Monthly Archives: December 2006

a vida é cómica. meia dúzia de patacoadas, escritas geralmente entre a sopa e a sobremesa e, enquanto um qualquer diabito esfrega um olho, passamos a fazer parte da vida de alguém. nem que seja de uma forma perfeitamente ilusória e salteada – seremos só letras num monitor? talvez. mas em poucas coisas eu acredito como acredito nas palavras. não interessa.voltei.

não é por vocês. (quero lá saber de vocês, tenho o PIB nacional inteirinho dependente de mim, tenho mais do que fazer do que me preocupar com vocês. arre.) é por mim. desde o último post que tenho recebido diversas manifestações, entre o inesperadas e o brilhantes (e o ai-que-agora-babei-me-mesmo-toda-carago!). mas só houve uma pessoa (que, curiosamente, nem sequer me conhece em carne, ossos, epiderme e vírus associados) que enfiou o dedo na ferida, sem piedade, e andou por lá a esgravatar animadamente. sim, Luís, foste tu: “Dsc a prepotência ms acho q n vais conseguir passar mt tempo sem postar (ou espero eu)…neste umbigo ou noutro qql…e ainda bem :) ”.

[a propósito, Luís... aquele álbum que me emprestaste é simplesmente divinal. e o outro também me enche as medidas bastante bem. as medidas todas...]

efectivamente… a vida é cómica. e o avacalhanço é viciante. ora bolas: estava com saudades disto. voltei, pois. tinha deixado alguma loiça por partir. e não é do meu (mau) feitio deixar tarefas a meio.

e já que volto a falar em regressos (ou regresso a falar em voltar), faz todo o sentido que vos descreva, em detalhe, como é que uma gaja raptada, arrebatada & domesticada aos hábitos nórdicos percebe que está de regresso à pátria.

[mil perdões a quem já ouviu na minha voz a mesma descrição (e, provavelmente, mais do que uma vez)... mas há coisas que merecem ficar para a posteridade. ou não. adiante.]

ora a dita cuja constatação de whoops-acabei-de-cair-no-cantinho-dos-tugas deu-se em dois passos distintos, a saber:

1. o passarinho gigante fazia escala na capital, pelo que foi aí o primeiro contacto com solo tuga. sai uma gaja (raptada, arrebatada & domesticada aos hábitos nórdicos) do avião, entra discretamente no aeroporto, e sente imediatamente uma comichão histérica nos orgãos sensoriais de captação de luz. ela olha para a esquerda, e pisca, pisca. ela olha para a direita, e pisca, pisca. como se não faltasse mais nada, uma lágrima teimosa resolve espreitar olhinho fora e toca de cavar ali um leito bochechinha-de-villeneuve-abaixo até morrer na manga no casaco. mentalmente, a gaja revê a situação: não, ela não está a tentar engatar ninguém, e não, marrocos está longe de a emocionar (ao menos se ela não tivesse visto a árvore pindérico-gigante da janela do passarinho gigante…). até que, num lampejo de génio, ela descobre a razão fisiológica para a sua lamechice deslocada: fumo de tabaco, pois claro. em todo o lado. gente a fumar num sítio fechado, mas o que é isto? tirem-me daqui, não consigo respirar.
ena ena: estou na pátria!!

[nota de mau-feitio: não, agora a sério – porque é que eles se dão ao trabalho de dizer é proibido fumar em todo o aeroporto excepto nas áreas assinaladas para o efeito? isso até é muito lindinho, mas ouçam lá: se as ditas cujas áreas assinaladas estão espetadas de 10 em 10 metros, e se os senhores fumadores não conseguem fumar o seu cigarrito sugaditos e têm que passear num raio de 5 metros à volta da “zona assinalada”, não seria mais prático (e honesto) avisar é proibido NÃO fumar em todo o aeroporto, excepto se enfiar a sua cabeça pela retrete abaixo?]

2. senta-se a gaja confortavelmente no seu cantinho, ao pé da janela, e prepara-se para voar pela terceira vez naquele dia. nisto aproximam-se dois abrunhos que, ó-sorte-malvada-que-mal-te-fiz-eu, se destinam aos dois lugares ao lado dela. e, assim em jeito de entrada triunfal quebra-o-gelo, travam logo o seguinte diálogo:
abrunho nº1: oh, carago! e s’esta merda me cai ao tejo, porra?! eu agarro-me a ti!
abrunho nº2: até te fodias. é que eu nado que me fodo. fodasse.
(fim de citação).
ena, ena: NÃO SÓ estou na pátria, COMO TAMBÉM estou a caminho da naçon!
[é nesta altura que a gaja escorrega pela cadeira abaixo, num esforço desumano para conter uma gargalhada e o desejo súbito de desatar a cantar: voltei, voltei/ voltei de lá/ ainda agora estava na suécia e agora já ‘tou cááááááááááá!]

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

[não, Eugénio. eu falo muito dele. e sei que o amo – sempre o soube. é esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. simplesmente mata(s)-me.]

PS(ssssst): e o vosso Natal? o meu foi lindo… muito.
[aproveitei que vinha da terra do pai natal e raptei-o cá para casa. roubei-lhe um beijo e um abraço e puxei-lhe pela barba para ver se era verdadeira. gostei muito do meu pai natal raptado.]

[melhor que este, só mesmo aquele que faz aquele anúncio para aquela empresa de telemóveis. esse sim: ESSE valia a pena esperar duas horas numa fila dentro de um shopping barulhento, só para me poder sentar ao colinho dele. “portaste-te bem este ano, minha menina?”, “não, senhor pai natal. fui uma menina marota. muitoooooo marota...”, “ai foste? então não te posso dar o juizínho que me tinhas pedido como prenda de natal”, “deixa lá isso: acabei de ter uma ideia melhor”.

[pronto, ok: é nesta altura que eu me calo.]

[mas sabe bem dizer: até jáááááááá! num qualquer umbigo perto de si.]

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isto não era para ser assim. não era. devia ter sido de outra maneira: ontem devia ter escrito um post, simples, a dizer que sexta-feira parto para a pátria por tempo incerto; e hoje, antes de desligar de vez o pútati para o enfiar dentro da casinha dele onde ele já está habituado a viajar, apagava o blog. assim, sem despedidas – nunca gostei delas. sexta-feira vocês tentavam entrar e “o endereço não foi encontrado”, temos pena. assim, sem arrastar a partida. porque as partidas já doem por si, mesmos sem os (ar)rastos da saudade. não, isto não era para ser assim.
mas ontem não tive coragem.
e hoje também não.
[mas tinha sido muito mais giro, não tinha?]
tenho uma mala aberta no meio do chão e pedaços da minha vida à deriva no resto do espaço que me rodeia, só à espera de serem encafuados lá dentro. mais uma vez: empacotar a minha vida. partir: outro chão, outro céu. daqui a nada.
[mas é o meu chão. é o meu céu. eu sei.]

in a little while
this hurt will hurt no more

encosto a cabeça à janela e fico a olhar o frio, meiguinho, do outro lado do vidro.
em julho do ano passado, aquando da minha primeira partida desta cidade, escrevia (-vos, aos leitores das famosas Crónicas do Círculo Polar):

(…) Hoje (…) custa muito escrever-vos: treme-me a alma e embaciam-se-me os olhos. Mas hoje, as lágrimas correm-me de sul para norte. Hoje, é o antecipar da saudade deste sítio que aprendi a amar que me dobra o peito e o olhar. Escrevi uma vez, a propósito do meu Porto (d’abrigo): “E és a única cidade que eu vou saber amar desta forma tão intrínseca, tão inevitável… porque os caminhos estreitos da minha alma só se reconhecem nos recantos da tua luz escondida…”. Tinha razão: amo o Porto porque nunca o soube sentir de outra forma – é intrínseco e inevitável. O tempo ensinou-me a amar Umeå de uma maneira diferente. Não das entranhas para o olhar, mas do olhar para as entranhas. Dos sentidos para a alma. Desde o intenso silêncio dos caminhos, dos eternos bidoeiros, dos espaços alargados, das casas baixinhas e coloridas, da luz branca e paciente, até o mais escondido e protegido do meu ser. São paixões diferentes. Ainda é no Porto que quero que os meus filhos cresçam, ainda é no Porto que quero fechar os meus olhos de vez. Mas esta paixão por Umeå sei que existirá sempre do lado esquerdo do meu peito: como um fardo e uma libertação. Como um fado. Como um renascer.(…)
Os suecos são gente boa. (…) Gente desigual, gente que inventa o ritmo da sua dança, gente que dança com a pureza de um amor que não tem vazio, gente que voa e renasce e reinventa a solidão das partidas no fogo do descobrimento. Povo singular, povo de armas e de paz, povo de fogo e de neve, povo dos para sempre. Posso gostar de vocês? Assim bem fundo, assim do fundinho da alma, assim Para Sempre?(…)
Umeå: cidade dos silêncios infinitos prolongados aquém e além alma. Cidade dos bidoeiros enternecidos, cidade dos humanos de todas as cores, cidade mais gay friendly de toda a Europa. Cidade da tolerância e do amor. Cidade da neve e do sol, cidade do escuro permanente e da eternidade dos dias. Cidade pequena, organizada, cidade onde tudo acontece à hora certa. Que me fizeste tu, Cidade, que hoje me dóis tanto na alma? Que me fizeste tu, desgraçada, que me fizeram tu e as tuas gentes? Não sabes que não era suposto entranhares-te tão definitivamente em mim? Não sabes que não era suposto eu largar pedaços de mim pelas tuas ruas, pedaços de mim pela tua grandeza, pedaços de mim pelos recantos desnudados da tua simplicidade? Não sabes que saudade é uma palavra portuguesa e que este amor nunca deveria ter nascido? Cidade desgraçada, Gentes desgraçadas, que me arrancaram pedaços de alma só para me ensinarem a ser Maior. E agora volto ao meu país, mais pessoa e mais incompleta, mais capaz de amar e com uma parte de mim para sempre ausente da minha alma. Raio de País, raio de Cidade, raio de Gentes. Se não sabiam, digo-vos eu, arrancado das minhas entranhas que vos antecipam ao longe: este amor nunca deveria ter nascido. “Como um fardo e uma libertação. Como um fado. Como um renascer.” (…). Voltarei para te ver e ser incompleta aqui, já que a outra metade de mim se desdobra no sul. (…) Desgraçadas de vós, que no meio do meu ser incompleto me fizestes mais Completa do que algum dia soube ser. Voltarei. (…)

daqui a nada. murmuro “umeå” baixinho contra o vidro embaciado e apetece-me sorrir e apetece-me chorar tudo ao mesmo tempo. houve muito de mim que descobriu a luz do dia através das tuas noites impossíveis. houve muito de mim que se encontrou inteiro na escuridão dos teus dias infinitos. e, daqui a nada, deixo-te. de novo.

if I crawl,
if I come crawling home
will you be there?

e apetece-me sorrir e apetece-me chorar tudo ao mesmo tempo. eu quero ir. mas claro que eu quero ir. quero voltar a deslizar os olhos pelo Douro todas as manhãs (com este aqui a fazer-me dar gargalhadas sonoras em pleno trânsito impossível da Invicta), quero ver os miosótis espreguiçarem-se em março, quero ver o sol de inverno, quero ver os sorrisos fáceis do meu povo, as lágrimas fáceis do meu povo, as almas fáceis do meu povo, quero ver-me em vocês. e quero tanto (tanto!) tanto ver-vos a vocês. eu quero ir. só não quero partir. pode ser? se esticar muito o braço esquerdo, muito muito muito – pode ser? posso ser em dois sítios?
não, melhor: posso levar umeå comigo?

[tem graça: acho que levo.]

Slow down my beating heart

a vida era bem mais fácil se todo o espaço para além dela bem fosse menor.

in a little while
this hurt will hurt no more
I’ll be home, love

ontem não tive coragem.
hoje também não.
não mato o blog (ainda).
daqui a nada. quando estiver em casa (na outra). outro chão, outro céu. quando esta dorzinha se acalmar na incompreensível dimensão do amor que me resguarda no Porto. sim, daqui a nada, quando esta dor deixar de doer, eu mato o blog.
[epá, hoje não.
a sério: não me chateiem a cabeça.
fazer malas é muito tramado.
e limpar a toca ainda pior.
como diria o outro: não me façam amor com o juízo.
depois eu faço o servicinho sujo.
hoje já estou farta de despedidas.
porra.
mesmo.
blergh.
porque é que as pessoas não se limitam a dizer “até já”? é mesmo preciso o resto do discurso?
não, a sério: este mundo tinha muito mais piada se não estivesse cheio de pessoas.
e não, eu não tenho mau feitio.
sou é lamechas como o raio que me parta.
buh.]

oh my,
my how you’ve grown!

well it’s been
(it’s been…)
it’s been a little while

quero tanto estar convosco. quero tanto mergulhar esta saudade (saudade, ai a saudade, sou tão portuguesa) em abraços intermináveis. cloc cloc os ossos a baterem uns nos outros nos reencontros tão ansiados. quero que vocês vejam como eu cresci – eu estou crescidinha, gente: chorona como sempre, mas crescidinha. quero ver esses rostos, esses olhares, esses sorrisos, quero voltar a instalar-me aí, a pousar aí, e sentir que esse vai ser o meu chão e o meu céu durante mais do que apenas algumas semanas, quero mostrar-vos o que aprendi, quero cheirar esse cheiro a gente do mar, a almas do sol, quero que vocês me contem devagarinho e com todos os pormenores impossíveis a que souberam as castanhas deste outono, quero-vos a todos, quero tudo isso.
e.
no entanto.
(se esticar muito o braço esquerdo, muito muito muito – pode ser?)

quem inventou os regressos é o meu herói. só é pena ter inventado as partidas também.
dói deixar-te, Umeå. continuo a achar que não devia doer tanto – que não tinhas esse direito – é cá um sufoco ali à esquerda quem sobe que não te digo nem te conto. mas parto para aquela que ainda é a parte mais definitiva e inteira do meu coração. um dia destes volto.

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua? Esse braço?
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

[slow down my beating heart
slowly, slowly love]

PS: diz o Bono que escreveu esta música a propósito de um “lovestruck hangover”. maaaaaaaaaaaaaan…. como se diz na minha terrinha: ‘bota lovestruck hangover nisso, filho! ai ‘bota, ‘bota…

PS-PS: é claro que este blog tinha que acabar com PSs, e daqueles perfeitamente esquizofrénicos… podem-me acusar de muita coisa mas, e pelo menos, sou/fui fiel à linha original de fabrico: futebol, festival da eurovisão, filosofia barata, abóboras aos molhos, devaneios paranormais e piadas de cariz sexual e humor muito duvidoso. e agora, com vossa licença, vou só ali assoar umas toneladas de ranho lamechas do narigão e volto já.

[vou para casa? vou para casa... vou para casaaaaaaa! aweeeeeeeeeeee!!]

:-) obrigada, gente. por terem andado por aí.
obrigada.

[NÃO, ESPEREM!!!! não se vão embora ainda! não é assim, não é “obrigada”. é: tack so micket!]

[e vocês respondem: vårsagod!]

[e eu termino: kramar och trevlig julhelg!]

estou a caminho, afilhada. estou a caminhoooooooooooooooooooooo!
[até jááááááááááááááááááááááááááááááááááááááááá:-)]
[aladinooooooooooooooooo!]

[ihih... eu sou chata comó caraças, não sou?]

[pronto, pronto: agora é que me calo mesmo:-)]

[só mais uma coisa: “histerismo inespecífico”. só mesmo para quem se estava a perguntar o que passava comigo hoje: é isso.]

[e pronto(s): agora é que terminei. mesmo.]

não é a ella, mas os rapazes são portugueses e tudo.
e têm jeitinho para a coisa.
e continuo a adorar esta música.

[e então? vão-me buscar ao FSC ou quê?]

PS: não, eu não acredito no pai natal. mas sim, eu acredito na rena complexada com o seu nariz bem arredondado e reluzente. de certo modo, é uma crença empática. é como o patinho feio.
(sim, eu também acredito no patinho feio.)

[a césar o que é de césar, ou lá como é que se diz: este post foi inspirado num outro, cujo copyrigh pertence ali àquele tipo que é alto, loiro e tem olhos azuis. não se deixem enganar pelas primeiras impressões: eu bem sei que ele é injinheiru e benfudo (sim, sim, tudo ao mesmo tempo, uma desgraça nunca vem só, ou lá como é que se diz), mas, e bem lá no fundo, tenho cá comigo que ele até nem é mau bicho.]

[ah: e chamem-lhe Tágio que ele gosta!]

[pronto, pronto: já me calei.]

mas dizia eu

conhecendo...

… a dimensão das partidas…

(aeroporto de Arlanda, agosto06)

… caminhos alternativos…

(umeå, abril06)


… os -33ºC…

[é, gente. é mesmo. é a chamada aragem fresquinha.]

(umeå, fevereiro05)

… outras formas de se ser Primavera...

(umeå, maio06)

… o divino…

(umeå, junho05)

… a saudade…

(umeå, novembro06)

… a minha poçinha de água privada...

[OU outras formas de se ser Primavera parte II]

(nydala, maio06)

… os reencontros rápidos & o sabor das derrotas amargas…

[então vamos lá rever a matéria dada: contra a frança, não, PORRA! contra outro qualquer, pode ser? mas contra a frança, NÃO!]

(terra do demo, julho06)

[ó Q&F, tens ensaiado a coreografia? vê lá isso, não me deixes ficar mal.]

[e por falar em coreografia, ó Q&F: ouvi dizer que tu, a Super-Olé e o ZéCoelhoGrande foram fazer uma visitinha ao estádio do braga um destes dias... diz que é giro, diz. diz que tem uma vista bonita: muuuuuuuuitos calhaus. ai diz, diz...]


… diferentes formas de olhar a vida…

(bjurholm, julho06)

… veículos alternativos e não poluentes

[e agora, ah? como é que eu me safo desta?]

(umeå, março05)

… o sol (d)à meia-noite (na minha poçinha de água)…

(nydala, junho06)

… e, finalmente, a amizade…

[xiiiiii... conheço uma pessoa que é MUITO ciumenta e que vai ficar MUITO danada com esta última fotografia...]

(umeå, julho05)

[pai, mãe: aquilo ali nos copinhos é água, ah? da torneira.]

[da torneira. pois. cheira-me que desta vez não vou ter o casalinho do costume à minha espera no Francisco Sá Carneiro.]

[ou então vou. braços cruzados e cara de maus: quem és tu e o que é que fizeste à nossa filha?]

[comi-a. soube a pato. a pata, neste caso.]

[ó caty: olha que aquilo da fotografia e dos ciúmes ali em cima era brincadeirinha, ah? agora vê lá, não te vás armar em caprina e fazer uma vingança qualquer relacionada com a distribuição de quartos para a passagem de ano. lembra-te que me adoras e que estás cheia de saudades minhas. isso, lembra-te disso. tu num te desgraces, melher! tu num te desgraces!]

[pronto, pronto: já me calei.]

[ou então não.]

[olhem para mim, ainda aqui estou.]

[pronto, pronto: é só mesmo mais uma coisinha e eu já me vou embora.]

Se tanto me dói que as coisas passem

É porque cada instante em mim foi vivo

Na busca de um bem definitivo

Em que as coisas de Amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[era só isto.]

Nota final (facultativa, gente… os que já não tiverem mais capacidade cerebral para me aturar podem sair):

ontem fiz o upload do meu telemóvel para a versão natalícia. agora, sempre que um de vós me telefona, eu começo a ouvir a Ella Fitzgerald a cantar rudolph, the red-nosed reindeeeeeeeeeer.

[se eu demorar muito tempo a atender é porque estou com um ar estupidamente feliz, a balançar-me para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo, e a cantar com el(l)a: rudolph, the red-nosed reindeeeeeeeeeer.]

[se eu não atender de todo é porque não me consigo MESMO fartar disto.]

rudolph the red-nosed reindeeeeeeeeeeer/ had a very shiny noooooooose/ and if you ever saw it/ you would even say it glooooooooows!!

[palavra de honra: é que foram os dois euricos mais bem gastos dos últimos tempos.]

há coisa de 3 semanas atrás, tinha eu acabado de entrar na minha toquinha (exausta, ao fim de mais um dia inteiro a trabalhar para o PIB nacional) quando, num olhar de relance para o chão, percebo a presença de um rastejante que, muito cheio de propriedade e senhor dos seus domínios, atravessava alegremente a minha entrada mesmo debaixo do meu narigão.

[é que, c’um estupor: se eu tivesse um narizinho assim queridinho, como o do Michael Jackson, que além do mais está literalmente a cair de podre, ainda estou como o outro. agora, debaixo do MEU narigão... é preciso lata. muita lata mesmo]

descrição científica: tinha muitas patinhas e era daqueles que fazem CROUCH quando se lhes põe o pé em cima. eu ainda olhei em volta a ver se o meu pai não aparecia de algum canto a voar, com um S vermelho no peito e pronto a salvar aqui a donzela.

[agora vou ter que interromper o relato porque me lembrei de outra história que mete bicheza estranha e que também merece ser contada. chega uma gaja a casa dos pais em finais de agosto, fresquinha da Suécia e perfeitamente arrasada depois de não sei quantos meses de trabalho intensivo, deita-se na sua rica caminha com o seu colchãozinho ortopédico, fecha os olhinhos e prepara-se para dormir, quando um som misterioso vindo das profundezas do cama rompe o silêncio nocturno: REC REC REC. ó diabo. abri um olho. outra vez: REC REC REC. abri o outro olho: REC REC REC. dei um salto da cama: REC REC REC REC. “então, mas...?!”. arrastei um bocadinho a cama a medo e espreitei (REC REC REC) mas não vi nada. “c’um estupor... eu dou-te já o reco, dou!”. é nestas alturas que uma rapariga revoltada viaja 10 anos para trás no tempo (eu disse 10? 20!), atravessa o corredor perfeitamente esgazeada, entra no quarto dos pais às tantas da matina e diz: “ó pai, ó pai, acorda! tenho um bicho na minha cama!”. e o meu pai, a esfregar os olhos: “que se passa, catarina?”. “é um bicho, pai! é um bicho! e faz REC REC REC!”. o meu pai levanta-se, veste o roupão de super-homem, atravessa o corredor no sentido inverso atrás de mim, entra no meu quarto e... “shhhh... vais já ouvi-lo, não faças barulho!”, pensava eu. MAS NÃO É QUE O KATSOURANIS DO BICHO SE TINHA CALADO?! “eu juro, pai: era REC REC REC!!”. e quanto mais eu, em perfeito desespero, repetia estas palavras, mais o meu pai me tratava com a tolerância reservada aos maluquinhos psiquiátricos: “claro que era, filha. claaaaaaaro que era...”. conclusão: nessa noite fui dormir para outro quarto. no dia seguinte, o meu pai encheu com insecticida um buraquinho da parede do meu quarto donde sai um cabo que alimenta o candeeiro de leitura nocturna e tapou-o com uma rolha de cortiça. sempre comigo atrás a dizer: “eu juro, pai: era REC REC REC!!”. “claro que era, filha. claaaaaaaro que era...”.]

retomando, então, o relato: claro que o pai com o S vermelho não apareceu de lado nenhum, pelo que eu respirei fundo, fechei os olhos, pensei que há uma primeira vez para tudo na vida, e pus delicadamente o pézinho esquerdo em cima do rastejante. a seguir levantei-o, a medo, e espreitei o que eu julgava ser o bicho já morto. mas qual morto? dava ali ao rabo debaixo do meu narigão, feliz da vida. “tu deves achas que eu sou o Michael, deves, deves…”. TUNGAS: acertei-lhe em cheio com a pata em cima. qual quê? o rastejante volta-me a surgir de sob a minha bota, calmo e tranquilo, como se não lhe tivesse acabado de cair um torpedo em cima. é que nem manco estava, o filhinho da mãe dele. foi então que se fez luz. eu já vos tinha dito que tinha acabado de chegar a casa? pois é, ainda tinha calçadas as botas de exterior, as tais que são anti-derrapantes por causa do gelo que se forma nos caminhos nesta altura do ano. anti-derrapantes é como quem diz “com muito labirintos na sola”, pelo que bastava o bicho ter a sorte que calhar num desses desníveis e estava safo. ora pois: se a probabilidade é baixa, aumentam-se as tentativas.

nisto passa o meu vizinho da frente (sim, eu ainda nem tinha fechado a porta da entrada) e pergunta-me, muito admirado: “porque é que tu estás aí aos saltos?”, ao que eu respondo, já em desespero: “É UM BICHO! AJUDA-ME!”, e aponto-lhe o rastejante, ainda vivinho da silva, a passear na minha entrada. o rapaz, solidário, já lhe ia pôr o pé em cima, quando eu volto a gritar “NÃO! Não o mates: pega nele e põe-no lá fora.” e o rapaz, já desorientado: “então, mas… ainda há 30 segundos atrás estavas tu aos saltos em cima dele com um esgar assassino no rosto e agora não queres que eu o mate?!”. eu devia ter passado logo à explicação rápida do essencial, que uma coisa sou eu outra coisa é ele, gajo, e portanto com toda a obrigação de ter tomates suficientes para pegar no bicharoco sem lhe atentar à vida, mas fiquei presa ali na parte do “esgar assassino”. é que o rapaz é advogado. portanto vá de explicar que não senhor, assassínio não, quando muito legítima defesa, quando muito estado de insanidade mental temporário, quando muito homicídio involuntário, assassínio é que não, não me lixes. claro que o rastejante deve ter pensado que a conversa não lhe estava a cheirar propriamente muito bem, porque se escapou muito de fininho entre o rodapé e a parede e não voltou a mostrar a fronha.

isto até ontem de manhã. ontem de manhã acordei a horas bastante indecentes. isto porque alguém muito pouco caridoso se lembrou de marcar uma reunião do departamento para as 8:30 da matina. não, é que eu já nem falo da solidariedade para com os colegas do sul da Europa, mas então… e o respeito por essa grande instituição que se chama Champions League? nada. vivemos em tempos obscuros. enfim, adiante. tinha eu acabado de sair do banhinho, vou a atravessar a casa de banho em direcção ao quarto, quando o vi: lá estava ele, a caminhar com as suas patinhas todas, feliz e contente da vida. quase que juro que o ouvi dizer: “então, Michael, isso vai?”. eu respirei fundo: pai com um S vermelho no peito está complicado; ir enrolada na toalha a estas tristes horas bater à porta do vizinho da frente é capaz de ser chato (por acaso até nem era: é que os suecos acordam muito cedo, mas enfim, na altura não me lembrei disso); portanto a modos que vou ter que ser eu a tratar do problema. “pssssssst! ó tu!”.o bicho parou (juro!) e ficou a olhar para mim (agora ia dizer “juro!” outra vez mas, a bem dizer, não tenho bem a certeza desta última parte). e eu então expliquei-lhe a minha ideia: que e tal, a toca até dava para nós os dois – ambos pequeninos e jeitosos – desde que nenhum de nós tivesse a peregrina ideia de se desatar a reproduzir estupidamente. eu não sei se o bicho entendeu ou não, mas espero que sim. ele foi à vida dele e eu fui à minha. ainda só passou um dia e meio, mas estou convencida que ambos vamos ser capazes de respeitar o pacto de não reprodução.

há que ver o lado positivo da coisa: ao menos este não faz REC REC REC.

(eu juro, pai! eu juro!)

Nota final (ah?! já tinham saudades ou quê): hoje o sol levantou-se às 9:06am e pirou-se às 1:53pm.

(isto a confiar nos senhores da metereologia. pela parte que me toca, esteve escuro todo o dia.)

… só ali, num instantinho, dar uma passeio nas estrelas?

(olha, anna: são os nossos pézinhos, os meus e os teus, no nosso rio, em setembro deste ano.)

então e…

… se levássemos algumas palavras cantadas (para o caminho)?

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[assim como assim, amanhã é outra noite.]

somos seres estranhos. saídos, literalmente, de um mundo de ficção (da científica): é o meu mundo. o que de nele há estranho, de maneira geral, passa por mim e segue em frente sem que eu lhe peça a identificação.

[nas minhas inúmeras viagens Porto-Aveiro (yo, Serras! tudo em cima?) a famosa região de Cacia consegue sempre despertar em mim o mesmo pasmo. será que é possível a sobrevivência humana sob semelhante fedor? a biologia diz-me que nós temos um número limitado de receptores olfactivos na penca e que, quando todos eles se encontram ligados ao mesmo tipo de partículas, cria-se uma situação de saturação em que o cérebro perde a sensibilidade àquele cheiro. se a biologia o diz, eu acredito. deve ser por isso que, geralmente, e no dia a dia, não reparo nos comportamentos estranhos dos que me rodeiam no trabalho. tenho os receptores da anormalidade saturados.]

mas às vezes, apanho uma nave espacial e ponho-me a olhar para o meu mundo em órbita. inevitavelmente, a mesma conclusão aterra em mim: nós constituímos um caso sério de psicose da sociedade moderna. nós, os cientistas, bem entendido. e as reacções são tanto mais reveladoras de um grau mais ou menos crescido de esquizofrenia, quanto maior a frustração e/ou a ansiedade profissional.

quando algo lhe corre mal no laboratório, o tobias francês que partilha comigo o gabinete senta-se com as costas muito dobradas na sua cadeira, arranca uma folha de papel em branco, e desata a desenhar gráficos de barras. à toa, em todas as posições possíveis e imaginárias, uns grandes outro pequeninos, sem qualquer indicação ou legenda: são uma série de sistemas de eixos com barras não identificadas, a subir e a descer ao sabor da maré.

há uma tobecas do andar acima do meu que, quando o desespero aperta, corre para o gabinete dela, coloca os headphones num volume pouco aconselhável, e fica sentada, olhos vidrados no monitor (que entretanto activa o screen saver), a ouvir repetidamente uma música cujo refrão é um muito-sensual-muito-profundo “where’s da love, baaaaaaaaaaabe”.

um certo tobias, que por sinal parece uma pessoa extremamente calma, controlada e sempre com um sorrisinho simpático no corredor, extravasa a raiva atirando o rato contra a parede. diz que este ano já foram 3 ratos para o estaleiro.

[nota: finalmente percebi a inteligentíssima invenção dos ratos wireless. nunca me pareceu fazer grande sentido, já que não há grande utilidade em deixar o pc na sala e levar o rato para a casa de banho. assim como assim, o jornal sempre é mais divertido e, em caso de extrema necessidade, poderá mesmo ser útil. mas ok, dou o braço a torcer: a rataria wireless efectivamente tem uma função fulcral: podem ser violentamente esparramados contra a parede quando a vida não nos agrada. um fiozinho ligado ao computador poderia parar o voo no momento H. era chato. pois claro que era.]

um outro tobias, já com uma idade que parece fazer vénias à reforma, quando em desespero laboral encaminha-se para a sala comum. tira um café da máquina, segura a chávena com a mão esquerda, e põe-se a circular à volta de uma das mesas redondas com os olhos fixos no café como se no fundo da chávena se encerrassem todos os grandes mistérios da vida. uma vez contei 17 voltas. e nem um único gole no café.

temos uma tobecas chinesa que, perante um resultado menos esperado, abandona o laboratório em desespero, corre para o seu gabinete, senta-se na sua cadeira, olha para as mãos (que, entretanto, se contorcem compulsivamente) e começa a repetir: “it’s allright.it’s not that critical.” as palavras not e that são entoadas DEVAGAR e ALTO. diz um tobias que partilha com ela o gabinete que já a ouviu a repetir a frase 31 vezes na mesma sessão.

quando acho que já chega e desço de órbita, lembro-me sempre da segue-me à luz, dos Pluto:

ser tão perfeito é ser só uma metade
e ninguém imagina o que te passa no fundo.
estranho quando dou por mim num mundo bizarro,
e mais ainda quando lá o mais bizarro do mundo sou eu.

pois. aaah, pois.

Nota-final-que-para-variar-não-tem-nada-a-ver-com-o-resto-do-post:

antes de escrever isto fiz um pesquisa para tentar encontrar o famoso cantor da “where’s da love, baaaaaaaaaaabe”, cujo nome nunca me consigo lembrar, mas só me surgiram resultados para a “where is the love” do BEP e dos Hanson (e não é nenhuma dessas). eu cocei o cérebro: Hanson? ah, Hanson! pois claro. eu já tinha confessado que possuía fases deveras obscuras nos meus gostos musicais: 2 cds dos Hanson, que agora devem estar entalados algures entre os boyzone e os ace of base, incluem-se neste grupo. mas não é que, algures nas minhas buscas, dei com os rapazinhos nesta curtição:


primeiro, só conseguia que a Hormona articulasse duas palavras: “blooooooooody gorgeous!”. depois, lá consegui que o Neuronito tomasse conta da situação e classificasse a música como “bastante aceitável”. espera lá: eram mesmo estes os adolescentes com cara&cabelo de menina e voz em formação que oscilava entre o eu-sou-muito-macho e o esganiçado-que-mete-pena que andavam por aí a cantarolar mmm bop, ba duba dop, ba du bop? ena ena. os rapazes comeram muita sopinha. olhem-me só como eles estão crescidinhos. e que bom aspecto. upa.

upa, upa.