaldarem-me a pele das costas. ainda sinto, de vez em quando. hoje, 4 anos depois, finalmente percebi. percebi que me apaixonei naquela noite, naquele instante. percebi que me apaixonei perdidamente por aqueles olhos. imensos como o meu abandono. intensos como o meu amor. sozinhos. como eu. [eyes that know the darkness of my soul. eyes that watch the world and can't forget.]
nunca mais o vi. nenhum dos nossos grupos o viu. hoje, quando caminho por aquelas ruas, vou olhando para um lado e para o outro. reconheço alguns rostos, eles não me reconhecem a mim. não sei se pela ausência do enorme colete azul que nos tornava, aos olhos deles, mais acessíveis. não sei se porque eu estou diferente. a ele, nunca mais o vi.
há pouco olhei lá para fora: o céu estava encoberto de estrelas. e então lembrei-me dele. há muito tempo que não pensava nele. e depois lembrei-me daquela música do Don McLean, que tantas vezes ouvi quando era miúda, nas viagens de carro com os meus pais. e lembrei-me de quando o meu pai me explicou aquela música, a quem era dedicada e porquê. e lembrei-me de quando ele me traduziu a letra. e lembrei-me de ter gostado especialmente daquela parte que dizia this world was never meant for one as beautiful as you. e lembrei-me de ter pensado que aquilo era uma coisa muito linda e muito triste para se dizer a alguém. e muito linda outra vez.
há pouco olhei lá para fora: o céu estava encoberto de estrelas. e então lembrei-me dele. há muito tempo que não pensava nele. e depois lembrei-me daquela música do Don McLean. e ainda me lembrei dos meus tempos na suécia, quando andava pelas ruas minutos a fio de nariz empinado no ar, a tentar descobrir as estrelas certas na latitude errada. ou as estrelas erradas na latitude certa.
às vezes nem sei bem.
now I think I know what you’ve tried to say to me,
how you suffered for your sanity,
how you tried to set them free.
they would not listen, they’re not listening still.
perhaps they never will.