Os suecos são uns bêbados. Esta frase deveria ter sido a abertura deste blog, uma vez que foi precisamente no fim-de-semana em que iniciei as incontinências que confirmei esse incontornável facto já há muito instalado nas minhas suspeitas. Mas pensei, ah e tal, começar o blog assim talvez roce a indelicadeza para com este país que tão bem me acolheu. Aguardemos um pouco. Mas, e como a favor dos factos estão todos os argumentos, seja a verdade desvendada: os suecos são uns bêbados. Assim mesmo, ponto final paragrafo, não há eufemismos que lhes valham. Bêbados. Pois não é que, nesse dito cujo fim-de-semana, a ursolândia pára? Sexta, sábado e domingo, equipas amadoras vestidas da forma mais imaginativa (bêbada?) que vocês possam pensar ocupam km e km de campos relvados a jogar branball, um desporto que (aparte as roupas) apresenta semelhanças nítidas com o baseball (e como eu não percebo muito de nenhum dos dois, nem sequer me vou atrever a enumerar as diferenças). Isto é, durante o dia. Porque à noite (que por acaso, continua a ser dia) embebedam-se. É uma espécie de Queima das Fitas cá do sítio. Mas não há bilhete de entrada. Nem bandas a tocar. Nem barraquinhas coloridas a vender bebidas que deviam ser proibidas por lei. Eles limitam-se a juntar-se no exterior de uma das zonas mais concorridas das residências universitárias (aqui a uns 200m da minha toca), abrem as janelas, põem as aparelhagens aos berros com as colunas voltadas para fora, bebem como se o amanhã não existisse, e passam a noite a dizer barbaridades, a rebolar-se na relva e a rirem-se como uns perdidos da sua própria sombra. Um delírio.
E eu, muito sul-europeia, muito olhos-castanhos-cabelos-castanhos-e-vocês-têm-uma-séria-corrente-de-ar- -na-mioleira, depois de me rir muito com eles (e deles), dei muito mim a pensar que há algo de muito nórdico no meio disto tudo. E de muito belo também. Numa das poucas músicas intensamente tristes que a Björk escreveu, ela canta, entre um chorinho manso e os cacos de uma alma partida, “I thought I could organize my freedom/ how scandinavian of me”. Ela canta isto derrotada, num momento denso de lágrimas que quase se ouvem. Mas ela sabe, como eu sei, que o condicional nesta frase não existe. Ela sabe, como eu sei, que os escandinavos são Livres, e, mais do que qualquer outro povo, são capazes de organizar a sua Liberdade. Um fim-de-semana por ano os suecos embebedam-se até ao esquecimento de si próprios. Nesse fim-de-semana são reis, são magos, são abóboras, são princesas, são formigas, são dragões, são Livres. São só eles, só almas flutuantes, sem todo o peso que faz a realidade doer. Naquelas longas horas de luz deslocada, nada mais interessa. Só a Liberdade. A Liberdade que eles organizam, porque segunda-feira retomam serenamente as correntes. E eu invejo-os. Raios, invejo-os até à dor. Invejo-os, terrivelmente, porque eu não sei ser assim. Não sei ser Livre. E, pior ainda, a maior falta de Liberdade está em mim própria. E canto, com os Pluto: “sou uma prisão a que fujo e a que regresso”. Fujo, por vezes, curtos instantes. Mas regresso, regresso sempre. A mim.
Liberdade. Tenho uma imagem muito marcada em mim, que não há muitas horas comentei com um amigo numa troca de e-mails. Aquela saca ao vento, minutos que não acabam, no American Beauty. Liberdade. Ter sonhos devia ser bonito. Ter sonhos devia ser o vento na saca. (Não devia?). Neste momento, sinto que os meus sonhos me prendem mais do que me Libertam. Porque é uma espécie de compromisso moral lutar por eles. Às vezes, até ao ponto de me esquecer deles. Será possível lutar em Liberdade? Será possível sonhar em Liberdade? Ou o vento na saca é só a falta de rumo? E liberdade é só a do gato do Fernando Pessoa, que “brinca na rua/ como se fosse na cama /invejo a sorte que é tua/ porque nem sorte se chama?”.
I had always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die.(…) I guess I could be pretty pissed off about what happened to me… but it’s hard to stay mad, when there’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once, and it’s too much, my heart fills up like a balloon that’s about to burst… and then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can’t feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life… you have no idea what I’m talking about, I’m sure. But don’t worry… you will someday.
Lester Burnham (interpretado por Kevin Spacey), in American Beauty
E de sonho em sonho, aterramos nele. Há quem goste, há quem deteste, há quem (re)aprenda a gostar de 4 em 4 anos… mas ninguém lhe fica indiferente. Senhores passageiros, apertem os cintos de segurança: estamos prestes a descolar rumo a Berlim. Durante o voo serão servidas várias refeições quentes de emoções fortes, acompanhadas de lágrimas de alegria ou de tristeza, conforme o vosso país de origem. O nosso serviço de apostas a bordo está disponível, por favor consultem o catálogo no vosso banco. Não são permitidas faltas de desportivismo durante toda a viagem, inclusive nos lavabos. A viagem demorará aproximadamente 25 dias e está prevista a chegada ao destino a 9 de Julho. O tempo exterior é agradável, prevêem-se períodos ocasionais de trovoada e muita chuva, que alternarão com tempo calmo e céu azul. No destino o sol vai brilhar, seja como for. Esperamos que gostem do voo e que voltem a usar os serviços da FIFA num futuro próximo. Obrigado.
Claro que é ele: o Mundial. Que mais faria bater o mesmo tambor em tantos peitos diferentes? Tantas cores diferentes, tantos olhares diferentes, tantas crenças diferentes, tantas almas diferentes, tudo a roer as unhas ao mesmo ritmo. Para os descrentes na bola, eu confesso-me vencida. Porque o único argumento que eu tenho é irracional e emocional. Mas verdadeiro. Só o desporto consegue unir numa simbiose tão perfeita as emoções de gentes tão diferentes que acreditam em coisas tão diversas e perseguem metas tão distintas. Do Argentina ao Irão, da Suécia a Portugal. Todas as vozes se calam ao mesmo tempo, todas as respirações se sustêm no mesmo segundo. Só o desporto. Todas as lágrimas correm ao mesmo tempo.
Este Mundial é especial para mim por dois motivos diferentes. Primeiro, porque nunca vivi uma competição internacional estando perto de tantas pessoas de nacionalidades distintas. No meu laboratório há gente de todas as cores, raças e feitios. Todos os dias sorrio para dezenas de potenciais adversários de Portugal. Vimos juntos o jogo de abertura (e tantas cores diferentes, tantos olhares diferentes…) e quase todos os países estavam lá. Junto a mim. Junto a Portugal. [Excepção cedida à Trindade e Tobago... acho que não temos nenhum espécime tobagenho... ó Nuno, por acaso não queres vir passar cá uma temporada? Só para completar o lote...].
O segundo motivo pelo qual este Mundial é especial para mim é, literalmente, merdoso. Tem que ver com o profundo desprezo que sinto pelo monte de bosta que se diz treinador que futebol e que está à frente da nossa selecção. [RODINHA NO CANTO DO MONITOR: é natural que se sigam variados insultos à pessoa em questão, eventualmente chocantes para os leitores mais sensíveis. Mas, e para salvaguardar a integridade e idoneidade deste site, não vou chamar àquele camelo nada que ele não tenha já – publicamente – chamado ao povo português. Dessa forma, se o anormal me chamar “anti-brazuca”, ele próprio ficará automaticamente qualificado como “anti-tuga”. Adiante.] Ando com este sapo a coachar na minha boca há muito tempo e até há poucos dias não sabia como e se iria engoli-lo. Como apoiar a minha selecção estando ela a ser comandada por semelhante caprino? Até que, há algum tempo, tive a resposta. O meu laboratório lançou um jogo de apostas no qual eu, conhecida como a maior fanática de futebol desde o 2º ao 6º andar, não podia deixar de participar. Quinta-feira lá me sentei frente ao computador, preparada para fazer as minhas apostas e… sou incapaz de apostar com a cabeça, isso já eu sabia. Não me surpreendi a mim mesma quando, ao invés de tentar efectivamente ganhar dinheiro, tentei apenas construir o futuro como eu o queria viver [o Andreas aproximou-se e perguntou: estás a fazer as tuas apostas? Não, respondi, estou a fazer a minha oração.]. Até aqui, nada de novo. Surpreendeu-me, isso sim, que o meu coração ainda gritasse verde-e-vermelho por todos os poros. Que não conseguisse deixar de sofrer pela minha selecção. Que sentisse um aperto na garganta quando, após a levar até à final, a pus racionalmente a perder o primeiro lugar para a equipa do tango. Ao fim de contas, é a minha selecção: não são os jogadores que eu escolhi, não vão jogar como eu os poria a jogar. Mas, e aparte algum carinho por um ou outro país, continua a ser a minha selecção. Os meus meninos. Com as minhas cores. As minhas cores. Lá terá que ser. Vou roer a bandeira até ao último milímetro de esperança. Vou vestir a camisola. [Se é que algum dia a tirei verdadeiramente.] E só a tiro no dia 9 de Julho, para a trocar por uma camisola do Larsson. [E agora, perguntam vocês, como vai ela resolver o intrincado dilema mental durante os jogos propriamente ditos? Bem, para isso, o meu mano deu-me a solução. Na verdade, é muito simples. De cada vez que gritar “GO, PORTUGAL, GO!!!”, grito a seguir “FUCK YOU, MISTER BOSTA!!!”. E vou dormir descansada todas as noites.]
À laia de finalização, tenho que deixar um abraço e uma dedicatória muito especial a um amigo que esta semana se doutorou! Meu caro Fred, tu és a esperança da minha vida. Porque se um tarado incorrigível como tu conseguiu, eu também lá devo chegar (mais esgotamento, menos esgotamento…). Deixo, aqui e especialmente para ti, este grande clássico que marcou toda a minha vida e que foi o grande sucesso na minha festa de despedida do pessoal aí do laboratório. Como não pudeste ir, vais chegar aos 30 sem saber o que é dançar isto em público. Mas pelo menos podes ensaiar uns passitos aí no UP3.
Top 3 das IncontinênciaS Da Semana:
3. José Manuel Ribeiro, in O Jogo, a propósito deste movimento que se tem gerado para proteger os Jogadores-Estrelas dos brutamontes dos restantes (os jogadores Comuns-Mortais, portanto). [Ao qual, diga-se, o nosso mister não podia deixar de juntar a sua voz de burro cinzento. Haja paciência.]
“É por isso que digo o contrário: depois desta demagogia da FIFA, quem precisa de cobertura são os defesas, porque já se está mesmo a ver o Mundial de estrelas cadentes que aí vem: um espirro, um central que tenha almoçado feijão e zás, craque ao comprido.”
Sempre pertinente, este homem. Diria mais, até: poético.
2. Gilberto Madaíl, a propósito da renovação com o Scolari:
“Se fosse o Abramovic, renovava já hoje!”
Chiça! E eu que tinha vergonha deste gajo ser português. Hoje estou muito feliz por ele não ser russo.
And the Oscar goes to…
1. Joseph Blatter, a propósito das vaias de que foi alvo durante a cerimónia de abertura do Mundial:
“Os assobios que visaram a FIFA vejo-os como uma certa forma de apreço”
Há quem veja o copo meio cheio. Há quem veja o copo meio vazio. E há quem veja 10 litros de cerveja onde existem 10 ml de urina. Força, homem, dá-lhes com o espírito positivo.
Nota final: duração do dia de hoje – 20h35min
amanhã o dia será 2min58s mais longo.
