Eu sei eu sei eu sei não me batam. Desapareci. Enterrei-me em trabalho até às orelhas (e, sabendo o comprimento das ditas, imaginem só as dores de cabeça) e fiz de conta que me esqueci do blog para não me pesar a consciência e os dedos. [aliás, correcção e devido perdão aos (des)fundamentalistas: blogue, como se diz em bom português moderno - aquele português que aparece naqueles dicionários onde aparecem aquelas palavras que aparecem nos morangos com sucre; nós falamos bem: abominamos os estrangeirismos, idolatramos as aberrações.] Mas escrevinhava eu: obscureci-me. Teve que ser: o trabalho apertou e eu encolhi-me. Tive que lhe dar espaço, pois então. E, tendo em conta que o meu salário sai direitinho dos impostos que todos vós escrupulosamente pagais, tenho a certeza que concordam comigo quando eu lhe dou (ao trabalho, portanto) prioridade sobre o resto da produção cerebral que se me surge pela esquerda (direcção quem sobe a espinal medula). Numa frase para a posteridade: é uma regra elementar de trânsito nos intrincados cruzamentos de quem conduz nas auto-estradas da investigação. [ou estradas secundárias. ou caminhos de bois. assim era mais verdadeiro, mas já não era para a posteridade. adiante.]
Mas se julgavam que a minha incontinência palavrosa havia secado, enganam-se. Os meus esfíncteres escriturários continuam igualmente descontrolados. Estou de volta, portanto. Ao blogue, ao Porto – até próxima terça-feira – e, a partir daí, à cidade dos bidoeiros. Estou de volta, sim. Descobri que partir é um grande seca. É um aBURRAcimento. De hoje em diante, só volto. Sigo um caminho de regressos. Regresso até ao fim, até ao que de genuíno existe no meu ser. Porque afinal, “ser português é ter um pedaço de terra para nascer e o mundo inteiro para morrer”. Vou morrer-me um pouco além-fronteiras. Volto à boleia com a rena Rudolfo.
Mas antes do meu próximo regresso, deixem-me limpar a minha última viagem. Muita gente gente me têm falado a respeito do caprino: pois então, tanto o insultaste, tanto o amarfanhaste, e o gajo sempre conseguiu o quarto lugar… e agora, para quando uma retractação pública? Caros amigos: NUNCA! [um dia destes pode quer que eu quebre. mas dobrar? ah, nada disso, dobrar não dobro.] O que fez o bovino para merecer o meu pedido de desculpas? Mais um “quase” para a nossa colecção poeirenta de vitórias morais? Agradeço mas recuso, muito agradecida. O meu lugar, o lugar dos meus, não é o primeiro dos últimos. O meu lugar, o lugar dos meus, é o melhor que se pode conseguir batalhando com o que já se tem. Quarto lugar? Podia ser o último. Se fosse suado. Assim, pouco esforçado? Assim, ainda a procissão ia no adro e “já estamos muito orgulhosos, chegar aqui já foi histórico”? Assim, “meio a zero já nos basta”? Basta mesmo? Não há “bastas”, será assim tão difícil de perceber? Usar as palavras “sonho” e “basta” na mesma frase é uma contradição de termos, será assim tão difícil de interiorizar? Tanto horizonte, tanta lonjura no olhar, tanta água e cloreto de sódio, e para quê?, para receber mais um “quase”. Quase fizemos o que podíamos fazer. Quase brilhamos, quase fomos grandes, quase fomos Nós. Mas só quase. Apenas quase. Quase deve ser a palavra mais triste do mundo. Quase fizemos o que podíamos fazer… “e a culpa nunca é nossa/ é do árbitro, é do campo, é de quem nos deu uma coça!”. Por isso, mantenho a minha posição, a saber: existe apenas uma diferença entre o burro cinzento que se faz passar por nosso seleccionador e um balde de merda – o balde. (Upas… esqueci-me da rodinha no canto. as almas sensíveis que me perdoem a brutalidade… é o Petit que há em mim a querer exibir-se.)
BioSugerência
(o nome da rubrica é em tua honra, mulher da terra do demo!) da semana:
[… estar de férias é mesmo potente! uma pessoa até se dá ao luxo de fazer propostas culturais!]
Volver, o último de Pedro Almódovar.
[o Pedro, de resto, é como o futebol. gosta-se ou detesta-se, mas não se lhe passa ao lado sem voltar o focinho. em volver, o melhor e o pior das mulheres. e a terrível descoberta que esse melhor e esse pior caminham lado a lado, juntos, integrados, o mesmo caminho, as mesmas pegadas. em volver, o vento de leste. a loucura. a felicidade. a Penélope Cruz com barriguinha. em volver, o amor. o desejo. o termos nojo de nós. Mesmo Muito Nojo. em volver, o incrível poder de absorção do papel de cozinha. o melhor filme deste verão. um dos melhores do Pedro. e perfeito na minha política de regressos. volver.]
da próxima vez, escrever-vos-ei lá do meu pólo. até lá.
[eu tardo. eu sei.]