eu não queria fazer deste blog um blog dedicado ao futebol: aparte um ou outro parênteses, vou resistindo a explanar-me em demasia sobre as incidências do desporto-rei. todos sabem que adoro futebol, todos sabem que sou portista de quantos costados possa ter: é tudo. mas desta vez, não podia deixar passar. não: desta vez não podia limitar-me a comentar aqui ou ali, a extravasar em meras conversas inconsequentes este rascunho de dor fininha que desde sábado tratou de se alastrar pelo lado esquerdo do meu peito. ainda que a minha escrita aqui seja igualmente inconsequente. hoje eu preciso de.
deixem-me contar-vos porque é que eu gosto de futebol: porque é um desporto de equipa, uma interminável batalha de paixões. porque são onze homens frente a frente, camisolas sujas de técnica, amor e suor. porque me move: porque me faz chorar e rir. doem as mãos das palmas que ainda não se bateram, aperta-se o peito dos golos que ainda não foram sofridos, sofre-se a amargura das más exibições que tão raramente surgem e caminha-se devagar, para o lugar do costume, no estádio que, a pouco e pouco, vai substituindo as Antas em lágrimas derramadas no cimento sentido das bancadas. o sofrimento é constante, as alegrias são fugazes: quem já assistiu a 90 minutos de bom futebol sabe disso. mas são alegrias que ecoam em todos cacos em que a vida lá fora nos deixou a alma. o futebol, a mim, ajudou-me a aprender a perder uma batalha sem perder a esperança na guerra. e a perder uma guerra sem perder a esperança no futuro. é tão bom amar-se assim. amar só pelo amor: saber que a coisa amada não vai alcançar a paz mundial nem curar o cancro nem nos aconchegar à noite, e amar mesmo assim. amar, porra! amar pelo amor. vibrar pela acção, não pela consequência.
O meu filho mais novo fez agora 6 anos: (…) um dia destes, pego nele pela calada e aí vamos nós para Santa Apolónia, apanhar o Intercidades para o Porto, a caminho do Santuário das Antas (…) e aí vamos nós, o coração descompassado ao ritmo do ruído surdo dos passos da multidão no cimento do Estádio. Das entranhas escuras desse monstro de betão emergiremos para a luz ofuscante dos holofotes junto aos quais a chuva forma fios de prata brilhando na noite. Lá em baixo, o relvado, lindo, perfeito, parece esperar para ser pisado só por deuses, não por simples mortais. De repente, ele estremecerá, a sua mão apertará a minha, excitado e assustado, os olhos fixos na «boca do túnel» pela qual saem correndo, um a um, os onze deuses de azul e branco, saudados por um grito de 50 mil gargantas: «Po-oo-orto! Po-oo-orto!» Então aí, o meu filho perguntar-me-á, como costuma fazer: «é o petra-campeão, pai, não é?» Este é o instante mágico, o instante iniciático, que sela para sempre o amor irracional entre um homem e um clube de futebol. Um amor para a vida, que ninguém, jamais, poderá alterar.(…) Nem sequer adianta depois tentar explicar: «O que é o futebol, mãe? Olha, um cheiro a bifanas, uma multidão aos gritos, uma relva a brilhar, azul e branco por todos os lados e nós, encharcados e roucos, patinando na lama à procura do carro.» Enfim, uma paixão inexplicável.
Miguel Sousa Tavares
como toda a gente, já vi e revi os lances, a confusão, as macas a correrem do relvado naquela pressa que só tem quem carrega vidas trémulas nas mãos: o Cech aqui, o Cudicini aqui. recuso-me a acreditar que um jogador, por muito má pessoa que seja, queira magoar um colega: surge-se-me como uma ideia puramente insustentável. depois, os factos. primeiro: a entrada sobre Cech não foi intencional. não a meus olhos: o Hunt não tem tempo de travar. dá a sensação de querer desviar-se para a sua esquerda, mas tropeça na mão do GR, e acaba, na queda, por lhe acertar com o joelho na face. segundo: a entrada sobre Cudicini foi brutal. repito que me recuso a acreditar que qualquer jogador tenha intenção de magoar o adversário. mas uma coisa é não ter intenção, outra é não ter a mínima preocupação de não o fazer. aquela entrada foi assassina: foi entrada ao homem, completamente sem bola, com todo o peso do corpo. terceiro: o Cudicini teve alta do hospital no dia seguinte. quarto: o Cech sofreu uma fractura craniana com afundamento. teve que ser mantido em coma induzido, transferido para uma unidade de neurocirurgia e operado ao crâneo. na sky news, o médico dizia que 6 meses são o tempo mínimo para recuperação de uma fractura deste género, mas que depende do estado dos tecidos debaixo da fractura. também disse que confiava numa total recupação do jogador e no seu retorno ao relvado. eu também confio.
mas (e que grande merda!) confiança não é certeza.
no meio de tudo, depois de tudo, guardo uma imagem na cabeça. gravada em dor (ferro em brasa): o Cudicini inconsciente, a ser intubado em pleno relvado, e o estádio em peso a cantar: Barcelona, Barcelona, olé, olé, olé!
eles não sabiam sequer se o jogador estava morto ou vivo. e, no entanto, foi isto que eles cantaram: Barcelona, Barcelona, olé, olé, olé!
não, não vou deixar de gostar de futebol.
mas eles nunca podiam ter cantado aquilo. não podiam, não podiam, não podiam, e quase os odeio por isso. porque futebol é desporto. e se há tanto ódio no desporto [tanto Ódio, tanta Raiva, tanta Vazio, onde andas Tu que não te vejo, onde andas Tu que às vezes te perco o passo]. se há tanto ódio no desporto… e no Resto? tenho tanto medo. tenho tanto medo.
tenho tanto medo.
[se pudesse, agora, havia duas coisas que eu faria. ou melhor: dois abraços que eu daria: um ao Cech, outro ao Hunt.]
[e não, não me enganei nos nomes. definitivamente, não me enganei nos nomes.]