neurónio único: estafado stop
luta intensa para o desânimo não tomar conta do barco mulheres e crianças primeiro não digam a ninguém mas não há salva-vidas para todos stop
a pôr-se a questão, dnr: por favor stop
pouco tempo perdão tempo nenhum para o blog stop
novos boletins informativos assim que se justificarem stop
[mas sim, foi lindo. o céu estava enevoado e no entanto a noite respirava-se bem: fresca e leve. à minha frente um puto com os olhos muito brilhantes de quem caminhou largos minutos ao vento. ao meu lado um velhote sintonizava um rádio muito antigo. tremiam-lhe as mãos, mas não era Parkinson. também me tremiam as minhas. uma hora exacta para o jogo começar. uma hora antes, ainda no laboratório, já me perguntavam "ainda aqui estás, já lá não devias estar?" "já vou, já lá estou, nunca saio verdadeiramente de lá". o meu estagiário, ao aperceber-se que eu ia regularmente lá, comentou "vê-se melhor pela televisão". e como explicar-lhe que não, que olhos nenhuns vêem tão bem como as frinchas da alma, que é atravês da chuva do vento e da distância que verdadeiramente se olha para o campo, para qualquer campo.
uma hora exacta para o jogo começar. comparam-se as ansiedades, mordem-se os maus agouros, expulsam-se fantasmas antigos. sonha-se. em voz alta. o telemóvel anuncia "já cheguei" "estou-te a ver" claro que não estava, impossível ver-te do lado diametralmente oposto do estádio, mas a gente vê-se sempre, a gente une as mãos na mesma crença muda, mesmo dentro daquela distância impossível de te contar. uma visitante menos regular anuncia-se no cantinho sul, "estou de pé, olha para mim". já te vi. olha-se para o chão, respira-se fundo. contam-se as esperanças, uma a uma, trepa-se pela angústia, deixam-se cair chãos de outros tempos. hoje, de novo. rasgam-se os olhares, apertam-se as mãos uma na outra, as vezes na do lado, poucos minutos para o jogo começar. levantam-se as cartolinas, o estádio tão lindo, todo tão lindo, disfarça-se uma lágrima teimosa porque não senhora eu não sou cá mariquinhas. e eis que começa. o vento de fora varre-nos inteiros por dentro, o que se sente? aos 12 minutos. pescoço voltado para o lado direito, cai a alma aos pés. já não se sabe quem se abraça, já não se sabe o que se grita, já não se disfarçam as lágrimas porque que-se-lixe-faz-de-conta-chove-aqui. o speaker desafia "RAUL...". em peso, devolve o estádio "...MEIRELES". sucedem-se as mensagens de telemóvel: é sim senhor, é o meu menino. agarro a camisola que tenho vestida com o teu nome nas costas, foste tu, foste tu, és grande. mas já o jogo continua. 86 minutos de cabeça erguida e sonhos na linha do horizonte. aos 68, a chuva. e eu a lembrar-me do meu estagiário, e eu a lamentar que as bancadas sejam cobertas, e eu a querer sentir a pele na chuva como eles, eu a querer estar mais perto deles, eu a achar que veria melhor se recebesse as gotas de água inteiras na face. como eles. 86 minutos de cabeça erguida e sonhos na linha do horizonte. falhas, claro: um lucho apagado, um lisandro que constantemente se esquecia de defender e deixava que dois jogadores adversários surgissem à frente do desamparado bosingwa, um moraes esquecido da sua força, um fucile que só joga com o pé direito, mas... uma magia Maior. cabeça erguida, pois claro. um chelsea a trocar a bola entre a defesa. um chelsea a demorar 3 minutos a recolocar a bola em jogo. um chelsea com medo dos meus meninos. falhas, como em tudo. falhas, porque eles não são deuses. mas uma atitude Maior. 90 minutos e os sonhos? sempre a baloiçar na linha do horizonte. à saída: palmas, afectos, palavras de glória e esperança. atrás de mim, entre os encontrões das gentes grandes, um puto tentava apre(e)nder o futebol "como é que jogámos, pai? como é que jogámos?". mas o pai, preocupado quem sabe com a chuva, distraído quem sabe à procura das chaves do carro, nem uma palavra. o puto, de novo "como é que jogámos, pai? como é que jogámos?" e eu olhei para trás, olhei para o "pai". e o "pai" olhou para mim, piscou-me um olho, e finalmente respondeu "como Campeões, filho. como Campeões." eu sorri-lhes e continuei o meu caminho. como Campeões, pois claro. com a Alma Mais cheia.]







