ontem à noite, à saída do instituto onde trabalho:
eu: boa noite. segurança: boa noite, sra dra. eu: queria devolver a chave do dois-cinquenta-e-três-á. segurança: com certeza, sra dra. assine aqui, sra dra. [/me assina] eu: então muito boa noite, até amanhã. segurança: boa noite, até amanhã, sra dra.
sou só eu que acho este diálogo patético? ora então vamos lá ver: é de mim, ou quase 50% das palavras que o homem disse foram “sra dra.”? haja paciência (e quem a tenha por mim, que eu definitivamente não estou para isto!).
de resto, há que admirar a rapidez com que eu fiz o upgrade de “menina” a “sra dra” naquele instituto. certo dia fui apresentar a tese de estágio da licenciatura… assim de repente, eu diria que nada mudou em mim: o mesmo tipo de roupa, a mesma bata branca, as mesmas canetas de acetato no mesmo bolso da mesma bata branca, o mesmo grupo, o mesmo laboratório, o mesmo chefe… mas olhem. não sei. talvez a aura. [sim, isso: deve ter sido a aura.] assim quase instantaneamente [quase tipo pudim flan] deixei de ouvir o costumeiro “bom dia, menina”, para passar a iniciar a minha manhã com um muito mais charmoso “bom dia, sra dra”.
mas não era bem isto que eu vos queria contar.
a propósito desta história, lembrei-me de uma outra ocorrida há uns tempos já muito idos (há muito muito tempo, era eu uma criança… que é como quem diz, há dois anos atrás). estava eu, numa bela tarde solarenga de outono, a subir a escadaria de pedra do departamento de botânica (assim aos pulinhos pequeninos, que é como eu subo sempre aquelas escadas), quando ouço, atrás de mim, em duas vozes muito meiguinhas e perfeitamente coordenadas: “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça/ é ela a menina…”. eu espreitei, discretamente, assim entre duas pestanas tímidas e pela esquininha branca do olho. eram dois rapazinhos, vulgo operários da construção civil, que estavam a arranjar uma coisa qualquer na base das escadas. “… que vem e que passa/ a caminho do mar”. confesso que não sou do género de achar piada a piropos… mas aquelas vozes tinham que se lhe diga… e assim, misturadas em partes igual com o sol de fim de setembro que tem aquele charme tão típico do eu-já-não-escaldo-mas-ainda-aqueço… assim sim. vale a pena. “…moça do corpo dourado/ do sol de Ipanema/ o seu balançar é mais que um poema/ é a coisa mais linda que eu já…” eu estava tão deliciada (mesmo a ponto de abrandar o ritmo dos pulinhos pequeninos que, no seu estado geral, são rápidos) que nem me apercebi de um ruidoso grupo de estudantes que se aproximava perigosamente de mim. só dei por eles quando o cruzamento [não em sentido bíblico, cuidado com as interpretações] era já inevitável: “boa tarde, professora”. tarde demais: os rapazinhos (vulgo operários de construção civil), ao perceberem a posição que eu ocupava naquela casa [e o respectivo título que vem como bónus, assim como aqueles bonequinhos que vêm na caixa de cereais de pequeno-almoço] gelaram. as vozes calaram-se, os olhos procuraram atrapalhadamente o trabalho já esquecido na base das escadas. ora bolas. [bolas, bolas, bolas.] aqui, entre nós, que ninguém nos ouve, confesso que tive umas certas ganas de chumbar um certo grupinho que eu cá sei. não que eu goste de piropos, bem entendido. mas o sol de outono… pois, era o sol de outono.
mas não era bem isto que eu vos queria contar.
ao lado do instituto onde eu trabalho está um edifício em construção: 3 andares inteiros recheados de vulg[ares] operários de construção civil – um doce. eu estaciono o katemobile num parque que fica nas traseiras do instituto e lá tenho eu que dar a volta, passando mesmo em frente do dito cujo edifício em vias de ser parido. ora toda a gente conhece a obsessão dos senhores operários da construção civil por um bom par de cromossomas Xs: não há paciência que aguente. [não que eu tenha alguma, mas informei-me junto de quem tem.] habitualmente, e porque o respeitinho é muito bonito, os senhores que andam pendurados na obra não se metem com as sras dras portadoras de cromossomas Xs que ali lhes passam mesmo a roçar as hormonas. mas hoje de manhã… epá, hoje de manhã a inspiração andava na fossa. cheguei a uma hora tranquila, confesso que não é meu costume: os parques de estacionamento estavam praticamente vazios e não se via ninguém nas redondezas. ia eu a passar pela obra, num terrível esforço mental para relembrar a agenda de trabalho para o dia ainda antes do primeiro café, quando ouço, entre duas risadinhas flácidas, “ai, flôr! que lindas pétalas trazes hoje!”. mas que raio?… então e?… que é feito do belo do respeitinho por aquelas letrinhas acessórias que eu carrego antes do nome? ora vamos lá ver quantas biólogas são precisas para pôr um edifício de testosterona a piar fino! parei, respirei fundo, endireitei as costas, ajustei a alça da pasta do portátil, coloquei em evidência aquele rectângulozinho de cartão que mostra que eu sou, efectivamente, uma trabalhadora do instituto e não uma qualquer aluna perdida que anda por ali a dar pãozinho às gaivotas, fiz cara de má e meneei os ombros (assim em jeito ameaçador de quem se vai voltar para trás). meu dito, meu feito: as gargalhadas flácidas cessaram imediatamente. eu retomei o meu caminho, peito feito, orgulhosa em partes iguais de cada um dos meus pares de cromossomas. afinal de contas, sou ou não sou sra dra? para alguma coisa me havia de servir o aparatoso e idiota apêndice que me enfiaram antes do catarina: respeitinho. ah pois é: res-pei-ti-nho.
mas não era bem isto que eu vos queria contar.
[err... então e se eu não me lembrar (bem) do que vos queria contar?]
bem… verdade verdadinha, castigo divino por eu não andar ali a dar pãozinho às gaivotas ou não, a verdade é que umas horas mais tarde vim recambiada para casa.
então é assim: os amiguinhos da garota do chefe apanham gastroentrite -> a garota do chefe apanha gastroentrite -> o chefe apanha gastroentrite -> a catarina apanha gastroentrite.
[a próxima pessoa que me voltar a falar em espírito solidário leva um murro no estomâgo. ou alguns vírus no dito cujo, também por cá se arranjam.]
[a propósito da garota de ipanema... e esta outra, hem?]
E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à volta de uma árvore para olhar as estrelas no céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas do tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu.
(…)
Como explicar-te que tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso?
(…)
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir o Abril, e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e a das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jaracandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogamos o seu sentido.
Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo.
E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.
Miguel Sousa Tavares innão te deixarei morrer, David Crockett
[psiu, tu aí (que tens bom gosto musical): a OST chama-se enjoy the silence, versão original dos Depeche Mode, aqui numa cover de Tori Amos. faz parte de um álbum fantástico que a Tori fez, Strange little girls (lançado em 2001), constituído por covers de músicas que diversos gajos escreveram para diversas gajas, e aos quais ela dá uma interpretação muito pessoal e muito... bem, feminina. é um rpc (recomendado por catarina).]
«Por vezes, ao acordar, sinto que a minha alma não cabe no corpo.»
Ela disse isto e depois calou-se, como se fosse ficar assim para sempre, como se tivesse esgotado tudo o que lhe restava para dizer até ao fim da vida.
A frase, lançada com frieza no silêncio húmido do quarto, produziu uma pequena escuridão no espírito do homem.
«O que significa isso?»
A mulher olhou-o com uma espécie de estranhamento. Ele tentou soltar-se daquele olhar. Cobriu o tronco com o lençol.
(…)
Ela continuou:
«Sinto que o corpo me aperta a alma, sei lá, que está curto, entendes?, como se tivesse adormecido com quinze anos e acordasse aos vinte e cinco ainda com a mesma roupa. Sinto uma grande vontade de despir este corpo e ficar com a alma exposta, inteiramente nua.»
(…)
O corpo da mulher era longo e liso, semelhante ao de um peixe, e de alguma forma igualmente impossível de aprisionar.
Uma luz escura fluía dela como de um rio ao entardecer.
O homem saltou da cama. O que podia dizer?
«Não compreendo as mulheres.»
Podia ter dito isto, alguma coisa deste género, mas seria demasiado óbvio. Sentou-se em silêncio, no canto mais afastado do quarto, e acendeu um cigarro. Ela sorriu.
«É assim tão difícil de entender?»
Podia ter dito, «os homens nunca entendem nada», mas seria inútil. As mulheres, na verdade, não precisam que os homens as compreendam.
Basta que as ouçam.
Ele sabia disso e assim continuou calado. Ela via-o ali, no canto do quarto, meio encoberto pelo fumo do cigarro.
«Às vezes gostaria de poder despir este corpo. Despia-o e pendurava-o num cabide, no armário, ao lado dos vestidos que nunca mais voltarei a usar. Cuidaria dele nos domingos de chuva, de manhã, quando me afligissem as saudades destes dias. Ou talvez, simplesmente, o esquecesse.
Farias amor com a minha alma nua?»
(…)
José Eduardo Agualusa inCatálogo de Sombras.
(nota: os parágrafos não foram respeitados na transcrição.)
que assim de repente, de um momento para o outro, como quem não quer a coisa, Investigador passou a ser nome de profissão em portugal?
[TUNGAS, toma lá morangos.]
com direito a anúncio no expresso e tudo… ena ena. como se de uma profissão à séria se tratasse.
[tu queres ver... que o meu portugal pequenino que cheira a amoras bravas no verão está a ficar crescidinho?...]
[sabem que mais? estou feliz. essencialmente porque estou contente. estou a ver a minha Ciência crescer. a minha Ciência, no meu País. ó pra mim, orgulhosa&babada. ainda este fim-de-semana discutia a situação da Ciência e defendia que estamos a avançar... devagarinho, mas em frente. confesso que às vezes não sei o que me move o discurso: se o impossível amor que efectivamente tenho pela Ciência e que – não duvido - me tolda a razão, se o indescritível prazer que me dá contrariar toda esta onda de derrotismo que parece ter domesticado a serotonina do pessoal. que se dane: olhem para mim – sou cientista e sou feliz. e tem dias em que até sou contente.]
e a propósito de investigadores…
hoje, ao final da tarde, estava eu muito sugadita nas minhas lides, entra-me uma personagem pelo laboratório dentro: - o Paolo está? - não, ele já saiu, já só cá estou eu… - ah, podes dar-lhe um recado? - sim, claro, diz lá. - diz-lhe por favor que eu vou deixar as amostras de caudas que ele me pediu no frigorífico dele, sim?
umas décimas de segundo, apenas: o tempo que uma pessoa tem para decidir entre tentar um comportamento dito normal, ou dar expressão ao que lhe passa pela alma e correr o risco de abalar seriamente as estruturas de uma saudável relação de trabalho, solidamente alicercada em “bons-dias” e “boas-tardes” cruzados a correr no corredor. eu devia estar habituada: é claro que devia. afinal de contas, eu trabalho num instituto de investigação. até há um corredor que, quando o vento sopra de feição, tem um ligeiro aroma a rato no ar. sim, eu devia estar habituada. mas eu procuro combater o hábito: quando nos habituamos às coisas, perdemos a capacidade de nos surpreendermos. e eu ainda gosto de me deixar espantar com os primeiros passos de cada madrugada: não fosse isso, e viver uma vida inteirinha corria o risco de tornar-se uma tarefa enfadonha. foram umas décimas de segundo, apenas. o tempo suficiente para eu fazer uma expressão facial completamente deformada e perguntar: - desculpa… disseste caudas?
o silêncio que se seguiu foi esclarecedor da minha vontade quase irreprimível de dizer um chorrilho de disparates: a personagem sorriu. para bom humor, meia insinuação basta.
[assim como assim, não posso esquecer-me de perguntar ao nosso italiano que raio lhe passou pela cabeça para andar a trair as belas das bactérias com rabos de ratos.]
[sim, porque o meu grupo trabalha em microbiologia. rabos de ratos até podem ser vulgares no resto do instituto, mas não me costumam cair no colo por dá-cá-aquela-palha.]
[lá mais para a frente, se fizeres muita questão, podemos trocar. mas para isso tens que desenvolver um polegar oponível.]
e a banda sonora de hoje é…
[directamente importados da Suécia numa mistura dolorosamente perfeita de encanto magia sensualidade beleza irreverência ternura calor sussurros neve intensidade espanto espaço e originalidade meus senhores eles são os...]
para além disso, existe a Pública (este suplemento faz parte do público nº 6127 e não pode ser vendido separadamente) aos domingos, apoiada na banheira, à espera que o reflexo gastro-cólico conduza os meus olhos pelas suas páginas. são rituais. regularmente não leio muitas revistas, mas quando o faço, começo pelo fim. [são rituais.] a Pública acaba, invariavelmente, com as mulheres alteradas a obrigarem-me a ver a minha figura num daqueles espelhos de distorção que existem nas feiras populares. eu começo, invariavelmente, a rir-me. quase antes de acabar (portanto quase a seguir a eu começar), a Pública presenteia os seus estimados leitores com as previsões Taróticas [é assim que se diz?] da senhora dona abelha para a semana que se inicia. eu não acredito em bruxas [pelo menos até conseguir levantar voo com a vassoura cá de casa] mas lá que elas existem… são rituais estúpidos, eu sei. nem é o eu ler o meu signo todas as semanas. é eu não conseguir evitar aquela desagradável comichão intestinal, ali quem desce à direita, quando a senhora dona abelha se lembra de prever que eu não terei uma semana maravilhosa. é tramado. durante os 3 segundos que o neuronito demora a recuperar do baque e a lembrar-se que, afinal de contas, nós nem sequer acreditamos em bruxas [pelo menos até eu conseguir levantar voo com a vassoura cá de casa] o pâncreas vê-se e deseja-se para descer ali à direita e acalmar o intestino com uma coçadela a pedido.
mas hoje. hoje. hoje a senhora dona abelha abusou. senão, veja-se:
Deve reflectir bastante antes de tomar atitudes, ainda mais se estas influenciarem terceiros.
[pronto: eu prometo que não falho mais nenhum jogo do FCP. é certinho, não falha uma: se eu não tenho o meu cachecol e a camisola do meu futuro maridinho vestida, se eu não acompanho o jogo segundo a segundo, jogada a jogada... os meus azuis-e-brancos não se aguentam. pronto, eu sei que sou fundamental. não insistam: eu sei que sim. e confesso que hoje fiz gazeta. mas era jogo para a fruteira, porra! e era contra uns betos lisboetas que nem profissionais devem ser! é que rais m’a parta: será possível que os meus meninos não se aguentem sem mim nem uma vezinha que seja? arre diabo! t’esconjuro! não falho mais nenhum. eu prometo.]
No plano afectivo algumas contrariedades e até mesmo desilusões.
[mas... qual plano afectivo?...]
Não misture família e problemas económicos. Deve gerir este sector com muita sensatez.
[sensatez, portanto. that’s my middle name. ou não.]
No plano material jogue pelo seguro porque os seus palpites não estão muito credíveis.
[a questão é: a fulana está-se a referir às minhas experiências no laboratório ou ao euromilhões? detesto informações incompletas! bem, que se lixe. assim como assim, não é que “jogar pelo seguro” seja uma opção disponível para o neuronito...]
Instabilidade na saúde, especialmente para o elemento feminino.
[elemento feminino são as gajas, não é? estou tramada...]
pá, é assim: não gosto. as cartas Taróticas [é assim que se diz?] que tenham paciência, mas esta semana vou fazer as coisas à minha maneira. [e as forças que me empurram e os murros que me esmurram só me farão lutar à minha maneira!] vou ser eu contra elas. a fruteira já foi à vida, mas ainda tenho 6 dias repletos de oportunidades para mostrar às ditas cujas cartas que quem manda sou eu. peço imensa desculpa, mas vai ser uma semana em grande. AH: vamos lá ver quem ganha esta merda, carago!
[pode-se dizer merda na internet?]
as vidas são feitas de rituais.
[o principal ritual da minha são as excepções.]
para além disso, existe o Best of you, dos Foo Fighters. e farta-se de existir: existe quando eu estou muito alegre ou muito triste. muito confiante ou muito insegura. depois de uma grande vitória ou depois de uma grande derrota. às vezes existe só por existir, por nada de especial. mas existe sempre aos berros, a fazer tremer os alicerces da alma. existe sempre comigo a saltar e a cantar por cima. existe sempre ofegante, no final. normalmente existe quando eu chego a casa, ao fim de mais um dia de trabalho. hoje existe para começar a semana, porque a batalha com as cartas exige um input extra de adrenalina.
não sei quanto a vocês, mas eu vou ter uma semana fantástica. as cartas, os astros, os búzios [whatever] que se preparem.
porque eles não sabem com quem é que se meteram.
e isto é [definitivamente] o melhor de mim.
I’ve got another confession to make I’m your fool Everyone’s got their chains to break Holdin’ you
Were you born to resist or be abused? Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Are you gone in onto someone new?
I needed somewhere to hang my head Without your noose You gave me something that I didn’t have But had no use I was too weak to give in Too strong to lose My heart is under arrest again But I break loose My head is giving me life or death But I can’t choose I swear I’ll never give in No, I refuse
Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Is someone getting the best, the best, the best, the best of you?
Has someone taken your faith? Its real, the pain you feel Your trust, you must Confess
Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Oh…
Oh Oh Oh Oh
Has someone taken your faith? Its real, the pain you feel The life, the love You’d die to heal The hope that starts The broken hearts Your trust, you must Confess
Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Is someone getting the best, the best, the best, the best of you?
I’ve got another confession my friend I’m no fool I’m getting tired of starting again Somewhere new
Were you born to resist or be abused? I swear I’ll never give in I refuse
Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Has someone taken your faith? Its real, the pain you feel Your trust, you must Confess Is someone getting the best, the best, the best, the best of you? Oh…
nunca percebi muito bem porquê. não creio que a minha vida vá mudar por aí adiante, tirando o facto de este ano passar mais tempo em solo tuga do que nos últimos dois. mas enfim… fica sempre bem dizer estas parvoícabichanadas nesta altura do ano. [agora que penso nisso, eu gostei bastante da minha vida no ano passado. ó vida, num te vás embora, carago! oh fica. oh fica.] outra coisa que fica sempre bem, e que eu também sou incapaz de perceber, são as promessas de ano novo. primeiro, porque tomar decisões importantes sobre a nossa vida no ano novo só me parece uma boa desculpa de passar o ano inteiro a adiar as ditas cujas decisões importantes. e depois, porque passada a ressaca das rabanadas e do champagne, as promessas são arrumadas no móvelzinho da entrada e adeus-passem-bem-até-para-o-ano. ora eu, que até ando numa de ceder à pressão das massas, faço hoje aqui, solenemente e perante vós, as primeiras promessas de ano novo da minha vida. [xaran!] como o meu pensamento prima pelo método e organização, vamos por partes (bem delimitadas&classificadas).
[não, a sério: vocês não estão mesmo à espera que eu vá prometer cenas macabras do género vou-melhorar-o-meu-mau-feitio, pois não? podem tirar o mamífero ungulado equídeo da chuva, que nessa não caio.]
[assim como assim, são 24 anos a habitar o mesmo corpo com o dito cujo. uma pessoa habitua-se. sou fiel aos que me são fieis, e não me sentiria bem se, após quase um quarto de século de repostas tortas&amuos partilhados, me submetesse de livre e espontânea vontade a um qualquer exorcismo que eliminasse de mim o meu bom companheiro de tantas horas. além de que está para nascer o padre capaz de semelhante façanha.]
[digo mais: eu prometo que NÃO vou melhorar o meu mau-feitio. que querem, assim de repente fiquei nostálgica... já passámos por tanto juntos...]
[está então decidido: o mau-feitio é parte integrante da gaja e não pode ser vendido separadamente.]
[ou será que deveria dizer: a gaja é parte integrante do mau-feitio?...]
mas desculpem-me, divago. adiante. passemos então às promessas&respectiva contextualização.
situação 1: uma vez li algures que o ser humano passa 1/3 da sua vida a dormir. mentalmente, acrescentei de imediato: “um dos outros terços é passado a queixar-se
!” eu, particularmente, não me queixo. mas confesso que tenho uma certa tendência para, de quando em vez, constatar efusivamente as realidades menos agradáveis que me rodeiam.
promessa 1: chega. levemente inspirada n’ela mesma, este ano prometo que não tenho paciência para auto-comiserações e/ou neuras hiperbólicas. nem as minhas nem as dos outros. encontrem-se. mas não me roiam o juizínho, que já de si não é muito abundante.
situação 2.1 ninguém conduz bem neste país, à excepção da minha pessoa. situação 2.2 o trânsito matinal na ponte da arrábida é um pesadelo. situação 2.3 são relativamente vulgares os encostos ora-chega-cá-a-traseirinha-do-teu-carro. situação 2.4 por vezes os condutores, invariavelmente fêmeas, em vez de encostarem os beículos à berma e assinarem a declaraçãozinha amigável, optam por chamar a polícia e ficarem confortavelmente sentados no seu carrinho a ocuparem uma faixa de rodagem e a tornarem o trânsito matinal na ponte da arrábida um pesadelo ainda mais macabro. situação 2.5 minhas senhoras, vamos lá rever o código da estrada: quem bate por trás, paga! não me lixem. não duvido que o condutor da frente tenha culpa muitas das vezes mas, e das duas uma: ou ele assume, encostam os beículos à berma, assinam a declaraçãozinha amigável e vão-se embora, ou ele não assume, e polícia nenhuma pode dar razão ao fulano que bateu por trás, portanto mais vale engolirem o batráquio, encostarem os beículos à berma, assinarem a declaraçãozinha amigável e irem-se embora. ficarem a ocupar uma faixa de rodagem é que não, porra! não gosto de me repetir, mas… não me lixem!
promessa 2. eu prometo que vou deixar de as insultar em surdina. eu prometo que vou deixar de passar os 3 km seguintes a resmungar baixinho “havia de ser comigo, havia de ser eu a polícia, chegava lá e multava-as às duas por estupidez congénita.” não prometo que vou deixar de fazer caretas de vómito pelo retrovisor. um passo de cada vez: roma e pavia não se fizeram num dia.
situação 3.2 já estou mesmo a ver que o gajo não virá solar cá para os meus lados.
promessa 3. dê lá por onde der, vou ver o gajo. lá terei eu que desenterrar a velha máscara da segunda guerra mundial, munir-me de muitos caragos, passar a temível linha do mondego e aterrar corajosamente em marrocos. seja: por alguém que é do tamanho do que ele vê, valerá a pena.
[Bruno, querido, tu que és meu fiel leitor: eu sou aquela maluquinha na terceira fila encostada ao lado esquerdo a rir-se que nem uma perdida. diz-me adeus, dizes?]
situação 4.1 o gajo-de-sobretudo, em tempos, treinou o meu FCP, e fez um excelente trabalho. situação 4.2 o gajo-de-sobretudo abandonou o FCP de uma forma sobre cuja dignidade coloco as minhas dúvidas, e desde então tem feito comentários menos simpáticos sobre o clube que o lançou. situação 4.3 o gajo-de-sobretudo e os seus amiguinhos da mafia russa vêm jogar ao dragão.
promessa 4. eu vou bater palmas ao gajo-de-sobretudo. ele pode ser ingrato e não reconhecer o quanto o FCP fez por ele, mas o FCP é maior que todas essas mesquinhices e sabe reconhecer o mérito de quem também já fez muito pelo clube. bato-lhe palmas, pois. de pé, se for necessário. antes do jogo começar. [o resto do tempo mando-o lamber sabonetes. chama-se a isto uma solução de compromisso.]
[gajo-de-sobretudo, querido, tu que és meu fiel leitor: eu sou aquela maluquinha algures na bancada nascente a rir-se que nem uma perdida depois do FCP reduzir o chelsea à sua vulgaridade. diz-me adeus, dizes?]
situação 5. o caos é a lei superior que rege todo o universo.
promessa 5. eu não me meto com as leis, muito menos com as Universais. como tal, continuarei a respeitar essa lei. népias mãe, não arrumo o meu quarto mesmo sob ameaça de tortura. permaneço fiel aos meus princípios. (a não ser que essa tortura seja o “noddy ao vivo no coliseu”. medo. todos os princípios têm um preço. a eu-carolina, que é cheia deles, que o diga.)
deixo-vos com uns tipos que são o último grito lá na Suécia… apareceram agorinha mesmo (parece que foi ontem…), têm um sucesso danado e andam a rebentar com tudo. apesar de um tudo nada lamechas, apesar de não serem exactamente o meu estilo musical, há algo lá no fundo de mim que se enternece quando os ouve. deve ser a minha costelinha Ikea a ranger. pelas vozes deles, o meu desejo: feliz ano novo.