Monthly Archives: March 2007

ok. não propriamente a frase do dia de HOJE. foi mais assim há coisa de 1 semana, semana e pico. mas foi hoje que me apeteceu postá-la, logo é hoje que vocês levam com ela.

(a espreitar por cima do meu ombro, para uma tabela toda colorida que eu estava carinhosamente a construir no excel)
ena, ena, tanta cor. até pareces uma gaja.

é. pois. tem dias. nem sempre nem nunca. embora assim uma gaja-a-sério-mesmo-a-sério nem por isso. uma gaja-a-sério-mesmo-a-sério só quando puxar o banco do katemobile para a frente e aprender a conduzir com os joelhos colados aos volante como se os meus braços tivessem 20 (e qualquer coisa) cm de comprimento.

e por falar em conduzir: hoje tive uma certa dificuldade em carregar nos pedais e meter as mudanças. para percebermos os motivos desta trágica situação, teremos que recuar pouco mais de 24 horas no tempo. vamos para um ginásio, também ele muito colorido. concentremo-nos num dos estúdios de cardio-musculação, numa conversa que decorre bem lá ao fundo. os intervenientes são dois: um monitor alto, grande e musculado, e uma menina muito pequenina, muito fraquinha e muito frágil.
- acho que podemos aumentar um bocadinho o peso da máquina…
- não, não podemos.
- tu consegues um pouquinho mais… deixa lá ver o teu plano de treino outra vez…
- não, não deixo.
- vá, vamos lá aumentar um bocadinho…
- não, não vamos. não queremos e não podemos. anda, vai-te embora, xôôôô!!
- anda lá, tu consegues. olha para ti, tu consegues muito mais que isso. tens potencial, tens boa preparação, tu és capaz. estás bem, mas podes ficar muito melhor, muito mais tonificada. vá, vamos lá tentar…
- ahhhh… ok. então vamos só tentar um bocadichinho pequerruchinho.

rais ma parta, sou mesmo fraca: duas ou três palavras doces sobre o meu tónus muscular e vendo logo a alma ao diabo-em-fato-de-treino.
mas eu bato-lhe. a sério que lhe bato.

assim que recuperar a mobilidade.

é que isto dói, carago.
e o pior, o pior mesmo, é saber que amanhã ainda vai doer ainda mais.

ai.

podia dar tudo o que julgo ter
isso era ver tudo no seu lugar

às vezes, quando caminho, parece que o chão me bate com força nos passos.

estou cansada. simplesmente cansada. trabalho muito, sempre trabalhei muito, vou sempre trabalhar muito: este vício teimoso de este-horizonte-não-aquele-que-está-ali-mais-longe vive bem no fundo do que me (des)faz quem sou. eu gosto disto. gosto das perguntas, gosto das lutas desiguais contra os mistérios que ganham sempre. gosto de me sentir pequenina perante os intrincados mecanismos de uma bactéria cuja complexicidade não tem fim e que simplesmente me fascina. eu não gosto do meu trabalho. eu adoro o meu trabalho.

mas estou cansada. hoje, quando fazia marcha-atrás para tirar o carro do parque e fugir para casa, vi uns olhos no retrovisor que não eram os meus. um vazio qualquer lá ao fundo que não era meu.

mas uma razão no caos
só o amor sabe ver.
dá-me a coragem, mãe,
para não deixar de
ser eu.

os sonhos. abdiquei de tantos caminhos socialmente mais compensadores para chegar aqui. larguei tantas certezas pela incerteza da descoberta. o amor à ciência. chamem-lhe o que quiserem. a minha praia.

mas às vezes. quando lutamos tanto, com tanta força, que nos esquecemos de como tudo começou. os sonhos. quando nos deixamos a nós próprios para trás, e somos quem nunca fomos numa luta que não fomos nós que começamos. e depois. os olhos vazios no retrovisor quando tudo o que se quer é fugir. não para casa, mas para longe. para um longe qualquer.

ser tão perfeito é ser só uma metade.
e ninguém imagina o que te passa no fundo.

eu não sou assim. [os meus olhos nunca foram vazios.] e eu não posso ser assim. porque as outras pessoas precisam que eu seja quem sou, e não quem eu passo a ser quando me deixo arrastar por uma maré que não me diz nada. eu sou a miudita-disparatada que diz parvoíces surreais e que provoca gargalhadas. sim, eu faço as pessoas rir. e sinto-me tão feliz quando o faço. eu sou a maluquinha apaixonada pelo trabalho cujos olhos brilham quando fala da sua mini-micro-bicha doida. sim, essa sou eu. essa sou eu. e essa sou quem os outros esperam que eu seja. essa sou quem me faz feliz, quem eu tenho que ser.

é estranho quando dou por mim num mundo bizarro.
e mais ainda quando lá o mais bizarro do mundo
sou eu.

às vezes paro-me a observar as pessoas que se cruzam comigo por essas ruas fora. é engraçado verificar que as pessoas que sofrem menos com as suas profissões são aquelas que não as escolheram por amor. mas porque sim. porque calhou. porque gostam, não porque amam. e passam pela vida, em bicos de pés, distantes dos tropeços tão próprios do excesso de serotonina. gostar, sim. amar, não.

quando se ama, bem lá do fundo, sofre-se.
mas eu não quero deixar de amar (dá-me a coragem, mãe…).
é a minha ciência, é o meu sonho, é a minha vida. a minha praia.

só que também não quero ver uns olhos vazios reflectidos para lá do retrovisor.

vamos lá.
respirar fundo.
outra vez.
isso.
agora devagar.

eis o que vou fazer:
amanhã vou acordar e tomar um banho de água morna-quase-fria. como eu gosto. e fazer duas tranças no cabelo.

[lembram-se do francês que partilhava comigo o gabinete na suécia? está no norte de inglaterra, onde foi convidado para dirigir um laboratório. mas não era isso que eu vos queria dizer. eu só o chamei agora aqui para o meio da conversa porque ele costumava associar determinados comportamentos meus a estados de espírito. as duas tranças eram um clássico. uma só trança não o incomodava, mas duas... ah! quando ele me via entrar com semelhante penteado olhava para mim de alto a baixo. dava duas voltas na cadeira, dois goles na interminável chávena de café que pura e simplesmente nunca se esvaziava, enrolava o cabelo à volta do indicador esquerdo e comentava, a olhar de lado e em tom de desafio, qualquer coisa que numa boa tradução para português seria: pois, pois. tu ou bem que a fizeste ou bem que ‘tás p’rá fazer!]

isso: amanhã são duas tranças no cabelo.

queixo erguido, olhos castanhos no retrovisor. afinal, e como alguém me disse há pouco tempo, conhecendo a letra e a coreografia do Dartacão e com um micro-ondas só para ti, eu diria que tens tudo para ser uma mulher independente e feliz!

isso tudo. quer dizer. falta a máquina de gelo, mas pronto. o potencial está cá. mai nada.


(e já agora, se não fosse pedir demais, era uma árvore de limas no quintal. e um arbusto de framboesas.)


(e um aumento.)


(não, um aumento era bom.)

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[uma boa primavera a todos.]

aqui há dias, quando trocamos algumas palavras
(ou as palavras se trocaram a elas próprias, se é que se pode falar em trocar quando não existe entrega efectiva nem sentimentos pousados em cima de uma mesa e ao lado de um café que ficou a meio, distraído)
sobre este assunto, lembrei-me de imediato do poema. mas não me apeteceu procurá-lo
(fingir que não guardo a página na memória, o livro a abrir-se sozinho com o hábito das mãos sobre o papel)
nem citá-lo de cor.
(já que sempre que o faço deixo um de nós a meio, ou eu ou o poema, e prossegue o outro, desamparado, longe de si e a contar os passos para uma realidade alheia)
de qualquer forma, era isto que te queria dizer. só não o digo tão bem como ele, que transporta as palavras leves na ponta dos dedos como se de impressões de alma se tratassem.
(que não, que nunca curamos totalmente. que as cicatrizes ficam lá, desdobram-se para dentro e desfazem-se num sangue límpido nas tardes de primavera em que todos os cheiros são feitos de cianoto e jasmim. que quase tudo passa, mas permanece sempre uma saudade quente de sal, um carinho entranhado e uma mordedura no canto inferior esquerdo da vida.
e que é assim.

e que às vezes penso que é assim, que só nas quedas livres aprendemos a conhecer de cor a força e o sentido do vento que nos varre por dentro.

e que às vezes penso que não vale a pena, porque não importa o número de vezes que me acabe a caminhar no silêncio de uma parede lisa, não sei mudar a direcção dos passos que me transportam.

e que às vezes encolho os ombros. que prefiro ser assim, mesmo que me rasgue eternamente nas mesmas arestas de sonhos adiados. porque talvez seja o melhor que resta de mim, por entre a sobreposição de cicatrizes várias: aquele cantinho tonto de inocência nos olhos que já foram grandes.)


não quero mentir mais. estou cansado de mentir.
vejo o teu rosto parado numa fotografia e a memória
que guardo de ti é tão diferente da realidade assustadora das fotografias.
mas não vou mentir. estou cansado de mentir.
a minha vida também és tu, o teu rosto parado na minha memória.
a minha vida és tu e todas as mãos que me seguraram e me quiseram,
todos os lábios que me beijaram, todas as línguas que me desenharam figuras
na pele, todos os dentes que me morderam, todas as vozes que me disseram amo-te
e me fizeram acreditar nisso. não quero mentir mais. estou cansado de mentir.
não és quase nada, mas não quero e não vou fingir que nunca exististe.

josé luís peixoto in a criança em ruínas


é o suor que escorre, impiedosamente, e se acumula nos mais inestéticos locais da camisola. é a vermelhidão no rosto, consequência inevitável da vasodilatação que procura dar liberdade ao excesso de calor produzido pelo corpo. é o cabelo a aproveitar a atmosfera húmida que se forma ali bem perto do couro cabeludo para dar largas à sua fértil imaginação. é o fulano jeitoso na máquina ao lado. é o desastre.

existe sempre a piscina, é certo. e se é verdade que esta evita a maior parte dos problemas acima descritos, também é certo que o seu uso exige enfiar um pedaço de nylon na cabeça e amarfanhar o cabelo todo debaixo dele. coisa que nem me chatearia por aí além, diga-se, não fosse o montinho de cabelo comprimido atrás fazer com que a minha cabeça parecesse um melão geneticamente modificado.

eventualmente, todas as fêmeas utilizadoras de ginásios acabam por chegar à mesma única e brilhante conclusão: que se lixem os balneários separados! o que eu quero mesmo, mas mesmo MESMO, são estúdios de aulas, salas de treino e piscinas separadas!


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dentro do instituto onde eu trabalho, no segundo andar, existe o meu laboratório.
no meu laboratório, quem entra à direita, estende-se a minha bancada.
ao fundo da bancada, um bocadinho mais baixa, a minha secretária.
ao lado da minha secretária, uma janela enorme.
e hoje, lá bem-ao-fundo-do-outro-lado-da janela, isto.


[sim, sim, eu sei: às vezes, eu própria tenho inveja de mim.]

There’s a light when the window shades are drawn.

Wash it off cause this feeling we can share.
And I know she’s reached my heart in thin air.

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

Eugénio de Andrade

[são os primeiros desta primavera. como que uma dor quase frágil.]

All is well at the base of the hill
You might need to fill
A prescription to kill
Off the silence.

[os últimos dois anos passaram sem que eu os visse nascer. e seria quase ridículo percorrer por palavras a saudade destes prenúncios de mar. habituei-me a tê-los ali, a um passo de quem eu sou. uma ternura que chora mas resiste ao vento. e às geadas. tardias.]

And all the gold dust in her eyes won’t reform into rain

You had and lost the one thing
You kept in a safe place

[os meus locais seguros. às vezes tenho medo de os perder. ou que eles se percam de mim na poeira que a minhas mãos levantam quando batem com força no chão. as mil texturas diferentes da areia de uma praia debaixo dos pés. o cabelo molhado sobre as costas nuas. a poesia. os passinhos da minha afilhada no corredor. as noites de muitas estrelas e cheiro a mar. o vento a levantar o meu cabelo. um sorriso a/de um desconhecido. uma mão no meu ombro. a água do mar muito fria na bordinha dos pés. e os primeiros miosótis de cada primavera. todos os miosótis. os meus locais seguros.]

Remember the face
Of the girl who made you her own
And how you left her alone

[há dias em que os gritos das gaivotas me rasgam para longe. outros em que um horizonte de maresia me devolve a mim. e depois há os dias em que abrem os miosótis.]

Look down from your tower on high and take in the night
Look her right in the eye
She’ll listen


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Joshua Radin – Star Mile

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o meu gato é mesmo gajo.

isso: mesmo gajo.

não, vocês não estão bem a ver a coisa: o bicho é mesmo-mesmo-MESMO gajo.

como suporte teórico da minha afirmação, analisem-se as seguintes situações (cuja ocorrência, convém realçar, é de uma frequência quase insustentável):
- durante o dia, quando eu não estou em casa, o bichano fica algo inquieto: passeia-se entre o meu quarto e a minha salinha de trabalho, morde o meu boneco amarelo, fica parado a olhar para a parede… de quando em vez vai dar uma volta ao jardim, mas regressa rápido, e não raro apanham-no num miado de abandono que faz chorar os calhaus do muro do quintal. mas quando eu chego a casa ao final do dia, abro a porta com as forças que me restam e liberto um suspirado “hoooooney!!! I’m hooooooooooome”, o felpudo olha para mim de alto a baixo e comenta, num fingido desinteresse total: “foi? tem graça, nem tinha reparado que tinhas saído. aproveita que estás aí a jeito e passa-me a mão pelo pêlo… isto de se passar o dia com o lombo ao sol tem que se lhe diga, estou à rasca das cruzes”.
- se eu vou à cozinha e lhe pergunto “trotsky, queres leite?”, ele faz de conta que não é nada com ele e desata criteriosamente a lamber uma qualquer zona praticamente inacessível do seu corpo, como que a querer realçar o seu desprezo por tão vulgar alimento. mas se eu tiro uma caneca de leite para mim e me sento no sofá a bebê-la, o peludo salta imediamente para as costas do sofá, apoia as patas dianteiras no meu ombro esquerdo, e descarrega quantidades absurdas de charme: “isso é leitinho? mmm, mmm, eu gosto tanto de leitinho… apetecia-me mesmo um bocadinho agora. deixa lá enfiar o meu focinhinho na tua caneca, oh deixa… oh va lá, oh só um bocadinho, oh deixa, oh deixa…”
- se eu fecho a porta de um compartimento e o 4-patas está nas redondezas, uma de duas situações dramáticas acontecem, cujos moldes do subsequente teatro tipicamente masculino são definidos pelo lado da porta em que fica o felino. se o bichano se encontra no interior, o pânico é imediato: “o que é isto? estás-me a fechar na tua vida?!? não, não, sinto-me preso, sinto-me amarrado, não consigo respirar, preciso de espaço… não és tu, tu és adorável, sou eu, eu é que não estou preparad0 para compromissos. oh não, sinto-me a sufocar, deixa-me saiiiiiiiiiiiiiiiir!”. já se o bichano se encontra no exterior, o choradinho é bem trabalhado: “o que é isto? estás-me a excluir da tua vida?!? não, não, eu adoro-te, eu sei que te magoei mas eu preciso de estar à tua beira, por favor… não és tu, tu és adorável, sou eu que só digo parvoíces, mas é que gosto tanto de ti que às vezes fogem-me as palavras certas. oh não, sinto-me a desfalecer tal é o tamanho da minha dor, deixa-me entraaaaaaaaaar!”.

posto isto, I rest my case: o meu gato é MESMO gajo!

[e digo mais, o bicho é tão gajo quanto isto: pode ter aquele pêlo perfeito, aquelas patas altamente proporcionadas e elegantes e aquele corpinho atlético... mas é mesmo aquele olhar que me desarma. não há pachorra: é-mesmo-gajo!]

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[apeteceu-me. largar tudo porque não sentar-me ao computador e desfazer-me em letras. aqui, talvez. mas e o trabalho. agora não agora não posso. mas ainda me apetece. reviver. voltar atrás, fingir que são novamente 20:37, estou no laboratório, está calor, abre uma janela por favor não se aguenta aqui dentro. e ela, outra resistente às horas que não passam, abriu.
e, imediatamente, o mar.
(raramente, muito raramente, quando ventos muitos especiais rasgam a costa, a maresia rasga-nos a alma.)
o cheiro a mar em todo o lado, o cheiro a vidas livres, o cheiro a algas beijadas pelo sol, o cheio a areia gasta, o cheiro a ondas que não se medem, o cheiro metáforas azuis, o cheiro a mar em todo o lado.
na rádio, fix you.
e apeteceu-me
(que merda)
olha, rendo-me.
(ando a dormir uma média de 5 horas por noite há mais tempo que o Tempo devia resistir)
isso, dou o corpo a torcer.
(se a emoção se pudesse rasgar em farrapos, eu era o fio tímido que restava depois da desconstrução)
fix me then.
(estou cansada. de mais coisas do que aquelas que se esgotam em mim.)
trata de mim, então.
(pode ser?)]

When you try your best but you don’t succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can’t sleep
Stuck in reverse.

(…)

Tears stream down your face
I promise you I will learn from the mistakes

And I..

(…)

Coldplay