estava aqui sentada em frente ao computador e dei por mim a pensar em ti.
[... em ti, nos meus primeiros dias naquele laboratório. eu, bichinho tímido, a estreitar-me com força contra as paredes brancas, esperança ténue que a vida passasse por mim e não me visse. tu, uma explosão de cor e caracóis e saltos altos que faziam toc-toc-toc pelos teus passos fora. tu a puxares por mim anda almoçar connosco, tu a puxares por mim anda tomar café connosco, tu a puxares por mim isso vai correr bem, miúda, tu a puxares por mim hoje fiz anos e trouxe bolo, às quatro na sala dos computadores, quero-te lá. tu sempre a puxares por mim. já te disse que sinto a tua falta naquele laboratório? sinto a tua falta naquele laboratório. todos os dias. todos.]
[... em ti, nos inúmeros cafés abandonados a meio de conversas que não se esgotavam nunca. nas lágrimas, nas gargalhadas, nos abraços, no conforto, no teu olhar do outro lado da bancada, nas noites malucas, nos jantares dobrados sobre o abdómen cansado de tanto rir. na tua espontaneidade irrepreensível. na maneira como, quando sorrias, todo o teu corpo sorria. e quando choravas, todo o teu corpo chorava. na maneira como és tão Una e Nua e Inteira e Feliz. como eu gosto de ti. como eu gosto.]
[... em ti, no dia da defesa da tua tese. e tu não querias ninguém contigo, tu não querias o teu pai, tu não querias a tua mãe, tu não querias o teu namorado, tu querias ir sozinha, tu querias estar sozinha, e eu disse-te deixa-me levar-te, e tu deste-me as mãos, os teus olhos indecisos entre o cansaço e o choro, fazias isso por mim? eu não sei o que não faria, parva! eu em tua casa, nesse dia de manhã, tu a perguntares-me da roupa, estás linda, tu nervosa, tu sem comeres nada, tu a saíres para a rua e a tua mãe a chamar-me e a ficar a olhar para mim, no meio do corredor, voz parada a minha Nor..., olhos húmidos, não se preocupe que eu tomo conta dela. A3 acima, eu a falar para te distrair, eu a falar para te sentir ali, eu a falar para me enganar em coragem, eu cheia de medo que alguma coisa corresse mal, que um pneu rebentasse, que o katemobile avariasse, que eu tivesse um acidente, eu sei lá, tinhas mesmo que ir defender a Braga, rais ta parta, não podias defender no Porto como as pessoas normais. mentira, eu não tinha medo dos pneus, eu não tinha medo do carro, eu não tinha medo dos acidentes, eu tinha medo de mim, tinha medo de não estar à (tua) altura, tinha medo que me tivesses confiado tanto de ti e que eu não te fosse capaz de segurar nas minhas mãos, eu tão trémula, eu a pensar nos olhos húmidos da tua mãe, eu a pensar no quanto te admirava. tu a ensaiares para mim e as cadeiras ainda todas vazias, a mesa do júri ainda vazia, as garrafinhas de água alinhadas umas atrás da outras, eu a saber que ia correr bem, eu a pôr-te o cabelo atrás da orelha estás linda, eu a dar-te a mão estás linda, eu tão cheia de orgulho em ti que mal sobrava espaço no peito para o bater nervoso do meu coração estás linda. e estavas.]
[... em ti, no dia em que levámos os nossos respectivos felinos ainda bebés ao veterinário, e o meu que não paráva de beber água, e o meu que não paráva de a excretar, e o homem a falar-me em cancro nos rins, o homem a falar-me em rins policísticos, o homem a falar-me em análises e mais análises e mais análises, o homem a falar-me na possibilidade de ter que abater o meu trotsky, e eu não dizia nada, eu olhei para o chão, eu paguei, eu vim-me embora. não chorei, não reagi, olhei para o chão, olhei para o gato, não disse nada. tu a paráres o carro à porta de minha casa para te despedires de mim, eu a ver-te a afastares-te para o teu carro novamente, eu finalmente a pousar a cabeça sobre o volante e deixar as lágrimas sossegar, tu a parares o carro no meio da rua, juro que o paraste no meio da rua, nem o encostaste nem nada, os teus tacões toc-toc-toc a descerem pelos paralelos aflitos, tu a abrires a porta do carro e a abraçares-me, vai ficar tudo bem, vais ver, vai ficar tudo bem. e ficou. o gato é uma aberração da natureza e bebe o seu próprio peso em água, mas nenhuma análise acusou nada. nenhuma. só porque tu disseste que ia ficar tudo bem.]
[... em ti, no sábado, na porta daquela igreja. na maneira como tu brilhavas, intensa. luz própria, a tua Luz. e eu olhei para o chão, e olhei para o banco de madeira, e olhei para o sítio onde as pessoas põem os joelhos, e olhei para o penteado da menina que estava à minha frente, e olhei para tudo onde os meus olhos puderam pousar, olhei para tudo, porque eu não queria chorar, amiga, eu juro que não queria chorar. mas tu estavas tão incrivelmente bonita. os teus passos lentos igreja fora, os teus soluços durante os votos, o teu ar radiante durante toda a festa, a tua felicidade, a felicidade dele, a tua mãe a abraçar-me, o teu pai a apresentar-me o seu sobrinho, e tu sempre tão linda, tu a comeres tão linda, tu a dares as lembranças tão linda, tu a voares de mesa em mesa tão linda, tu a dançares connosco até às tantas da manhã. tão linda.]
[... em ti, agora, a aterrares no méxico. se voltares demasiado morena, esfolo-te. eu adoro-te, mas há limites:)]
o vosso filme, a vossa música.
(posso roubar um nadinha-quase-nada para mim?)
suddenly the world seems such a perfect place
suddenly it moves with such a perfect grace
suddenly my life doesn’t seem such a waste
it all revolves around you
and there’s no mountain too high
no river too wide
sing out this song and I’ll be there by your side
storm clouds may gather
and stars may collide
but I love you until the end of time.

6 Comments
“…is just to love and be loved in return.”
Venha o que vier.
“Love is a many splendored thing,
Love lifts us up where we belong,
All you need is love!”
Este filme é uma obra prima da 7ª arte. É um maravilhoso espectáculo de cor e música do início ao fim. É fantástico.
O Tango de Roxanne é simplesmente genial.
Felicidades aos noivos.
PS: Acreditem que eu detesto musicais, mas este… este é diferente, muito diferente.
Agradeço-te Catarina, hoje precisava de saber dizer o que uma amiga significa para mim, para ela entender que estou lá com ela embora longe…
obrigada
E ao fim de tanto tempo, silenciosamente, sempre aqui a redescobrir as tuas palavras, não pude, hoje, deixar de dizer algo depois de ler este tributo à nossa babe….
De facto ela é única!
Só para deixar um olá , tenho saudades dela, tuas, nossas!
E nunca me esqueço de me lebrar dela, de ti, de nós! Sempre…
Um beijo sentido, até sempre…
Rita Catita
Já me lembro porque é que evito vir a este blog. É a tremenda inveja com que fico da tua capacidade de pegar numas quantas palavras e fazer magia com elas.
Beijinhos catarina.
O Rui tirou-me as palavras do teclado… Post fantástico!
«Aqui em baixo é tudo azul,
o arco-íris é azul e é azul a chuva quando molha,
a minha casa está no mar no fundo,
bem fundo, azul sem fronteiras a dividir corações.»
João Afonso Lima.