La revolución no se lleva en los labios para vivir de ella, se lleva en el corazón para morir por ella.
Che Guevara
Agarro a madrugada como se fosse uma criança, uma roseira entrelaçada, uma videira de esperança.
(…)
Nas minhas mãos a madrugada abriu a flor de Abril também
Ary dos Santos
[não, eu não vivi a revolução. ouço sussurar os olhos húmidos de quem a viveu e quase me apetece chorar a mais líquida raiva por nunca poder entrar no dentro mais dentro desses impossíveis Silêncios. “era ali que nos juntávamos, cantávamos Zeca Afonso e até a alma nos tremia”. o quanto eu queria ter sentido essa Fome, esse Desejo, esse Desterro de alma que vos fez ir mais longe do que o que a própria lonjura prometia. queria um caminho, uma Força maior do que eu, um Sonho maior do que os meus sonhos. consolo-me baixinho e abraço-me à ideia de que uma revolução morta é uma contradição de termos. como uma fogueira apagada. ou que talvez as maiores revoluções sejam aquelas que se desdobram nos pântanos que nos habitam. que me habitam, pelo menos. eu, que tantas vezes tudo o que quero é saber quem sou, o que faço aqui, mas o mar não me traz tua voz. ou às vezes traz, e eu ouço-a nítida entre a espuma quebrada das ondas que nunca acabam e o vento que se esgota brando nas dunas. dizes-me que estás aí e embalas-me até eu adormecer na única estrela que conheces, a estrela da alvorada.]
a suécia trouxe-me, corpo e alma e tudo o mais que lá anda atrelado, uma série de gostos, manias, interesses e jeitinhos-assim-mais-diferentes-de-ver-a-vida. um deles é quem agora me canta ao ouvido, jay-jay, numa mistura suave de dor, provocação, tristeza, ternura e profundidade. mas há mais. há o silêncio. há a água com gás com sabores. há o falar baixinho. há o não gostar de ver um casal de namorados competir ora-vamos-lá-ver-quem-chega-primeiro-às-amígdalas-do-outro em público. há o absolut rasperri [mãe, pai, é uma marca de água com gás com sabores: sabe a framboesa, esta... bem boa]. há aquele orgulho, aquela espécie de auto-estima doce e prolongada [sendo que aqui o “auto” se inicia no nosso corpo e acaba no nosso país]. há o pão caseiro. há a [muita, muita, muita!] neve. há o amar o sol como um pedaço de vida que nos é roubado todos os anos e que regressa, primavera já alta, para nos beijar o rosto em temperaturas modestas mas doces como nunca antes. e há o belo do aperto de pão.
[tempos houve em que alguns nativos mais crentes ainda me tentaram impingir aquela outra mania de que trabalhar-é-nas-horas-de-expediente-o-resto-do-tempo-é-para-ter-uma-vida, mas nej!... nessa não me apanharam eles. de resto, agora que penso no assunto, tenho é que despachar isto rapidinho porque tenho mais do que fazer. adiante!]
dizia eu: o belo do aperto de mão. simples, higiénico, saudável, despido de preconceitos ou de descriminação sexual.
da última vez que aterrei em portugal, durante os primeiros tempos, ao encontrar alguém conhecido ou ao ser apresentada a alguém desconhecido entregava-lhes, distraída, um braço estendido e uma mão aberta, cheios de amor e carinho para partilhar. depois, já a readaptação numa fase mais avançada, passei a fazer isso por birrinha. finalmente, decidi que as pessoas já me achavam suficientemente estranha por mim só e deixei-me de tretas: retomei, com o ar absolutamente siderado de um inocente que caminha para o cadafalso, os dois absolutamente-nojentos-e-terrivemente-sul-europeus beijinhos.
não gosto. pá, matem-me, não gosto. detesto o excesso de contacto físico, detesto quando a proximidade é suficiente para eu poder contar os pontos negros do nariz da outra pessoa. vejo um rosto a aproximar-se do meu, e imediatamente imagino milhares e milhares de Staphylococcus, Streptococcus, Corynebacterium ePropionibacterium a saltarem animadamente naquela pele aparentemente despida. não me interpretem mal: eu adoro os meus micróbios.
[sabiam que há um estudo, salvo erro publicado na PNAS, que prevê a existência de 250 – sim: duzentas-e-cinquenta – espécies de bactérias diferentes como habitantes normais da pele de indivíduos saudáveis? lixem-se: são 250!]
adoro tanto os meus micróbios, que imagino como eles se devem sentir violados quando eu tenho que, num gesto Maior de sacrifício pessoal, encostar o meu rosto ao de outro qualquer indivíduo e obrigar os meus lindos meninos a conviverem com congéneres seus que não conhecem de lado nenhum mas para com quem têm a obrigação de ser simpáticos. aquela sala chata que se faz a um primo que só se viu uma vez quando se tinha 3 anos. [“então o tempo está bom” “diz que sim, diz que anda” “então e a esposa” “trocou-me pelo secretário de 20 e poucos anos” “ah, pois... acontece... é chato...”]. pá, matem-me: não gosto.
e, uma vez mais, não me interpretem mal: basta lerem a descrição dos nativos do meu signo para perceberem que eu não sou uma fugitiva ao contacto físico. mas, por favor: contacto físico seleccionado. segundo os meus estudos [altamente científicos] na área, o cheiro daquele pedaço de pele ali-quem-desce-do-couro-cabeludo-à-esquerda-e-já-muito-próximo-do-pescoço é diferente do resto do corpo e de pessoa para pessoa. e pode encerrar uma magia quase infinita, uma suavidade tremenda, um segredo para ser partilhado baixinho nas tardes de muita chuva. e tudo o que eu não quero é estragar esses momentos à força de uma vulgaridade arrastada, só porque a sociedade me obriga a espetar o narigão nas covas do rosto de qualquer mamífero desconhecido que se cruze comigo por esses caminhos.
tenho dito.
um grande aperto de mão para todos vós e bom fim de semana.
[vocês não adoram a parte da corridinha? eu adoro.]
[os pedaços de texto a itálico são excertos da Crónica do Hospital, de António Lobo Antunes, publicada na Visão nº 736, 12 Abril de 2007]
Não quero aqui ninguém. Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortalidade, o meu espanto. (…)
pronto, então está bem. eu deixo-te sozinho. não vou rasgar a solidão em que embrulhas esse teu espanto dorido com o meu pensar-te. eu deixo-te sozinho, vá. mas só se me prometeres que voltas. só se.
conheço-te. sei-te pelos teus livros. conheço a tua ironia leve, as tuas frases cortadas de repente por diálogos e retomadas a seguir como se nada fosse, o entrecruzar de ideias, [fortes, as ideias sempre fortes] até te conheço miúdo de calções a publicares qualquer coisa no jornal lá da terra. aprendi a conhecer-te na prosa corrida que te nasce das mãos [mais lá do fundo, da alma, do que está para além da alma quando ela se encolhe e deixa espaço para um qualquer outro respirar.]
sim, li-te. mas não te li todo ainda. por isso é tens que voltar. [porque e se eu não gostar? porque e se me apetecer dizer-te que este último livro que ainda não saiu não é nada a prosa-recitada-por-um-anjo-não-senhor?]
por isso não amoleças. por isso não digas “pessegada”. [pessegada é uma coisa mole e sem vontade própria.] por isso não sejas simpático com os senhores que te dão prémios literários. por isso não perguntes pelas metástases no fígado. [o Henrique tira-as.] por isso recupera-te. ou regenera-te. ou reinventa-te. tanto faz. por isso luta. [porque e se eu não gostar?] porque dás mais de ti ao mundo por entre a dor branca dos lençois hospitalares do que eu, a correr esbaforida por sobre uma vida que às vezes nem sei se é mesmo a minha.
por isso não me lixes.
(…) Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.
então está bem. eu deixo-te sozinho. ficamos assim, então. mas eu fico à espera [recupera-te, regenera-te, quero-lá-saber-tanto-faz] de te encontrar, um destes dias, pode ser um café amargo e uma esplanada de outono. inventamos um abraço de letras que nunca se tocaram e não se fala mais nisto, pronto.
era o subject do mail. a remetente era uma amiga que eu tinha conhecido na minha primeira estadia na suécia. faziam 5 meses desde que eu tinha regressado ao Porto. estávamos muito próximos do natal de 2005, dezembro corria já a meio-gás, lá fora chovia até gemerem os vidros e eu desfazia minutos enquanto esperava um amigo para almoçar. lembro-me que não estava no meu computador, mas estava na sala comum. lembro-me que estava sentada no último computador a contar da porta. lembro-me que estava meia constipada e que tinha um lenço de papel amarrotado na mão esquerda. pormenores insignificantes. guess what. e o corpo da mensagem só acrescentava mas não digas nada a ninguém lá do laboratório: eu ainda não lhes contei. e eu carreguei no botãozinho para abrir a imagem que vinha em anexo, enquanto resmungava, entre duas transmissões neuronais, mas adivinha o quê, mas adivinha porquê, esta gente acha que eu não tenho mais nada que fazer do que me pôr a brincar às adivinhas a estas horas do dia, mas que raio é que…[nota: eu não tenho mau-feitio. eu sou é uma pessoa extremamente ocupada e preocupada com o pib nacional.]
e depois vi a imagem. e adivinhei. é claro que adivinhei. porque uma bióloga reconhece um embrião, mesmo quando ele ainda só tem uma promessa de cauda numa ponta e uma protuberância mal definida na outra. e uns farrapitos insignificantes a jurarem braços e pernas.
3 meses depois partia eu de novo para Umeå. e ela recebia-me, braços abertos e cheia de uma nova Vida. vi a barriga crescer ao ritmo das horas de luz dos dias. vi as roupinhas e os brinquedos acumularem-se em casa dela enquanto o gelo derretia. vi os 9 meses a passarem e já um misto de ansiedade e cansaço nos olhos dela. no início de julho troquei a Suécia pela Espanha durante uma semana, um congresso em madrid. foi lá que recebi um telefonema de um pai absolutamente rasgado pela emoção. voltei a Umeå para me pasmar perante aquela ternurinha em forma de gente. ou aquele pedaço de gente pequenina em forma de ternura. sei lá, tanto faz. depois veio o outono e as noites muito frias. depois veio o inverno e as noites muito longas. e depois vieram as noites eternas. e, o tempo todo, ele cresceu. o tempo todo. aprendeu a gatinhar, a subornar, a rir, a palrar, quase a caminhar. quase caminhava quando eu apanhei de novo o avião de volta à minha primeira casa. quase caminhava.
hoje, ao chegar a casa (sim, da bola) tinha um mail dela. e entre o dar novidades e o pedir novidades, entre o escrever-por-escrever para fingir que estamos a falar-por-falar (porque também é de pequenos nadas deitados fora que se alimentam as amizades), uma fotografia. encontrei-a por aí, pensei que a quererias. fiquei a olhar, desfeita. ele está diferente, vejo-o pelas fotografias mais recentes. está maior. eu também estou diferente. maior ou menor, não sei bem. mudamos todos os dias, mudamos a cada toque. tenho medo que ele já não se lembre de mim quando eu voltar a pegar a nele.
já houve alturas na minha vida em que preenchia o futuro com planos. outras houve em que me deixava andar, vaguear ao sabor das noites. certezas, muito poucas. mas algumas. há a ciência, há sempre a ciência. e depois, há coisinhas como esta, que eu quero só para mim. uma não, mas meia-dúzia. [4 ou 5 adoptados, que aqui o útero não é nenhuma máquina de encolhe-estica.]
duas considerações extra sobre a fotografia: 1. tu misturas-te bem com eles, era o que um amigo meu alemão me costumava dizer. eles eram os suecos. num instituto onde existe gente de todas as nacionalidades possíveis e imagináveis a trabalhar, há uma certa tendência para os estrangeiros se agruparem. eu não: eu misturava-me bem com eles. não sei bem porquê, mas identificava-me muito com aquele jeitinho nórdico de ser. [o que me faz lembrar que há um certo post que, mais do que um mero comentário, vai merecer resposta à letra. mas tu não perdes pela demora.] adiante: reconhecia-me neles. muito. mas é preciso ver-me numa fotografia ao lado deles para perceber o quanto essa mistura era metafórica. irra: é de mim, ou tenho uma inconfundível etiqueta de sul-europeia colada a todo o comprimento da testa? que raio de contraste tão absurdamente gritante.
2. tempos houve, na escola, em que eu jogava imenso basket. 7º, 8º ano, não sei. sei que era a única rapariga que conseguia segurar a bola de basket com uma única mão (sim, por cima). já na altura tinha dúvidas se isso seria ou não motivo de orgulho. (aqui há dias tentei e descobri que já não consigo). quando comecei a trabalhar no laboratório, descobri que era o único elemento do sexo feminino que não conseguia usar luvas tamanho S. é que nem com muito boa vontade. agora, enquanto olho esta fotografia, apercebo-me da aterradora realidade: eu não tenho mãos grandes; eu tenho umas verdadeiras patorras que, bem estendidas e assim uma a seguir à outra, davam para fazer uma ponte sobre o Douro. rais ma parta. mesmo.
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor Minha estrela da tarde Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza Se tu és a alegria ou se és a tristeza Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!