Monthly Archives: May 2007

somos feitos disto. de pó do caminho tatuado nos joelhos. de angústias gastas que não nos pertencem, de berros alucinados que morrem antes de nascer. de espaços vazios. somos fragmentos de ventos contrários que nunca se encontram. para sempre perdidos, para sempre encontrados. somos feitos disto. de paixões que se (des)gastam em lágrimas que não se choram. somos pedaços de corpos a caminho de pequenos nadas. somos intensos e vazios. somos concentrados mas dispersos. e, no meio de tudo, amamos. com uma irracionalidade suprema que nos devora o ser e nos alonga a sombra.

foram os 15 minutos mais longos da história do Dragão. acho que bati palmas quando entrou a equipa de andebol, vencedora da taça nessa mesma tarde. acho que olhei para o chão o resto do tempo. por natureza, sou de extremos: de mim, duvido sempre; neles, acredito até ao último segundo do último minuto da última hora da última vida. enquanto houver relva para comer. camisola para honrar. acredito sempre. acreditei contra o Paços, quando a derrota pesava num marcador que teimava em não se alterar. antes disso, acreditei contra o Chelsea. enquanto ganhávamos, enquanto empatávamos, enquanto perdíamos. muito antes disso, acreditei contra um AC Milan todo poderoso numa Liga dos Campeões que, na altura, era “outro campeonato”. [lembro-me direitinho do alinhamento do resultado: 1-0 para eles, 1-1 para nós, 2-1 para eles, 2-2 para nós, e, ó milagre, Artur e Jardel lá na frente, 3-2 para nós.] podia recuar até onde me lembro de mim e dos onze rapazes de azul e branco atrás de uma bola: acreditei sempre. neles, não em mim. mas – confesso – neste domingo vacilei. foram os 15 minutos mais longos da história do Dragão. olhei para o chão e disfarcei como pude as lágrimas que não soube reter, a dor que não soube ocultar. pensei que a vida era assim: lutamos e ganhamos e permanecemos na frente. marcamos um golo e julgamos que a história acaba ali, que o coração pode explodir de uma só vez e os destroços são mesmo parte da festa. e depois vem algo que nos empata a alma. éramos o que tínhamos de ser e de repente já não o somos. éramos tudo e de repente acordamos no sonho errado. e sofre-se, aperta-se as lágrimas contra o peito porque as mãos não seguram mais nada. foram os 15 minutos mais longos da história do Dragão. mas eis que eles voltaram. e eu levantei os olhos do chão e o corpo da cadeira. e bati as palmas todas, desde o início da época até àquele momento, bati-as todas, sofri-as todas, berrei por vocês. mesmo vencidos, ainda que saíssem vencidos, tinha valido a pena. ainda que por dentro estivesse um trapo gasto de uma esperança que eu já não reconhecia, ia-vos apoiar até ao fim. é para cair? então vamos lá: caimos juntos.

e vocês responderam. e levantaram-se. se fosse para cair, eu caía convosco. de pé. mas vocês quiseram voar. e levaram-me nos braços. e as lágrimas caíram, mas bem lá de cima. onde só quem se supera consegue chorar.

somos nós,
a Tua Força, a Tua Voz.
tu nunca estarás só,
força Porto, vence por Nós!

até ao fim. ganhar um campeonato, há mais quem o faça. mas sofrê-lo, senti-lo, chorá-lo. um estádio inteirinho a gritar por ti, Baía (o primeiro e o último de todos os campeões). um argentino a atravessar meio campo para abraçar um português. um Pepe a esquecer o sotaque para gritar bem alto “e quem bate palmas é tripeiro!”. um Fucile deslumbrado com o carinho dos adeptos a disparar memórias numa câmara fotográfica. um Bosingwa eufórico, a dançar ainda o apito final não tinha acalmado a dor pouco antes tão sentida. um Adriano a mostrar que ficou por nós, para nós. um Lisandro imparável, um Lucho a jogar como há muito não o via. um Bruno Alves, a calar os descrentes com um crescimento inimaginável. um Meireles que demorou a chegar ao varandim – era a barba, a promessa que foi desfazer. um Hélton, companheiro e lutador. um Anderson, a magia na cara de uma criança. um Quaresma, sempre tão capaz do melhor e do pior, sempre tão genial. e um Jesualdo a sorrir. um Jesualdo, finalmente, a sorrir. de ti, que toda a gente duvidou. para ti, este título numa bandeja de espanto! tu, que recebeste uma equipa fragmentada, violentada por um treinador que quis impôr as suas vontades à força de pressões psicológicas e chantagem infantil. eu gostava dele. mas não lhe perdôo ter criado o turbilhão e abandonado o barco para morrer na praia. tal como menino mimado, aterrorizado com a hipótese de falhar. tu, Jesualdo, que pegaste numa equipa que não construíste, assustada e com vícios de forma, e a fizeste Campeã. tu, que nunca tinhas jogado “neste campeonato”, e soubeste ser grande. tu que trouxeste para o Porto uma política de sobriedade e sensatez. se jogas de uma forma mais tradicional do que aquela que eu gostaria? sem qualquer dúvida. se cometeste erros? uma porrada deles. mas soubeste erguer a cabeça. e aprendeste (aprendeste tanto desde o início da época até agora…). aguentaste quem te queria roubar o espaço e o mérito e foste de uma dignidade espantosa. se mais ninguém o diz, digo-to eu, arrancado cá das entranhas da alma que te aplaudiram sempre de pé: mereceste este campeonato inteirinho. e quero que fiques para o ano, quero ser Campeã contigo outra vez. e quero a Europa. sim, não tenho medo de o dizer: quero a Europa. e sei que tu consegues. sei que sim.

somos feitos disto. foram os 15 minutos mais longos da história do Dragão. fosse como fosse, doesse onde doesse, eu sairía daquele estádio de cabeça erguida. e orgulhosa.

mas obrigada, rapazes. por calarem outras dores e me encherem a face de lágrimas. outras, que não as que isolo do resto do mundo. obrigada. do fundo da minha alma, ainda vos grito: OBRIGADA!

tripeiro eu SOU!

e tenho o Porto no meu Coração,
serás sempre a minha paixão,
eu dou a vida para seres Campeão.

a mim não me interessa onde vás jogar,
seja onde for sabes que eu vou lá estar,
nem a morte nos vai separar,
até no céu por ti eu vou cantar!

se dar a vida é exagero? não sei porquê… penso na quantidade de coisas pelas quais entrego a vida, dia após dia, nesta dança desigual que nem sempre sei dançar. no pouco da minha vida – no nada, às vezes – que ainda me pertence. mas no meio de tudo, amamos. no meio de todas as entregas em que gasto a minha vida, a tua nem será a mais irracional.

[e obrigada a ti. por estares lá, sempre ao meu lado. por protestares comigo, por ficares calado comigo, por festejares comigo. por me dares alento, ainda que em silêncio. por não te importares que eu te entorte os óculos num abraço incontido – erámos Campeões. seja onde for, sabes que nós vamos lá estar. até ao fim. enquanto houver relva para comer. camisola para honrar. eu e tu, sempre.]

eu sou Bi-Campeã. e vocês?

(…)
No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.

Nuno Júdice

gosto muito de música. gosto de a ler, só depois de a ouvir. gosto de a sentir, sentada no chão, as vibrações [uma após a outra, caminhos novos sobre caminhos percorridos] a passearem pela palma dos meus pés.
sim, gosto de música. e quem me rodeia sabe isso. pelo que não é raro um “ouve isto” ou “experimenta a banda x” ou “tenho a certeza que vais curtir este som”. às vezes, alguém acerta. muito raramente, alguém acerta terrivelmente em cheio. morde no nervo certo [como se as praias pudessem ter ventos errados].

Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in.

[há qualquer coisa de estranho nos dias compridos. não sei se é a invasão da noite por uma luz esguia e deslocada, ou simplesmente a ausência do escuro. a ausência da ausência, no fundo. habituamo-nos ao espaço físico da ausência, que percorre as noites como uma criança sem rumo. habituamo-nos ao poder de nos ausentarmos – a terrível beleza de deixarmos de existir. no meio do resto da solidão que nos encerra.]

And maybe I’m too young to keep good love from going wrong.

[será? será que há uma idade, um estado físico de envelhecimento, uma qualquer barreira antes da qual deixamos que o amor nos fuja como a água do mar ao pé da rebentação salgada? às vezes deixo-me duvidar. e às vezes penso que conheço uma série de personagens que já passaram dos 25 (e sim, se houvesse uma barreira esta seria, evidentemente, aos 25) e continuam uns grandes totós nesse departamento. não, não me refiro a ti. muito menos a ti. já de ti, falo um bocadinho. e de ti também. e de ti, que és efectivamente totó para o mundial.]

But tonight you’re on my mind so you never know.

Too young to hold on
and too old to just break free and run.

[ninguém entenderia se eu fugisse. às vezes, eu não entendo porque permaneço.]

Sometimes a man gets carried away,
when he feels like he should be having his fun.
And much too blind to see the damage he’s done.
Sometimes a man must awake to find that,
really,
he has no one.

[A1, sentido norte-sul, a seguir à saída para coimbrões. passa-se um viaduto e elas lá estão, à direita, a pender sobre os railes numa estranha forma de desafio. são flores. grandes, talvez metade da minha mão fechada. cor-de-laranja, intenso. todos os dias passo por elas, todos os dias elas lá estão. já me apeteceu parar, assim mesmo, nem encostar o carro nem nada porque a vida não está para esses mimos. tocar-lhes, uma a uma, com a ponta dos dedos. perceber se cheiram a pó e a asfalto e a vidas morridas a correr. ou se há alguma delicadeza atrás daquela teimosia tardia. calcá-las. com força.
este fim de semana choveu. trovejou. o céu rasgou-se em dores que nem sequer eram as dele.
segunda-feira elas estavam lá. intensas. em tons de laranja.]

[há momentos de perfeição. momentos que nos ultrapassam, porque a sua beleza é demasiado grande para se encaixar entre circuitos neuronais que se habituaram ao desânimo aprendido. eu, pessoalmente, gosto de omoplatas. e de clavículas também. da forma engraçada como elas levantam a pele e criam um refúgio de partilha. também gosto de lágrimas. das suspensas, essencialmente. e de gargalhadas. como eu gosto. como eu gosto de gargalhadas.]

It’s never over,
my kingdom for a kiss upon her shoulder.
It’s never over,
all my riches for her smiles when I slept so soft against her.
It’s never over,
all my blood for the sweetness of her laughter.
It’s never over,
she’s the tear that hangs inside my soul forever.

So I’ll wait for you… and I’ll burn.

[e pensar que uma pessoa que possivelmente era bipolar, possivelmente se suicidou, e que já morreu (esta última sem possibilidade de possivelmente), nos entende. e pensar que queríamos (com muita força) que ela andasse por aí. e pensar que queríamos (tanto!) que esta música fosse escrita para nós. whatever. toda a gente contrói castelos de areia. talvez os menos inúteis sejam aqueles que sabemos à partida que nunca se vão realizar. like a kiss upon his shoulder.]

My body turns and yearns for a sleep that will never come.

[lembrei-me assim, de repente, do meu-outro-último-grande-vício-musical. nem sei bem porquê. ou melhor, até sei, mas não é nada convosco. o que realmente interessa é que there’s a limit to your love. like a waterfall in slow motion. like a map with no ocean. indeed... there is a limit to my love.]

[estava aqui a pensar nas lágrimas que carrego suspensas na minha alma.]

para vocês, ao vivo: sete minutos e cinquenta e seis segundos de perfeição. eu já conheço cada acorde. cada jeito na voz. cada desvio [de]mente. como se a dor. pudesse ser. tão terrivelmente.
bela.

[e no entanto. ao longe. um eco responde-me.]


[porque és íntegro, intrínseco e definitivo no meu mundo. porque qualquer dor em ti é um universo inteiro a amarfanhar-me a alma. porque eu acredito em ti. e nos outros também. e sei que we'll cast some light and you'll be alright.toda a gente ficará bem. toda a gente.]