às vezes, quando caminho, parece que o chão me bate com força nos passos.
estou cansada. simplesmente cansada. trabalho muito, sempre trabalhei muito, vou sempre trabalhar muito: este vício teimoso de este-horizonte-não-aquele-que-está-ali-mais-longe vive bem no fundo do que me (des)faz quem sou. eu gosto disto. gosto das perguntas, gosto das lutas desiguais contra os mistérios que ganham sempre. gosto de me sentir pequenina perante os intrincados mecanismos de uma bactéria cuja complexicidade não tem fim e que simplesmente me fascina. eu não gosto do meu trabalho. eu adoro o meu trabalho.
mas estou cansada. hoje, quando fazia marcha-atrás para tirar o carro do parque e fugir para casa, vi uns olhos no retrovisor que não eram os meus. um vazio qualquer lá ao fundo que não era meu.
mas uma razão no caos
só o amor sabe ver.
dá-me a coragem, mãe,
para não deixar de
ser eu.
os sonhos. abdiquei de tantos caminhos socialmente mais compensadores para chegar aqui. larguei tantas certezas pela incerteza da descoberta. o amor à ciência. chamem-lhe o que quiserem. a minha praia.
mas às vezes. quando lutamos tanto, com tanta força, que nos esquecemos de como tudo começou. os sonhos. quando nos deixamos a nós próprios para trás, e somos quem nunca fomos numa luta que não fomos nós que começamos. e depois. os olhos vazios no retrovisor quando tudo o que se quer é fugir. não para casa, mas para longe. para um longe qualquer.
ser tão perfeito é ser só uma metade.
e ninguém imagina o que te passa no fundo.
eu não sou assim. [os meus olhos nunca foram vazios.] e eu não posso ser assim. porque as outras pessoas precisam que eu seja quem sou, e não quem eu passo a ser quando me deixo arrastar por uma maré que não me diz nada. eu sou a miudita-disparatada que diz parvoíces surreais e que provoca gargalhadas. sim, eu faço as pessoas rir. e sinto-me tão feliz quando o faço. eu sou a maluquinha apaixonada pelo trabalho cujos olhos brilham quando fala da sua mini-micro-bicha doida. sim, essa sou eu. essa sou eu. e essa sou quem os outros esperam que eu seja. essa sou quem me faz feliz, quem eu tenho que ser.
é estranho quando dou por mim num mundo bizarro.
e mais ainda quando lá o mais bizarro do mundo
sou eu.
às vezes paro-me a observar as pessoas que se cruzam comigo por essas ruas fora. é engraçado verificar que as pessoas que sofrem menos com as suas profissões são aquelas que não as escolheram por amor. mas porque sim. porque calhou. porque gostam, não porque amam. e passam pela vida, em bicos de pés, distantes dos tropeços tão próprios do excesso de serotonina. gostar, sim. amar, não.
quando se ama, bem lá do fundo, sofre-se.
mas eu não quero deixar de amar (dá-me a coragem, mãe…).
é a minha ciência, é o meu sonho, é a minha vida. a minha praia.
só que também não quero ver uns olhos vazios reflectidos para lá do retrovisor.
vamos lá.
respirar fundo.
outra vez.
isso.
agora devagar.
eis o que vou fazer:
amanhã vou acordar e tomar um banho de água morna-quase-fria. como eu gosto. e fazer duas tranças no cabelo.
[lembram-se do francês que partilhava comigo o gabinete na suécia? está no norte de inglaterra, onde foi convidado para dirigir um laboratório. mas não era isso que eu vos queria dizer. eu só o chamei agora aqui para o meio da conversa porque ele costumava associar determinados comportamentos meus a estados de espírito. as duas tranças eram um clássico. uma só trança não o incomodava, mas duas... ah! quando ele me via entrar com semelhante penteado olhava para mim de alto a baixo. dava duas voltas na cadeira, dois goles na interminável chávena de café que pura e simplesmente nunca se esvaziava, enrolava o cabelo à volta do indicador esquerdo e comentava, a olhar de lado e em tom de desafio, qualquer coisa que numa boa tradução para português seria: pois, pois. tu ou bem que a fizeste ou bem que ‘tás p’rá fazer!]
isso: amanhã são duas tranças no cabelo.
queixo erguido, olhos castanhos no retrovisor. afinal, e como alguém me disse há pouco tempo, conhecendo a letra e a coreografia do Dartacão e com um micro-ondas só para ti, eu diria que tens tudo para ser uma mulher independente e feliz!
isso tudo. quer dizer. falta a máquina de gelo, mas pronto. o potencial está cá. mai nada.
(e já agora, se não fosse pedir demais, era uma árvore de limas no quintal. e um arbusto de framboesas.)
(e um aumento.)
(não, um aumento era bom.)