Monthly Archives: February 2007

trabalho: muito habitualmente, neste momento a atingir proporções inacreditavelmente insanes stop
neurónio único: estafado stop
luta intensa para o desânimo não tomar conta do barco mulheres e crianças primeiro não digam a ninguém mas não há salva-vidas para todos stop
a pôr-se a questão, dnr: por favor stop
pouco tempo perdão tempo nenhum para o blog stop
novos boletins informativos assim que se justificarem stop

[mas sim, foi lindo. o céu estava enevoado e no entanto a noite respirava-se bem: fresca e leve. à minha frente um puto com os olhos muito brilhantes de quem caminhou largos minutos ao vento. ao meu lado um velhote sintonizava um rádio muito antigo. tremiam-lhe as mãos, mas não era Parkinson. também me tremiam as minhas. uma hora exacta para o jogo começar. uma hora antes, ainda no laboratório, já me perguntavam "ainda aqui estás, já lá não devias estar?" "já vou, já lá estou, nunca saio verdadeiramente de lá". o meu estagiário, ao aperceber-se que eu ia regularmente lá, comentou "vê-se melhor pela televisão". e como explicar-lhe que não, que olhos nenhuns vêem tão bem como as frinchas da alma, que é atravês da chuva do vento e da distância que verdadeiramente se olha para o campo, para qualquer campo. uma hora exacta para o jogo começar. comparam-se as ansiedades, mordem-se os maus agouros, expulsam-se fantasmas antigos. sonha-se. em voz alta. o telemóvel anuncia "já cheguei" "estou-te a ver" claro que não estava, impossível ver-te do lado diametralmente oposto do estádio, mas a gente vê-se sempre, a gente une as mãos na mesma crença muda, mesmo dentro daquela distância impossível de te contar. uma visitante menos regular anuncia-se no cantinho sul, "estou de pé, olha para mim". já te vi. olha-se para o chão, respira-se fundo. contam-se as esperanças, uma a uma, trepa-se pela angústia, deixam-se cair chãos de outros tempos. hoje, de novo. rasgam-se os olhares, apertam-se as mãos uma na outra, as vezes na do lado, poucos minutos para o jogo começar. levantam-se as cartolinas, o estádio tão lindo, todo tão lindo, disfarça-se uma lágrima teimosa porque não senhora eu não sou cá mariquinhas. e eis que começa. o vento de fora varre-nos inteiros por dentro, o que se sente? aos 12 minutos. pescoço voltado para o lado direito, cai a alma aos pés. já não se sabe quem se abraça, já não se sabe o que se grita, já não se disfarçam as lágrimas porque que-se-lixe-faz-de-conta-chove-aqui. o speaker desafia "RAUL...". em peso, devolve o estádio "...MEIRELES". sucedem-se as mensagens de telemóvel: é sim senhor, é o meu menino. agarro a camisola que tenho vestida com o teu nome nas costas, foste tu, foste tu, és grande. mas já o jogo continua. 86 minutos de cabeça erguida e sonhos na linha do horizonte. aos 68, a chuva. e eu a lembrar-me do meu estagiário, e eu a lamentar que as bancadas sejam cobertas, e eu a querer sentir a pele na chuva como eles, eu a querer estar mais perto deles, eu a achar que veria melhor se recebesse as gotas de água inteiras na face. como eles. 86 minutos de cabeça erguida e sonhos na linha do horizonte. falhas, claro: um lucho apagado, um lisandro que constantemente se esquecia de defender e deixava que dois jogadores adversários surgissem à frente do desamparado bosingwa, um moraes esquecido da sua força, um fucile que só joga com o pé direito, mas... uma magia Maior. cabeça erguida, pois claro. um chelsea a trocar a bola entre a defesa. um chelsea a demorar 3 minutos a recolocar a bola em jogo. um chelsea com medo dos meus meninos. falhas, como em tudo. falhas, porque eles não são deuses. mas uma atitude Maior. 90 minutos e os sonhos? sempre a baloiçar na linha do horizonte. à saída: palmas, afectos, palavras de glória e esperança. atrás de mim, entre os encontrões das gentes grandes, um puto tentava apre(e)nder o futebol "como é que jogámos, pai? como é que jogámos?". mas o pai, preocupado quem sabe com a chuva, distraído quem sabe à procura das chaves do carro, nem uma palavra. o puto, de novo "como é que jogámos, pai? como é que jogámos?" e eu olhei para trás, olhei para o "pai". e o "pai" olhou para mim, piscou-me um olho, e finalmente respondeu "como Campeões, filho. como Campeões." eu sorri-lhes e continuei o meu caminho. como Campeões, pois claro. com a Alma Mais cheia.]

… dançar. sorrir. dar a mão e correr pelo jardim fora. entrançar o cabelo. contar as formiguinhas todas de um carreirinho infindável. procurar a minha constelação no céu, mesmo sabendo que nesta altura do ano ela fica muito abaixo da minha linha do horizonte. brincar. conversar com as promessas de miósotis. andar em bicos de pés. jogar à apanhada com os cães. puxar os bigodes aos gatos. sorrir. dançar.
sei lá. está uma noite perfeita, ponto.

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the sun sets on the war,
the day breaks and everything is new
(ponto).

ontem à noite, já depois do jantar, o totas decidiu ir dar uma volta. eu deixei. mas quando achei que a noite já era demasiado noite para ele, fui buscá-lo. enfiei uma camisola de malha muito larga por cima do pijama branquinho e esgueirei-me até ao jardim. ele apareceu aos saltos, a evitar as almofadinhas na relva molhada. “bichinho, bshhh-bshhh”, e peguei nele. a noite estava quieta. a humidade enrolava-se devagarinho nas curvas perenes do jardim e deixava-se ficar, como que à espera. a brisa estava sozinha: agarrava-se ao meu pescoço num misto de docilidade e desamparo. há noites assim: inexplicáveis. pousei os sons do dia e parei-me a escutar. nenhuma beleza é tão terrível como aquela que não se vê mas se pressente nas esquinas ausentes do tempo. em quantos mundos eu vivo. [parar o tempo. agora. esticar os braços. esticar o peito. e no entanto.] em quantos mundos eu vivo… mordi o silêncio, engoli um pouco de mim.

gosto da noite porque me traz de encontro a quem eu sou. a quantos eu sou. ao fundo de todos os ruídos de fundo.

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta


o amor é uma noite a que se chega só.


José Tolentino Mendonça



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Goodnight, to every little hour that you sleep tight
May it hold you through the winter of a long night
And keep you from the loneliness of yourself
Heart strung is your heart frayed and empty
Cause it’s hard luck, when no one understands your love
It’s unsung, and I say
Goodnight, my love, to every hour in every day
Goodnight, always, to all thats pure that’s in your heart
… when it’s a minute away from snowing and there’s this electricity in the air, you can almost hear it, right?

And this bag was like, dancing with me.
Like a little kid begging me to play with it.

For fifteen minutes.

And that’s the day I knew there was this entire life behind things, and…

this incredibly benevolent force,
that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever.

Video’s a poor excuse.
But it helps me remember… and I need to remember

Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in.

Ricky (Wes Bentley), in American Beauty

[e agora, a pedido de muitas almas, as coisas melhores...]

[ok, pronto, não foram assim muitas muitas MUITAS almas... mas foram almas com posição priveligiada no ranking almístico.]

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Don’t drag me down
Just because you’re down

You say the magic’s gone
Well I’m not a magician
You say the spark’s gone
Well get an electrician
And save your line about needing to be free
All that’s bullshit babe
You just wanna get rid of me

Hear me say
Better things will surely come my way


[e esta para banda sonora do harrison, está aprovada?...]

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1. lembram-se da rena?

[está num post qualquer de dezembro, agora não me apetece andar à procura, mexam vocês os dedinhos se tiverem as caudas neuronais para aí apontadas.]
matei-a. isto é, congelei-a. pelo menos, até próximas núpcias [natalícias]. comecei a ficar um bocadinho farta de ouvir Rudolph-the-red-nosed-reindeeeeeeeer cada vez que alguém me telefonava. convenhamos: em dezembro, é dose; a meio de fevereiro, é over. ora o assassínio [ou congelamento] da dita cuja rena implicou a sempre exaustiva procura de um novo toque de telemóvel. foi complicado, vos garanto: eu defendo acerrimamente que o toque de telemóvel que cada pessoa escolhe diz muito sobre o lado obscuro da sua personalidade. eu confesso: andei que tempos à procura de um toque que fosse uma rã a coaxar. para mal dos meus pecados, não consegui. lá me rendi às evidências e mergulhei nas inúmeras músicas disponíveis para o efeito. qual não foi o meu espanto quando, quase sem querer, tropecei numa das músicas da minha vida: better things, massive attack. mas, mas… desde quando pura dor como toque de telemóvel? senti-me tentada, mas acabei por desistir: não quero revelar assim TANTO do lado-obscuro-da-minha-personalidade. e, para além disso, se eu pusesse massive attack no telemóvel, as pessoas iam fazer caras ainda mais estranhas do que aquilo que já fazem quando o dito cujo canta. toca, digo. enfim, adiante: voltei a mergulhar nas listas, já meia desencantada, quase a perder a esperança de encontrar o toque da minha vida, quando… ENA ENA: é este! é sim-ples-men-te perfeito! eu gosto pensar nele como a minha massagem ao ego muito pessoal, intransmissível e portátil. e, para além do mais, tem a vantagem de ser inesperada. está uma gaja a trabalhar, e lá vem ele: So 1, 2, 3!; está uma gaja a jantar, e lá vem ele: take my hand and come with me; está uma gaja a cortar as unhas, e lá vem ele: because you look so fine; está uma gaja a conduzir, e lá vem ele: and i really wanna make you mine. esqueçam lá a rena: com este toque, eu demoro MUITO mais tempo a atender.

aproveitei que estava numa de remodelações, fui à caixa das sms’s e carreguei no temido botão. ao que o tipo me diz: tem a certeza que deseja apagar as 457 mensagens guardadas na pasta a receber e as 251 mensagens guardadas na pasta a enviar? ao que eu respondo: c’um estupor, apaga lá isso tudo, carago! quase que juro [quase, quase] que o raio do telemóvel [já vos disse que o meu telemóvel tem a forma exacta de um penso higiénico? já me disseram várias vezes que parece um telemóvel com design apple, mas a mim ninguém me convence: é um penso higiénico, pois!] ficou mais leve. ah pois ficou!

2. este fim-de-semana que passou, assim como quem não quer a coisa, quase que o meu sonho (o único que eu já aqui partilhei) se realizava. [quase, quase.] sábado à noite, num bar, um jogador de futebol pousou familiarmente o seu braço em cima dos meus ombros, perguntou insistentemente se eu tinha namorado e ofereceu-me uma bebida. portanto, quase que o meu sonho se realizava. [quase, quase.] só por dizer que o dito cujo jogador de futebol não era aquele-que-é-meu-noivo-mas-ainda-não-sabe. para ser sincera, nem sequer era um jogador do FCP. para ser completamente sincera [ai...], era um jogador do Futebol Clube de Arouca, ou Arouquence Futebol Clube, ou lá como se chamava o clube local da terrinha. portanto, estamos mal: sorte teve o rapaz, que eu até estava bem-dispostinha. da próxima vez que um jogador de futebol de um clube local seja de que terrinha for tiver o sentido de humor suficiente para me pousar familiarmente o seu braço em cima dos meus ombros, vai ter azar. é que eu sou bem capaz de soltar o katsouranis que há em mim e arrumar o rapaz para os próximos 6 meses de competição. mas sem recorrer à violência, claro: num lance perfeitamente normal de futebol e não merecedor de punição disciplinar. como o original, portanto.

[e agora perguntam vocês: mas que raio é que esta alminha me anda a fazer num sábado à noite enfiada num bar de... arouca?! e respondo eu: issssssssagora!...]

3. eu tenho pastas dentro de pastas dentro de pastas dentro de pastas dentro de pastas dentro de [isto por aí fora elevado ao expoente neperiano do trauma] dentro da pasta my documents. uma dessas pastas chama-se prots quant e é onde eu guardo folhas de excel onde tenho as leituras de OD de extracções proteícas e respectivos cálculos da concentração das mesmas. normalmente, como nome dessas folhas de excel, só ponho a data em que fiz as extracções – já tenho o esquema todo montado, oriento-me bem assim. quando quero procurar uma quantificação abro a pasta e procuro a data: já está! no início de fevereiro fiz uma quantificação. na semana passada precisei dela e fui à procura na dita cuja pasta. depois de 3 minutos de buscas infrutíferas, quando estava naquele estádio que antece perigosamente o arrancar-cabelos-histericamente, dei com um fx que se chamava: 07-july-01. “alto!!… tu queres ver?…” abri. claro que era o ficheiro certo. quando acabei de ver o que queria, tive o cuidado de corrigir a data, para não voltar a haver confusões. hoje precisei novamente daquela quantificação. lá fui eu à procura e… nada de encontrá-la. até que, num misto de frustação e pasmo, dei com um ficheiro que se chamava: 07-november-01. “alto!!… tu queres ver?…”

houve alguém, do outro lado da bancada, que falou em “um bom hospital psiquiátrico!”…

mas e se fosse antes “uma boa reforma antecipada!”?

assim tipo… aos 25?

4. outro dia um amigo meu disse-me que algures tinham feito um inquérito ao sexo feminino e chegaram à brilhante conclusão que 1/3 das mulheres preferem roupa nova a um namorado. ambos ficamos bastante estupefactos: ele achava o número enorme, eu achava o número ridiculamente pequeno. não percebo qual é a dúvida… não, a sério, vamos lá a ver: a roupa nova levanta REALMENTE o ego de uma mulher, nunca a deixa pendurada e consegue pô-la efectivamente mais bonita… para além de que (e este é, sem dúvida, o ponto definitivo em que a roupa dá um um gancho de direita aos homens e os deixa KO) nunca um par de calças de ganga vai ter a triste ideia de se virar para a sua utilizadora e dizer: “mas tu dás mais atenção ao teu trabalho do que a mim…”.

[irra... pachorra!]

roupa. definitivamente.

5. bom fim de semaaaaaaaaaaaaana!

[ah... o que eu gosto disto!!...]

não, não e não.
eu não sou escaganifobeticamente histérico-exagerada. mas convenhamos: nunca o bicho tinha passado as fronteiras do jardim.

às vezes, quando está para aí virado, trepa para um muro que dá para uma viela muito estreitinha que passa ao lado de minha casa. e fica aí, horas sem fim, a ver o resto do mundo. mais do que isso, nunca teve curiosidade.
[eu ensinei-lhe, com todos os impossíveis cuidados de mãe adoptiva, que a curiosidade é tramada para os felinos. a curiosidade e, no caso específico dele, as picaretas. a seguir, em jeito de desculpa, olhei para o chão e acrescentei mas-olha-para-o-que-eu-digo-não-olhes-para-o-que-eu-faço.]
48 horas sem pôr nenhuma das suas 4 patas felpudas em cima da minha barriga. que queriam que eu pensasse?

7 dias depois e o bicho aparece. não emagreceu, pelo contrário. mas todo ele um susto, um verdadeiro hino ao stress: não consegue estar em compartimentos vazios (corre imediatamente atrás de alguém), salta para o meu colo e encosta a cabeça com tanta força ao meu peito que quase me magoa, está inseguro, não está particularmente interessado em ir saltar para o jardim (acho que ainda não se aproximou do muro) e mia o dobro do habitual.

tenho três teorias, a saber:
- alguém o viu em cima do dito cujo muro e pensou “olha só que bichano tão lindo, vou levá-lo para casa, tranca-lo, alimentá-lo mas não o deixar regressar para casa dele”. isto, a bom ver, é rapto felino meus senhores. ah pois: RA-PE-TO!
- o bicho, efectivamente, morreu e foi parar ao inferno dos felinos. mas o diabo, coitadinho, que anda assolado de trabalho, chegou à conclusão que não tinha paciência para aturar semelhante peça histérico-incontinente e mandou-o de volta para o planeta dos macacos.
- ETs de olhos pretos, cauda roxa e cornos amarelos levaram-no para o possuirem e assim darem início ao seu plano megalómano de conquistarem a terra atravês da ocupação de corpos de animais domésticos. estão no bom caminho.

o ar assustado com que ele miava desgraçadamente ontem de madrugada confirma qualquer uma das teorias acima descritas.

[confesso que, ao vê-lo, ainda pensei “mau, mau... na próxima saída bebes água, catarina. das pedras. ai bebes, bebes.”]

de resto… quero lá saber! O-MEU-TROTSKY-VOLTOU! diabo, pessoas más ou Ets-de-olhos-pretos-cauda-roxa-e-cornos-amarelos, não me interessa. o meu 4 patas mais pequenino escapou e voltou para mim! olé!
/me sorri, feliz.

e agora, tenham lá a mais santa das paciências [aquela que o diabo, a acreditar na segunda teoria, não teve] e aturem a banda sonora [perfeita!!] deste momento. com o patrocínio dos meus amiguinhos suecos.
[e não se queixem: o patrocínio dos meus amiguinhos portugueses era um abraço neste ponto de encontro, um abraço neste ponto de encontro, um abraço neste ponto de encooooontrooooo!]

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Mamma mia, here I go again
My my, how can I resist you?

Mamma mia, does it show again?
My my, just how much I’ve missed you

Yeeeeeeeees, I’ve been brokenhearted
Bluuuuuuuuue since the day we parted
Why, why diiiiiid I ever let you go?
Mamma mia, now I really know,
My my, IIIIIIII could never let you go.

[se eu estou escaganifobeticamente histérico-contentinha-da-vida agora? ah pois ‘tou!]
[se eu canto bem? ui!]

Just one look and I can hear a bell ring
One more look and I forget everything
UOU-UOU-U!!!

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trotsky. alguma vez te tinha dito que és absurdo? és absurdo. és absurdo nos teus olhos estranhamente grandes e mudos (cabe todo um sonho de se ser feliz dentro dos teus olhos, alguma vez te tinha dito?), és absurdo na tua cauda partida mesmo na pontinha, és absurdo na forma caprichosa como não combinas com o sofá, nem com o tapete da sala, nem sequer com a mobília (todos os gatos combinam com alguma coisa, alguma vez te tinha dito?). definitivamente, és absurdo. és uma espécie de realidade que teima em respirar à parte: absurdo.

foste especialmente absurdo quando me deixaste sentada no degrau de granito, olhar pousado no silêncio vazio do jardim, toda eu uma tremura subitamente frágil à espera de ver ver chegar. [à tua espera, claro: alguma vez duvidaste que eu ia esperar por ti até todos os frios deste mundo se enrolarem pelo lado de dentro do meu corpo?] à tua espera até a manhã ameaçar romper a esperança nocturna. à tua espera numa dança triste de passos trocados com o infinito, uma espécie de para-sempre mal ensaiado. eu não estava preparada, trotsky. e tu não vieste.

fiquei chateada, claro que fiquei chateada. porque há coisas que não se fazem, e mortes que não se morrem. que direito tinhas tu? que direito tinhas tu, diz-me, depois de todas as vezes em que eu te alisei as orelhas até tu adormeceres encostado à minha barriga? assim, numa cumplicidade estranhamente doce de digestões e sonhos partilhados. trotsky. esperei por ti no degrau de granito do jardim até conhecer de cor cada silêncio da noite. e nenhum deles te trouxe de volta a mim. o escuro transtornou-se em manhã. eu não queria, eu juro que não queria: mordi a baínha da noite com os dentes em brasa (medo de te perder). a esperança morreu com o dia. já terias morrido, tu. foi a tua última noite em mim.

merda. sabes o que mais me irrita? é que tu partiste mas nunca te foste embora. odeio. odeio ver-te em todos os vazios que deixaste atrás de ti, odeio tropeçar no teu corpo quando não te estás a enrolar nos meus pés, odeio não conseguir adormecer à noite porque causa do ronronar que não estás a fazer aos pés da cama, odeio. e sabes que mais? esse espaço todo ridículo que deixaste onde outrora respiravas também não combina com nada. nem com os sofás. nem com o tapete da sala. nem com a mobília. e todos os gatos combinam com alguma coisa. prolongamento idiota da dor.

trotsky. alguma vez te tinha dito que combinas com os miosótis? combinas. não sei se é por eles serem tão azuis ou tão calados. trotsky. e se eu te pedir para voltares? e se eu te pedir para voltares? e se eu te quiser mostrar a terrível beleza dos miosótis a seguir a uma geada tardia? e se eu te quiser adormecer novamente no meu colo, e se eu te quiser dizer que és absurdo, e se eu quiser não adormecer à noite por causa do barulho que fazes a ronronar, e se eu quiser não conseguir ver televisão em paz porque tu não páras quieto no meu colo, e se eu quiser, e se eu quiser? e se eu disser disparates? como: não faz mal, podes voltar, estás perdoado. não faz mal, não faz mal a noite fria que passei à tua espera, não faz mal as jarras que eu trouxe da suécia e que tu partiste, não faz mal teres a mania de me morderes as mãos, não faz mal a quantidade estúpida de vezes em que achaste que o caixote de areia estava muito longe e que assim como assim atrás da televisão é um sítio como outro qualquer, não faz mal esse hábito irritante de aguçares as unhas no sofá, não faz mal não combinares com a mobília, até porque combinas com os miosótis e pouca coisa há neste mundo tão bonita como os miosótis depois de uma geada tardia.

vá, não faz mal. eu perdoo-te. anda daí: vamos dar as mãos às patas e fingir para sempre que podemos ser felizes como sempre. e não se fala mais nisto, está bem? mais ninguém volta a mencionar aquele dia estúpido em que tu amuaste para a vida e resolveste morrer. sem nunca sequer te dares ao trabalho de partir.
trotsky.

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