Viva o espaço que me fica pela frente
E não me deixa recuar
antes de mais, convém esclarecer: a música é uma eterna vibração de corpo aéreo na minha vida.
que é como quem diz: sou músicodependente.
que é como quem diz: devoro música à mesma velocidade com que as minhas células devoram ATP.
que é como quem diz: o meu silêncio tem que ter música. quando não tem música, não é silêncio. é depressão.
esclarecimentos feitos, passemos ao post.
gosto do conceito do i-tunes. palavra que gosto. gosto da facilidade com que posso comprar música numa sucessão de cliques e ideias cruzadas. o cartão de crédito foi introduzido aquando da inscrição na loja, pelo que nem precisamos de nos lembrar compulsivamente que estamos, efectivamente, a pagar por um vício. a conta chegará mais tarde, quando já temos a certeza que a nossa vida nunca seria a mesma se aqueles acordes não a integrassem nas longas noites de inverno. pelo que se encolhe os ombros, num suspiro de inevitabilidade – é o tinha que ser.
mas divago, perdoem-me.
Talvez, um dia me encontre.
Sim, talvez me encontre.
A História Toda (live), Luís Represas. já conhecia as minhas mãos de cor, tantas vezes o acariciei nos meus passeios sem rumo pela Fnac. agora é meu. ainda que não lhe possa tocar, é meu.
gosto do conceito do i-tunes. palavra que gosto.
Mas Deus leva os que quer
Só Deus tem os que ama.
quando eu era miúda, o meu irmão tinha dois volumes gigantes de músicas (acordes e letras) para guitarra. eram fotocópias, já gastas pelo tempo e pelo manuseamento, encadernadas com aquelas argolas pretas e enormes que, eventualmente, começam a perder folhas. aquilo tinha de tudo: de Beatles a Vitorino, tudo o que pudesse ganhar vida às mãos de uma guitarra e uma voz mais ou menos desafinada e sentida. lá para o fim do primeiro volume, em folhas que eu acho que eventualmente o tempo e as argolas pretas e enormes acabaram por perder, estava o 125 azul. quando não estava ninguém em casa (o complexo de cantar mal arrasta-se até aos dias de hoje), eu costumava ir ao quarto do meu irmão. abria o primeiro volume quase no fim e cantava o 125 azul de uma ponta à outra. não sei porquê. nem era das músicas mais requisitadas quando a primalhada se juntava à volta de uma guitarra e dos famosos volumes. cantava sem perceber o que cantava, murmurava as palavrinhas todas do início ao fim, enchia o peito para o que não sabia [não podia] entender.
eram momentos só meus.
a 125 azul.
Sem paredes sem ter portas nem janelas
Nem muros para derrubar.
A História Toda (live), Luís Represas. comprei-o na quinta-feira à noite durante a sobremesa, entre dois gomos de laranja.
[gosto do conceito do i-tunes. palavra que gosto.]
não comecei pelo 125 azul. nem podia. outras palavras, outras melodias, outras almas mais recentes me apelavam ao peito.
Um Caso Mais, tão inevitável como o Inverno em si.
[enquanto for so ternura de verão, eu vou. enquanto a excitação der para um carinho, eu dou.]
Foi Como Foi, foi como não podia deixar de ser.
[dentro do escuro, a alma não se pode ocultar.]
porque as recordações nos decidem os passos, Memórias de um Beijo.
[lembras-me uma marcha de Lisboa,
lembras-me-te?]
porque a neve lá fora me enche o peito de medidas brancas inacessíveis a quem desconhece a magia da luz completa, Neva Sobre a Marginal.
[o norte foi como veio: sem avisar, sem um gesto. sem dizer se isso lhe dói.]
porque os refúgios são espaços de vida, Da próxima Vez.
[quisemos saber como estavas, se a vida tinha tomado bem conta de ti. ou se a vida teve medo, e eras tu que a levavas refugiada em ti.]
porque o teu sangue ainda me dói, porque o teu sangue me vai doer sempre, Timor.
[lavam-se os olhos, nega-se o beijo. do labirinto escolhe-se o mar. dia 12 vesti-me de branco, que é a cor dos lutos em que não nos soubemos morrer. toda de branco por ti, Ai Timor, calças brancas camisola branca gorro branco cachecol azul clarinho, desculpa, não tinha branco, achei que não te ias importar. calam-se as vozes. toda de branco porque nunca sangraremos bastante o teu sofrimento. da cruz se faz uma lança em chamas. toda de branco que é a cor da mudez impotente, a cor da mudez assustada que fugiu, que te abandonou, Ai Timor, calam-se as vozes. toda de branco, Timor. porque o teu sangue devia ter jorrado das nossas veias, porque o teu suor devia ter queimado a nossa pele, mas que era feito de nós, Timor, que era feito de nós quando o escuro engoliu o dia numa pressa de dor, que era feito de nós, calam-se as vozes, nós fugimos, nós abandonamos-te, nós abandonamo-nos, calam-se as vozes. Ai Timor. e eu visto-me de branco, estúpida, como se o barulho do rasgar da minha alma pudesse chegar aos teus olhos escuros. aos teus olhos cor de terra, cor de vida, cor de abandono. do meio dos corpos, a mesma lama. leito final onde o amor nascia. mas dóis-me tanto, Timor, dóis-me tanto. que às vezes até parece, Timor. às vezes até parece, Timor.
que às vezes até parece que fazes parte de mim.
quando me visto de branco.]
porque nunca se perdem as palavras de quem lhes é íntimo, Perdidamente.
[é ter fome, é ter sede de infinito.]
porque sem magia a vida se gastava nos dedos do tempo, Feiticeira.
[de que fontes, de que águas, de que chão, de que horizontes?...]
e só depois, alma cansada de deslumbramento, olhos cansados de ver o perto ao longe, só depois. 125 azul.
Foi sem mais nem menos
Que me deu para arrancar
Sem destino nenhum.
podia desfazer-me em palavras, mas o que ficasse no chão depois de mim não seria nunca o suficiente para descrever o que senti. quando ouvi a minha vida cantada numa outra voz que não a minha.
O tempo não me diz nada
quando Tori Amos escreveu a Silent All These Years, fê-lo para ser interpretado por outra pessoa que não ela. mas quando mostrou a música ao seu produtor, ele exclamou: estás doida, mulher? isto é a tua vida inteira. mais ninguém pode cantar a tua vida.
Sem pendura, que a vida já me foi dura
Para insistir na companhia.
ele estava enganado. algumas pessoas podem cantar a nossa vida.
eventualmente. mesmo antes de nós a vivermos.
Só que à frente o bailado do calor
Vai-me arrastando para o vazio
E com o ar na cara vou sentindo
Desafios que nunca ninguém sentiu.
nunca vou saber o que me fazia cantar esta música até à exaustão quando era apenas uma miúda. a vida é cómica.quando era miúda, pensava que aos 18/20 anos veria a vida com outros olhos.
depois fiz 18/20 anos, e era a mesma pessoa. os mesmo olhos.
depois fiz 24 anos, e ainda era a mesma pessoa. ainda os mesmos olhos.
ou não.
talvez haja uma diferença.porque dantes, quando eu cantava esta música, não costumava chorar. e desta vez, enquanto a ouvia, água e cloreto de sódio foi tudo quanto consegui ser. tudo quanto consegui existir. nos meus olhos.
Será que existe em mim
Um passaporte para sonhar
E a fúria de viver
É a mesma fúria de acabar.
nunca vou saber o que me fazia cantar esta música até à exaustão quando era apenas uma miúda. a vida é cómica.
mas eu acredito em Deus. às tantas, ele também acredita em Mim.
Foi com esperança
Sem ligar muita importância
Aquilo que a vida quer
porque quando eu tento ser o que a vida quer de mim, tropeço nos meus próprios passos. antes assim, peito aberto à dor e ao espaço. antes assim. antes assim, caminho desenhado passo a passo, na imensidão da neve virgem que acabou de construir um chão.
Entre as dúvidas do que sou
E onde quero chegar
Um ponto preto quebra-me
A solidão no olhar.
sem pendura. porque a vida já me foi dura. para insistir na companhia. são as dúvidas que me preenchem os espaços em branco. durmo com elas, acordo com elas, choro com elas e sou feliz com elas. porque a vida já me foi dura, o meu olhar já não é solitário. as minhas pegadas. na neve.
Curiosamente, dou por mim pensando
Onde isto tudo me vai levar
a mim.
De uma forma ou de outra há-de haver
Uma hora para a vontade de parar
acredito nas horas. talvez. de uma forma ou de outra.
Viva o espaço que me fica pela frente
E não me deixa recuar
obrigada, Luís. por me renasceres numa música.
antes sequer de eu me ter renascido numa vida.
Viva o espaço que me fica pela frente
E não me deixa recuar
Talvez, um dia me encontre.
Sim, talvez me encontre.

(Frankfurt, jul06)
Nota final: hoje o sol teve o intenso desplante de se pôr a andar para além da linha do horizonte às 2:31pm. shame on him!!
PS: tobias 1 – hmmm… não que eu duvide da tua capacidade científica, mas porque é que estás a por essas placas com sementes no parapeito da janela?
eu – pensa lá um bocadinho, ó esperto. quero que as sementes germinem e parece-me boa ideia que elas apanhem um bocadinho de.. luz.. do… err… ok, deixa lá isso.
[adoro fazer as pessoas rir. excepto quando não é de propósito. e lá se foi a capacidade científica para o belo do galheiro.]
PPS: ok, eu juro que vou parar com os posts musicólamechas. eu até tinha uma série de disparates na manga para postar. a sério que tinha. mas este tinha que ser. foi mais forte que eu. em nome da gerência, as minhas desculpas. ou então não, quero que vocês se lixem: não gostam, não comem.
PPPS: ontem, no after-work pub (que, a propósito, é um conceito deveras interessante que tem que ser introduzido o quanto antes aí no IBMC):
eu – mmmm… isto está mesmo bom!… como é que fizeste isto?
tobias 2 – sabes aqueles caramelos de leite que costumam estar por aí? pus alguns na garrafa, enchi até meio com alcool lá do laboratório, pus um cheirinho de leite, enchi até cima com soda, e deixei no agitador 15 minutos.
eu – ah, claro, morde-me!
[no original: yeah, sure, bite me! mas às vezes tem mesmo piada fazer as traduções directas.]
tobias 2 – mas eu estou a falar a sério!!
e estava.
é o que dá confiar em carpinteiros que um dia se lembram “ah e tal, quero ser biólogo” e depois “ah e tal quero tirar o doutoramento” e depois ah e tal publicam dois papers de rajada na Science. se eu não gostasse tanto do rapaz (mesmo), juro que o tentava odiar. mas é-me completamente impossível. além de que aquilo era bom. muito bom mesmo. tipo baileys, mas para gente crescida.
(o cheiro, pai. o cheirinho era bom. porque claro que eu não bebi. pois claro que não. foi o cheiro. mmmmmm, que cheiriiiiiinho.)
PPPPS: ontem, after-work pub. hoje, concerto com um conhecido meu de cá que tem uma banda (mesmo muito boa, por sinal) que toca músicas dos Beatles. fim de semana pródigo em nostalgia, portanto. e, claro, porradas de trabalhinho. amanhã mato-me a alinhar sequências, juro. mas hoje, só hoje, sei exactamente do que preciso. chama-se pista de dança e twist and shout. ou lágrimas, mãos suadas e yesterday.