No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.
Nuno Júdice
gosto muito de música. gosto de a ler, só depois de a ouvir. gosto de a sentir, sentada no chão, as vibrações [uma após a outra, caminhos novos sobre caminhos percorridos] a passearem pela palma dos meus pés.
sim, gosto de música. e quem me rodeia sabe isso. pelo que não é raro um “ouve isto” ou “experimenta a banda x” ou “tenho a certeza que vais curtir este som”. às vezes, alguém acerta. muito raramente, alguém acerta terrivelmente em cheio. morde no nervo certo [como se as praias pudessem ter ventos errados].
[há qualquer coisa de estranho nos dias compridos. não sei se é a invasão da noite por uma luz esguia e deslocada, ou simplesmente a ausência do escuro. a ausência da ausência, no fundo. habituamo-nos ao espaço físico da ausência, que percorre as noites como uma criança sem rumo. habituamo-nos ao poder de nos ausentarmos – a terrível beleza de deixarmos de existir. no meio do resto da solidão que nos encerra.]
[será? será que há uma idade, um estado físico de envelhecimento, uma qualquer barreira antes da qual deixamos que o amor nos fuja como a água do mar ao pé da rebentação salgada? às vezes deixo-me duvidar. e às vezes penso que conheço uma série de personagens que já passaram dos 25 (e sim, se houvesse uma barreira esta seria, evidentemente, aos 25) e continuam uns grandes totós nesse departamento. não, não me refiro a ti. muito menos a ti. já de ti, falo um bocadinho. e de ti também. e de ti, que és efectivamente totó para o mundial.]
and too old to just break free and run.
[ninguém entenderia se eu fugisse. às vezes, eu não entendo porque permaneço.]
when he feels like he should be having his fun.
And much too blind to see the damage he’s done.
Sometimes a man must awake to find that,
really,
he has no one.
[A1, sentido norte-sul, a seguir à saída para coimbrões. passa-se um viaduto e elas lá estão, à direita, a pender sobre os railes numa estranha forma de desafio. são flores. grandes, talvez metade da minha mão fechada. cor-de-laranja, intenso. todos os dias passo por elas, todos os dias elas lá estão. já me apeteceu parar, assim mesmo, nem encostar o carro nem nada porque a vida não está para esses mimos. tocar-lhes, uma a uma, com a ponta dos dedos. perceber se cheiram a pó e a asfalto e a vidas morridas a correr. ou se há alguma delicadeza atrás daquela teimosia tardia. calcá-las. com força.
este fim de semana choveu. trovejou. o céu rasgou-se em dores que nem sequer eram as dele.
segunda-feira elas estavam lá. intensas. em tons de laranja.]
[há momentos de perfeição. momentos que nos ultrapassam, porque a sua beleza é demasiado grande para se encaixar entre circuitos neuronais que se habituaram ao desânimo aprendido. eu, pessoalmente, gosto de omoplatas. e de clavículas também. da forma engraçada como elas levantam a pele e criam um refúgio de partilha. também gosto de lágrimas. das suspensas, essencialmente. e de gargalhadas. como eu gosto. como eu gosto de gargalhadas.]
my kingdom for a kiss upon her shoulder.
It’s never over,
all my riches for her smiles when I slept so soft against her.
It’s never over,
all my blood for the sweetness of her laughter.
It’s never over,
she’s the tear that hangs inside my soul forever.
[e pensar que uma pessoa que possivelmente era bipolar, possivelmente se suicidou, e que já morreu (esta última sem possibilidade de possivelmente), nos entende. e pensar que queríamos (com muita força) que ela andasse por aí. e pensar que queríamos (tanto!) que esta música fosse escrita para nós. whatever. toda a gente contrói castelos de areia. talvez os menos inúteis sejam aqueles que sabemos à partida que nunca se vão realizar. like a kiss upon his shoulder.]
[lembrei-me assim, de repente, do meu-outro-último-grande-vício-musical. nem sei bem porquê. ou melhor, até sei, mas não é nada convosco. o que realmente interessa é que there’s a limit to your love. like a waterfall in slow motion. like a map with no ocean. indeed... there is a limit to my love.]
[estava aqui a pensar nas lágrimas que carrego suspensas na minha alma.]
para vocês, ao vivo: sete minutos e cinquenta e seis segundos de perfeição. eu já conheço cada acorde. cada jeito na voz. cada desvio [de]mente. como se a dor. pudesse ser. tão terrivelmente.
bela.
[e no entanto. ao longe. um eco responde-me.]


13 Comments
esta é daquelas em que recordo o preciso momento em que me bateu.
caramba… é muito lindo…
(há uma outra cena ao vivo no youtube de q gosto acho q ainda mais, e hei-de postar um destes dias lá no meu canto)
é condição da doce perfeição nunca acabar, senão não era perfeita né?
]
[aos 25 acaba o quê mesmo? hem? não percebi essa parte!!!
Já tinha saudades de esquecer o Mundo por uns minutos nas tuas palavras, sempre fantásticas. *vénia*
Será que as flores-laranja cheiram a Primavera? Imagina que sim. Imagina que se lhes tocares, elas partirão na sua fragilidade. Imagina que, se perturbares a sua luta incessante contra os carros que passam, não terás o seu cumprimento quando voltares a casa. Imagina que, tal como elas, à beira da fealdade, da pressa, do cinzento, há sempre um pouco de cor e de aroma. E que enquanto acreditares nisso, eles não desaparecem.
Sempre algo de belo, dentro de nós, apesar das nuvens. Mesmo as de chuva.
Nunca tinha ouvido ninguém dizer-se irritado assim com os dias longos e a ausência de noite à hora da noite. Eu também sinto a falta do escuro nessas alturas, eu até em casa às vezes apago as luzes para deixar a minha amiga noite entrar. Só que eu não me sinto desaparecer no meio dela, juntamento com os outros objectos; pelo contrário, os outros objectos desaparecem para me dar lugar a mim, e eu sinto que me uno com a noite, encho a noite e me torno a noite.
Achas que a barreira da velhice é aquela antes da qual inevitavelmente vemos o amor fugir-nos? (Já agora, o amor de laguém por nós ou o amor que havia em nós?) Eu, se calhar, sou idealista (totó), mas acredito que o amor (nem nosso por outrem, nem de outrem por nós, mas um amor que existe à nossa volta como o oxigénio que respiramos sem pensar de quem é) um dia pode – há-de – vir e nunca mais nos abandonar.
E se parares?
E se fores e cheirares e tocares as flores em tons de laranja?
Quando escreveres um livro, estarei em 1º na fila para me dares um autógrafo…que belas palavras.
Jeff Buckley: posso dizer que ele é o meu músico favorito de à uns 6/7 anos para cá. Dia 28, faz 10 anos que Jeff disse o último adeus ao mundo ao som de ” Whole Gotta Love” dos Led Zeppelin atirando-se para um rio traiçoeiro. Live fast die young foi o lema de vida dele. Deixou-nos grandes músicas e palavras inquietantes.
caixa:
hmm… fico à espera:)
gonçalinho:
já te respondi, não já? metia Queen pelo meio e tudo, se bem me lembro… yeps, já te respondi!:)
zeox:
há dias de mais fé que outros. as flores, não sei. parecem querer permanecer. cuidado com as vénias, ainda dás um jeito às costas…:)
resmunga:
não creio que vejamos as coisas de maneira diferente, temos apenas alguns problemas de semântica:)
quando falo da ausência que a noite me permite, não me refiro a desaparecimento. pelo contrário: é nesse ausentar de tudo que me encontro comigo.
quanto aos totós, o insulto carinhoso era precisamente para os NÃO idealistas:) logo (lamento!), mas pelas tuas palavras não estarás incluído nesse grupo. para ser sincera, eu é que ando a ficar um pouco totó. há uns tempos atrás podia ser eu a escrever essas tuas palavras: “mas acredito que o amor (…) um dia pode – há-de – vir e nunca mais nos abandonar”. nos dias que correm ando um pouco mais desacreditada… como dizer? totó, mesmo!:) o idealismo também cansa, sabes? ao fim de alguns tropeços de alma, começa a cansar… e chegas a um ponto em que trocas os teus ideais por um pouco de paz. totózisse absoluta!:) mas compreensível.
sandrinha:
um dia destes, quem sabe…
menphis:
hmmm…. obrigada (/me cora!:))
quando lançar um livro, não me esquecerei de te avisar. quanto mais não seja, porque serás a única pessoa na fila de autógrafos… é que eu não tenho propriamente a arte&engenho de uma carolina salgado:)
quando ao jeff (shame on me!) descobri-o há muito pouco tempo. mas bateu forte:)
Já cá não vinha há algum tempo e ainda bem porque por vezes é bom ter saudades.
Não serve de grande consolo mas ao menos deves pensar que reparas nas flores laranjas. Já pensaste em quantas pessoas passam nessa estrada e nunca olharam para elas?
Havemos de voltar ao tema do amor, da paz, das carências e das prioridades algum dia. É um tema que ainda tem muito que se lhe diga!
Tb sou uma idealista. E tb construo castelos de areia. E choro quando desabam…
Ás vezes tb me canso…
Não gosto do escuro, mas gosto da noite, que me dá algum tempo, só para mim, imagina!, até vou ao teu blogue (o que se está a tornar um vício!)
Aqui, no meu canto, vejo a lua. E hoje o meu filho foi ver “A zanga da lua”. Pq o planeta terra está doente, disse. E outras coisas eu poderia ter acrescentado…a Maria, o José, a Madeline,…
[ninguém entenderia se tu fugisses. às vezes, eu não entendo porque o tentas fazer.]
sem grande cabeça para nada (que novidade…) só vim mesmo dar um alô!
quase dez anos depois de ouvir pela primeira vez o jeff buckley, ainda me comovo.
e não podia ser mais bem escolhida a música. lindo!