Monthly Archives: October 2006

snow can wait

a música deste inverno.
para ouvir com os braços pousados no parapeito da janela.
e a cabeça pousada nos braços.

e os olhos pousados na neve.

(he says)

when you gonna make up your mind

cause things are gonna change so fast

all the white horses have gone ahead
my dear.

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Nota final:
hoje o sol levantou-se às: 7:09 am
e pôs-se a andar para baixo da linha do horizonte muito depressinha às: 3:34pm

[ok, catarina, vamos lá rever - com MUITA calma - aquelas regras da vida que tanto te doem:
- não, o rolo do papel higiénico não tem perninhas e não se muda sozinho quando chega ao fim;
- sim, o fio dental auto-regenera-se, pelo que nunca vais ter o prazer de, certa noite, pegar naquela caixinha diabólica e descobrir que ela está vazia e que, por uma vez na vida, tens a melhor desculpa de todas para não encarar os restos mortais do bicho que comeste ao almoço sem problemas de consciência;
- e sim, vá-se lá saber porque motivos obscuros, a hora tem efectivamente que mudar para a hora de inverno.
é a vida. vá, miúda: tu consegues. concentra-te. concentra-te. respira fundo.]

ATENÇÃO:

hoje é o dia mundial da psoríase. aqui.

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ontem.
de manhã: defesa de tese de doutoramento da catherine. que bem que ela se portou.
jantar festivo com direito a ver os alunos de doutoramento do departamento em figurinhas deliciosamente ridículas, numa reedição adaptada (que certamente irá ficar para a história) de Charlie e a Fábrica de Chocolate.
[peçam muito e pode ser que haja direito a fotografias para vocês.]
discurso emotivo do pai dela, acompanhado de imagens da catherine bebé & muitas gargalhadas.

pista de dança: das 11pm às 5am.
só não tenho 17 anos. só não tenho mesmo os 17 anos. o resto está cá.

hoje.
5 horas de sono muito mal dormidas.
carradas de trabalho que, numa obra de ilusão e contorcionismo, terei que enfiar nas 48 horas do fim-de-semana.
à noite há Porto-Benfica.

se perguntarem por mim, digam que estou feliz.

mesmo.

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[há pessoas que conseguem despertar em mim uma admiração sem limites, uma quase idolatria, um puro e inocente espanto que só uma mente limitada como a minha conseguiria produzir. no topo dessa lista, e com direito ao devido destaque, estão aquelas pessoas cujo cansaço é a mais fiel companhia diária: está o ano a começar e “estou cansada...”, está a primavera a entrar e “estou cansada...”, está o verão a escaldar e “estou cansada...”, está o outono a decidir se quer ou não ser inverno e “estou cansada...”, está um novo ano para começar e “estou cansada...”. fantástico: não se cansam de estar cansadas, vivem na eterna angústia de saber se o amanhã lhes vai trazer o tempo suficiente para se queixarem de todas as suas infindáveis maleitas. não imagino como será viver nesse limbo de ansiedade: efectivamente, ainda há gente com coragem neste planeta. há sim senhora.]

já repararam como hoje em dia anda tudo meio moribundo? tudo quase a cair para o lado, tudo ai-que-estou-que-nem-posso, tudo a rebentar pelas costuras, enfim, tudo a oscilar naquela maravilhosa fronteira do estou-aqui-estou-a-meter-baixa. o conceito fashion e a competitividade do sector comercial invadiram num rompante o que dantes era reduto privado do bem-estar pessoal. hoje em dia as pessoas não andam tristes (isso é coisa do passado, que horror querida, já viu, tão demodé, não diga isso a ninguém): têm depressões. e o cansaço natural de quem faz algo mais do que a respiração celular foi promovido a esgotamento nervoso.

meio mundo anda, de facto, moribundo.
e o outro meio está reformado.

hoje de manhã:
“que tens, cat? não estás nada com bom aspecto…”
[obrigadinho, ah?]
“é, definitivamente não estou nos meus dias. dormi muito mal, estou com dores de cabeça fortíssimas, dói-me o corpo todo e tenho os olhos a arder. apetece-me ir para casa, beber um chá quente e enfiar-me na cama.”
“pois, claro, está-se mesmo a ver. eu já não te tenho dito que trabalhas mais do que devias? tudo isso faz parte de um quadro de resposta fisiológica normal à ansiedade e ao stress!”

ora porra: mas que grande chatice! e eu aqui, tão inocentemente capaz de jurar a pés juntos que o que eu tinha era a simples promessa carinhosa de uma constipação muito jeitosa.

se calhar devia ter acrescentado que ontem à noite espirrei 3 vezes.
era: páginas tantas, o diagnóstico mudava.

não importa: de uma forma ou outra, já avisei os vírus que terão de esperar até sábado se quiserem alugar o meu belíssimo hotel de luxo com vista privilegiada sobre encostas coloridas de bactérias. é que tenho uma festa amanhã, e não me dava mesmo jeito nenhum estar doente. mesmo jeito nenhum. não, vocês não estão a ver: MESMO jeito nenhum.

ora ainda bem que eu tenho cunhas no micro-mundo.

ou não.

[e agora pergunta o atento leitor: “mas a gaja tem festas todos os fins-de-semana, carago?” (nota da autora: esta última palavra é amovível, sendo que se aplica apenas aos leitores nascidos e/ou adaptados à bela região nortenha), ao que eu respondo: “todos não, carago! (nota da autora: esta última palavra não é amovível, sendo que eu sou mesmo do Norte, sem apelo nem agravo) assim todos todos não. além disso, esta é especial.”]

faz-de-conta-beijo-na-testa e vou enfiar-me na cama.
pelo sim pelo não, levo o meu bichinho azul claro anti-stress.

boas noites, então.

irrita-me, confesso. poucas coisas na vida me irritam, como vocês já devem ter percebido. mas esta irrita-me particularmente. solenemente. terrivelmente. falo daquela ideia absolutamente preversa de que somos, por natureza, semi-seres. de que logo à nascença somos irreversivelmente despidos de algo em nós, privados de uma qualquer essência que nos devia perfumar sob-pele. e caminhamos pela vida, irremediavelmente mancos, indesculpavelmente esburacados, até a encontrarmos no perfil de uma outra pessoa. ao qual, não raro, tanto gostamos de aplicar a nossa borracha e o nosso lápis de carvão. somos assim: pedaços de seres, almas rarefeitas. incompletos e tristes, até encontrarmos um qualquer sapo que nos beije na boca e faça de conta que era uma vez e fomos felizes para sempre.


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não aceito. recuso-me. nego-me à minha própria falta de plenitude. sou una. completa. singular. ainda que nenhum batráquio me dê a pata na rua (blergh: bicho escorregadio!). sou eu. e sou feliz. e nos intervalos em que não o sou, acho absolutamente doentio pensar que os meus espaços vazios podem ser preenchidos pelo respirar de outra pessoa. terei que ser eu, a cada momento. eu a preencher-me de mim. em mim. o meu sorriso faz sentido sozinho.

não acredito em outras metades. acredito em domingos de manhã. no sol a entrar pela janela. em pratos com cereais. num copo de sumo de laranja. no cheiro a café quente. acredito que “nunca hei-de perceber porque é que o meu pijama te fica melhor a ti do que a mim”. sim, acredito no amor. mas não acredito que alguém, um dia, vá espantar os meus vazios. até porque só eu sei o sítio exacto onde eles me doem. não acredito numa outra metade de mim. acredito em fantasmas e em solidão. além disso, só acredito em simbioses.

e isto veio a propósito de:

nem uma semana de solteira eu tinha, e já me andavam mandar bocas sobre o meu suposto par ideal: haja paciência (e quem a tenha por mim…). eu já desisti de os fazer desistir: no meio de tudo, a ausência forçada de resultados acaba sempre por provocar umas quantas gargalhadas sonoras, e enquanto houver riso suficiente para me rascunhar as rugas de expressão do futuro, estou descansada. hoje, num almoço a três, o tema de conversa foi os-gajos-solteiros-do-departamento-que-eventualmente-teriam-filhos-bonitos-com-a-cat. vá de começar a listá-los, e eu vá de começar a despachá-los: assim tipo entra-porco-sai-salsicha. como é chato usar os nomes verdadeiros no relato da nossa conversa, vou usar a já famosa técnica dos tobias numerados. [ok: não é famosa ainda, mas eu estou a pensar criar uma patente sobre ela. e vou ficar rica. rica.]

- que dizes ao tobias 1? parece-me bem…
- nããããã…. votou nos sociais-democratas.
- sério? vou ter que ter uma conversa com ele… então e o tobias 2?
- estás maluco ou quê? ontem trazia uma meias brancas às bolinhas verdes…
- !!! mas tu andas a olhar para os pés do… ok, ok…tobias 3?
- alérgico a cães. próóóóximo!
- já sei! é perfeito: o tobias 4?
- maus genes: têm pêlos nas orelhas!
-!??
- pêlos nas orelhas, sim!! tu queres que eu tenha filhos com pêlos nas orelhas?? é que nem penses nisso!! e não me venhas cá com tretas que isso tem solução: tenho um amigo que foi tratar disso à corporacion dermoestetica (sim, tu!) e até fico verde quando me lembro do preço! pêlos nas orelhas é absolutamente proibitivo!
- o teu gato tem pêlos nas orelhas?
- mas que raio?!… claro que tem!
- óptimo. estou mais descansado. e se for o tobias 5?
- imagem pirosa no desktop. segue.
- tobias 6?
- demasiado auto-bronzeador. MESMO MUITO auto-bronzeador.
- tobias 7, tobias 7!
- não dá, tem nome de urso de peluche.
- ok. tem lá paciência mas isso NÃO é uma desculpa válida.

mas mas… então e porquê?…

e ainda a propósito de:

(estava eu sugadita no meu laboratório quando entra a Sueca.)

- porque é que tens sempre o rádio nessa estação? não é grande coisa…

(nisto entra o Francês.)

- eu sei. mas tem o nível de ruído exacto para me entreter, e é suficientemente estúpido para não me distrair. aliás, é mesmo suficientemente estúpido para me fazer sentir inteligente.

(e o Francês, a meter o bedelho.)

- estás a descrever os requisitos mínimos para o teu futuro marido?

(é claro que tive que lhe atirar com uma caixa de luvas tamanho S à cabeça. quase imediatamente: assim que consegui parar de rir e endireitar-me o suficiente para o fazer.)


[agora que penso nisso... só falta mesmo acrescentar “suficientemente rico para financiar os meus projectos de investigação”. de resto, está perfeito. anúncio no jornal. amanhã.]

carta aberta à minha afilhada (no dia em que ela faz 3 anos, 3 meses e 3 dias).

era ontem e tu nasceste: eras uma coisinha pequena e avermelhada, um sussurro trémulo de pavor (o meu e o teu). era ainda só ontem e eu não sabia como pegar em ti nem tu sabias como agarrar o meu pescoço. erámos dois seres estranhos, tu a aprenderes a ser gente e eu a aprender a ser gente (em ti). num instante veio um verão. e depois outro. e depois outro. (os teus olhos, fundos cor de todas as interrogações, parados nos meus, onde estiveste tu que eu não te vi tanto tempo, onde estiveste tu que não me levaste pela mão à bordinha da água para me ensinares que a dimensão do amor é infinita e insustentável como um oceano inteiro que se explode em espuma.) agora é inverno. aí chove. aqui neva. e eu estou longe de ti outra vez.
sabes, estás bonita. tão bonita que eu não tenho palavras nem gestos nem lágrimas para to descrever. cresceste num suspiro – um bocadinho de vento que passou por ti e te levantou o ser numa dança de palavras mal pronunciadas e passinhos elegantemente desajeitados. o teu espanto ante cada brisa da vida apazigua-me a alma. és a minha esperança na forma de uma menina. gosto de olhar para ti (gosto tanto de olhar para ti, sabes?) e adivinhar nas tuas mãozinhas pequenas aquela esperança cega, surda e muda de que tudo é possível. ou que, mesmo impossível, tudo faz sentido. respirar faz sentido. amar faz sentido. porque tu és o início e o fim da mesma manhã que sempre se inicia e nunca finda.
diz-me a minha mãe que, certo dia, na semana passada, não quiseste ir para o infantário. tiveste medo, choraste, quiseste ficar sozinha com a tua noite e já era de dia. sabes, a Lua é boa para nos agarrarmos enquanto o sol não nos queimar as mãos. aí é hora de partir. e enfrentar a luminosidade inteira de um firmamento que nunca conseguiremos abranger. dói, é claro que dói. porque a nossa vida nunca é inteiramente nossa e os nossos passos nunca pisam todo o espaço que há por pisar. a imensidão assusta, eu nunca te disse que não. o universo é infinito, continua a crescer, e nós começamos a encolher no preciso instante em que nascemos. é nesta contradição que se encerra toda e cada umas das nossas limitações. mas, do outro lado, só o vazio. os palcos abandonados não doem – existem tristes. qualquer luta, anna, qualquer dor, qualquer solidão, qualquer derrota, qualquer lágrima, qualquer nada à ausência do próprio silêncio. qualquer sonho.
pergunto-me se algum dia me ouvirás realmente. ou se terás que repetir as mesmas quedas em que me descobri. não te queria ver sangrar (que imagem horrível, meu amor, nunca sangres, nunca caias, nunca te magoes, nunca percas a esperança, nunca percas os sonhos, nunca deixes de sorrir). e no entanto.
no entanto.
não quero. não posso. não devo.
dar os teus passos. as tuas quedas.
o mundo ensinar-te-á aquilo que eu não for capaz. e tomará conta de ti quando eu já não tiver mais bordinhas de oceanos onde molhar os teus pés nos meus.
é inverno outra vez. aqui neva. aí chove. e eu estou longe de ti. ando nos meus caminhos, ando a descobrir a imensidão que dói, cura e (me) renasce. mas espera-me: por mais forte que a vento sopre, eu regresso. e levo comigo um bocadinho de neve. e um bocadinho de sol dentro dessa neve. e um bocadinho de vida dentro desse sol. só para ti.

[tenho saudades tuas. posso andar para trás o tempo e ficar para sempre em nós? para sempre o comboio barulhento, para sempre o douro a deslizar (tão belo) ao nosso lado, para sempre o calor insuportável, para sempre tu a adormeceres no meu colo, para sempre eu e tu, para sempre nós naquele comboio? vê, anna: ainda há um bocadinho de ti que cabe no meu regaço.]

és tu que eu quero guardar neste canto de onde as aves fugiram.
Nuno Júdice, in Pedro, lembrando Inês

[aos fiéis leitores habituados ao puro avancalhanço e à mais desastrosa parvoíce, a gerência pede desculpas por esta interrupção súbita, cujos ocultos motivos não foram exactamente alheios à sua vontade mas isso agora também não interessa nada a ninguém. mais ainda, a gerência desde já informa que as causas de semelhante acontecimento estão em fase de apuramento, e que os responsáveis não irão passar impunes não senhora que nós não estamos em entre-os-rios o que é que vocês pensam. a emissão de disparates em capadupa será retomada assim que possível. obrigados, sim?]

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Momento de BioHumor 3:

[porque é que eu tenho a sensação que vocês se puseram todos a andar sem sequer tentarem ler o que se segue? vá lá, dêem-me uma oportunidade: a de hoje é gira! juro!]


um biólogo não come, degusta.
um biólogo não apalpa, tacteia.
um biólogo não respira, metaboliza hidratos de carbono.
um biólogo não tem depressões, tem disfunções no hipotálamo.
um biólogo não admira a natureza, analisa os ecossistemas.
um biólogo não elogia, descreve processos.
um biólogo não tem reflexos, tem mensagens neurotransmitidas involuntárias.
um biólogo não facilita discussões, catalisa substratos.
um biólogo não faz amor, faz a cópula.
um biólogo não admite algo verdadeiramente inexplicável: diz que é hereditário.
um biólogo não fala, coordena vibrações das cordas vocais.
um biólogo não pensa, faz sinapses.
um biólogo não se assusta, tem respostas galvânicas incoerentes.
um biólogo não chora, produz secreções lacrimais.
um biólogo não se apaixona, produz excesso de serotonina.
um biólogo não perde energia, gasta ATP.
um biólogo não divide, faz meioses.
um biólogo não faz mudanças, processa evoluções.
um biólogo não tem filhos, tem sucesso reprodutivo.

(
traduzido&adaptado de um e-mail aparentemente bastante brasileiro)

[a bióloga não se rebola pelo chão às gargalhadas: exercita ritmadamente os músculos faciais e abdominais enquanto ensaia o que parece ser uma espécie de dança de acasalamento que implica deitar-se no chão e impulsionar o corpo em movimentos de rotação para a esquerda.]

[e não, a bióloga não é maluquinha. mas é um bocado mentalmente desprovida, confesso.]

Nota final:
hoje o sol acordou às: 7:45
e deitou-se às: 17:00
(sim, já está escuro lá fora… traaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaste!)

(neve?!?!?)
(neve!!!!!)

(neve…)

neeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeve!!


[com licença: gosto muito de vocês, mas vou continuar a pular e a dançar lá para fora.]

aweeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

[vá, não sejam ranhosos: cantem lá comigo.]

ontem, lá no laboratório, tivemos uma visita de estudo de um liceu. confesso que acho piada quando estas escolinhas de gente não crescida nos vão visitar: gosto de ver as expressões de pasmo e pura admiração, gosto de ler naqueles olhinhos arregalados aquelas 8 palavrinhas que não são ditas mas terrivelmente sentidas: “ena pá, estes fulanos devem ser os maiores!”. a gente mostra-lhes pedacinhos destacados do nosso dia-a-dia em coisas simples, aquelas coisas que já conhecem de cor as nossas mãos mas que para as deles são novidade: um bocado de DNA corrido num gel de agarose (e eles: “ahhh!”); uma placa com uma bactéria azul ao lado de um fungo cor-de-rosa (e eles: “ahhh!”); meia dúzia de bandas proteicas alinhadas direitinhas numa membrana de transferência (e eles: “ahhh!”). depois vão para casa com a alma cheia daquilo e, às tantas, durante o jantar, “quando for grande quero ser cientista!”. [e os pais: AHHH?!?!? segue-se a queixa contra a escola no ministério da educação, a proibição de toda e qualquer visita de estudo e as sessões semanais no pedopsiquiatra.]

dizia eu: ontem tivemos uma visita de estudo de um liceu. a Marie, uma das encarregues de lhes mostrar a tasca, trouxe-os a meio da tarde para dentro do laboratório onde eu estava a trabalhar. do meu cantinho da bancada vi-os entrar, em filinha, muito loirinhos e muito adolescentes: entre os 13 e os 14 anos. a Marie trabalha em bioenergia: está a optimizar a produção de etanol a partir de uma mix de leveduras e bactérias – energia limpinha, portanto. e estava a falar-lhes disso mesmo: do porquê do seu trabalho, do problema do uso dos combustíveis fósseis, do efeito de estufa e das suas consequências… e não é que nisto, um dos putos (que diga-se de passagem tinha um ar assim meio raçado de noddy e eu não acredito em coincidências) sai-se com a brilhante tirada: “eu não quero saber disso para nada: quando as coisas ficarem realmente graves eu já vou estar morto!”. assim mesmo. tal e qual. eu olhei para ele com muita calma. e pensei que seria uma obra de caridade e uma prova de obediência à lei de Darwin pegar nele pelos fundilhos das calças e lança-lo de cabeça pela janela fora. mas depois pensei: ah e tal é chato – é que estamos no rés-do-chão. talvez seja melhor espetar-lhe um post-it na testa a dizer: “eu mediei as negociações entre o Jesualdo e o FCP” e mandá-lo passear para a zona do Bessa. estava eu perdida nestas minhas cogitações altamente produtivas quando a voz de um outro puto me chamou de volta à (triste) realidade: “mas isso é fixe, não é? isso quer dizer que os invernos vão ficar cada vez mais pequenininhos e os verões cada vez maiores!” muito fixe. haja paciência. e quem a tenha por mim, porque eu muito sinceramente não estou para isso. antes de desligar toda e qualquer comunicação sensorial com o exterior, ainda ouvi a Marie perguntar: “mas tu não gostas do inverno? não é bom sair com o trenó e…”

o que é que aconteceu? não, a sério, digam-me: o que é que aconteceu? há 10 anos atrás, quando eu tinha a idade deles, era uma adolescente de olhos doces que sonhava ser activista da greenpeace. [mãe, pai: escusam de comentar aquela parte dos “olhos doces”. não, a sério: é que não vale mesmo a pena.] sempre tive na cabeça esta imagem maluca que o mundo haveria de ser salvo por um bando de adolescentes borbulhentos de sonhos em punho: é aí, algures entre o nascimento e o triste destino de se ser crescido, que se passa por aquela fase maravilhosa em que já não se acredita no pai-natal mas se acredita em tudo o resto. pensava eu que o cinismo era uma característica que se adquiria com a idade. assim como as rugas e os cabelos brancos. mas como é que aquelas amostras de gente, nascidas quando eu já lhes levava 10 anos de avanço, me passaram a perna nisto do cinismo? a sério: aqueles miúdos deviam ser um erro de casting. só podiam. uma espécie de excepção viva à lei do mais apto. tipo: somos parvos e sobrevivemos. qualquer coisa assim. só não podem ser a generalidade. a sério, por favor – não são, pois não?

uns minutos mais tarde, já o meu batimento cardíaco se aproximava do normal, uma lembrança súbita apertou-me o coração e fez-me levar as mãos aos ovários. ó diabo: e se um dia destes, daqui a uns anitos, um filho meu se sai com uma destas? calma, catarina, respira fundo: não sai nada. não sai. filho meu há-de levar semelhante lavagem ao cérebro, assim logo desde embrião, que tais barbaridades nunca terão sequer hipótese de se lhe despontar no cérebro. isso mesmo: os meus filhos vão salvar o mundo. aliás, o resto do mundo: aquele que eu não conseguir salvar. é que, páginas tantas, entre a construção de uma carreira e uma vida, tenho medo de não ter tempo para o salvar todo.

Nota final:
hoje o sol acordou às: 7:36
e deitou-se às: 17:10

[está a ficar preguiçoso, o traste!]

eu não queria fazer deste blog um blog dedicado ao futebol: aparte um ou outro parênteses, vou resistindo a explanar-me em demasia sobre as incidências do desporto-rei. todos sabem que adoro futebol, todos sabem que sou portista de quantos costados possa ter: é tudo. mas desta vez, não podia deixar passar. não: desta vez não podia limitar-me a comentar aqui ou ali, a extravasar em meras conversas inconsequentes este rascunho de dor fininha que desde sábado tratou de se alastrar pelo lado esquerdo do meu peito. ainda que a minha escrita aqui seja igualmente inconsequente. hoje eu preciso de.

deixem-me contar-vos porque é que eu gosto de futebol: porque é um desporto de equipa, uma interminável batalha de paixões. porque são onze homens frente a frente, camisolas sujas de técnica, amor e suor. porque me move: porque me faz chorar e rir. doem as mãos das palmas que ainda não se bateram, aperta-se o peito dos golos que ainda não foram sofridos, sofre-se a amargura das más exibições que tão raramente surgem e caminha-se devagar, para o lugar do costume, no estádio que, a pouco e pouco, vai substituindo as Antas em lágrimas derramadas no cimento sentido das bancadas. o sofrimento é constante, as alegrias são fugazes: quem já assistiu a 90 minutos de bom futebol sabe disso. mas são alegrias que ecoam em todos cacos em que a vida lá fora nos deixou a alma. o futebol, a mim, ajudou-me a aprender a perder uma batalha sem perder a esperança na guerra. e a perder uma guerra sem perder a esperança no futuro. é tão bom amar-se assim. amar só pelo amor: saber que a coisa amada não vai alcançar a paz mundial nem curar o cancro nem nos aconchegar à noite, e amar mesmo assim. amar, porra! amar pelo amor. vibrar pela acção, não pela consequência.

O meu filho mais novo fez agora 6 anos: (…) um dia destes, pego nele pela calada e aí vamos nós para Santa Apolónia, apanhar o Intercidades para o Porto, a caminho do Santuário das Antas (…) e aí vamos nós, o coração descompassado ao ritmo do ruído surdo dos passos da multidão no cimento do Estádio. Das entranhas escuras desse monstro de betão emergiremos para a luz ofuscante dos holofotes junto aos quais a chuva forma fios de prata brilhando na noite. Lá em baixo, o relvado, lindo, perfeito, parece esperar para ser pisado só por deuses, não por simples mortais. De repente, ele estremecerá, a sua mão apertará a minha, excitado e assustado, os olhos fixos na «boca do túnel» pela qual saem correndo, um a um, os onze deuses de azul e branco, saudados por um grito de 50 mil gargantas: «Po-oo-orto! Po-oo-orto!» Então aí, o meu filho perguntar-me-á, como costuma fazer: «é o petra-campeão, pai, não é?» Este é o instante mágico, o instante iniciático, que sela para sempre o amor irracional entre um homem e um clube de futebol. Um amor para a vida, que ninguém, jamais, poderá alterar.(…) Nem sequer adianta depois tentar explicar: «O que é o futebol, mãe? Olha, um cheiro a bifanas, uma multidão aos gritos, uma relva a brilhar, azul e branco por todos os lados e nós, encharcados e roucos, patinando na lama à procura do carro.» Enfim, uma paixão inexplicável.

Miguel Sousa Tavares



como toda a gente, já vi e revi os lances, a confusão, as macas a correrem do relvado naquela pressa que só tem quem carrega vidas trémulas nas mãos: o Cech aqui, o Cudicini aqui. recuso-me a acreditar que um jogador, por muito má pessoa que seja, queira magoar um colega: surge-se-me como uma ideia puramente insustentável. depois, os factos. primeiro: a entrada sobre Cech não foi intencional. não a meus olhos: o Hunt não tem tempo de travar. dá a sensação de querer desviar-se para a sua esquerda, mas tropeça na mão do GR, e acaba, na queda, por lhe acertar com o joelho na face. segundo: a entrada sobre Cudicini foi brutal. repito que me recuso a acreditar que qualquer jogador tenha intenção de magoar o adversário. mas uma coisa é não ter intenção, outra é não ter a mínima preocupação de não o fazer. aquela entrada foi assassina: foi entrada ao homem, completamente sem bola, com todo o peso do corpo. terceiro: o Cudicini teve alta do hospital no dia seguinte. quarto: o Cech sofreu uma fractura craniana com afundamento. teve que ser mantido em coma induzido, transferido para uma unidade de neurocirurgia e operado ao crâneo. na sky news, o médico dizia que 6 meses são o tempo mínimo para recuperação de uma fractura deste género, mas que depende do estado dos tecidos debaixo da fractura. também disse que confiava numa total recupação do jogador e no seu retorno ao relvado. eu também confio.

mas (e que grande merda!) confiança não é certeza.


no meio de tudo, depois de tudo, guardo uma imagem na cabeça. gravada em dor (ferro em brasa): o Cudicini inconsciente, a ser intubado em pleno relvado, e o estádio em peso a cantar: Barcelona, Barcelona, olé, olé, olé!

eles não sabiam sequer se o jogador estava morto ou vivo. e, no entanto, foi isto que eles cantaram: Barcelona, Barcelona, olé, olé, olé!

não, não vou deixar de gostar de futebol.

mas eles nunca podiam ter cantado aquilo. não podiam, não podiam, não podiam, e quase os odeio por isso. porque futebol é desporto. e se há tanto ódio no desporto [tanto Ódio, tanta Raiva, tanta Vazio, onde andas Tu que não te vejo, onde andas Tu que às vezes te perco o passo]. se há tanto ódio no desporto… e no Resto? tenho tanto medo. tenho tanto medo.

tenho tanto medo.


[se pudesse, agora, havia duas coisas que eu faria. ou melhor: dois abraços que eu daria: um ao Cech, outro ao Hunt.]

[e não, não me enganei nos nomes. definitivamente, não me enganei nos nomes.]

ontem tive uma festa. como estive a trabalhar mesmo até à última, de repente dei por mim com pouco mais do que meia hora para tomar banho, secar o cabelo, vestir-me & arranjar-me. ora como está cientificamente provado, 30 minutos são o tempo médio que um cromossoma X leva a enfeitar-se e, convenhamos: eu tenho dois. medo. bem: no meio de todo o foge-que-te-aleijas que se seguiu, estive a 3 curtos cm de distância de pôr verniz das unhas nos lábios. ultra strong. with diamant powder. ia ser lindo. mesmo lindo. lá consegui travar a mãozinha a tempo, acabar de me empertigaitar e chegar a horas.


[o que vale é que eu só tinha que sair da minha toca e entrar na toca do lado - sim, a festa era com o meu vizinho, o xôr engenheiro das PPIC com problemas do foro metereológico. e, por fantástico que pareça, descobri que alguns amigos dele ainda conseguem ser mais PPICentes que o próprio xôr engenheiro em pessoa. senão veja-se: “estás a fazer o doutoramento? uauuuuuuuuuu.... és mesmo inteligente, não és?” “ui, amigo, é que nem te passa. só não me deram o Nobel este ano porque eu sou uma mulher. mas para o ano que vem não me escapa.” paciência.]


já de madrugada, acabada de entrar na toca e em frente ao espelho do quarto-de-banho, estive a curtas décimas de segundo de remover a sombra e o rímel com acetona. o que vale é que o algodão humedecido, a meio da sua arriscada subida a caminho dos meus olhinhos delicados, tropeçou no meu narigão eficiente: “é de mim, ou isto já teve um cheiro mais suave?”.



como tal, declaro aberta a assembleia e mesa de voto. que isto de viver perigosamente ainda me faz brancas antes do tempo. o melhor é optar: ou bem que me começo a pintar todos os dias (isto soa mesmo surreal…)e confio no hábito para evitar os incidentes devidos à inexperiência, ou bem que desisto de uma vez e começo a ir de cara lavada a festas, bares, casamentos & jantares românticos. é favor riscar o que não interessa.

[a propósito da primeira alternativa: para quem nunca dormiu debaixo do mesmo tecto que eu, será talvez conveniente, em jeito de campanha eleitoral, anunciar que o meu acordar é uma versão caricaturada do acordar do Garfield. I just don’t do mornings. miau.]

Nota final:
hoje o sol acordou às: 7:27
e diz tenciona deitar-se às: 17:20

PS: local: supermercado; data: domingo de manhã pós-festa; [bem, não é que fosse exactamente de manhã... para ser sincera, já passava do meio dia. mas como eu ainda não tinha deglutido a minha lasanha – Garfield sim senhor, e então? - era manhã. para todos os meus (e maus) efeitos.] expressão facial: epá-não-me-lixem-o-juízo. “olá, posso fazer-te uma pergunta? não trabalhas no UPSC? outro dia fui a um seminário e acho que te vi por lá.” ok: respira fundo e conta até dez. exactamente qual é o problema que os homens têm com aquela coisa tão interessante conhecida como “sentido de oportunidade”? é domingo de manhã, ainda não almocei, tenho olheiras e estou no corredor do café – quantas mais pistas são necessárias para te pores a andar? é que foram 10 minutos a aturá-lo. é que palavra de honra. é que não há pachorra. foi então que decidi que, depois de 27 dias de heróica resistência, era boa altura para me lançar de cabeça no corredor das gomas. definitivamente. neste momento, o neuronito está alegremente a curtir uma trip de açucar. já me sinto melhor.