Monthly Archives: November 2006

hoje aconteceu-me uma coisa verdadeiramente fenomenal. sério. palpita-me que a lua anda metida nisto, mas ainda não tenho a certeza absoluta. enfim, passemos aos factos: hoje fui almoçar à baixa. tinha precisamente acabado de me sentar na minha mesinha (com vista para a praça central) quando ouço, via sistema sonoro do dito cujo restaurante, o início da good riddance. sim, sim, a música cujo clip espetei no último post e que não ouvia (juro!) há coisa de 6/7 anos. ui.
isto significa
(lógica simples, pura, daquela que se aprende nas aulas de filosofia do liceu)
que se eu hoje postar aqui uma fotografia do Raul Meireles
(o tal que é meu-futuro-marido-mas-ainda-não-sabe)
amanhã o homem cai-me no prato à hora de almoço.
e o que está no prato tem que se comer, tudo até fim, porque há crianças a morrer de fome não sei onde que são capazes de ficar muito lixadas (com F grande, eu diria) se a gente não come a sopa toda.
(palavra de honra que nunca percebi que raio de… mas divago, perdoem-me)
estive tentada. confesso que sim. mas depois pensei melhor: vamos com calma. quando:
- eu estiver velha, gasta e acabada e tiver olheiras até aos pés (hoje em dia elas acabam mais coisa menos coisa a nível do umbigo);
- eu aprender que existe todo um mundo nos supermercados para além do corredor das massas;
- eu conseguir NÃO fazer um sorrisinho parvo quando me pedem a identificação para confirmar que eu efectivamente tenho mais de 18 anos;
- eu perceber que se de manhã deixar as calças do pijama em cima da mesinha de cabeceira e a t-shirt do pijama no chão a meio caminho entre a cama e a casa de banho, é exactamente nessa posição que elas vão estar quando eu regressar à toca umas horas depois, e que portanto as ditas cujas peças não têm perninhas e não conseguem deslocar-se até debaixo da almofada e dobrar-se sozinhas como gente crescida;
- eu compreender que caminhar sozinha pelo meio da floresta a falar baixinho pode realmente assustar algumas mentes mais limitadas;
- eu conseguir fazer uma lista de supermercado em vez de optar pela velha estratégia vou-circulando-pelos-corredores-quando-vir-algo-que-preciso-lembro-me;
- eu olhar para uma peça de roupa e procurar primeiro o preço em vez de me pôr a pensar “será que isto é preciso passar a ferro?”;
- eu me convencer que é efectivamente possível amar alguém que fuma e/ou dá erros ortográficos;
então sim.
então serei uma mulher crescida e completa, devidamente preparada para o matrimónio.
e, nesse dia, posto uma foto do Raul. até lá, o rapaz pode ir para os treinos sossegado.

mudando de assunto: ouvi dizer que, em cantos menos produtivos aí do sul da europa, amanhã é feriado. assim sendo, e para não parecer que eu tenho mau feitio, cá ficam os meus desejos para todos vós:


(umeå, nov06)

[vou-me embora que já devo ter dito suficiente para meia-dúzia de hate mails.]

PS: sou só eu que, quando recebo um e-mail profissionalmente elogioso assim logo a seguir ao almoço, fico com uma vontade quase incontrolável de me transmutar num são bernando gigante, deitar-me no chão com as 4 patas para cima e ficar ali a tarde inteira a babar-me à brava e à espera que as pessoas me venham fazer festinhas na barriga?

post-it mental (para quando eu for chefe): só mandar e-mails profissionalmente elogiosos à noite. durante as horas de trabalho é contra-producente.

Posted by Picasa

a Sophia. o mar ali tão perto. a Mafaldinha e os amigos. gente que diz carago, pá! muitas vezes ao dia. os miosótis. os Novembros com muita chuva. o Eugénio. [coisas que cresceram comigo.] os Simpsons. o FCP. os verões muito quentes. a música.

sim, a música.

com algumas fases mais obscuras do que outras (no que a gostos musicais diz respeito) a música esteve sempre presente. nos momentos mais estranhos da minha vida, há sempre uma qualquer parte bizarra algures na cauda do meu neuronito que imediatamente faz uma busca exaustiva pela base de dados (continuamente renovada) e escolhe a banda sonora mais apropriada para a dita cuja situação. como diria o outro: estranho mas verdade.

há músicas que passam, outras que ficam. outras que deixam fragmentos colados às paredes do cérebro, tipo aquele esparguete irritante que fica sempre cimentado no fundo do tacho que foi usado para o cozinhar. eu tinha 12 anos (só 12 anos) quando ele me apareceu. e cantava assim: are you locked up in a world that’s been planned out for you? are you feeling like a social tool without a use?. isto era no tempo em que eu gritava em silêncio, efectivamente. não posso dizer que ele me tenha tornado a adolescência (já de si com doses de acne capazes de danificar qualquer auto-estima em formação) mais fácil. na verdade, não posso dizer que ele me tenha tornado a vida mais fácil. as palavras voltavam, decisões impossíveis, vezes intermináveis, Are you?, e nem sempre era fácil responder.

hoje de manhã, sol. entre nevões, chuvadas e noite cerrada às 2pm, deviam-se contar umas 3 semanas desde a última vez que lhe pus a vista em cima. como se não bastasse, o traste agora lembrou-se de jogar às escondidinhas. ele aparece, lá isso aparece, mas não se dá ao trabalho de trepar muito no céu: fica por ali, rentinho à linha do horizonte, pronto para dar às de vila diogo imediatamente logo que se esgotem as suas (curtas) horas de expediente. tipo funcionário de repartições públicas. hoje de manhã eu senti-o. cheirei-lhe a luz. mas não o vi. o gajo andava para lá, primeiro escondido atrás de uns edifícios, depois escondido atrás de uma floresta, depois escondido atrás de uns edifícios outra vez. sabem aquelas pessoas que carregam no perfume (tipo os franceses), e vocês apercebem-se da presença delas muito antes de as verem? ele estava lá, a luz dele estava em todo o lado, eu só não lhe tinha ainda visto a fronha. enchi-me de brios: hoje não me escapas! e lá vai ela, atravessar o campus inteirinho até ao outro lado, só para poder ver a bola redonda e amarela que teimava em esconder-se atrás de qualquer coisa. arzinho frio na cara, dei por mim a pensar

(cuidado que vem aí frase pirosa)

nas voltas que a vida dá.

(eu avisei)

aos 12 anos ainda não tinha decidido se, quando fosse grande, queria ser cientista ou escritora. há 6 anos atrás, ainda não grande mas já decidida, era caloira de biologia e percorria orgulhosamente as ruas do Porto com umas orelhas extra na cabeça e uma rata pendurada ao pescoço (BI-O-RA-TAS! BI-O-RA-TAS! BI-O-RA-TAS!). na altura (e 6 anos, assim escritos, parecem tão pouco tempo) imaginava que a ciência, um dia, me traria para fora de portas. e sentia-me com coragem para enfrentar o que fosse preciso. em nome da ciência, sempre. não podia imaginar onde era o “fora de portas”. nem sabia que existia uma cidade carinhosamente tratada por cidade dos bidoeiros. acima de tudo, não sabia que o que na altura me parecia um sacrifício a cumprir em nome da Ciência acabaria por ser o oposto do sacrifício. um renascimento inteiro. a ser cumprido em meu nome. e em nome da ciência. também. qual fantasmas antigos, aquelas palavrinhas voltaram a assaltar-me: are you locked up in a world that’s been planned out for you? are you feeling like a social tool without a use?.
assim de repente, é difícil ter certezas.
mas eu sei onde estou. estou a atravessar um campus (com o barulhinho do gelo a quebrar debaixo dos meus pés) porque acho que do outro lado consigo ver o sol. e tu? tu vendeste a alma à MTV, pintaste o cabelo de amarelo histérico, andas por aí a a chorar que te acordem quando setembro terminar e o teu hit passa 20 vezes ao dia na Rádio das Grandes Músicas (Lungdar Favoriter, na versão sueca). é que palavra de honra: se era para isso, ficavas caladinho… eu já tinha acne que chegasse e tudo.

assim, e bem vistas as coisas, eu diria que está 1-0. e ganho eu.

mais tarde, já a caminho da toca, lembrei-me daquela outra música que lançaste, corria já o ano de 97. assim que cheguei, fucei no youtube até a encontrar. lá estava ela. não a ouvia há quanto tempo, 6/7 anos? não sei. mas cantei contigo as palavrinhas todas. e quase me deu vontade de te dizer volta, estás perdoado: anda filho, acorda que setembro já terminou, dá-me daí a tua mão e vamos espreitar o sol antes que ele se esconda outra vez.


afinal de contas, it’s something unpredictable, but in the end it’s right. I hope you had the time of your life.

Adenda: este post foi escrito ontem, quando efectivamente houve sol que se visse (curtas horas, mas houve). não foi postado na devida altura por motivos que se prendem com a exterminação de uma viralhada muito ranhosa que se introduziu aqui no putáti via frestas da minha estupidez.

adiante: hoje o céu esteve carregadinho de nuvens (daquelas muito pouco translúcidas) e esteve escurinho todo o dia. pelo que aqui a bióloga teve que arranjar outra maneira de iluminar a manhã, e nada como começar logo por gozar com o tobias francês que partilha com ela o gabinete.

[“a bióloga”, “com ela”... ópramim a falar na terceira pessoa! até pareço um jogador profissional de futebol. ena ena.]

eu: goooooooooooood morning, sunshine!

tobias: como? deves estar a gozar comigo… já viste a merda de dia que está?

[tenho a certeza que, para o comum francês, o acto de protestar&ranhosar a torto e direito funciona assim como uma espécie de masturbação mental.]

eu: vá, que mau feitio, anima-te lá! já te disse que tens uma camisola muito gira?

tobias (a olhar, orgulhoso, para a camisola): é, não é? também gosto. comprei-a há pouco tempo.

eu: foi? até era capaz de ser uma prenda de natal interessante para o meu irmão, mas… diz-me uma coisa: onde compraste essa não fazem mesmo modelos para homem, fazem?

[velhinha, velhinha. gasta e batida. mas é das tais coisas. olhem, é como quando o FCPorto ganha o campeonato: por muito que se repita vezes e vezes sem conta, continua a ter piada.]

PS. mas afinal de contas, pode-se ou não se pode dizer merda na internet?

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

(Madrid, jul06)

Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa. (Mário Cesariny)

[Mário, Mário. pensava que ainda ia ter tempo para te conhecer melhor, olhar-te mais fundo do lado de dentro dos teus olhos. perdoa-me, Mário: a gente acredita sempre que atrás do tempo há-de haver Tempo para sermos nós. e agora foste sozinho para casa e eu não te dei a mão. mas, Mário: os poetas morrem na Primavera. até na hora da morte foste uma palavra surreal.]

E o poeta morreu.
A sombra do cipreste pode enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito no chão
Da aventura celeste.

Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão ninguém pode
Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.

Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Uma rima perdura
A dizer com brandura
Que um poeta não morre.

Miguel Torga

Posted by Picasa

… sabem aquela frase de engate muito-típica-muito-batida do ah e tal eu já não te vi antes?

pois.
a partir de hoje, os primatas que completarem a tentativa anterior com um extremamente bem observado e acutilante mas claro, é tão evidente, foste tu que ganhaste a Fórmula 1 em 97, não foste?, vão ganhar a noite.

aaaaaah, pois vão.

[uma adolescência inteira mergulhada em complexos altamente limitadores e, páginas tantas, vem uma gaja a descobrir que afinal até é parecida com a Demi Moore. a vida é cómica. tragico-cómica.]

vantagens de se viver num país nórdico.

este fim de semana comprei uma coisinha felpuda. fofinha. cheia de pelinho. daquelas que dá vontade de esfregar a bochecha esquerda e fazer “mmmm”. não, não tem 4 patas e, que eu tenha reparado, não ronca. na verdade, é uma protecção para o selim da bicicleta. sim, que o meu veículo é descapotável. e o meu lugar de estacionamento privativo é descoberto. pelo que, em noites de chuva/neve, aquela sensação de frescura ali bem ao fundo das costas logo pela manhã era muuuuuuito lixada. coisa para uma gaja, por muito bom feitio que tenha, lançar logo assim meia dúzia de impropérios à queima-gelo. vai daí, comprei uma coisinha felpuda. fofinha. cheia de pelinho. tem um elástico a toda a volta, adapta-se ao selim e cá vai disto. e o rabinho? sequinho, sequinho. qual fralda dodot qual quê.
além do mais, é uma sensação bestial: parece que estou a pedalar sentada em cima do meu gato.

e perguntam vocês: mas afinal, no meio disso tudo, onde está a grande vantagem de se viver num país nórdico?
elementar, meus caros: só num país nórdico é que eu posso sair à rua com a coisinha felpuda (e olhem que é mesmo muito felpuda) devidamente colocada no selim sem que ninguém olhe para mim como se eu tivesse uma larga corrente de ar a atravessar-me o cérebro bem pelo meio dos dois hemisférios.

bem.

pelo menos, não por causa da coisa felpuda.

desvantagens de se viver num rés-do-chão.

é tramado. especialmente para uma pessoa que tem a tendência absurda de se esquecer que tem a persiana aberta e a cortina corrida para a esquerda. muito tramado mesmo. está uma rapariga honesta e de boas famílias a rodopiar elegantemente ao som de “The Pop Singer’s Fear Of The Pollen Count”, quase quase a chegar ao seu momento de glória I’m in love with the summeeeeeertimeee… quando sente um baque e espreita disfarçadamente por baixo do ombro (e por cima da anca). claro que, do outro lado da janela, 3 nativos: todos muito risonhos e muito divertidos.

quando for grande quero viver nas nuvens.

uma questão de profissionalismo.

tobias: foi impressão minha, ou o fulano da “loja química”
[nota: “loja química” é, como o nome indica, o local onde vamos comprar e/ou encomendar os reagentes e materiais de laboratório.]
estava-se a atirar a ti?
eu: foi impressão tua.
tobias: NÃO, NÃO FOI.
eu: que mania: se já sabias a resposta porque é que perguntaste? de qualquer forma, não sei qual é a novidade: se tu fosses portador de dois cromossomas x, mesmo com essa barba toda, ele tratava-te exactamente da mesma maneira.
tobias: isso é capaz de ser verdade. agora: foi impressão minha, ou tu estavas a dar-lhe trela?
eu: foi impressão tua.
tobias: NÃO, NÃ…
eu: pronto, pronto, ok! cala-te lá um bocadinho. eu só estava a agir profissionalmente.
tobias: perdão? estavas o quê?!
eu: estava a ser profissional.
tobias: então mas…
eu: eu explico. quanto tempo é que as tuas encomendas demoram a chegar?
tobias: o normal: semana, semana e meia, porquê?
eu: porque as minhas demoram 3/4 dias.

[eu já ia lá no fundo do corredor, mas achei por bem voltar para trás. só para lhe explicar, assim muito devagarinho, que isto de maneira nenhuma compensa as fortíssimas contrações uterinas que eu tenho que aturar de 21 em 21 dias.]

[assim como assim, não fui eu que criei o mundo. foi ele que me criou a mim.]


Nota final: sabem aquela coisa amarela, redonda e brilhante que existe lá em cima no céu?
pois.
eu não.

[ainda bem que eu tenho luz própria.]
[eheh. eu às vezes sou mesmo engraçadinha, não sou?]


PS: por falar em engraçadinha: aquela história da coisa felpuda era muito mais engraçada se ontem à noite não me tivessem roubado o selim da bicicleta.

e, por favor: se quiserem fazer piadas, façam-nas inteligentes.

as fáceis tive que as deglutir todas hoje ao almoço, entre cada duas garfadas de arroz de frango.

tramaram-me.

e em grande.


com isto:

Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do “recrutamento”. Ademais, cada participante deve reproduzir este “regulamento” no seu blogue.

[eu gosto da parte do Ademais.]

ora seja.

só para não dizerem que eu tenho mau feitio, vamos lá ao enunciado das ditas cujas.

1. adoro andar descalça. inverno ou verão, interior ou exterior, adoro sentir todas as texturas de cada chão debaixo dos meus pés. será, porventura, algum gene transviado de felino. mas quando me calço, sinto que perco o contacto com o planeta terra.

2. sou, por natureza, uma roedora incorrigível. em miúda, roía tudo lá em casa. e “tudo” inclui as grades de madeira da minha cama de bebé, os estofos do carro dos meus pais, as cadeiras da sala… “tudo” o que a minha cabecita alcançava ficou marcado pelos meus dentinhos de leite. eventualmente cresci, e tive que passar a roer coisas politicamente correctas: as unhas, pois claro.

[ainda me lembro de em quantos cacos se desfez o meu coração quando deixei de conseguir chegar com os dedos dos pés à dentadura. o kalimero é que a sabia toda: life’s unfair, it is!]

aos 22 anos, e depois de muita unha arrancada à dentada (literalmente), achei que era tempo de iniciar uma nova fase da minha vida.

ainda tenho recaídas, é certo.

mas estou orgulhosa de mim.

como mecanismo de compensação, é rara a noite em que não levo uma maçã comigo para a cama e a fico a roer, bocadinho a bocadinho, enquanto leio um livro.

[tenho a certeza que qualquer bom psiquiatra seria capaz de explicar este comportamento. eu é que não estou muito interessada na explicação. vá-se lá saber porquê.]

3. fazer médias. que querem, tenho a mania de fazer médias a propósito de tudo e de nada.
[a propósito de nada, essencialmente.]
se algumas médias se revestem de alguma utilidade prática, como por exemplo o consumo aos 100 do meu katemobile, outras são completamente desprovidas de senso comum. do tipo: no sábado passado cheguei à brilhante conclusão que nos 16 dias anteriores tinha deglutido chocolate à espantosa velocidade de 2,456167 gramas/hora.

[neste preciso momento trabalho arduamente para melhorar esta média. novos boletins informativos assim que se justificarem.]

4. quando conduzo, só a mão esquerda é que segura o volante. a mão direita está a dominar o manípulo das velocidades (caso esteja em povoações) ou pousada na perna direita (caso esteja em auto-estrada). este mau vício foi adquirido em homenagem ao mamífero que me deu aulas de condução. o dito cujo animal, que nunca foi capaz de aprender o meu nome ou de me ensinar a conduzir, só levantava os olhos do Record durante as aulas para me corrigir a posição das mãos no volante: “um bocadinho mais separadas… não, tanto não, 2 cm mais juntas… isso, está óptimo”. muito útil, sim senhor. sempre que me sento no katemobile, imagino o caprino a ocupar o lugar ao lado do meu. e ponho, em jeitinho de provocação, uma só mão no volante. e lanço-lhe uma olhadela lateral, daquelas do mais puro desprezo: olhe para mim agora, senhor leitor do record, veja lá quantas mãos a carina-cristina-cátia precisa para conduzir.

[nunca teve a mínima confiança nas minhas capacidades de condutora, aquele noddy. ah, se ele me visse agora, se ele soubesse que eu sou a catarina alonso da vci...]

5. passo a vida a fazer negócios obscuros com o destino. agora. se eu ultrapassar aquela rapariga antes de chegar à passadeira. se aquele pássaro não levantar vôo quando eu abrir a janela. se o microondas fizer PLIM antes de eu me sentar. se só houver 3 pessoas na fila para o café. se a próxima música for do nick cave. se existirem 7 pacotinhos do meu chá preferido na caixa. se ele estiver a olhar para mim quando eu olhar para ele. se estiver a nevar quando eu chegar lá fora. se o tobias tiver vindo com aquele gorro horrível que o faz parecer um estrumfe. agora. se…


e finalmente, a parte gira da coisa: tramaram-me, mas eu tenho o direito de tramar mais cinco. e após apurada reflexão, escolho: a claque dos alfacinhas (besugo, joão e eumesma), a eunice e o mano.

ah, pois. olho por olho, mania por mania.

e já que estou numa de spam bloguístico…

é impressionante a quantidade de testes que existem na internet com o objectivo de explorar as mais variadas facetas da personalidade de cada melro que se dá ao trabalho que os preencher. alguns exemplos: What Kind of Food Are You?: What ethnic food best fits your personality? What Is Your Seduction Style?: How do you melt someone’s heart? What Do People Think Of Your Face?: Learn how people judge you based on your face.

pois eu, já que sou especial (a tal história do nasceste-quando-só-a-lua-estava-acima-da-linha-do-horizonte) descobri o único teste que realmente vale a pena ser feito e cujo resultado pode efectivamente propiciar novas linhas orientadoras à vida de cada um:

qual dos moscãoteiros és tu?

o meu resultado:


Which Muskehound are you?

You’re Juliette! You might look as if butter wouldn’t melt in your mouth, but in fact you’re brave, clever and resourceful. Friends know they can trust you with their most important secrets; enemies underestimate you at their peril.

mas, mas… eu queria ser o dartacãããããããããããããããããããããão!

damn it!!

NOTA FINAL 1: este post foi escrito ontem à noite, mas o blogger estava com os azeites e não me deixou postar.

NOTA FINAL 2: mas que grande jogo, CARAGO! estou tão orgulhosa dos meus meninos! those are my little boys…:’)

Viva o espaço que me fica pela frente
E não me deixa recuar

antes de mais, convém esclarecer: a música é uma eterna vibração de corpo aéreo na minha vida.
que é como quem diz: sou músicodependente.
que é como quem diz: devoro música à mesma velocidade com que as minhas células devoram ATP.
que é como quem diz: o meu silêncio tem que ter música. quando não tem música, não é silêncio. é depressão.

esclarecimentos feitos, passemos ao post.
gosto do conceito do i-tunes. palavra que gosto. gosto da facilidade com que posso comprar música numa sucessão de cliques e ideias cruzadas. o cartão de crédito foi introduzido aquando da inscrição na loja, pelo que nem precisamos de nos lembrar compulsivamente que estamos, efectivamente, a pagar por um vício. a conta chegará mais tarde, quando já temos a certeza que a nossa vida nunca seria a mesma se aqueles acordes não a integrassem nas longas noites de inverno. pelo que se encolhe os ombros, num suspiro de inevitabilidade – é o tinha que ser.
mas divago, perdoem-me.

Talvez, um dia me encontre.
Sim, talvez me encontre.

A História Toda (live), Luís Represas. já conhecia as minhas mãos de cor, tantas vezes o acariciei nos meus passeios sem rumo pela Fnac. agora é meu. ainda que não lhe possa tocar, é meu.
gosto do conceito do i-tunes. palavra que gosto.

Mas Deus leva os que quer
Só Deus tem os que ama.

quando eu era miúda, o meu irmão tinha dois volumes gigantes de músicas (acordes e letras) para guitarra. eram fotocópias, já gastas pelo tempo e pelo manuseamento, encadernadas com aquelas argolas pretas e enormes que, eventualmente, começam a perder folhas. aquilo tinha de tudo: de Beatles a Vitorino, tudo o que pudesse ganhar vida às mãos de uma guitarra e uma voz mais ou menos desafinada e sentida. lá para o fim do primeiro volume, em folhas que eu acho que eventualmente o tempo e as argolas pretas e enormes acabaram por perder, estava o 125 azul. quando não estava ninguém em casa (o complexo de cantar mal arrasta-se até aos dias de hoje), eu costumava ir ao quarto do meu irmão. abria o primeiro volume quase no fim e cantava o 125 azul de uma ponta à outra. não sei porquê. nem era das músicas mais requisitadas quando a primalhada se juntava à volta de uma guitarra e dos famosos volumes. cantava sem perceber o que cantava, murmurava as palavrinhas todas do início ao fim, enchia o peito para o que não sabia [não podia] entender.
eram momentos só meus.
a 125 azul.

Sem paredes sem ter portas nem janelas
Nem muros para derrubar.

A História Toda (live), Luís Represas. comprei-o na quinta-feira à noite durante a sobremesa, entre dois gomos de laranja.
[gosto do conceito do i-tunes. palavra que gosto.]
não comecei pelo 125 azul. nem podia. outras palavras, outras melodias, outras almas mais recentes me apelavam ao peito.
Um Caso Mais, tão inevitável como o Inverno em si.

[enquanto for so ternura de verão, eu vou. enquanto a excitação der para um carinho, eu dou.]

Foi Como Foi, foi como não podia deixar de ser.

[dentro do escuro, a alma não se pode ocultar.]

porque as recordações nos decidem os passos, Memórias de um Beijo.

[lembras-me uma marcha de Lisboa,
lembras-me-te
?]

porque a neve lá fora me enche o peito de medidas brancas inacessíveis a quem desconhece a magia da luz completa, Neva Sobre a Marginal.

[o norte foi como veio: sem avisar, sem um gesto. sem dizer se isso lhe dói.]

porque os refúgios são espaços de vida, Da próxima Vez.

[quisemos saber como estavas, se a vida tinha tomado bem conta de ti. ou se a vida teve medo, e eras tu que a levavas refugiada em ti.]

porque o teu sangue ainda me dói, porque o teu sangue me vai doer sempre, Timor.

[lavam-se os olhos, nega-se o beijo. do labirinto escolhe-se o mar. dia 12 vesti-me de branco, que é a cor dos lutos em que não nos soubemos morrer. toda de branco por ti, Ai Timor, calças brancas camisola branca gorro branco cachecol azul clarinho, desculpa, não tinha branco, achei que não te ias importar. calam-se as vozes. toda de branco porque nunca sangraremos bastante o teu sofrimento. da cruz se faz uma lança em chamas. toda de branco que é a cor da mudez impotente, a cor da mudez assustada que fugiu, que te abandonou, Ai Timor, calam-se as vozes. toda de branco, Timor. porque o teu sangue devia ter jorrado das nossas veias, porque o teu suor devia ter queimado a nossa pele, mas que era feito de nós, Timor, que era feito de nós quando o escuro engoliu o dia numa pressa de dor, que era feito de nós, calam-se as vozes, nós fugimos, nós abandonamos-te, nós abandonamo-nos, calam-se as vozes. Ai Timor. e eu visto-me de branco, estúpida, como se o barulho do rasgar da minha alma pudesse chegar aos teus olhos escuros. aos teus olhos cor de terra, cor de vida, cor de abandono. do meio dos corpos, a mesma lama. leito final onde o amor nascia. mas dóis-me tanto, Timor, dóis-me tanto. que às vezes até parece, Timor. às vezes até parece, Timor.
que às vezes até parece que fazes parte de mim.
quando me visto de branco.]

porque nunca se perdem as palavras de quem lhes é íntimo, Perdidamente.

[é ter fome, é ter sede de infinito.]

porque sem magia a vida se gastava nos dedos do tempo, Feiticeira.

[de que fontes, de que águas, de que chão, de que horizontes?...]

e só depois, alma cansada de deslumbramento, olhos cansados de ver o perto ao longe, só depois. 125 azul.

Foi sem mais nem menos
Que me deu para arrancar
Sem destino nenhum.

podia desfazer-me em palavras, mas o que ficasse no chão depois de mim não seria nunca o suficiente para descrever o que senti. quando ouvi a minha vida cantada numa outra voz que não a minha.

O tempo não me diz nada

quando Tori Amos escreveu a Silent All These Years, fê-lo para ser interpretado por outra pessoa que não ela. mas quando mostrou a música ao seu produtor, ele exclamou: estás doida, mulher? isto é a tua vida inteira. mais ninguém pode cantar a tua vida.

Sem pendura, que a vida já me foi dura
Para insistir na companhia.

ele estava enganado. algumas pessoas podem cantar a nossa vida.
eventualmente. mesmo antes de nós a vivermos.

Só que à frente o bailado do calor
Vai-me arrastando para o vazio
E com o ar na cara vou sentindo
Desafios que nunca ninguém sentiu.

nunca vou saber o que me fazia cantar esta música até à exaustão quando era apenas uma miúda. a vida é cómica.quando era miúda, pensava que aos 18/20 anos veria a vida com outros olhos.
depois fiz 18/20 anos, e era a mesma pessoa. os mesmo olhos.
depois fiz 24 anos, e ainda era a mesma pessoa. ainda os mesmos olhos.
ou não.
talvez haja uma diferença.porque dantes, quando eu cantava esta música, não costumava chorar. e desta vez, enquanto a ouvia, água e cloreto de sódio foi tudo quanto consegui ser. tudo quanto consegui existir. nos meus olhos.

Será que existe em mim
Um passaporte para sonhar
E a fúria de viver
É a mesma fúria de acabar.

nunca vou saber o que me fazia cantar esta música até à exaustão quando era apenas uma miúda. a vida é cómica.
mas eu acredito em Deus. às tantas, ele também acredita em Mim.

Foi com esperança
Sem ligar muita importância
Aquilo que a vida quer

porque quando eu tento ser o que a vida quer de mim, tropeço nos meus próprios passos. antes assim, peito aberto à dor e ao espaço. antes assim. antes assim, caminho desenhado passo a passo, na imensidão da neve virgem que acabou de construir um chão.

Entre as dúvidas do que sou
E onde quero chegar
Um ponto preto quebra-me
A solidão no olhar.

sem pendura. porque a vida já me foi dura. para insistir na companhia. são as dúvidas que me preenchem os espaços em branco. durmo com elas, acordo com elas, choro com elas e sou feliz com elas. porque a vida já me foi dura, o meu olhar já não é solitário. as minhas pegadas. na neve.

Curiosamente, dou por mim pensando
Onde isto tudo me vai levar

a mim.

De uma forma ou de outra há-de haver
Uma hora para a vontade de parar

acredito nas horas. talvez. de uma forma ou de outra.

Viva o espaço que me fica pela frente
E não me deixa recuar

obrigada, Luís. por me renasceres numa música.
antes sequer de eu me ter renascido numa vida.

Viva o espaço que me fica pela frente
E não me deixa recuar

Talvez, um dia me encontre.
Sim, talvez me encontre.

(Frankfurt, jul06)

Nota final: hoje o sol teve o intenso desplante de se pôr a andar para além da linha do horizonte às 2:31pm. shame on him!!

PS: tobias 1 – hmmm… não que eu duvide da tua capacidade científica, mas porque é que estás a por essas placas com sementes no parapeito da janela?
eu – pensa lá um bocadinho, ó esperto. quero que as sementes germinem e parece-me boa ideia que elas apanhem um bocadinho de.. luz.. do… err… ok, deixa lá isso.

[adoro fazer as pessoas rir. excepto quando não é de propósito. e lá se foi a capacidade científica para o belo do galheiro.]

PPS: ok, eu juro que vou parar com os posts musicólamechas. eu até tinha uma série de disparates na manga para postar. a sério que tinha. mas este tinha que ser. foi mais forte que eu. em nome da gerência, as minhas desculpas. ou então não, quero que vocês se lixem: não gostam, não comem.

PPPS: ontem, no after-work pub (que, a propósito, é um conceito deveras interessante que tem que ser introduzido o quanto antes aí no IBMC):
eu – mmmm… isto está mesmo bom!… como é que fizeste isto?
tobias 2 – sabes aqueles caramelos de leite que costumam estar por aí? pus alguns na garrafa, enchi até meio com alcool lá do laboratório, pus um cheirinho de leite, enchi até cima com soda, e deixei no agitador 15 minutos.
eu – ah, claro, morde-me!
[no original: yeah, sure, bite me! mas às vezes tem mesmo piada fazer as traduções directas.]
tobias 2 – mas eu estou a falar a sério!!

e estava.

é o que dá confiar em carpinteiros que um dia se lembram “ah e tal, quero ser biólogo” e depois “ah e tal quero tirar o doutoramento” e depois ah e tal publicam dois papers de rajada na Science. se eu não gostasse tanto do rapaz (mesmo), juro que o tentava odiar. mas é-me completamente impossível. além de que aquilo era bom. muito bom mesmo. tipo baileys, mas para gente crescida.

(o cheiro, pai. o cheirinho era bom. porque claro que eu não bebi. pois claro que não. foi o cheiro. mmmmmm, que cheiriiiiiinho.)

PPPPS: ontem, after-work pub. hoje, concerto com um conhecido meu de cá que tem uma banda (mesmo muito boa, por sinal) que toca músicas dos Beatles. fim de semana pródigo em nostalgia, portanto. e, claro, porradas de trabalhinho. amanhã mato-me a alinhar sequências, juro. mas hoje, só hoje, sei exactamente do que preciso. chama-se pista de dança e twist and shout. ou lágrimas, mãos suadas e yesterday.

Posted by Picasa

há coisas efectivamente más na vida. entre elas, e com posição destacada no ranking, surgem as estações de rádio suecas: uma mescla de anos 80, música para incentivar a procriação e (claro!) roxette em doses industrialmente pouco aconselháveis. um verdadeiro vómito, portanto. donde não é raro que o meu acordar, já de si tão belo e harmonioso, se processe ao som de um quase surreal (dadas as circunstâncias) and I say yeeeesssssssss: you look wonderful tonight.

mas hoje não.

hoje foi diferente.

hoje, e para compensar o dia de merda que se seguiu, tive direito a acordar com isto:

[pode-se dizer merda na internet?]

[olha, agora já está.]

I have climbed the highest mountains

[nunca trepei às montanhas mais altas, mas já me senti bem lá no topo: orelhas a roçarem as nuvens. já corri e percorri campos que não sei nomear. já tentei contar todas as estrelas que existem no céu. já cantei “I’ll survive” num karaoke. já me senti desonesta sem ter sido eu a mentir. já subi 31 de janeiro com as lágrimas nos olhos, a alma nos pés, e o coração, que era feito dele? já desci 31 de janeiro devagar, passo a passo, recolher a cada metro o que julguei que não voltaria a ser meu. já tratei gente que dorme nas ruas pelo nome próprio. já fiz festinhas na cabeça de um alce bébé. já fiz festinhas nos cornos (hastes, catarina, hastes) de um alce grandalhão. gostava de dizer que já tinha feito festinhas no focinho de uma alça, mas as gajas não quiseram nada comigo. já achei que não merecia. estar tão feliz ou tão triste, tanto faz. mas já achei que não merecia. já escondi uma lágrima teimosa no estádio do dragão. já tremi de frio a receber o sol directo no rosto. já me escondi na sombra só para continuar a sentir o mesmo calor insuportável. já tive medo. já me senti especial.]

I have crawled

[já rastejei por baixo de todas as dores que quis e soube inventar. já voei mais alto que algum dia pensei conseguir. já fui ao cinema sozinha. já passei horas infindáveis a olhar para o relógio só para me certificar que os ponteiros efectivamente se mexem (era pequenininha, gente...). já menti sem me sentir desonesta. já guiei durantes horas e horas por estradas desconhecidas sem saber onde ia mas a saber que precisava de ir. de fugir. sim, já quis fugir. já saí de uma loja de animais com um rato para chegar a casa com uma rata e os seus 14 filhos. já atravessei o tabuleiro superior da ponte d.luís a pé. já chorei em aeroportos, estações e apeadeiros. já tive mais saudade do que aquela que pensei ser possível ter. já me senti muito perto de alguém com milhares de km pelo meio a separar-nos. já me senti muito (demasiado) longe de pessoas que estavam sentadas ao meu lado. já fiz um anjinho na neve. já quis desistir. já passei por pessoas e fingi não as ver. já passei por pessoas e não as vi. continuo a não ver tanta coisa.]

I have kissed honey lips
Felt the healing in her fingertips

[já acreditei existir uma espécie de cura nas impressões digitais de outra pessoa. já aceitei a mão de um desconhecido numa pista de dança. já dancei até o cansaço me quebrar. e já continuei a dançar mesmo depois disso. já me sentei num gabinete de psiquiatria (e sim, eu sei o que vocês estão a pensar, mas não tive que fugir: bem ou mal, deixaram-me sair). já carreguei no meu sotaque nortenho só para o deixar bem marcado. só pelo orgulho. já vi o sol nascer a meio da noite. já vi a lua morrer a meio do dia. já parti um braço. já adormeci numa praia, entre o mar e a areia. já li pela noite dentro até ao despertar da manhã. já me espreguicei em público. já sorri para desconhecidos só porque me apeteceu. só porque sim.]

I have held the hand of a devil

[já vendi a alma sem saber a quem. já comi carne de rena (não, não me orgulho disso, mas que querem?, nem um mês tem uma gaja de suécia, vai jantar a casa da chefe, come o que lhe põem na frente, pois então. não está ali a fazer cara de vómito e a perguntar mas afinal isto é boi, porco ou katsouranis?). já me apaixonei por personagens que nunca existiram. já me senti muito bonita. já me achei terrivelmente feia. e tudo no mesmo dia. já ri até não aguentar a dor nos abdominais. já chorei até sentir a pele da cara encarquilhar como uma uva velha. já abusei da sorte. mas ela também já abusou de mim. já desleixei a amizade. já me senti fraca. já me senti forte. já fui diferente. já usei aparelho nos dentes. já tive vergonha de mim. já tive orgulho em mim.]

(Umeå, nov06)


I believe in the Kingdom Come
Then all the colors will bleed into one
But yes I’m still running.

já feri os pés. mas continuo a caminho.

Posted by Picasa

contagem final dos países representados cá no tasco:

Argentina/ Australia/ Austria/ Belarus/ Brazil/ Burkina Faso/ Canada/ Czech Republic/ China/ Denmark/ Ethiopia/ England/ Finland/ France/ Germany/ Holland/ Hungary/ India/ Italy/ Japan/ Korea (Republic of)/ Laos/ Nepal/ New Zealand/ Northern Ireland/ Poland/ PORTUGAL OLÉ/ Romania/ Russia/ Slovakia/ Spain/ Sweden/ Switzerland/ Ukraine

(e por tasco refiro-me, entenda-se, ao laboratório onde trabalho.)

vou-vos poupar a neuronada e os dedos das mãos: são 34! tudo alegremente enfiado em 5 andares de pura energia. sinto-me bem. sinto-me cosmopolita. sinto-me… representativa. sim, porque convenhamos: a comunidade portuguesa pesa, inteirinha e no seu conjunto (acessórios incluídos), 54 kg.

eu sabia. eu sempre soube. debaixo de toneladas de inseguranças empoeiradase e desajustadas, a crença subsistia: em alguma coisa, um dia, eu haveria de ser 100%. sem apelo nem agravo nem gramas extra para me roubar o protagonismo. 100%. eu sou 100%.

[não há muito tempo atrás, uma pessoa que eu mal conhecia mostrou-se interessada em me traçar o mapa astral. é naquela: não acredito que a data em que eu nasci tenha moldado o meu caractér, mas lá que tenho um mau feitio impecavelmente recoberto a quitina (e com acabamentos de profissional!), isso tenho! e pinças! daquelas que dão beliscões e tudo! portanto queres traçar, traça praí! a primeira coisa que ele me disse foi que eu era uma pessoa muito especial. verdadeiramente rara. um achado. (foi mais ou menos a partir daqui que eu comecei a defender acerrimamente que a astrologia deveria ser internacionalmente reconhecida como ciência. e exacta. das mais exactas, até.) e tudo isto porque no exacto momento em que eu nasci (notem bem), de todos os astros (atenção, é agora), só a lua se encontrava acima da linha do horizonte. sou especial. portanto. foi nesta altura que eu pensei em lhe pedir “ouve lá, tu aí que tens cunhas com os astros... se na próxima vida eu voltar a ser especial, pede-lhes que seja em algo que se note, sim? se não for muito o incómodo...”.
mas depois achei melhor ficar caladinha. e agradecer a dádiva dos astros. a cavalo dado não se anda a verificar se o gajo usou o fio dental direitinho e escovou os dentes a seguir a cada refeição.
e depois, é uma questão de usar as reticências com mestria e engenho.
conheci uma pessoa que dizia, orgulho indisfarçável estampado naquele rosto ignorante:
“a minha filha anda em medicina...”
esquecia-se sempre do “veterinária”. é uma palavra difícil de dizer, é pois. para facilitar, lá na minha terra as pessoas até dizem “b'trinária”. portanto a modos que eu percebo o drama da senhora. e sigo-lhe o exemplo.
“eu sou especial...”
“eu sou 100%... “
o resto fica entre mim e os astros.]

isto de ser única tem a sua piada. não raras vezes encaro um par de olhos azuis, muito pasmados e muito abertos, a olharem cientificamente para mim. já sei que se segue a inevitável questão: “todos os portugueses são assim… como tu?”. ao que eu faço um ar muito espantado e replico: “então pois claro. como querias que fossem?” assim como assim, a maior parte deles nunca vai chegar a perceber que a realidade tem um tom de pele mais moreno do que o meu. o único que não me compra este discurso é o tobias francês que partilha comigo o gabinete. roda a cadeira na minha direcção, olha para mim por cima dos óculos, enrola 3 vezes o rabo de cavalo nos dedos da mão esquerda e reclama: “tu não podes ser portuguesa. és demasiado feliz e gostas demasiado do teu país para seres portuguesa.” eu fico logo com uma certa coceira na base do estômago e uma vontade irreprimível de lhe dizer “já tu não podias ser mais francês!”. adiante.

ainda a propósito de pátria.
chegou-me, via correio expresso e com o carimbo de prendinha-d’anos, o Concerto Acústico do Rui Veloso. ponho o Porto Sentido no repeat mode e ainda não gastei o neurónio. demorei 3 dias e meio (mais as noites que se meteram no entretanto) a perceber porque é que esta versão me arrepia mais a espinal medula do que a outra, a que tenho no cd velhinho. finalmente descobri: é que este cd foi gravado ao vivo, pelo que eu consigo ouvir, lá ao fundo, a minha voz. e perguntam vocês: “mas tu estavas no concerto?”. e respondo eu: “não.” e perguntam vocês
[desculpem lá, mas vocês hoje estão assim a modos que um bocadinho para o irritantes, não?!]
“então?”, e respondo eu
[cuidado que vem aí frase para a posteridade]
“mas é que
[a sério: isto vai ser mesmo bombástico]
a minha
[fenomenal. 100%. e desta vez, os astros nem sequer são para aqui chamados!]
voz é a
[é agora, é agora! agarrem as canetas e os blocos de notas! atenção!]
voz do povo.”

[ah, caraaaaaaago!]

(Porto, set 06)

[vá, agora todos comigo: quem vem e...]

PS. o que é que se faz quando se está numa fila da caixa do supermercado, a dispor ordenadamente as coisas no tapetinho rolante, e, páginas tantas, “que estranho. não me lembro de ter comprado bolachas. bem… paciência!”. logo a seguir: “mas que raio… eu não gosto de arroz integral. eu devo estar maluca.” ao que se segue uma cara de puro terror e a constatação inevitável do cum-estupor-peguei-no-cestinho-de-outra-pessoa: “OH NÃO! eu DEFINITIVAMENTE não comprei preservativos com sabor a maracujá!”. o que é que se faz, ah? “Houston, Houston, we have a problem!”

PS2. ao contrário do que vocês estão a pensar, isto NÃO me aconteceu. quer-se dizer: não cheguei propriamente até à caixa. e o que me fez suspeitar que algo estava terrivelmente errado no meu cestinho NÃO foi a presença de preservativos com sabor a maracujá, não senhora (isso seria, até, bastante normal): foi um naco de carne de rena (que eu, evidentemente, não como). apenas substituí a perna do rudolfo pelos preservativos com sabor a maracujá no relato porque, por motivos que me ultrapassam, a humanidade acha hilariante qualquer tipo de sugestão velada ao sexo.

é só ver os sorrisinhos parvos que vocês estão a fazer agora.

PS3. ena ena: um post inteirinho e não falei de futebol.
[whooops... provavelmente estraguei tudo agora, não foi?]

adenda: agora não há desculpa. (não que as houvesse até agora, mas ok. anda muita abécula por aí.) 1 segundo e já está. aqui.

Posted by Picasa

serve o seguinte post para eu me recordar de vocês.
apenas.
porque hoje não me apetece escrever.
o neuronito enrolou a cabeça na cauda e anoiteceu para o mundo. pediu festinhas na nuca. velas acesas e uma mão-cheia das coisas simples dos zero7. Rodrigo Guedes de Carvalho e a sua casa quieta.

[domingo de manhã, estava eu ainda mergulhada no lençol a desenrolar de mim os pedacinhos de noite e sono, quando o meu telebicho acordou. era uma sms. e rezava qualquer coisa assim: “já viste como está o dia lá fora? não percebo bem porquê, mas deves ter alguém lá em cima que gosta realmente de ti. ah: parabéns.” fui ver. estava assim.]


(…)

Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil.

(…)

um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.

Nuno Júdice in Carta de Orfeu a Eurídice

Posted by Picasa